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"INESPERADO, INTELIGENTE E DIVERTIDO"

News Standard

JOSÉ TENGARRINHA

(1932 – 2018)

Só as grandes personalidades são capazes de passar pelas “forças diabólicas” que povoam a experiência política sem queimarem a alma. A afirmação é de Viriato Soromenho Marques a propósito de Tengarrinha, cuja vida foi marcada pelo valor da liberdade e por duas paixões: a “generosa dádiva cívica em favor do debate” público e uma dedicação ao conhecimento.

(1932 – 2018)

Só as grandes personalidades são capazes de passar pelas “forças diabólicas” que povoam a experiência política sem queimarem a alma. A afirmação é de Viriato Soromenho Marques a propósito de Tengarrinha, cuja vida foi marcada pelo valor da liberdade e por duas paixões: a “generosa dádiva cívica em favor do debate” público e uma dedicação ao conhecimento.

José Manuel Marques do Carmo Tengarrinha nasceu em Portimão, em 1962, tendo começado desde muito cedo “a escrever o seu destino como cidadão”: aos 15 anos, já era militante do MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), cuja comissão central chegou a integrar.

Foi jornalista, investigador, professor, político e sempre, segundo Viriato Soromenho Marques, um insaciável curioso intelectual “pelos temas, pelas pessoas, pelo mundo”. Colocou a sua vida – acrescenta aquele investigador e professor catedrático de Filosofia – ao serviço da liberdade que corajosamente perdeu, por várias vezes, nos calabouços da polícia política (PIDE). Foi um dos presos políticos libertados da Prisão de Caxias na noite de 27 de Abril de 1974, na sequência da “Revolução dos Cravos”.

Vida Mundial, 3 de maio de 1974
Vida Mundial, 3 de maio de 1974

 

ENTRE A OPOSIÇÃO AO ESTADO NOVO E O JORNALISMO

José Manuel Tengarrinha iniciou a carreira de jornalista, em 1953, no República, tendo, cinco anos depois (1958), terminado a licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Integrou ainda as redações das revistas Vértice Seara Nova e do jornal Diário Ilustrado onde, entre 1959 e 1962, ocupou o cargo de chefe-de-redação e de onde foi compulsivamente afastado na sequência da sua prisão, na Cadeia de Aljube, pela PIDE. Já antes, aquando do cumprimento do serviço militar obrigatório, havia estado detido, cerca de um ano, na Companhia Disciplinar de Penamacor.

Impedido de exercer a profissão de jornalista e de lecionar, teve de recorrer, para sobreviver, às traduções.

Apesar das perseguições, da tortura e da prisão, nunca, no entanto, abandonou a luta política. Sempre nas fileiras da oposição democrática ao Estado Novo, participou em todos os combates eleitorais realizados entre 1958 e 1974, tendo sido candidato à Assembleia Nacional, pelo círculo de Lisboa, nas eleições realizadas por ocasião do denominado Marcelismo (1969 e 1973), através da CDE – Comissão Democrática Eleitoral (mais tarde MDP/CDE), movimento de que foi um dos fundadores e seu principal dirigente.

Foi “figura de destaque” na organização do Congresso Republicano de 1969 e no III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro, em Abril de 1973.

Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, com o objetivo de realizar estudos sobre o Portugal Oitocentista, foi distinguido, em 1962, com o Prémio da Associação dos Homens de Letras do Porto, pelo seu trabalho sobre Rodrigues Sampaio, (1806-1882), jornalista e político (liberal) que foi deputado, ministro e chefe do Governo.

Com Joel Serrão, José-Augusto França e Vitorino Nemésio e o patrocínio da Gulbenkian, fundou, em 1969, o Centro de Estudos do Século XIX do Grémio Literário, que dirigiu e manteve ativo até 1974, através, designadamente, da realização de inúmeras atividades de investigação e ações de promoção cultural, como colóquios, cursos, debates e conferências.

Uma das “maiores alegrias” da sua vida terá, no entanto, acontecido poucos dias depois de 25 de Abril, quando, como recorda Soromenho Marques, em plenário de estudantes, foi decidido “acolher” o seu nome como docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Aí se doutorou, em 1993, com uma tese sobre “os movimentos populares agrários em Portugal”, entre os anos de 1750 e 1825, regeu “cadeiras centrais” para a compreensão da História contemporânea portuguesa, designadamente no domínio socioeconómico, e foi professor catedrático.

Com o MDP/CDE constituído em partido político, foi eleito deputado à Constituinte (1975-76) e, entre 1977 e 1987, à Assembleia da República, através da coligação FEPU (Frente Eleitoral Povo Unido), que, criada pele PCP, MDP/CDE e Frente Socialista Popular, deu origem, em Abril de 1978, à APU (Aliança Povo Unido), posteriormente (1987) dissolvida, por divergências registadas entre os partidos fundadores (PCP, MDP e “Os Verdes”).

DA POLÍTICA ATIVA PARA A VIDA ACADÉMICA

Em 1987, abandonou a vida política ativa (que não, no entanto, a cívica), passando a dedicar-se de modo especial à sua vocação académica, com uma obra, grandemente alargada, a ganhar merecida repercussão, designadamente a nível de Ciências Sociais e História. A ponto de, segundo José Esteves, ser absolutamente “fundamental” e “urgente” proceder a um estudo aprofundado dos seus trabalhos, designadamente na área da historiografia, onde, de acordo com a opinião daquele historiador, se está realmente perante uma investigação “metódica” e “pioneira” sobre os movimentos operários do século XIX.

Em causa, concretamente, um olhar sobre as lutas sociais, os conflitos rurais e urbanos, em estudos que resultam numa simbiose entre a investigação do historiador e a sua consciência cívica. Como o próprio afirmou, em entrevista concedida a Fernando Assis Pacheco, para a RTP, o seu interesse pelo século XIX foi uma consequência da sua preocupação pelo Presente, do desejo de tentar entender problemas da sociedade portuguesa através da análise de um Passado próximo.

De citar, entre os inúmeros trabalhos publicados, Estudos de História Contemporânea de PortugalMovimentos populares agrários em Portugal – 1725-1825 (tese de doutoramento); História do Governo Civil de LisboaE o povo onde está? Política popular, contra-revolução e reforma em Portugal e José Estêvão: o homem e a obra. No Brasil, publicou A historiografia portuguesa, hojeHistoriografia luso-portuguesa contemporânea História de Portugal. Inúmeras separatas por si assinadas foram editadas por universidades italianas, francesas, holandesas e espanholas, além das portuguesas.

A estes títulos, haverá que acrescentar vários outros anteriormente publicados, como, por exemplo, A novela e o leitor portuguêsEstudo de sociologia da leitura; A Revolução de 1820. Manuel Fernandes TomásDiário da Guerra Civil.Sá da Bandeira ou Combates pela Democracia.

Em relação ao Jornalismo, onde, como sublinha a professora Bárbara Tengarrinha (sua companheira nos últimos 35 anos de vida), ele foi realmente “pioneiro”, merece referência destacada a Nova História da imprensa portuguesa – das origens a 1865 (1003 páginas) que, publicada em 2013, refere e analisa “todos os periódicos e séries publicados em Portugal e em língua portuguesa no estrangeiro”, desde os tempos dos “papéis informativos” (os primórdios da Gazeta de 1641) até ao início da “época industrial”, com o nascimento do Diário de Notícias, em 1865.

Já muito antes, no entanto, ou seja, em 1985 (com reedição revista e aumentada em 1989), Tengarrinha havia publicado a História da imprensa periódica portuguesa, a que se seguiu, em 1993, Da liberdade mitificada à liberdade subvertida e, em 2006, Imprensa e opinião pública em Portugal, onde reuniu “trabalhos inéditos e outros publicados em revistas e atas de congressos em Portugal e no estrangeiro”.

Com a vantagem de, na opinião de Carla Baptista, professora que foi jornalista, além de saber contar uma história (“tinha o lastro dos velhos jornalistas”), ter deixado, através da sua “experiência de vida”, uma “marca indelével sobre o modo como estudou o Jornalismo”.

Além de ter sido professor visitante na Universidade de São Paulo (Brasil); de ter dirigido e/ou lecionado em cursos de doutoramento e mestrado em Portugal e em inúmeras universidade estrangeiras, como Florença, Bolonha, Paris VII, Autónoma de Barcelona, Carlos III de Madrid, Nantes, Sevilha, Bilbau ou a Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais de Paris, entre outras, José Tengarrinha integrou ainda conselhos de redação e editoriais de revistas editadas em Portugal, Espanha e Brasil. Dirigiu os Cursos Internacionais de Verão, anualmente realizados em Cascais; foi um dos fundadores do Centro Internacional para a Conservação do Património (CICOP – Portugal), com sede mundial em Tenerife (Espanha), de que foi coordenador para a Europa e presidiu ao Instituto de Cultura e Estudos Sociais.

Em 2021, o Centro de História da Universidade de Lisboa promoveu a edição de um livro póstumo, onde, sob o título de Lutas laborais e formação da classe operária portuguesa” (disponível online), o Autor – escreve, no prefácio, o sociólogo e investigador Manuel Carvalho da Silva – nos “apresenta o extraordinário percurso das lutas laborais, da sua organização, das formas como foi feito e do resultado obtido até à aproximação do século XX”. Trata-se, sintetiza Bárbara Tengarrinha, do “último grande contributo de José Tengarrinha para a historiografia portuguesa”.

MÁRIO MESQUITA

(1950 – 2022)

“Fazendo as contas, fui mais anos professor do que fui jornalista. Mas as pessoas quando se referem a mim dizem ‘o jornalista Mário Mesquita’. Presumo que no meu necrológio também sairá ‘o jornalista Mário Mesquita'”

(1950 – 2022)

“Fazendo as contas, fui mais anos professor do que fui jornalista.
Mas as pessoas quando se referem a mim dizem ‘o jornalista Mário Mesquita’. Presumo que no meu necrológio também sairá ‘o jornalista Mário Mesquita'”(1)

Mário Mesquita
Mário Mesquita. ©Agência Lusa

 

Mário António da Mota Mesquita nasceu no dia 3 de janeiro de 1950 em Ponta Delgada, Açores, onde, em 1967, concluiu o Curso Complementar dos Liceus. Licenciou-se em Comunicação Social na Universidade Católica de Lovaina, Bruxelas, em 1989. Foi jornalista, político, investigador e professor.

RESISTENTE, JORNALISTA E POLÍTICO

A carreira jornalística de Mário Mesquita iniciou-se em 1971, no jornal República, onde permaneceu até 1975, ano em que viveu um dos momentos mais importantes da história da comunicação social portuguesa pós-25 de Abril, o chamado “Caso República”. Anos mais tarde e, enquanto investigador, dedicará vários trabalhos ao tema, procurando provar que, como o recorda a socióloga e docente universitária Isabel Babo, se tratou realmente de um acontecimento que foi simultaneamente uma questão jornalística e um “objeto analítico”.

Mário Mesquita nos anos 70 ©Partido Socialista
Mário Mesquita nos anos 70 ©Partido Socialista

Inserido no contexto do denominado “Verão Quente de 75”, dominado por um conjunto de ações visando o controlo dos órgãos de comunicação social por parte de forças políticas, merece, de facto, especial referência a ocupação, por membros da comissão de trabalhadores, do jornal República (19 de maio de 1975), um diário vespertino que, com marcada tendência socialista, era referenciado pela sua luta de décadas, de oposição ao Estado Novo. Foi um dos jornais que, na sequência do 25 de Abril, ficou fora da influência do Partido Comunista.

Assumindo publicamente uma contestação à orientação política seguida pela direcção, em maio de 1975, trabalhadores (tipógrafos, administrativos, gráficos e alguns jornalistas), ocuparam a redação, exigindo a sua participação activa na tomada de decisão da linha editorial do jornal. Reagindo de imediato, o Partido Socialista, liderado por Mário Soares, acusa o PCP de querer controlar a comunicação social.

Com esta questão, que provocou enorme divisão na opinião pública, a comunicação social portuguesa viveu uma das maiores crises da sua história, com repercussões internacionais, sobretudo em relação à questão da liberdade de imprensa e relação do jornalismo com o poder político. De acordo com Mário Mesquita, este caso e o da Rádio Renascença constituíram, de facto, os incidentes com mais graves consequências no curso dos acontecimentos políticos do ano de 1975 (2).

 

Mário Mesquita saiu do República e entrou no Diário de Notícias, em 1976, ocupando os cargos de diretor-adjunto até 1978 e de diretor até 1986. Trata-se, de acordo com a opinião do antigo profissional da comunicação social e professor universitário José Rebelo, de uma “fase muito importante da sua carreira como jornalista”. Assina, então, «editoriais corrosivos, que são aguardados avidamente e com receio por todo o tipo de personalidades políticas, da direita à esquerda”. 

Opositor do Estado Novo, sempre considerou que a Comunicação Social devia estar ao serviço da Democracia e da “cidadania democrática”, traduzida, segundo Maria Emília Brederode dos Santos, num jornalismo “competente, honesto e exigente, ou seja, informado, livre e responsável”.

De acordo com a opinião do jornalista e seu antigo aluno António José Teixeira, Mário Mesquita deve ser recordado como um verdadeiro defensor da independência do jornalismo, um valor que sempre praticou, mesmo quando exerceu cargos políticos, e que procurou sempre transmitir às novas gerações, designadamente enquanto professor.

Após vários anos no Diário de Notícias e depois de uma passagem pela direção do Diário de Lisboa (1989-1990), Mário Mesquita continuou ligado ao jornalismo, enquanto colunista de diferentes jornais, como o Público (1991-1992 e 1998-2007), o Diário de Notícias (1992-1996) e o Jornal de Notícias (2010-2011).

Deixou também uma forte marca enquanto ator político, uma atividade iniciada na juventude, como opositor ao salazarismo e desenvolvida, ao longo da vida, sob diferentes formas. Apoiou a CDE de Ponta Delgada, nas eleições de 1969 e 1973, foi militante e dirigente da Ação Socialista Portuguesa, entre 1969 e 1973, ano em que integrou o grupo que, em Bad Munstereifel, na República Federal Alemã, fundou o Partido Socialista. Após a Revolução de 1974, foi deputado à Assembleia Constituinte (1975-1976) e, posteriormente, à Assembleia da República (1976-1978). 

essão solene de encerramento da Assembleia Constituinte, 1975. ©Partido Socialista
Sessão solene de encerramento da Assembleia Constituinte, 1975. ©Partido Socialista

Em 1978, renunciou ao cargo de deputado, abandonando, a partir de então, a sua atividade partidária em prol dos papéis de jornalista e investigador.

Foi, entretanto, membro das comissões políticas das campanhas presidenciais de Salgado Zenha (1985) e de Mário Soares (2005-06), e das comissões de honra das campanhas de Ramalho Eanes (1980) e de Jorge Sampaio (1996). Integrou, ainda e ao longo de seis anos (2007-2013), o Conselho Executivo da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento, tendo a seu cargo o programa Açores e as áreas de Humanidades e Artes.

O PROFESSOR QUE ERA CHAMADO DE ‘JORNALISTA’

Foi um dos fundadores da licenciatura em Jornalismo da Universidade de Coimbra, na qualidade de professor associado convidado e de secretário coordenador do Instituto de Estudos Jornalísticos da Faculdade de Letras (1995-1998). Foi igualmente professor auxiliar convidado da Universidade Nova de Lisboa, Departamento de Comunicação Social (1986-1995; 1998-2001), membro do Conselho Geral da Universidade Aberta e da Universidade dos Açores; membro da Comissão de Redação da Revista de Comunicação e Linguagens (Universidade Nova de Lisboa) e do Comité Científico da revista Recherches en Communication (Universidade Católica de Lovaina).

Enquanto professor universitário, orientou inúmeros trabalhos académicos e participou como membro de júri em provas de mestrado e doutoramento em diferentes universidades (Universidade Nova de Lisboa, ISCTE-IUL, Universidade da Beira Interior, Universidade dos Açores, e Universidade de Coimbra). 

Coordenou as “Conferências do Convento” (1996, 1997, 1998) no âmbito dos «cursos de verão» sobre Comunicação Social dos Estudos Gerais da Arrábida. 

Profundamente interessado pelas questões relativas à Comunicação Social, foi ainda, recorda António José Teixeira, um professor que, para além de um sem número de trabalhos publicados (alguns deles editados em livro), editou e dirigiu coleções de ensaios e de estudos sobre o jornalismo. Está-se, no caso e como, a propósito, acrescenta aquele jornalista, perante uma obra “com muitos títulos e com muitas abordagens, uma obra própria com reflexões e ensaios» que são uma “uma referência para quem estuda o jornalismo” e não apenas em Portugal. Ou seja, defende o seu conterrâneo e escritor Onésimo de Almeida, Mário Mesquita transformou-se “num grande teórico da comunicação social em Portugal, respeitado pelos seus colegas”.

Capas de obras de Mário Mesquita
Capas de obras de Mário Mesquita

A 25 de novembro de 2021, a Universidade Lusófona do Porto outorgou-lhe o título de “doutor honoris causa», procurando assim sublinhar o enorme contributo de Mário Mesquita para o estudo da Comunicação Social em geral e do Jornalismo, em particular.

O RECONHECIMENTO DE UMA CARREIRA

Mário Mesquita ganhou vários prémios de jornalismo, designadamente o “Reportagem”, do Clube Português de Imprensa (1986), o “Artur Portela”, da Casa de Imprensa (1987), o “Gazeta de Mérito”, do Clube dos Jornalistas (1998) e o “Manuel Pinto de Azevedo Jr., na modalidade de investigação”, de O Primeiro de Janeiro (1999). 

Em 1981, o Presidente da República Ramalho Eanes distinguiu-o com a “Comenda da Ordem do Infante D. Henrique”, tendo sido, anos depois (2016), declarado “Deputado Honorário”, pela Assembleia da República. Foi igualmente distinguido com a “Medalha de Reconhecimento”, pela Assembleia Legislativa Regional da Região Autónoma dos Açores (2011) e com o “Diploma de Reconhecimento Municipal” pela relevância do seu percurso como jornalista, escritor e político pela Câmara Municipal de Ponta Delgada (2015).

A França e a Bélgica distinguiram o seu trabalho e ação com a Ordre nationale du Mérite (1979) e a Ordre Léopold II(1982), respetivamente. 

Tomada de posse como membro da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social. ©ERC
Tomada de posse como membro da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social. ©ERC

Em 2017, assumiu o cargo de vice-Presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Estava em funções quando morreu, no dia 27 de maio de 2022.

No dia 31 de Maio de 2022, foi agraciado, a título póstumo, pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, com a Ordem da Liberdade (grau de grande oficial).

 

 

Referências:

(1) https://www.publico.pt/2022/05/27/sociedade/noticia/morreu-mario-mesquita-vicepresidente-conselho-regulador-erc-2007945

(2) BABO, I. (2022) – Mário Mesquita e o caso República. Em linha: https://www.e-cultura.pt/ieei/artigos/mario-mesquita-e-o-caso-republica/

 

25 DE ABRIL EM MANCHETE

O NewsMuseum associou-se à Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, para uma mesa-redonda sobre a Revolução dos Cravos e o Jornalismo.

Como era o jornalismo que cobriu uma Revolução histórica e que impacto teve o 25 de Abril na profissão? Como veem as novas gerações a Revolução dos Cravos e que pontes podemos erguer para conectar experiências?

A estas e outras questões tentaram dar resposta o Coronel Vasco Lourenço, o jornalista Adelino Gomes e a estudante Inês Paixão, numa sessão moderada por Maria Inácia Rezola, comissária executiva da Estrutura de Missão das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

Três gerações estiveram presentes nesta sessão que contou ainda com a intervenção de Luís Paixão Martins, Presidente da Associação Acta Diurna, e do Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Dr. Basílio Horta, assim como com os alunos de 12º ano da Escola Secundária de Santa Maria, sede de Agrupamento de Escolas Monte da Lua.

 

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Expresso, 50 anos de liberdade

Com João Vieira Pereira e Rodrigo Moita de Deus

2023 marca os 50 anos de vida do Expresso, cuja edição inaugural foi publicada no início de 1973, ainda durante o Estado Novo. 50 anos a marcar o jornalismo em Portugal, num exercício de liberdade.

O diretor do Expresso, João Vieira Pereira, e o diretor do NewsMuseum, Rodrigo Moita de Deus falam, numa conversa com os alunos da Escola Superior de Comunicação Social, sobre o futuro do jornalismo, o que mudou nestas cinco décadas de história e o que são já as mudanças assumidas num tempo onde as tecnologias digitais são protagonistas.

João Vieira Pereira foi jornalista no Jornal de Negócios e no Semanário Económico, do qual foi diretor. Integrou o Expresso em 2006 e é, desde 2019, o seu diretor.

Rodrigo Moita de Deus trabalhou no jornalismo e na publicidade e é presença regular na televisão e em conferências nacionais e internacionais sobre comunicação. É diretor do NewsMuseum.

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O artificial traz inteligência ao jornalismo?

Com Lourenço Medeiros e Flávio Nunes

Dentro de quanto tempo passaremos a contar a História como “antes de I.A.” e “depois de I.A.”? Como vai mudar a nossa forma de viver, trabalhar, pensar, sentir, votar, organizar em sociedade? De que forma vai a inteligência artificial mudar a arte de fazer perguntas?

Os jornalistas Lourenço Medeiros e Flávio Nunes falam sobre a inteligência artificial e o seu papel enquanto possível ferramenta no jornalismo. Em diferentes áreas e setores, ferramentas como o ChatGPT estão a ser usadas para os mais variados fins. Muitos começam a olhar para o ChatGPT como uma ferramenta informativa, mas… há limitações.

Lourenço Medeiros é jornalista e Editor de Novas Tecnologias na SIC, onde se dedica, sobretudo, ao programa Futuro Hoje (desde 2007).

Flávio Nunes é jornalista e Editor no ECO. Tem vários artigos publicados sobre tecnologia, telecomunicações, mercados e media.

 

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35 anos do jornalismo sem fios

Com Domingos de Andrade e Fernando Alves

“A TSF Rádio Jornal não nasce contra ninguém e não está ao serviço de ninguém. Aqueles que vão protagonizar aqui, todos os dias, vão fazer apenas e tão só jornalismo, animados de um grande sentido profissional e de uma inesgotável paixão pela rádio.” Esta foi a mensagem de Emídio Rangel, na primeira emissão da TSF. 35 anos depois, muito mudou com a chegada da Internet, com o fecho de redações, com o modelo de negócio da comunicação social. Neste Episódio, o diretor da TSF, Domingos de Andrade, e a sua voz mais lendária, Fernando Alves, falam sobre a rádio ontem e nos tempos da era do wireless e do jornalismo sem fios.

Domingos de Andrade é diretor da TSF e administrador no grupo Global Media. Passou, nos seus 30 anos de profissão, por diversos órgãos de Comunicação Social. Foi diretor do Jornal de Notícias, desempenhou os cargos de diretor-adjunto de Informação na Agência Lusa e foi diretor de Informação e Programas do Porto Canal.

Fernando Alves foi pioneiro e fundador da TSF e autor de alguns dos mais emblemáticos programas da rádio em Portugal nas últimas três décadas e meia. Editou, durante vários anos, o horário nobre da rádio e foi autor de programas como “O postigo da noite” ou “Sinais”, que inspiraram várias gerações de jornalistas.

 

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Como perder uma eleição

Com Luís Paixão Martins e Carlos Vaz Marques

José Sócrates, Cavaco Silva e António Costa alcançaram vitórias eleitorais históricas. Ao seu lado, tiveram o consultor das maiorias absolutas, Luís Paixão Martins que, numa viagem aos bastidores da política portuguesa, pôs no papel as oito receitas para o desastre. Como perder uma eleição (Livros Zigurate) é o ponto de partida para esta conversa entre Luís Paixão Martins e o editor Carlos Vaz Marques sobre qual o papel do consultor de comunicação e as lições de comunicação eleitoral que se retiram da experiência de como se ganham eleições.

Luís Paixão Martins é o autor do livro Como perder uma eleição (Livros Zigurate), lançado em janeiro de 2023. Publicou ainda: Tinha tudo para correr mal (2015) e Schiu…. Está aqui um jornalista (2001). Consultor de comunicação e presidente da Acta Diurna, associação promotora do NewsMuseum. Fundador da LPM Comunicação.

Carlos Vaz Marques é jornalista, tradutor e editor. É o responsável pela coleção de literatura de viagens da editora Tinta-da-China e dirigiu a revista literária Granta. É coautor e coordenador do Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer, com Pedro Mexia, João Miguel Tavares e Ricardo Araújo Pereira. Em 2022, fundou a editora Livros Zigurate, vocacionada para a publicação de obras de não-ficção centradas nos grandes temas atuais e na História recente.

 

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‘Eu, o Meio e a Mensagem’

Com Camilo Lourenço e Paulo Baldaia

Enquanto os media tradicionais lutam pela sobrevivência, blogues pessoais, podcasts e canais de Youtube parecem destinados a dominar o panorama da comunicação. Como, quando e onde se deixaram os grandes grupos de comunicação ultrapassar pela comunicação de autor? Ainda estamos dispostos a pagar pela informação aquilo que ela custa? Que modelo de negócio para o futuro dos media? Camilo Loureço e Paulo Baldaia tentam responder, neste Episódio, a estas e outras perguntas.

Camilo Lourenço, analista e fazedor de opinião, apresentou programas de rádio e de televisão, tais como A Cor do Dinheiro. Foi comentador da Antena 1 e escreve, atualmente, no Jornal de Negócios. Tem várias obras sobre economia e futebol e gere, no Facebook, a sua plataforma audiovisual, com mais de 300 mil utilizadores.

Paulo Baldaia, jornalista desde 1988, é comentador de política na SIC Notícias, TSF e DN e autor de um podcast no Expresso. Exerceu a profissão nas áreas de política e economia, em várias rádios e jornais. Foi diretor da TSF de 2008 a 2016 e do DN de 2016 a 2018.

 

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Armando Baptista-Bastos

Precursor de um estilo jornalístico inovador, controverso e polémico, Baptista-Bastos foi um dos maiores jornalistas e escritores da sua época.

PodCast – com Fernando Dacosta e Adelino Gomes

Onde é que você estava no 25 de abril?

Era esta a pergunta que colocava aos seus convidados no programa Conversas Secretas, na SIC (1996-1998) e, sobretudo, numa série de 16 entrevistas realizadas para o jornal Público, em 1999. Esta pergunta, associada à sua voz inconfundível, deixou marcas na sociedade portuguesa e ainda hoje é assim lembrado.

Armando Baptista-Bastos é, acima de tudo, um grande comunicador, dotado de grande capacidade de utilização da palavra e com forte sentido de intervenção social. A sua vida foi dedicada ao jornalismo e à escrita. Dedicou 23 anos da sua carreira ao Diário Popular, mas teve oportunidade de trabalhar e escrever para inúmeros órgãos de comunicação. A crónica foi a sua arma, escrita num estilo próprio, inovador e também polémico.

A formação de um jornalista

Nasceu em 1934, a 27 de fevereiro, no Bairro da Ajuda em Lisboa, filho do tipógrafo-chefe do jornal O Século, que lhe incutiu o gosto pela escrita e pelo jornalismo.

A escrita entra cedo na sua vida. Aos 14 anos, escreve para a secção infantil de O Diário Popular, enunciando já a sua preocupação com a crítica social. Aos 19 anos, entra para a grande referência do jornalismo nacional, O Século, sob a égide de Acúrcio Pereira. Será pelas mãos deste chefe de redação que Baptista-Bastos tem a possibilidade de trabalhar em todas as secções deste jornal, adquirindo vasta experiência.

Foi subchefe de redação de O Século Ilustrado. É aqui que inicia um estilo inovador e algo polémico, com a sua coluna de crítica e de comentário de cinema.
Armando Baptista-Bastos

A “Revolta da Sé”

Em 1959, fez parte da conspiração contra o Regime de Salazar, que decorreu na Sé Patriarcal de Lisboa. A participação nesse frustrado golpe da “Revolta da Sé” colocou-o sob o olhar atento da PIDE e valeu-lhe não só o despedimento do jornal “O Século”, mas também a clandestinidade.

Foi nesse período da sua vida que conheceu Fernando Lopes, passando a colaborar com o cineasta em diversos projetos, incluindo a realização dos diálogos para o filme sobre o antigo campeão de boxe – Belarmino, um dos clássicos do Cinema Novo português.

É na semiclandestinidade que escreve O secreto Adeus, o seu primeiro livro de ficção, que é na realidade uma crítica ao jornalismo português da época. É ainda nestas circunstâncias que recorre à utilização de pseudónimos para trabalhar para a RTP, escrevendo textos para noticiários e documentários de Fernando Lopes e do também cineasta Baptista Rosa. Passados poucos meses, e mesmo sob o nome de Manuel Trindade, o secretário nacional de informação despede Baptista-Bastos por o considerar um “adversário do Regime”.

Após o despedimento da RTP, colaborou com a Agence France Press e com o jornal República, mas rapidamente foi convidado pelo ator Raúl Solnado para trabalhar como seu secretário na TV Rio, no Brasil. Quando chega ao Brasil está a decorrer o golpe de Estado que conduz à deposição do então Presidente Goulart e que leva ao início da ditadura militar brasileira. Baptista-Bastos faz a cobertura dos acontecimentos e envia a informação para o jornal da República. A Censura impede a publicação das notícias.

 Armando Baptista-Bastos

O jornalista de “estilo inconfundível”

Quando volta para Lisboa é convidado para integrar a redação do jornal O Diário Popular, no qual, nos 23 anos seguintes, tem oportunidade de desempenhar importantes funções.

Vai assinar reportagens, entrevistas e crónicas, sobre variadíssimos temas, destacando a realidade portuguesa da época, mas também a de muitos outros países, sempre com o seu “estilo inconfundível”, nas palavras de Adelino Gomes, seu amigo.

Esta sua vasta experiência enquanto jornalista traduziu-se, também, na sua obra As Palavras dos Outros, publicação que se torna numa referência na profissão e recomendada no I Curso de Jornalismo organizado pelo Sindicato dos Jornalistas. Baptista-Bastos era, a um tempo, crítico social e crítico da própria profissão: “Eu não troco os valores essenciais do jornalismo pelos falsos valores que hoje impõem aos jovens jornalistas”.

Fernando Dacosta considera-o “uma referência obrigatória na profissão”.

Armando Baptista-Bastos

A sua marca nos meios de comunicação

No pós-25 de abril de 1974, Baptista-Bastos inicia uma nova fase na sua carreira que coincide com a sua saída de O Diário Popular. Numa fase inicial mais precária, trabalha para o Jornal Europeu e, de seguida, para O Diário. Faz ainda traduções e escreve para empresários e políticos.

Ao longo dos anos seguintes trabalha para vários jornais e desenvolve paralelamente a sua carreira como escritor. Contribuiu para o Almanaque, a Seara Nova, a Gazeta Musical e de Todas as Artes, a Época, o Sábado, o Jornal de Notícias, A Bola, o Tempo Livre, o Jornal de Letras, Artes e Ideias, o Expresso, o Jornal do Fundão e o Correio do Minho. Estabeleceu-se sobretudo como cronista e como crítico.

Um marco na sua carreira foi a fundação do semanário O Ponto nos anos 80, e estava entre os seus fundadores. Neste jornal, publicou um conjunto importante de 82 entrevistas, inovadoras e marcantes, que foram compiladas na obra “O Homem em Ponto” (1984).

Foi também presença assídua na rádio e na televisão. Lia as suas crónicas na rádio, na Antena 1 e na Rádio Comercial. Foi também o primeiro comentador das “Crónicas de Escárnio e Maldizer” da TSF.

É com o convite de Emídio Rangel que apresenta o programa “Conversas Secretas” na SIC entre 1996 e 1998. Em 2001 passa para a SIC Notícias, onde apresenta um programa de entrevistas “Cara-a-Cara”. Da sua colaboração enquanto cronista do Público, surge o convite para organizar uma série de entrevistas, com a pergunta de Baptista-Bastos que o trouxe para a esfera mediática: “Onde é que você estava no 25 de abril?”, publicadas posteriormente em CD-ROM.

Foi também pelas mãos de Herman José, que a frase icónica de Baptista-Bastos ficou imortalizada. As suas entrevistas em “Conversas Secretas” foram parodiadas pelo humorista, imitando-lhe a voz gutural, a que Baptista-Bastos reagiu com bom sentido de humor.

A 9 de maio de 2017, Baptista-Bastos morre com 83 anos, deixando um reconhecido legado como escritor e jornalista.

Enquanto escritor deixou-nos crónicas, reportagens, ensaios cinematográficos, entrevistas e romances. As suas obras literárias valeram-lhe vários prémios, distinções e homenagens, desde o Prémio Feira do Livro (1966) ao Prémio Alberto Pimentel do Clube Literário do Porto (2006).

O seu trabalho como jornalista também mereceu distinções, entre as quais se contam o Prémio O Melhor Jornalista do Ano (1980 e 1983) ou o Prémio Nacional de Reportagem/Prémio Gazeta (1985).

O destaque no Panteão dos Imortais é a homenagem que o NewsMuseum presta a Baptista-Bastos: o jornalista, o escritor, o homem.

Eleições e Guerra ampliam audiências dos canais de informação. Será para durar?

A guerra cola-nos aos ecrãs. A movimentação das tropas, o drama humano, a empatia e, ao mesmo tempo, a certeza das implicações nas nossas vidas, mantêm-nos presos às imagens, aos diretos, às análises. Será apenas um instinto voyeur, que logo se cansa e passa ao trending topic seguinte? Ou temos em Portugal uma verdadeira tradição no acompanhamento dos grandes acontecimentos internacionais, mesmo quando acontecem a milhares de quilómetros de distância? Eleições e guerra ampliam as audiências dos canais de informação. Será para durar?

Para debater este assunto, o NewsMuseum desafiou os jornalistas Nuno Santos e Ricardo Costa.

Nuno Santos começou a sua carreira como jornalista e já ocupou o cargo de diretor na RTP e na SIC, canal que, há 20 anos, fundou e foi o primeiro diretor da SIC Notícias. Em julho de 2020, Nuno Santos passou do cargo da direção de programas da TVI, para assumir o de diretor-geral o mesmo canal, assim como da CNN Portugal.

Ricardo Costa começou a trabalhar, aos 21 anos, no jornal Expresso do qual viria a ser diretor entre 2011 e 2016. Integrou ainda a direção de informação da SIC e da SIC Notícias. Em fevereiro de 2016, foi nomeado diretor-geral de informação do grupo Impresa. Continua a apresentar, à sexta-feira, o Expresso da Meia-Noite, na SIC Notícias.

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‘O Ensino do Jornalismo’

Os jornalistas são fundamentais a qualquer sociedade livre. Mas são também um raro caso de profissão que não exige formação específica para ser exercida. Como deve então ser ensinado o jornalismo? O que procuram hoje os jovens num curso de jornalismo? O que perdemos, o que ganhámos e como temos feito a transição para o digital?

O jornalista e professor Alexandre Manuel e a professora e investigadora Maria Inácia Rezola respondem a estas e outras questões neste Episódio dedicado ao “Ensino do Jornalismo”.

Maria Inácia Rezola é professora na Escola Superior de Comunicação Social, investigadora do Instituto de História Contemporânea e comissária executiva das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

Alexandre Manuel é professor na Universidade Autónoma de Lisboa, investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia e jornalista, tendo trabalhado em títulos históricos como Flama, Vida Mundial, Século Ilustrado, Jornal do Fundão e Diário de Notícias.

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2022

49 ANOS DEPOIS, A LIBERDADE VOLTOU A SER ATACADA​

O Expresso teve um início de ano inédito. Os servidores informáticos do Grupo Impresa foram atacados por hackers e de repente não tínhamos site nem forma de fazer o jornal.

“Piratas informáticos invadiram os servidores do Expresso e da SIC movidos pelo ego e para mostrar aos pares que conseguem fazer estragos num importante grupo de media. Não houve pedido de resgate em troca de dados roubados. Este é considerado um dos maiores ataques ao jornalismo desde o 25 de Abril.” Tudo se resolveu com um site provisório, que nos manteve em permanente ligação com os nossos leitores, e recorrendo a métodos antigos de produção (parecia que estávamos a fazer um jornal nos anos 90) o Expresso chegou às bancas como se nada tivesse acontecido.

No dia 25 fevereiro voltámos a alterar o nosso cabeçalho, desta vez com as cores da Ucrânia no logótipo. “Guerra na Europa. Rússia invade Ucrânia e conflito armado regressa ao continente. Reportagens em Moscovo e no Donbas. Economia: efeitos da guerra chegam a Portugal.”

Devido à guerra e ao aumento da inflação, o Governo anunciou um pacote de medidas de apoio às famílias com um valor global de 2,4 mil milhões de euros. A mais popular dessas medidas foi o subsídio de 125 euros por adulto (com rendimento até 2700 euros brutos por mês) e de 50 euros por dependente.

Nas legislativas, antecipadas por causa do chumbo do Orçamento, o PS venceu com maioria absoluta (41,37%). O PSD ficou em segundo lugar, com 29,1%, e Rui Rio anunciou que deixava a liderança do partido (pouco depois iam a diretas e venceria Luís Montenegro). O Chega ficou em 3º lugar, elegendo 12 deputados, e a Iniciativa Liberal ficou em 4º lugar, com 8 deputados. A CDU ficou reduzida a 6 deputados (Os Verdes saíram do Parlamento e nesse ano o PCP elegia novo secretário-geral, Paulo Raimundo) e o Bloco de Esquerda a 5. O CDS–PP teve o pior resultado da sua história (1,61%) e perdeu todos os deputados. O seu presidente, Francisco Rodrigues dos Santos, demitiu-se, sucedendo-lhe Nuno Melo. O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, levou em mãos ao Brasil o coração de D. Pedro, a maior relíquia da Irmandade da Lapa, que foi uma das principais atrações das comemorações dos 200 anos da independência do Brasil. Marcelo Rebelo de Sousa foi em visita oficial, mas teve de se sujeitar a vários embaraços provocados por Jair Bolsonaro, que estava em plena campanha eleitoral (acabaria por perder a presidência para Lula da Silva).

Por falar em joias da coroa, inaugurou-se mais um museu, o Museu do Tesouro Real, na nova ala do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, construída 226 anos depois dos planos originais.

E continuando a falar em coroa, no Reino Unido faleceu a rainha Isabel II, sucedendo-lhe o seu filho Carlos III. Dois dias antes de morrer, a rainha tinha convidado Liz Truss a formar Governo, mas a líder do Partido Conservador apenas se aguentou 45 dias no cargo, dando lugar a Rishi Sunak.

Faleceram Jorge Silva Melo, Fernando Gomes, Paula Rego, Adriano Moreira, Eunice Muñoz, Lourdes Castro, Artur Albarran, Gastão Cruz, Vangelis, Peter Brook, Maria de Lourdes Modesto, Jô Soares, Mikhail Gorbatchov, Fernando Chalana, Jean-Luc Godard, Jerry Lee Lewis, Gal Costa…

O banqueiro João Rendeiro foi apanhado pela polícia na África do Sul, tendo sido iniciado o processo para a sua extradição, mas a 13 de maio foi encontrado morto, enforcado na sua cela.

O Irão foi alvo de inúmeras manifestações contra o regime, internas e externas, lideradas por mulheres e provocadas pela morte de uma jovem, Mahsa Amini, na sequência de ferimentos infligidos pela polícia da moralidade. Tinha sido detida por não ter colocado corretamente o véu islâmico (hijab).

Por atropelos do regime aos direitos humanos, o Mundial de Futebol do Catar foi um dos mais polémicos de sempre. Realizou-se de novembro a dezembro, por causa do clima, e interrompeu os campeonatos nacionais. Portugal foi eliminado por Marrocos nos quartos de final.

A população da Terra atingiu 8 mil milhões de pessoas.

 

 

2022