Em novembro de 1960, a política entra pelas casas dos norte-americanos adentro. Richard Nixon e John F. Kennedy protagonizam o primeiro debate presidencial transmitido na televisão, um confronto que assinala uma mudança na forma de pensar e fazer Comunicação política
A 8 de novembro de 1960, John F. Kennedy torna-se o 35.º Presidente dos EUA. Mas, para muitos, o candidato democrata tinha vencido as eleições mais de um mês antes. Kennedy e Nixon protagonizam o primeiro debate político transmitido na televisão: um momento de viragem para a comunicação política e para a própria forma de pensar e fazer política.
A 26 de setembro de 1960, mais de 70 milhões de norte-americanos ligaram a televisão para assistir ao primeiro debate presidencial a ser transmitido no pequeno ecrã.
De um lado, o candidato republicano, Richard Nixon, há oito anos na vice-presidência do país. Do outro, o democrata John F. Kennedy, um jovem e católico senador do Massachusetts.
Nixon chegava aos estúdios da CBS como o provável futuro Presidente, a crer nas sondagens divulgadas no mês anterior. O debate mudou tudo.
Ainda a recuperar de um internamento hospitalar e sempre apostado na sua imagem máscula, o vice-Presidente recusou-se a usar maquilhagem e surgiu nos ecrãs com uma aparência cansada e esmorecida.
O seu fato cinzento confundia-se com o fundo, a sua tez era pálida, a testa brilhava; o seu desconforto tornava-se evidente para os milhões de norte-americanos que assistiam ao debate.
No púlpito oposto, Kennedy tinha a aparência de um vencedor. Jovem, bronzeado, atlético. O senador encantou os telespetadores com um aspeto confiante e relaxado.
O facto de encarar diretamente a câmara ao responder às questões, em vez de olhar para os jornalistas que as colocaram, como fez Nixon, levou a que os espetadores o percecionassem como alguém que estava a falar diretamente para eles e a responder às questões de forma direta e honesta.
O resultado não foi consensual. O público norte-americano que assistiu ao debate através da televisão atribuiu a vitória a Kennedy; quem acompanhou através da rádio considerou que Nixon esteve melhor.
Mas, em 1960, os ouvintes já estavam em clara minoria: 88 por cento dos lares norte-americanos tinha televisão.
Os candidatos voltaram a defrontar-se em frente da câmara mais três vezes. Os confrontos televisivos entre Kennedy e Nixon não só fizeram história na política norte-americana, mas também foram inovadores na Comunicação audiovisual.
O terceiro debate marcou a primeira utilização da tecnologia de split screen – embora parecessem estar ambos na mesma sala, Nixon estava em Los Angeles e Kennedy estava em Nova Iorque.
Nos debates que se seguiram, Nixon apercebeu-se da importância da imagem e da linguagem televisiva. Contudo, o poder da televisão e o seu imediatismo imagético confirmava-se: a audiência dos restantes duelos televisivos foi significativamente mais baixa.
A lição, essa ficou para a vida. Dois anos depois, Nixon escrevia no seu livro Six Crises: “I should have remembered that ‘a picture is worth a thousand words’” [«Devia ter-me lembrado que “uma imagem vale mais do que mil palavras”»].
Da política do Massachusetts à capa da Time
A atenção mediática de que Kennedy era alvo não tinha começado com a candidatura às presidenciais. Desde o início da sua carreira política, o senador cultivava cuidadosamente a sua imagem e a sua relação com os media.
Membro de uma das famílias mais influentes e proeminentes do país, Kennedy apoiou-se na imagem de harmonia no lar para a criação da sua imagem pública e para a sua ascensão política.
O seu casamento com Jacqueline Bouvier, em 1953, foi alvo de intensa cobertura mediática.
Meses antes, o casal tinha aparecido na capa da prestigiada revista Time e os seus nomes eram presença assídua nas páginas de sociedade da imprensa norte-americana.
A sua mulher tornou-se parte integrante da sua campanha presidencial: Jaqueline mostrou o seu apoio público ao marido e chegou mesmo a protagonizar anúncios eleitorais. Durante a gravidez, por conselho médico, deixou de acompanhar JFK nas viagens.
Bem avisada, e receando o efeito que a sua ausência pudesse ter na campanha, Jacqueline começou a escrever uma coluna diária na qual apelava ao voto feminino. Assim surgiu “Campaign Wife”, uma coluna publicada em jornais pelo país fora.
Enquanto Nixon se concentrava em visitar a totalidade dos estados norte-americanos, Kennedy entrou mesmo na casa dos seus eleitores, intuindo já o poder da televisão, à época um meio em ascensão, que não se abstinha de utilizar na sua campanha.
O candidato democrata participou ainda em diversos programas televisivos e conseguiu o apoio de estrelas como Frank Sinatra, que cantou a sua música de campanha. Com a ascensão de Kennedy no sistema político norte-americano, esbatia-se a fronteira entre político e estrela mediática.
A oportunidade de ouro para a equipa de Comunicação de Kennedy surgiu no final de uma conferência de imprensa do Presidente Eisenhower. O líder norte-americano foi questionado sobre as contribuições do então vice-Presidente Nixon para a sua presidência. “If you give me a week, I might think of one” [«Se me der uma semana, talvez consigo pensar numa»], respondeu.
Eisenhower acabaria por afirmar que a declaração se tratava de um comentário sobre a sua fadiga e não sobre a competência (ou falta dela) do seu vice-Presidente.
Mas era tarde demais.
Os Democratas tinham recebido de bandeja um slogan poderoso. Melhor ainda, o slogantinha sido proferido, ainda que inadvertidamente, pelo adversário – e na política, um presente melhor que este é difícil de encontrar.
Rapidamente a frase saltou para anúncio televisivo: “President Eisenhower could not remember, but the voters will remember” [«O Presidente Eisenhower não se conseguiu lembrar, mas os eleitores vão lembrar-se»]. E os eleitores lembraram-se.
O Presidente da nova era
O momento da decisão chegou em novembro de 1960. Depois de meses de campanha, quatro debates e milhões de espetadores a acompanhar avidamente os duelos televisivos, os norte-americanos iam às urnas escolher o próximo Presidente.
Antes da meia-noite o The New York Times publicou a manchete “Kennedy Elected President” [«Kennedy Eleito Presidente»].
Nixon foi o primeiro candidato na história eleitoral presidencial americana a perder uma eleição apesar de ter a maioria dos Estados do seu lado.
Kennedy, então com 43 anos, foi o mais novo Presidente eleito na História dos Estados Unidos.
Sondagens efetuadas pela altura das eleições revelaram que mais de metade dos eleitores tinha sido influenciada pelos debates televisivos, ainda que apenas seis por cento considerassem que este tinha sido o fator decisivo.
Quatro dias depois de ter sido eleito, também Kennedy reconheceu o papel do novo meio na sua vitória: “It was the TV more than anything else that turned the tide” [«Foi a televisão, mais do que qualquer outra coisa, que inverteu o curso dos acontecimentos»].
O debate tornou-se uma marca na História da política norte-americana, não só porque contribuiu para a inesperada vitória de Kennedy, mas também porque assinalou o início de uma era em que a televisão dominou o processo eleitoral.
Um paradigma que as redes sociais vieram destabilizar.
Duelos
Revolução e reação no PREC
Um processo revolucionário bastante conturbado que marca uns dos verões politicamente mais quentes de Portugal
Para muitos, é um processo revolucionário bastante pacífico. Para os que o vivem, são tempos bastante conturbados que marcam um verão que dura bem mais do que os meses quentes da estação.
A Invasão
Milhares de cartazes invadiram Lisboa. A convocatória era para uma manifestação de apoio ao General Spínola. Vivia-se intensamente no rescaldo do 25 de Abril, e o setor mais conservador da sociedade portuguesa decidiu organizar uma manifestação a 28 de setembro de 1974, de apoio ao então Presidente da República. No lugar dos lábios, podia ler-se: maioria silenciosa. Fortemente visual, mas aparentemente silenciosa.
Por seu turno, o Movimento Democrático Português – Comissão Democrática Eleitoral (MDP-CDE) espalhava a sua versão destes cartazes, na tentativa de desmobilizar os populares. Estes cartazes mostravam Spínola com um ar ameaçador e de suástica ao peito, invertendo o nome da manifestação para “maioria tenebrosa”.
A reação das forças militares
Otelo Saraiva de Carvalho, do COPCON (uma estrutura de comando militar para Portugal continental), e o Movimento das Forças Armadas (MFA) reagem. São montadas barricadas à entrada de Lisboa, e todos os carros passam a ser revistados, pela busca incessante de armas.
Na manhã de dia 28, o MFA detinha o controlo da situação, e a manifestação da Maioria Silenciosa era impedida pela ação popular. Tudo indicava que a maioria teria de se manter em silêncio.
Paralelamente, militares do COPCON efetuaram diversas detenções de ex-governantes do Estado Novo, banqueiros, empresários e indivíduos supostamente ligados à organização da manifestação.
Dois dias antes, a corrida de touros a favor da Liga dos Combatentes, realizada no Campo Pequeno, em Lisboa, tinha mudado o curso público das tensões entre o General Spínola e o MFA. A praça, cheia e composta por setores tradicionalmente mais de direita, aplaudiu o Presidente da República, gritando “Portugal, Portugal, Portugal”. Durante o intervalo, contudo, o Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves, pertencente ao grupo dos militares próximos do PCP, foi vaiado e insultado.
Entre aplausos e apupos ao Presidente e ao Primeiro-Ministro, respetivamente, um dos cavaleiros exibe o cartaz da «maioria silenciosa», tal como relata o vespertino A Capital. Mas as tensões não se ficaram por aqui. À saída da praça de touros, rebentaram confrontos violentos entre os apoiantes de Spínola e vários contramanifestantes.
Spínola e MFA: A afirmação de uma nova discórda
As tensões entre o General Spínola e o MFA tornavam-se publicamente evidentes. O ponto de maior divergência? O processo de descolonização: embora Spínola reconhecesse o direito das colónias à autodeterminação, preconizava a realização de referendos, o que não fazia parte do programa do MFA. Adicionalmente, Spínola via os seus poderes cada vez mais limitados, uma vez que não tinha qualquer controlo sobre o governo provisório.
Após o falhanço de dia 28 de setembro, o braço de ferro entre as duas fações intensificou-se. Spínola tenta, em vão, convocar o Estado de Sítio na região de Lisboa, com o propósito de pôr fim às barricadas populares montadas. Além disso, projetou uma intervenção militar da NATO, justificada mediante o cenário de tomada do poder por setores afetos ao PCP.
Na manhã de dia 29, o ministro da Defesa, Firmino Miguel, interrompe a reunião entre a Junta de Salvação Nacional e a Comissão Coordenadora do MFA, proclamando a “existência de convulsões” graves ma margem Sul do Tejo, incluindo até o «derramamento de sangue». No entanto, Costa Gomes decide averiguar o facto pelos seus próprios olhos. Depois de uma viagem de helicóptero, Costa Gomes volta, afirmando que os relatos de Firmino Miguel não correspondiam à verdade. Os planos de Spínola viam-se gorados.
A demissão
Perante a derrota completa, Spínola declara a sua demissão do cargo de Presidente da República, diante de uma sala repleta de conselheiros e jornalistas, em direto na televisão e nas estações de rádio.
O teor do discurso do General, porém, estava longe de ser pacífico. As palavras do Presidente – que considerou “inviável a construção da democracia sobre este assalto sistemático aos alicerces das estruturas e instituições por grupos políticos cuja essência ideológica ofende o mais elementar conceito de liberdade, em flagrante desvirtuação do espírito do 25 de Abril” –, foram adjetivadas de “apocalípticas” e “catastrofistas”. O próprio Costa Gomes chegou ainda a comentar: “Se tenho imaginado que o discurso seria daquele teor, isso não teria ido para o ar!”.
Spínola retirava-se para a sua residência e Costa Gomes era nomeado novo Presidente da República pela Junta de Salvação Nacional. O General chegou a pedir asilo político junto da Embaixada de Espanha em Lisboa, mas foi recusado pelo General Franco.
No entanto, Spínola provar-se-ia obstinado. A 11 de março de 1975, intenta contra o COPCON e a fação de extrema-esquerda portuguesa, com um ataque ao Regimento de Artilharia Ligeira (RAL1), em Lisboa. Destino ou não, os planos do General saíam, mais uma vez, fracassados.
Cronologicamente pode dividir-se o período pós-25 de Abril em dois momentos-chave: os eventos até ao 11 de Março e os acontecimentos após essa tentativa de golpe – o famoso “Verão Quente”.
Duelos
PS e PCP sentam-se à mesa
Três horas e meia de debate aceso entre Mário Soares e Álvaro Cunhal. Um confronto que faz parte da história da política – e da televisão – portuguesas
A 6 de novembro de 1975, naquele que é o primeiro debate televisivo no pós-revolução, o líder do Partido Socialista Mário Soares e o líder do Partido Comunista Álvaro Cunhal defrontam-se e confrontam projetos e ideologias antagónicas e em rota de colisão. Mas… «Olhe que não!»
Um cigarro aceso abre a emissão da RTP a 6 de novembro de 1975. José Megre abre as hostes do primeiro debate transmitido em direto para o país inteiro. De um lado, Mário Soares, secretário-geral do Partido Socialista; do outro, Álvaro Cunhal, secretário-geral do Partido Comunista Português.
O debate entraria para a História da televisão portuguesa, não só por ser o primeiro, mas também pela sua duração. Durante três horas e meia, Joaquim Letria e José Megre moderaram a conversa no programa televisivo Responder ao País. Um formato irrepetível nos dias de hoje.
As duas figuras da política nacional abordaram os grandes temas da altura, desde o Movimento das Forças Armadas, as manifestações de trabalhadores, a estatização da comunicação social e a descolonização até à ideologia socialista.
Mas a troca de palavras rapidamente aqueceu. O que começou com umas simples perguntas por parte dos jornalistas, escalou para uma verdadeira batalha verbal. Quando Mário Soares acusou o seu oponente de querer instaurar uma ditadura em Portugal, a resposta «olhe que não, olhe que não!», de Álvaro Cunhal, gravava-se para sempre na memória dos portugueses – e no léxico político português.
O estúdio e as mesas pouco ajudavam à estética do cenário, e aos discursos políticos faltava-lhes brilhantismo – e soundbites.
O rescaldo do Verão Quente
O contexto? Acabava-se de sair do chamado «Verão Quente» de 1975, numa altura em que a sociedade se radicalizava entre esquerda e direita. Em pleno rescaldo da revolução de 25 de abril, Portugal vivia um momento político conturbado, marcado por sucessivos governos provisórios e ruas em permanente ebulição.
Tudo começou a 11 de março de 1975, quando tropas paraquedistas ligadas ao general Spínola atacaram o Regimento de Artilharia Ligeira (RAL1), em Lisboa.
O objetivo? Travar a operação «Matança da Páscoa», um alegado golpe da autoria da extrema-esquerda em Portugal.
Após algumas horas de tensões que resultaram num soldado morto, o golpe de Spínola saía gorado, obrigando-o a exilar-se. As hostilidades estavam oficialmente abertas para o verão mais quente da história política portuguesa.
O enredo adensa-se. No Alentejo e no Ribatejo, as grandes herdades são ocupadas e as grandes empresas ficam nas mãos das comissões de trabalhadores. A Banca, os seguros e os transportes são nacionalizados.
A 25 de abril de 1975 o PS ganha as eleições para a Assembleia Constituinte, com 37,8% dos votos, enquanto o PCP não passa dos 12,4%. A 1 de maio, o PCP impede Mário Soares e a delegação do PS de chegar à tribuna no Estádio 1.º de Maio.
A instabilidade nos media
A Rádio Renascença, entretanto alvo de várias greves e discussões em torno da sua concessão, é ocupada pelos trabalhadores. A 19 de maio, rebenta o caso «República»: a administração do República é acusada de tentar transformar o jornal num órgão afeto ao PS.
As instalações são ocupadas e, no exterior, o PS organiza uma manifestação de apoio à antiga direção. A concentração aumenta e as tensões fazem-se sentir.
São entoados hinos e proferem-se palavras de ordem contra os «ocupantes» do edifício, contra o PCP, contra Álvaro Cunhal e contra o MFA. O jornal é encerrado definitivamente.
O PS abandona o Governo, acompanhado pouco tempo depois pelo PPD/PSD, provocando a queda do IV Governo Provisório no dia 17 de julho de 1975.
Dois dias depois, o PS organiza o comício da Fonte Luminosa, naquele que foi o discurso mais duros de Soares contra o PCP.
A 8 de agosto nasce o V Governo provisório, o último chefiado por Vasco Gonçalves. O período que ficaria indubitavelmente conhecido por «gonçalvismo» deu aso a um outro marco importante.
A administração do Diário de Notícias é alterada, e Luís de Barros é nomeado diretor e José Saramago diretor-adjunto do jornal. Vários jornalistas põem em causa a orientação ideológica do jornal que, supostamente, estaria a ser manipulado a favor do Partido Comunista Português.
É então entregue à direção um abaixo-assinado que defendia a revisão da linha editorial e exigia a sua publicação. Um dia depois, o documento apareceu publicado no Expresso e tinha sido enviado à BBC. Esta ação resultaria na suspensão de 24 jornalistas, que ficaria eternamente conhecido como o «saneamento dos 24».
A instabilidade nacional
O país dividia-se ao meio. Os ataques a sedes do PCP proliferam, e divisões no MFA levam ao nascimento do Grupo dos Nove, liderado por Melo Antunes.
O Jornal Novo anuncia em manchete: «Documento Melo Antunes. O grupo não-radical propõe uma alternativa para a crise política». Estava criada a ala mais moderada do Movimento das Forças Armadas.
A 2 de setembro, a assembleia de delegados do exército rejeitou a indicação do Presidente da República, Francisco Costa Gomes, de Vasco Gonçalves para Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA). Vasco Gonçalves acaba por ser afastado do poder.
Mais tarde, a 19 de setembro de 1975, o VI Governo provisório, chefiado por Pinheiro de Azevedo, toma posse.
A 29 de setembro, numa «medida de emergência» tomada pelo Governo, os estúdios de várias rádios e da RTP foram ocupados na tentativa de evitar o “estado de emergência” no país.
Contudo, as dificuldades com os meios de comunicação ainda viriam à tona mais tarde, quando a redação do jornal O Século entra em disputa ideológica.
Dois grupos entram em confronto: um afeto ao Partido Comunista Português (PCP) e outro ao Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), que culmina num referendo interno que decidiu a demissão do diretor Adelino Tavares da Silva e do subdiretor Joaquim Benite.
A decisão não agrada a muitos, e acaba por conduzir ao afastamento de dezasseis elementos daquele órgão de comunicação.
A fumaça e o sequestro
As tensões estavam longe do seu fim. No dia 9 de novembro, decorre uma manifestação de apoio ao VI Governo Provisório, promovida pelo Partido Popular Democrático (PPD) e pelo Partido Socialista (PS) no Terreiro do Paço, em Lisboa.
A explosão de gás lacrimogéneo que se fez sentir no meio da concentração causou algum pânico, e levou à proclamação da famosa frase de Pinheiro de Azevedo: «Não há perigo. O povo é sereno, ouçam. É apenas fumaça».
No dia seguinte, os trabalhadores da construção civil entram em greve e concentram-se junto à Assembleia Constituinte. Os manifestantes, decididos em pressionar o Governo até que este aceitasse um acordo favorável, não permitiam que os deputados saíssem do edifício.
Dá-se início ao mais famoso cerco da História política portuguesa.
Só na madrugada de dia 14 é que os dirigentes sindicais e Pinheiro de Azevedo chegaram a um acordo. O Primeiro-Ministro compromete-se a colocar em vigor o Contrato Coletivo de Trabalho a partir do dia 27 de novembro.
Na memória ficariam as palavras de Pinheiro de Azevedo à saída da Assembleia: «Não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia».
Os eventos polémicos deste verão prolongar-se-iam até novembro, mais concretamente dia 25 de novembro, momento em que o Grupo dos Nove ditaram a sua supremacia.
Ao terem conhecimento de que um possível golpe militar poderia estar a ser preparado pela extrema-esquerda, o Grupo dos Nove decide intervir militarmente, pondo um fim na influência das forças políticas radicais e permitindo a instauração de uma democracia pluralista política e constitucionalmente baseada num regime semipresidencialista.
O PREC (Processo Revolucionário em Curso) passava a ser Processo Constitucional em Curso.
Bad News
Incêndio do Chiado
Cerca das 3 da manhã da noite de 25 de agosto de 1988, um incêndio deflagrou nos antigos armazéns Grandella do Chiado. Em poucos minutos, o fogo avançou sem dar tréguas, espalhando-se pelas ruas envolventes, pelas lojas e edifícios que rodeavam os antigos armazéns e pela noite dentro.
A 25 de agosto de 1988, o coração de Lisboa acorda em chamas. A recém-criada TSF é o primeiro meio a reportar do Chiado. É também a primeira cobertura em direto da RTP.
Onde estavam os jornalistas quando o incêndio teve início?
Como procederam à sua cobertura?
O primeiro jornalista a chegar ao local foi Nuno Roby, da Rádio TSF. Acordou a meio da noite com os gritos da população e ao ver o fogo da sua janela, dirigiu-se para o local do incêndio, de onde ligou para redação a partir de uma cabine telefónica.
Às 05:27 da manhã, a rádio TSF fazia a primeira emissão em direto do local, com Nuno Roby a descrever o cenário como “fogo assustador, o Chiado é um braseiro”
O Centro de Proteção Civil sabe do incêndio pela rádio TSF.
Oito minutos depois é alertado pelos bombeiros.
Lisboa começa a acordar.
Vários jornalistas dirigem-se para o local do fogo.
Por volta das 7 da manhã, os jornalistas da TSF começam a ligar para a redação a partir do local.
Dizem: “Estou aqui, o que é que eu faço?”
Francisco Sena Santos, Emídio Rangel e a sua equipa, depressa organizam e dividem os jornalistas pelas ruas de Lisboa, cobrindo toda a área afetada.
Entre outros, José Manuel Mestre é o repórter itinerante. Ao longo do dia fará vários diretos a partir de vários pontos do incêndio.
Bad News
A tragédia de Alcafache
O maior acidente ferroviário nacional, em Alcafache (Viseu), é a primeira grande tragédia a ser noticiada pela Imprensa livre do pós 25 de abril e torna-se num marco do Jornalismo em Portugal.
À data do acidente, em 1985, a censura tinha acabado em Portugal há apenas 11 anos.
A Partida Cruzada
«A tragédia de Alcafache». Assim descreve O Primeiro de Janeiro aquele final de tarde de 11 de setembro de 1985 na linha da Beira Alta.
O Sud-Express que leva centenas de emigrantes de volta aos seus países de acolhimento parte da estação do Porto com cerca de 17 minutos de atraso. O serviço regional com destino a Coimbra que segue na linha única tem indicação para dar prioridade ao comboio internacional.
Devido ao atraso do Sud-Express, o local do cruzamento com o comboio regional é alterado. O internacional arranca de Nelas para Alcafache. Mas o regional já tinha deixado a estação. Os dois colidem às 18h37.
As chamas deflagram nas três primeiras carruagens do Internacional e nas duas carruagens da frente do Regional. No Sud-Express viajam mais de 300 passageiros. Na composição regional seguem cerca de 40.
Em busca de uma reportagem
Um repórter de imagem da RTP é dos primeiros a chegar ao local, encontrando um cenário de terror. A forma mais rápida de fazer chegar as imagens à RTP Porto é através de avião, mas o aeródromo de Viseu não tem iluminação. O Presidente da República decreta que o povo português tem direito à informação, criando-se um plano de voo especial.
O jornalista Rui Romano comunica ao país a tragédia. As operações de salvamento são alvo de intensa cobertura por parte da RTP.
Presidente da República Ramalho Eanes e o Primeiro-Ministro Mário Soares apressam-se a chegar ao local do acidente. «Não há comentário nenhum a fazer», afirma Eanes aos jornalistas.
Com o avançar da noite são divulgadas mais informações. Ao ser questionado se já tem uma avaliação da situação, Mário Soares afirma: «Sim e felizmente menos catastrofista do que a rádio dizia», revela Mário Soares à imprensa. Ainda nessa noite é confirmado que a causa do acidente tinha sido falha humana.
O destaque mediático
Em 1985, os acidentes ferroviários não são uma raridade; só nesse ano, os jornais portugueses já tinham noticiado oito. Nenhum tem a mesma violência ou impacto mediático. O acidente domina a atenção pública nos dias que se seguem.
«O drama ainda não acabou», lê-se no Diário de Notícias ao segundo dia de reportagens. Aos detalhes arrepiantes do acidente acrescentavam-se testemunhos e histórias dos sobreviventes.
Entre as famílias separadas e as buscas frenéticas pelos desaparecidos, há espaço para histórias felizes, como a de uma família de doze membros que, à exceção de um nariz partido, consegue escapar incólume. Até o Presidente da República assume protagonismo ao auxiliar no transporte de uma das vítimas de helicóptero para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Os bombeiros e as equipas de salvamento e limpeza só deixam o local três dias depois do acidente. Mas a cobertura mediática prolonga-se.
Entrevistado por Armando Castela, do Diário Popular, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim critica os «números exagerados» de vítimas que a televisão e a rádio estão a avançar, contribuindo para alarmar e criar uma situação de pânico no país.
As informações oficiais apontam para 37 mortos e 170 feridos, mas o número real ainda hoje se desconhece. Cerca de uma dezena de urnas são enterradas no cemitério de Mangualde e é aberta uma vala comum junto ao local do acidente.
O veredicto
Em menos de um ano, o caso é julgado no Tribunal de Mangualde. O Tribunal concluiu que «há falha humana, mas não se provou quais ou qual deles falhou». Os funcionários foram absolvidos.
Um dos mais graves acidentes ferroviários ocorridos no país, o «11 de setembro português» continua a ser recordado pelos media.
A SIC recupera a história na reportagem «Perdidos e Achados».
A jovem Liberdade de Imprensa
À data do acidente, em 1985, a liberdade de imprensa tem 11 anos. Alcafache é a primeira grande tragédia a ser noticiada por uma imprensa livre, tornando-se um marco do jornalismo e do fotojornalismo em Portugal.
A cobertura mediática choca o país ao divulgar imagens gráficas dos destroços e das vítimas. A partir de Alcafache, cria-se um novo precedente para o tratamento jornalístico de acidentes.
Desporto
Os melhores de dois mundos
Eusébio e Ronaldo.Dois número 1 mundiais. Dois homens, dois jogadores, duas celebridades, dois heróis nacionais. As estrelas mais brilhantes da constelação futebolística nacional. Os resultados, as suas conquistas no campo… dos Media. Dois jogadores que marcam as diferentes épocas mediáticas em que vivem.
Eusébio e Ronaldo
Um moçambicano e um madeirense que chegaram a Lisboa para marcar a história do futebol.
Separados por quarto décadas e uma revolução na disseminação da informação sem precedentes.
Eusébio nasceu em 1942 em Moçambique. O seu primeiro clube é o Sporting de Lourenço Marques.
Cristiano Ronaldo nasceu em 1985 no Funchal. O seu primeiro clube é o Andorinha.
Em 1960 Eusébio estreia-se no Benfica, onde permanece até 1975.
Em 1997 Cristiano Ronaldo estreia-se no Sporting, onde permanece até 2003.
Eusébio destaca-se em 1962 na final da Taça dos Campeões Europeus, contra o Real Madrid.
Cristiano Ronaldo destaca-se na inauguração do estádio Alvalade XXI em 2003, num jogo contra o Manchester United. Alguns meses depois foi transferido para este clube inglês.
Eusébio leva o Benfica além-fronteiras quando o clube ganha a Taça dos Campeões Europeus em 1961/62.
Cristiano ganha a Taça dos campeões com o Manchester em 2007/08 e com o Real Madrid em 2013/14.
Eusébio passa o maior tempo da sua carreira no Benfica. Reforma-se em 1980, quando jogava no Buffalo Stallions.
Cristiano troca a Inglaterra pelo Real Madrid em 2009, assinalando a mais cara transferência até à data.
Eusébio ganhou uma Bola de Ouro, duas Botas de Ouro e sete Bolas de Prata
Até à data, Cristiano ganhou três Bolas de Ouro e duas Botas de Ouro.
As lágrimas de Eusébio, pela Seleção Nacional, tornaram-se famosas quando Portugal, no Campeonato Mundial de 1966, perdeu o jogo das meias-finais contra a Inglaterra.
Também as lágrimas de Cristiano Ronaldo se tornaram famosas quando Portugal perdeu a final do Euro 2004 contra a Grécia.
Ambos se destacaram durante estas competições, levando os portugueses a acreditarem na vitória final.
Eusébio era uma verdadeira estrela naquele tempo.
Ronaldo fortaleceu o seu estatuto de celebridade.
A carreira e vida de Eusébio foi seguida de perto. O seu casamento com Flora Claudina Burheim foi o primeiro casamento de um jogador de televisão a passar na televisão.
A vida pessoal de Cristiano foi objeto de escrutínio com particular enfoque na sua vida familiar e amorosa.
A sua vida e a sua carreira foram contadas em formatos diferentes.
Ronaldo destaca-se mais nas referências da pop culture
O funeral de Eusébio foi transmitido em direto na televisão de forma quase interrupta.
O nome Cristiano Ronaldo tornou-se uma marca que batizou roupas, sapatos e perfumes. Este abriu também o Museu CR7 na sua cidade natal.
Eusébio, no seu auge, tornou-se num símbolo nacional durante o Estado Novo.
Ronaldo, continua em atividade, vivendo na era dos Media globais e é admirado em todo o Mundo.
Guerras
As bancas de jornais como trincheiras
Franquistas contra republicanos: um jogo de propaganda e contrapropaganda, numa luta de sangue e terra entre irmãos de território
A Guerra Civil de Espanha dividiu irmãos da mesma terra em várias fações. A Imprensa contava, de acordo com a sua barricada, o desenrolar dos acontecimentos. Este conflito serviu também de incubadora para a posterior massificação da rádio.
O estalar da tensão civil
A 18 de julho de 1936, o Diário de Lisboa noticiava o golpe de Estado levado a cabo em Marrocos, fazendo referência à «grave situação em Espanha». A revolta era indicativa do clima de tensão do país. De um lado, encontrava-se o movimento nacionalista liderado pelo General Francisco Franco; do outro, a Frente Popular que defendia o Governo Republicano e pretendia eliminar a influência fascista no país.
A 18 de julho de 1936 o Diário de Lisboa o golpe de Estado que antecedeu a Guerra Civil Espanhola.
Os jornais portugueses começaram a responder ao agudizar dos conflitos no país vizinho com o envio de repórteres. Norberto Lopes, chefe de redação do Diário de Lisboa, foi o primeiro a partir para Espanha, mas uma greve ferroviária atrasou a sua chegada a Madrid.
«A greve geral ferroviária que nos retém é um sintoma concludente de que a situação não se apresenta inteiramente favorável ao Governo», escreveu, na sua primeira crónica. O jornalista português, nascido em 1900, começara a sua carreira n’O Século e desenvolvia a sua atividade jornalística na redação do Diário de Lisboa.
Na estação de comboios, o repórter notou o interesse da população espanhola na imprensa lusa. «Formam-se grupos que leem avidamente os jornais portugueses, pois os espanhóis limitam-se a publicar notas oficiosas fornecidas pelo Governo e pelas autoridades militares de Madrid», refere o Diário de Lisboa, a 20 de julho de 1936.
Nas primeiras semanas da guerra, os jornais nacionais publicaram segundas e terceiras edições, com milhares de cópias lidas além-fronteiras.
A batalha dos ABC
Por terras espanholas, o conflito no campo de batalha começava a contagiar os media. A 25 de julho de 1936, a edição de Sevilha do ABC manifestava o seu apoio aos franquistas, que combatiam pela “victoria de los que luchan por una España nueva.”
A 25 de julho de 1936, a edição de Sevilha do ABC manifestava o seu apoio aos franquistas, que combatiam pela “victoria de los que luchan por una España nueva.”
Por seu lado, a edição de Madrid do periódico exultava “¡Viva la República!.” A edição de pendor republicano, motivada pelas novas imposições do Governo na redação e no critério editorial, surpreendeu os leitores por se tratar de uma mudança brusca da histórica orientação monárquica do jornal.
O ABC de Madrid tinha sido tomado pelas forças da República.
Do Ministério da Governação chegou o alerta: a redação devia abandonar o edifício, pois o Governo não se responsabilizava pelas suas vidas. Alfonso Rodríguez Santamaría, subdiretor do ABC e presidente da Asociación de la Prensa de Madrid, foi fuzilado pela patrulha das Milicias de la Prensa.
Os conflitos entre nacionalistas e republicanos iam subindo de tom nas ruas e nos jornais. “¡ No pasarán!” ficou, até hoje, imortalizado em Espanha como um lema de resistência.
Ambos os lados da barricada procuravam controlar as informações divulgadas ao público, notava Norberto Lopes. «Se a censura de Madrid é rigorosa e deixa apenas filtrar para o estrangeiro as notícias que lhe convém, a censura dos revoltosos não é menos apertada e opõe-se, sobretudo, a transmissão de notícias que possam prejudicar as operações militares, o que até certo ponto se compreende», escrevia, a 3 de agosto de 1936. O jornalista português foi um dos fundadores, juntamente com Mário Neves, do vespertino A Capital, que dirigiu até 1970. Faleceu em 1989, sendo considerado um dos grandes nomes do jornalismo português do século XX.
Mesmo na fase inicial do conflito, Salazar intuía já a importância da guerra que deflagrara em Espanha para a manutenção e prosperidade do Estado Novo.
A boa relação de Portugal com os Franquistas
As boas relações com as forças nacionalistas conferiam aos jornalistas portugueses acesso privilegiado a informações e margem de manobra superior, em comparação com os enviados de outros países. A primeira entrevista do General Franco após o golpe de 1936 foi concedida ao Diário de Lisboa. A entrevista teve repercussões a nível mundial.
O exclusivo foi anunciado como: «A primeira mensagem histórica de Franco à opinião mundial».
Ao longo da guerra, outros jornalistas lograram falar com El Caudillo, por vezes recorrendo à influência de António Ferro e do Secretariado de Propaganda Nacional.
O Secretariado de Propaganda Nacional, sob a mão de Ferro, e a imprensa portuguesa, controlada pela censura, contribuíram para a campanha internacional de defesa de Franco. Desta forma, o trabalho de algumas das dezenas de jornalistas que se deslocaram para território espanhol assumiu contornos propagandísticos. «Nossos camaradas […] estão escrevendo, nas frentes da guerra civil espanhola, uma das mais belas páginas do jornalismo português», afirmava António Ferro a 24 de novembro de 1936.
As rádios portuguesas Emissora Nacional e Rádio Clube Português não só aumentaram a potência da emissão, como criaram programas em castelhano. A voz de Marisabel de La Torre de Colomina, transmitida pelo Rádio Clube Português, tornou-se símbolo do apoio das rádios portuguesas ao General Franco.
Durante a Guerra Civil de Espanha, o Major Jorge Botelho Moniz instalou um eficiente serviço de informação e propaganda de apoio à causa Nacionalista que teve eco em Portugal e Espanha. O RCP foi muito importante como força moralizadora, de que é exemplo o episódio do Alcázar de Toledo, onde o próprio Botelho Moniz se dirigiu exaustivamente aos sitiados do Alcázar, motivando-os e assegurando que as tropas enviadas para os libertar do cerco republicano estavam a chegar.
A Emissora Nacional, órgão radiofónico oficial do Estado Novo, chamava a atenção dos portugueses para o perigo “rojo” espanhol, manifestando-se a favor das forças de Franco, que defendiam valores da «civilização cristã ocidental». Também a Rádio Luso, financiada pelos nazis, e a Invicta Rádio, ligada ao regime, estavam alinhadas com o movimento franquista, que promoviam em Lisboa e no Porto.
A mesma orientação era partilhada pelas revistas nacionalistas do Governo, como o Boletim da Legião Portuguesa, a Defesa Nacional e a Alma Nacional, que davam destaque ao conflito.
Mário Neves foi uma das exceções à atitude propagandística que se espalhou pelos media portugueses, ao revelar a chacina do exército nacionalista em Badajoz. O jornalista, nascido em 1912, herdara a paixão pela profissão do seu pai, Hermano Neves. A 17 de agosto escrevia: «Vou partir. Quero deixar Badajoz, custe o que custar, o mais depressa possível e com a firme promessa à minha própria consciência de que não mais voltarei aqui». As suas crónicas foram censuradas, com excertos do seu relato sobre os horrores de Badajoz a ficar excluídos das páginas do Diário de Lisboa.
Ao longo da sua carreira, Mário Neves colaborou ainda com o jornal O Século e fundou, com Norberto Lopes, A Capital, em 1968. Depois do 25 de Abril tornou-se o primeiro embaixador de Portugal na União Soviética e, em 1979, integrou o V Governo Constitucional. Faleceu em 1999, depois de uma longa e profícua carreira.
Repórteres de outros meios da imprensa nacional portuguesa começavam a chegar a Espanha. «Salamanca vive em plena calma», lia-se a 1 de agosto de 1936 no Diário da Manhã. Quem o reportara era o jornalista recém-chegado José Costa Júnior, no seu primeiro despacho. Esta tranquilidade em Salamanca foi recuperada também pelo jornalista Tomé Vieira n’O Século.
«Notam-se apenas algumas mediadas de precaução e lê-se, nos rostos, uma ansiedade constante (…) de resto, a vida citadina decorre com tranquilidade». O jornalista reforça que a cidade voltara lentamente a sua rotina normal dizendo: «Na bela Plaza Mayor passam, a todo o momento, camionetas com rapazes das juventudes patrióticas, eriçadas das espingardas, no meio de clamorosos “vivas”».
O Diário de Lisboa, que enviara o primeiro repórter para palco de guerra em Espanha, reconhecia agora a concorrência. Decide enviar um novo jornalista de seu nome Artur Portela.
No primeiro de agosto de 1936 atravessou a fronteira e chegou a Espanha. Durante a viagem escreveu um testemunho sobre o cenário que o circundava: «Na estrada que, por vezes, corre paralela ao caminho-de-ferro, vêem-se passar, em flechas vertiginosas, automóveis com gente armada». Mas ao contrário dos colegas e concorrentes, Artur Portela deparou-se com um cenário mais conturbado segundo o próprio relatou ao Diário de Lisboa: «Por vezes ouvem-se tiros à roda do Grande Hotel. (…) alguém disparou dum telhado ou contra um automóvel, onde seguiam falangistas e logo as patrulhas espalhadas pela cidade, ripostam numa nutrida fuzilaria».
A guerra começava a afetar diretamente Portugal. Em setembro de 1936, o Diário de Notícias anunciava uma revolta a bordo de dois navios de guerra, envolvendo membros da tripulação que, alegadamente, pretendiam juntar-se à «esquadra marxista espanhola».
«Traição, alta traição! O País inteiro reclama justiça contra todos aqueles que, direta ou indiretamente, estão envolvidos no estranho caso». Na imprensa nacional e estrangeira, o apoio dos regimes fascistas alemão e italiano a Franco tornava-se impossível de esconder.
Em abril de 1937, aviões alemães arrasavam a emblemática população basca de Guernica. O ABC de Madrid denunciou o ataque. Já a edição de Sevilha do jornal informou que Guernica teria sido “incendiada por los rojos”, fazendo eco da versão oficial franquista. O ABC de Madrid respondeu, citando os correspondentes estrangeiros: “La felonía de los facciosos les lleva a asegurar que los leales han incendiado Guernica.”
O mundo assistia incrédulo aos acontecimentos em Espanha. O The Times avançava em primeira mão: “The reflection of the flames could be seen in the clouds of smoke above the mountains from 10 miles away”.
Durante os anos de duração da guerra, mais de mil repórteres cobriram o conflito. Cinco acabaram por morrer, entre os quais Ernest Sheepshanks, correspondente da Reuters, e Gerda Taro, considerada a primeira fotojornalista feminina na linha da frente de uma guerra. Os ingleses The Timese Manchester Guardian publicaram, entre 15 de julho de 1938 e 15 de abril de 1939, mais de 11 mil notícias focadas na guerra. Dos Estados Unidos também chegavam repórteres, destacando-se o The New York Times, que enviou três correspondentes permanentes para cobrir a guerra. Entre estes encontrava-se o escritor Ernest Hemingway, que chegou a Espanha em março de 1937 como correspondente da North American Newspaper Alliance. A Guerra Civil Espanhola ficou ainda imortalizada na cultura popular do país.
A música Madre anoche en las trincheras já faz parte do cancioneiro popular espanhol. Conta a lenda que a letra se baseia numa carta de um soldado espanhol para a sua mãe, inicialmente publicada na The New York Times Magazine.
Do legado artístico da guerra faz ainda parte Guernica, a obra-prima por excelência de Picasso. O pintor terá criado o painel a partir dos relatos dos bombardeamentos que chegaram até Paris, onde residia. A obra esteve em exposição na Exposição Internacional de Paris, em julho de 1937.
Picasso afirmou: “No, la pintura no está hecha para decorar las habitaciones. Es un instrumento de guerra ofensivo y defensivo contra el enemigo.”
A guerra e a arte também se misturavam no trabalho dos fotojornalistas que presenciavam o conflito. Loyalist Militiaman at the Moment of Death, de Robert Capa, tornou-se uma das imagens mais icónicas da guerra civil.
As feridas abertas por Guernica continuavam a alastrar-se pela nação em 1938. “Se ha rendido el jefe faccioso de Teruel con las fuerzas a sus órdenes y se han pasado a nuestras filas dos compañías de requetés navarros”, podia ler-se na edição de Madrid do jornal ABC, uma tentativa de manter a moral das populações. A edição de Sevilha publicava notícias contrastantes: “Nuestras victoriosas tropas siguen conquistando posiciones”.
Franco ganhava força e isolava a Catalunha do resto do país. Em janeiro de 1939, Barcelona era tomada. “Razón y fuerza de la espada de Franco, Barcelona, liberada”, anunciava o ABC publicado em Sevilha.
História bem diferente era contada na edição de Madrid. “Nuestros soldados luchan fuertemente, conteniendo a las fuerzas invasoras”, podia ler-se no periódico. O jornal de orientação republicana recusava-se a aceitar que Barcelona já era dos franquistas.
Semelhantes palavras escrevia o jornal La Vanguardia a 25 de janeiro: “Las tropas españolas contienen con heroismo los intensísimos ataques de las divisiones italofacciosas.” Com a tomada de Barcelona, a política editorial do jornal mudava.
Em Portugal, as conquistas de Franco continuavam a ser seguidas a par e passo: «Quando os exércitos vitoriosos de Franco fizeram desabar um mundo podre de mentiras marxistas e entraram em Barcelona, pode-se dizer que nós lá estávamos com eles, porque na guerra internacional que se travou ocupámos desde a primeira hora uma trincheira que nunca abandonámos», escrevia o Diário da Manhã a 23 de março de 1939.
Em março, chegava a vez de Madrid se render. Por esta altura, os enviados portugueses em Espanha contavam-se às dezenas.
O fim da Segunda República e o início da ditadura de Franco estavam próximos. A edição de Madrid do ABC de 28 de março refere o apelo do Conselho Nacional de Defesa aos espanhóis, “en demanda de la serenidad que exige el momento.”
A política editorial alterara-se por completo. O retrato de Franco ocupava a primeira página do jornal. “ABC, en el momento de la liberación de Madrid, consigna el saludo más entusiasta para el valiente capitán y para el insigne estadista que está haciendo la España nueva”, escrevia o ABC.
Durante o franquismo, o ABC viria a apoiar o regime, voltando a tornar-se num dos jornais mais vendidos em Espanha.
Com o final da guerra, as relações diplomáticas entre Portugal e Espanha continuaram a ser alvo de cobertura nos meios nacionais, ilustrando a proximidade entre os regimes de Salazar e Franco.
O jornal ABC refletia o contraste: A versão franquista – o ABC Sevilla – tinha cerca de 30 páginas, muitas imagens e inaugura constantemente mais seções dentro da publicação. No primeiro trimestre de 1939 registava uma tiragem de 130 000 exemplares.
Já o periódico de orientação republicana revelava um decréscimo em todas as frentes. A escassez de papel registada na capital madrilena e a dificuldade crescente de aceder a fontes fez com o jornal passasse a ser publicado com apenas 4 folhas. Na capa, com o intuito de aproveitar melhor o espaço disponível, eram muitas redigidas notícias. No último trimestre de 1938 a tiragem do ABC de Madrid era de 8000 exemplares.
A ditadura de Franco só viria a terminar depois da morte de El Caudillo, em 1975. Espanha iniciava a transição para a democracia.
Mais de 30 jornalistas e fotógrafos foram enviados pelos jornais portugueses para a Guerra Civil Espanhola. Todos foram destacados para o território rebelde. Onze jornalistas e dois fotógrafos foram enviados pelo Diário de Notícias. Cinco pessoas foram destacadas pelo jornal O Século. Sete correspondentes, entre os quais dois fotógrafos, foram enviados pelo Diário de Lisboa. Dois jornalistas foram destacados pelo Diário da Manhã e mais dois pelo Comércio do Porto. Apenas um repórter foi enviado pelo Jornal de Notícias e outro pel’O Primeiro de Janeiro.
Guerras
As bombas de Hertz
As narrativas da Segunda Guerra Mundial são, essencialmente, propagadas através da Rádio, um meio que na altura já é de massas. Além disto, a Rádio é o meio de comunicação preferencial para acompanhar os avanços e recuos do conflito devido à sua tempestividade
Depois da guerra civil de Espanha, os regimes totalitários europeus ficam mais fortes. Salazar em Portugal, Franco em Espanha, Mussolini na Itália e Hitler na Alemanha. Internacionalmente, Portugal proclama a neutralidade mas, internamente, não deixa de demonstrar simpatia para com a Alemanha Nazi. Cabe à BBC tomar a voz da liberdade ao inaugurar, em 1940, a seção portuguesa. O palco de guerra para lá das trincheiras é sentido nas ondas de Hertz.
A declaração de Guerra
O anúncio chegou a 3 de setembro de 1939 pela voz do primeiro-ministro do Reino Unido, Neville Chamberlain.
“This country is at war with Germany.” [Este país está em guerra com a Alemanha]
A invasão da Polónia, dois dias antes, despoletara a declaração de guerra por parte da Grã-Bretanha e de França, na sequência do crescente clima de tensão entre as nações. Onze anos depois do final da Primeira Guerra Mundial, a Europa voltava a ser palco de um conflito.
Em setembro de 1939, poucos dias depois do anúncio, José Guerra Maio escreve n’O Comércio do Porto: «Paris oferece, ao meio-dia, o triste aspeto de uma cidade abandonada, ou de uma aldeia sertaneja às primeiras horas da manhã».
Tal como na Primeira Guerra Mundial, as agências noticiosas internacionais eram essenciais para a cobertura portuguesa dos assuntos europeus. Além das dificuldades económicas, a neutralidade portuguesa na Segunda Guerra Mundial impossibilitava o envio de enviados especiais. Restavam aos periódicos as cartas enviadas pelos seus correspondentes, na sua maioria instalados em Paris. Não obstante, a atenção dedicada aos regimes ditatoriais que grassavam na Europa não era recente.
«Agitada e sensacional entrevista com Adolfo Hitler, chefe dos nacionais-socialistas», podia ler-se na capa.
A Cobertura Mediática
À medida que o exército de Hitler marchava pela Europa, os meios de comunicação tentavam mostrar-se à altura. Na frente alemã, os meios de comunicação estavam sobre o controlo do Estado e as informações oficiais eram veiculadas apenas por membros da Divisão de Propaganda nacional.
Através da divisão de imprensa estrangeira, os alemães convidavam jornalistas de outros países a reportar a guerra a partir da frente alemã, com garantias de isenção e liberdade que não se vieram a verificar. Goebbels, ministro da Propaganda, enviou jornalistas e fotógrafos para a divisão de propaganda do exército, criando a categoria de repórteres-soldados. Esperava-se que, simultaneamente, combatessem e cobrissem o conflito a partir da linha da frente.
Sabemos que Nazi é a abreviatura de Partido Nacional Socialista mas, não sabemos que essa nomenclatura foi inventada por um jornalista, um jornalista judeu alemão. Antes de Nazi a abreviatura para usada para se referirem ao partido de Adolf Hitler era Nasos. Konrad Heiden que muitas vezes assinou sob o pseudónimo de Klaus Bredow, foi uma das primeiras vozes a criticar as políticas do regime. Trabalhou nos jornais Frankfurter Zeitung e Vossischen Zeitung. Em 1932 tornou-se freelancer e depois partiu para o exílio.
Do lado dos Aliados, o trabalho dos repórteres era sujeito a restrições militares que se assemelhavam às da Primeira Guerra Mundial. Os enviados especiais contavam com melhores condições de trabalho, mas os seus textos continuavam a ser revistos e censurados, sendo utilizados como forma de propaganda. O incentivo ao esforço de guerra era transmitido para as casas de milhões de ingleses, tendo nos políticos os principais difusores.
Charles de Gaulle emitiu através da BBC um dos maiores discursos de incentivo à resistência francesa. O discurso ocorreu após a derrota da França na batalha que permitiu a invasão e ocupação Nazi, em maio de 1940.
Os discursos do recém-eleito Primeiro-ministro, Winston Churchill, foram emitidos para todo o país e tornaram-se símbolos da resistência britânica.
“We shall go on to the end, we shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our Island, whatever the cost may be, we shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender.” [Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos]
O Ministério da Informação inglês estabeleceu que a BBC teria de ser encarada como um departamento do governo referente à cobertura de atividades bélicas. Na Alemanha, por sua vez, a Rádio Hamburgo apostava em emissões em inglês, sob a voz de “Lord Haw-Haw”, que faziam sucesso entre um terço dos britânicos. O motivo? As emissões da BBC eram consideradas desinteressantes e as suas notícias pouco credíveis.
O Ministério da Informação inglês reagiu, autorizando a BBC a emitir as notícias bélicas com mais celeridade, com a exceção de informações que pudessem ser úteis aos alemães. Uma estratégia que ajudou a aumentar a confiança pública na informação da BBC, permitindo que a mensagem propagandística subjacente às emissões passasse para os ingleses.
Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, também a rádio era um meio em ascensão. Com mais de 45 milhões de aparelhos espalhados pelo país, os norte-americanos escutavam, em média, quatro horas e meia de emissão por dia. Os jornais ofereciam uma cobertura mais aprofundada, mas a imediaticidade da rádio tornou-a num meio fundamental, acompanhado pelos norte-americanos ao longo da guerra. O repórter norte-americano Edward R. Murrow foi um dos nomes que mais se destacou ao reportar a partir de Inglaterra, sendo considerado o percursor da cobertura radiofónica.
A confirmação de uma guerra mundial
A guerra estava prestes a atingir diretamente os Estados Unidos. Às 14h20 do dia 7 de dezembro de 1941, a Associated Press enviava um boletim para os meios de comunicação: Pearl Harbor tinha sido atacado. Depois de confirmar a veracidade da informação com o Governo, as rádios interromperam as suas emissões com as notícias do ataque.
Um jornalista testemunhou as explosões a partir do telhado de um edifício, noticiando em tempo real. “It is no joke, it is a real war”. [Não é uma piada, é uma guerra real]
O público norte-americano recebeu as notícias com desconfiança. Afinal, apenas três anos antes, em 1938, Orson Welles tinha semeado o pânico com a sua emissão dramatizada de A Guerra dos Mundos.
Desta vez, o ataque era bem real. O bombardeamento ocorreu num domingo de manhã, pelo que a maioria dos jornais já tinha sido impressa. Alguns conseguiram publicar a notícia ainda no próprio dia, através de edições especiais.
Na manhã seguinte, chegavam mais informações. Por se tratar de um local de difícil acesso aos jornalistas, os dados eram divulgados maioritariamente pelo Gabinete de Imprensa da Casa Branca.
The Japanese aggression yesterday did more than start a Pacific war. It broadened the conflicts already raging into a world-wide struggle whose end no man can know», lia-se no The New York Times. [A agressão japonesa de ontem fez mais do que começar uma guerra no Pacífico. Alargou os conflitos para uma luta a nível mundial, cujo fim nenhum homem pode conhecer]
As previsões viriam a ser confirmadas ainda nesse dia. Roosevelt reúne o Congresso e a rádio leva a decisão a milhões de ouvintes: os Estados Unidos estavam em guerra.
“Yesterday, December 7th, 1941, a date which will live in infamy, the United States of America was suddenly and deliberately attacked by naval and air forces of the Empire of Japan.” [Ontem, 7 de dezembro de 1941, uma data que viverá na infâmia, os Estados Unidos da América foram atacados súbita e deliberadamente pelas forças navais e aéreas do Império do Japão]
Bob Landry foi um dos únicos fotógrafos profissionais a captar a tragédia. As suas imagens foram censuradas de forma a proteger informação militar e detalhes do armamento. As fotografias só veriam a luz do dia dois meses depois do ataque, nas revistas TIME e LIFE.
As imagens em filme dos ataques foram vistas pelos norte-americanos através dos newsreel, transmitidos nos cinemas do país nos meses que se seguiram.
Depois do ataque a Pearl Harbor, os meios de comunicação japoneses viram a sua liberdade ainda mais restrita. Em 1940, os departamentos de informação tinham sido centralizados no Ministério do Interior, com completo controlo sobre as notícias que eram publicadas. Os meios de comunicação eram invadidos por um sentimento anti-americano, apelando ao patriotismo e orgulho nacional. Também os cartoonistas davam o seu contributo propagandístico.
Para Portugal, a neutralidade
Em Portugal, Salazar balançava a neutralidade como podia. De um lado, a proximidade com Franco, que, apesar da neutralidade oficial de Espanha, mostrava simpatia pelos regimes de Hitler e Franco. Do outro, a antiga aliança luso-britânica, parte essencial da estratégia internacional portuguesa.
«O Governo inglês pediu facilidades nos Açores que foram concedidas pelo Governo português», anunciava o Diário de Notícias de 13 de outubro de 1943.
Desde o início da guerra ficou patente a apreensão de Salazar relativamente ao comunismo, uma preocupação que estava por detrás de grande parte das movimentações políticas do líder. A imprensa, condicionada pela censura, refletia a mesma tendência. A obrigação de neutralidade relativamente ao conflito entre os Aliados e a Alemanha não se verificava em relação à União Soviética. Em 1940, Amadeu de Freitas foi o único português a cobrir o ataque soviético à Finlândia, resultante de um acordo secreto entre a Alemanha e a União Soviética.
Aquando da sua partida, O Século escrevia que a sua missão seria cobrir «a odisseia desse pequeno povo cujo heroísmo encontra no mundo inteiro um eco de comovida admiração». Além das crónicas para o jornal o repórter também deu conta do ambiente vivido na Finlândia na Emissora Nacional: «Começam a cair as bombas, os aviões começam a espalhar a morte. […] Fogem todos para os abrigos! Os buracos abrem-se e engolem os homens. Os russos continuam a deitar granadas e a deitar bombas. O gelo começa a sujar-se de vermelho».
No resto do mundo, a preocupação com a imprensa era uma constante para os países envolvidos no conflito.
O líder da Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force (SHAEF), Dwight D. Eisenhower, que viria a ser Presidente norte-americano uma década depois, reconhecia a importância dos meios de comunicação, acreditando que “public opinion wins wars.” [a opinião pública vence guerras]
A decisiva Batalha da Normandia
Nos meses que antecederam à Batalha da Normandia, a estratégia de Eisenhower passava por controlar o número de correspondentes no terreno através da atribuição de acreditações. Os jornalistas queixavam-se da rigidez das regras, dos limites e da censura impostos e da preferência dada a alguns meios na acreditação de repórteres, mas Eisenhower estava focado na sua missão: “to discover the best means of keeping the press securely in the dark, while at the same time not appearing to treat them as complete outsiders.” [descobrir as melhores formas de manter a imprensa firmemente no escuro e, ao mesmo tempo, parecer não os tratar como completos outsiders]
“Chanson d’automne” [Canção de Outono], um poema de Paul Verlaine foi a senha para o início da ofensiva na Normandia. O poema emitido na BBC, usado como código, foi repartido pelos 3 dias que antecederam ao desembarque.
A 6 de junho de 1944, o Dia D, os Aliados entravam em França através da Normandia, com uma armada de cinco mil navios. A bordo do USS Ancon seguia o repórter norte-americano George Hicks.
“You see the ships lying in all directions, just like black shadows on the grey sky.” [Vêem-se navios em todas as direções, como sombras negras no céu cinzento]
A emissão de John Snagge na BBC em Londres descodificava aos poucos e poucos o que se iria passar. “The next time our feet touch dry land it will be on the soil of Europe. A new phase of the Allied Air Initiative has begun.” [Da próxima vez que os nossos pés tocarrem em terra firma será em solo da Europa. Começou uma nova fase iniciativa aérea Aliada]
Ao meio-dia John Snagge seguro da eficácia da intervenção dos Aliados anunciou “D-Day has come.” [O Dia D chegou]
O sucesso da operação foi amplamente divulgado nos meios de comunicação dos países Aliados.
Robert Capa foi um dos únicos quatro fotojornalistas norte-americanos autorizados pelas Forças Armadas a acompanhar a chegada à Normandia. Das mais de cem imagens captadas, menos de uma dezena terão sobrevivido, sendo publicadas na revista LIFE.
A Batalha de Normandia marcou o início do fim do império nazi. A operação teve um impacto forte nas tropas de Hitler, que perderam o controlo de França e se viram impedidos de fortalecer a frente oriental contra os avanços soviéticos. Já no ano anterior Hitler sofrera uma baixa de peso, com a queda de Mussolini, em Itália.
A demissão do Il Ducee a ascensão de Pietro Badoglio ao cargo de Primeiro Ministro fora anunciada aos italianos em julho de 1943. No final do boletim noticioso, foi tocado o hino nacional e não o hino do partido Fasci di Combattimento, um sinal de que o novo Governo pretendia afastar-se do rumo tomado por Mussolini. A rádio alemã minimizou a importância da notícia, afirmando que se tratava de «política interna italiana». Por sua vez, o correspondente do Times escreveu: “the people know plainly that he has resigned because he is a failure – a failed criminal.” [as pessoas simplesmente sabem que ele se demitiu porque é um falhanço – um criminoso falhado] Il Duce caía em ruína e era preso.
A queda dos ditadores
Em setembro, os paraquedistas alemães organizavam uma operação de resgate. De novo em liberdade, Mussolini iria criar um Estado fascista no norte da Itália, mas a autoridade e o poder decisório estavam do lado alemão. Em abril de 1945, Mussolini e a sua amante eram capturados e executados enquanto tentavam fugir do país.
Os seus corpos foram expostos “with ghastly promiscuity in the open square under the same fence against which one year ago 15 partisans had been shot by their own countrymen” [com uma promiscuidade medonha na praça aberta, no muro em que, há um ano, 15 partisans foram baleados pelos seus compatriotas], escreveu o Times.
A ruína de Benito Mussolini foi acompanhada a par e passo pelos italianos. Durante os anos que passou à frente dos destinos do país, a imagem do ditador foi mitificada, transformando-se numa entidade quase divina. Enquanto Hitler recebia cerca de um milhar de cartas do público por mês, Mussolini chegava a ter 1500 missivas por dia. Muitas eram pedidos de ajuda, mas um número considerável era de admiradoras femininas.
Agora, o público queria assistir à sua queda. Uma Itália cansada da guerra sentia-se enganada pelo antigo líder. A procura às fotos que retratavam o fim de Il Duce foi tanta que a edição mediterrânica do jornal das Forças Armadas norte-americanas, Stars and Stripes, esgotou, valorizando o preço do periódico em mais de 700 por cento.
As notícias viajaram até Berlim e chegaram ao bunker onde Hitler se refugiava. Temendo destino semelhante e em face de uma derrota iminente, Hitler suicida-se dois dias depois, a 30 de abril de 1945. Karl Dönitz era confirmado como o seu sucessor.
A rádio alemã anunciava a morte do Führer, «lutando até ao último suspiro contra o bolchevismo e pela Alemanha».
Com tiragens reduzidas, devido à falta de papel e tinta, os jornais alemães eram um símbolo de um país em ruína. Mas nem por isso deixaram de prestar uma última homenagem a Hitler. «O homem está morto. Ele caiu a lutar. Ele manteve-se fiel a si próprio. Queria o melhor para a sua gente, razão pela qual o amavam tanto».
Do lado dos Aliados, a BBC anunciava ao mundo a queda de Hitler. A notícia espalhava-se, mas a guerra continuava oficialmente a decorrer.
A vitória dos Aliados
Poucos dias depois, os alemães rendiam-se e a vitória dos Aliados é anunciada por Churchill.
Foram 17 os jornalistas autorizados a assistir à cerimónia de rendição da Alemanha, na condição de não reportarem a notícia até serem autorizados pelo Exército norte-americano. Edward Kennedy, correspondente da Associated Press (AP), percebeu que o embargo tinha motivos políticos e não militares.
Churchill e Truman tinham acordado atrasar a notícia para permitir que Estaline organizasse uma cerimónia de rendição em Berlim. Kennedy decidiu quebrar o voto de silêncio e reportar a notícia.
A SHAEF (Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force) e os meios de comunicação concorrentes criticaram a AP, que acabou por se desculpar e despedir Kennedy por noticiar aquele que seria o furo da década. “It was not a desire to make a ‘scoop’ that pushed me inexorably to my decision — I had already scored plenty of those. It was a conviction that my duty was to report the news. […] I have never regretted my decision”, escreveu Kennedy em agosto de 1948. [Não foi o desejo de ter um ‘furo’ que me empurrou inexoravelmente para a minha decisão – já tinha tido vários. Foi a convicção de que o meu dever era dar notícias […] Nunca me arrependi da minha decisão]
Se os ânimos tinham acalmado na Europa, no Pacífico e na Ásia a história era bem diferente. “A short time ago, an American airplane dropped one bomb on Hiroshima and destroyed its usefuelness to the enemy.” [Há pouco tempo, um avião americano lançou uma bomba em Hiroshima e destruiu a sua utilidade para o inimigo] anunciava Truman em agosto de 1945. Três dias depois, também Nagasaki era bombardeada.
O anúncio oficial do ataque a Hiroshima foi manchete nos jornais japoneses, que, nesta fase, se limitavam a apenas duas páginas, devido à falta de papel. A 11 de agosto, os jornais publicaram pela primeira vez que a arma utilizada pelos norte-americanos no bombardeamento se tratava de uma bomba nuclear. As edições fizeram ainda referência aos protestos do Governo japonês contra a nova bomba, considerada cruel, inumana e uma violação das leis internacionais.
Três dias depois do bombardeamento a Nagasaki o Imperador Japonês, Hirohito, anunciou a rendição do Japão através da rádio. O “Jewel Voice Broadcast” foi o programa escolhido. Hirohito nunca usou a palavra rendição preferindo a expressão cessar-fogo. O Japão viria a assinar a rendição em setembro, colocando um ponto final na Segunda Guerra Mundial.
Os Aliados celebravam o triunfo e Fernando Pessa, jornalista da secção portuguesa da BBC, testemunhou a parada da vitória, em Londres.
A «Voz de Londres» era tida como uma fonte segura do que realmente se passava na guerra, ao contrário das informações censuradas na Emissora Nacional e no Rádio Clube Português. A razão deste sucesso recaía também na voz do irreverente Fernando Pessa que ficou conhecido pela expressão: «A BBC fala e o mundo acredita.»
A partir de Londres o locutor narrava os últimos eventos num estilo próprio e nunca deixava passar a oportunidade de ridicularizar Hitler, a quem se referia, em tom jocoso, como «Senhor Hitler».
Do outro lado dos «bombardeamentos hertzianos» estava a Reichesrundfunk, em Portugal conhecida por Rádio Berlim. Os seus locutores não tinham o sentido de humor de Fernando Pessa nem a sua popularidade. As notícias pecavam pelo excesso de otimismo e as palestras não convenciam os portugueses de que o III Reich estava a ser vítima de uma conspiração aliada. Nos corredores do Ministério da Propaganda do III Reich era crucial encontrar um opositor à altura de Fernando Pessa. Alguém capaz de cativar as massas e de fazer passar a mensagem nazi.
Em 1944 surgiu uma nova voz na Rádio Berlim. Um locutor que acreditava ser capaz passar a mensagem nazi e rivalizar com a fama de Fernando Pessa. Chamava-se Alfredo de Freitas Branco e era um madeirense com título aristocrático: visconde do Porto da Cruz.
«Munique, cidade que sofre e chora»
Um ambiente muito diferente era vivido na Alemanha. «Londres, cidade que ri e canta… Munique, cidade que sofre e chora», relatava Manuel Rodrigues no Diário de Notícias. O correspondente português acompanhou uma visita organizada pelos norte-americanos para a imprensa internacional, que deu a conhecer os escombros da cidade alemã. No regresso a Portugal, Manuel Rodrigues visita Londres em festa, espantando-se com «a distância que vai da vitória à derrota».
O clima de celebração não apagava os horrores que iam sendo descobertos nas ruínas do império nazi. À medida que avançavam pela Europa, os Aliados deparavam-se com o cenário de terror dos campos de concentração e extermínio. A violência da descrição surpreendeu até a própria BBC que, numa primeira fase, decidiu não emitir a sua reportagem, receando uma quebra de credibilidade.
No início de maio, o Diário de Notícias e o Diário de Lisboa foram contactados pela Embaixada Britânica em Lisboa para visitar os campos da morte.
«Milhares de prisioneiros enchiam o vasto recinto. Os que não trazem as suas roupas próprias usam a farda listrada de penitenciários»,descreve Norberto Lopes na sua crónica de 17 de maio no Diário de Lisboa.
Dada a natureza das reportagens, muitos questionaram se se tratariam de uma arma de propaganda política. «Existe exagero nos relatos que têm sido publicados a respeito dos campos de concentração alemães? Pelo que diz respeito a Dachau posso afirmar que não», escreveu Manuel Rodrigues para o Diário de Notícias, a 15 de maio.
Esta e outras faces do conflito passaram para o pequeno e o grande ecrã, tornando a Segunda Guerra num dos conflitos mais retratados na cultura popular.io de Lisboa
Um dos testemunhos mais pungentes da guerra chegou pela caneta de Anne Frank. O seu diário, publicado em 1947, já após a sua morte e o final da Guerra, oferece um relato da guerra sob o olhar de uma menina de 13 anos.
Também Primo Levi viveu em primeira mão o Holocausto. O seu livro Se isto é um Homem foi inspirado nos onze meses que passou em Auschwitz.
O escritor Patrick Modiano nasceu dois meses depois do fim da Guerra, mas esta é um dos temas comuns a várias das suas obras. O Prémio Nobel da Literatura foi-lhe atribuído em 2014, por conseguir, através das suas histórias, evocar “the most ungraspable human destinies” [os mais incompreensíveis destinos humanos] e revelar a vida por detrás da ocupação Nazi na capital francesa.
Também o mundo da música foi buscar inspiração à guerra. Roger Waters, dos Pink Floyd, escreveu When the Tigers Broke Free sobre a morte do seu pai na Operação Shingle, em Itália.
Este conflito foi também a Guerra das ondas hertzianas. Nas trincheiras, ambas as frentes de combate expandiram as suas emissões para territórios de influência. Em 1942, os Estados Unidos da América iniciaram a transmissão a nível nacional com a estação de rádio pública Voice of America. Tal expansão chegou aos cidadãos das Filipinas.
A Segunda Guerra Mundial deixou marcas profundas no jornalismo de guerra e na cultura popular de todo o mundo.
Guerras
As bombas à noite no sofá
É a guerra que entra dentro de casa na América distante. O primeiro conflito vivido com fotojornalismo e TV, a Guerra do Vietname revoluciona a forma de fazer Jornalismo. E isso inspira manifestações, discursos e canções imortalizadas na cultura Pop
Aquando da eclosão do conflito, a TV é a grande inovação tecnológica. Nos EUA, uma das partes beligerantes, já 96 por cento dos lares têm televisão e os noticiários dão grande destaque à guerra. Contudo, a objetividade e o desequilíbrio na exposição das diferentes frentes de batalha vêm a alimentar sentimentos de revolta no povo americano.
O ribombar das explosões antes da declaração de guerra
A Segunda Guerra Mundial ainda estava acordada na mente das pessoas, mas o mundo já se estava a deparar com um novo conflito de dimensões angustiantes – a Guerra do Vietname.
José da Câmara Leme, repórter do Diário Popular, relatava a guerra que acabara de eclodir a partir do seu quarto de hotel em Saigão: «O ruído dos aviões e dos helicópteros e o ribombar das explosões tem sido ininterrupto. Tudo isso se passará em torno da cidade, que estará, desta forma, rodeada de um círculo de ferro e fogo». O único enviado especial português presente neste conflito deparou-se, aquando da sua chegada, com um cenário crítico.
Com o estalar da Segunda Guerra Mundial, o Japão invadiu a Indochina. Parte desse território, formado por Laos, Camboja e Vietname, viviam sobre o domínio francês, mas já ansiavam pela independência. Ho Chi Minh, que fundara o Partido Comunista da Indochina, liderava o processo de contestação ao domínio estrangeiro. O conflito mundial veio enfraquecer os franceses, que acabaram por fugir do território quando confrontados com as tropas japonesas.
No entanto, em 1945, com o fim da Segunda Grande Guerra, França (apoiada pelos EUA e pela URSS) decide recuperar o território perdido. Ho Chi Minh, que liderava a Liga para a Independência do Vietname (mais conhecida por Viet Minh), declarou guerra aos invasores. Mais tarde a sua causa seria apoiada militarmente pela China e pela União Soviética. Os acontecimentos do ano de 1950 iriam arrastar os EUA para o conflito.
Com o estalar da guerra da Coreia, os EUA consideraram que a capital vietnamita, Hanói, constituía-se apenas como mais um peão para o avanço da União Soviética, e decidiram ajudar militarmente os franceses. Um grande erro de cálculo por parte de França iria culminar na sua enorme derrota na batalha de Dien Bien Phu. Em 1954, os franceses ocupam a povoação, pensando que tal iria resultar no corte das rotas de abastecimento da guerrilha. No entanto, a habilidade tática dos Viet Minh levaria a melhor. A presença da francesa na Indochina acabara.
Com a derrota, os franceses foram obrigados a aceitar a independência do Vietname, Laos e Camboja na Conferência de Genebra.
Ficou igualmente definido que o Vietname passaria a ser divido em duas partes: o Vietname do Norte, comunista, governado por Ho Chin Minh, e o Vietname do Sul, dependente de França, governado por Bao Dai. Mas a independência do Vietname com o recurso a eleições não seria assim tão fácil. Os norte-americanos, com receio da vitória do comunista Ho Chin Minh e do avanço da União Soviética, planeiam um golpe militar em Saigão. Bao Dai foi deposto e o poder foi entregue ao líder católico Ngo Dinh Diem, comprometido com os EUA.
A partir de 1957, os norte-vietnamitas começaram a reativar as suas redes clandestinas no Vietname do Sul, e os primeiros indícios de violência contra as autoridades americanas surgiram. Ngo Dinh Diem cria a expressão “Viet Cong”, uma abreviação pejorativa de «comunistas vietnamitas», para denominar os guerrilheiros.
Em 1959, os Viet Cong viriam assumir o controlo de zonas rurais significativas do Vietname do Sul. Com este avanço, John F. Kennedy ordena o reforço de tropas na região. Ao mesmo tempo, a Casa Branca começa a duvidar do governo de Diem.
Quando os EUA entram na guerra
Quando Lyndon Johnson sobe ao poder, as condições para a entrada maciça dos EUA no conflito estavam criadas. O governo de Diem, corrupto e violento, rapidamente viraria a população do sul contra o regime. No final de 1960, um golpe militar contra Diem causa a morte de muitos civis. Os media, que até aqui tinham mostrado pouco interesse na guerra, viram no acontecimento um elevado atrativo noticioso. Pouco depois, o The New York Times enviava o seu primeiro repórter para Saigão, seguindo-se vários jornalistas da Reuters, da Agence France-Presse (AFP) e do The Times.
Em agosto de 1964, um tiroteio entre embarcações norte-vietnamitas e americanas no golfo de Tonquim despoletou o início dos bombardeamentos dos EUA ao Vietname do Norte.
Todavia, os Viet Cong não recuaram e endureceram a sua posição com várias retaliações. Ao aproximarem-se da base aérea e naval americana de Da Nang, Washington decidiu enviar dois batalhões de Marines para proteger a base. Os EUA estavam abertamente envolvidos no conflito. O número de press corps no sul do Vietname aumentou de 40, em 1964, para 419 no ano seguinte.
O Governo tinha crescente dificuldade em controlar a cobertura noticiosa, pelo que os media se tornaram na fonte primária de notícias sobre o conflito, ultrapassando os meios oficiais da Casa Branca.
A Guerra do Vietname foi o primeiro conflito bélico a ser televisionado, e a sua cobertura assumiria contornos sem precedentes. Na altura, a autonomia jornalística na cobertura de guerra era limitada: era impensável um repórter trabalhar atrás das linhas inimigas, pois seria acusado de traição. A guerra do Vietname veio quebrar esta regra.
Em janeiro de 1967, os norte-vietnamitas planearam o ataque a mais de cem cidades no Vietname do Sul, durante o feriado do ano novo lunar chinês (Tet). Esta ofensiva marcou o momento em que os norte-americanos se aperceberam da brutalidade da guerra.
Entretanto, o comandante das tropas americanas afirmara que «havia luz ao fundo do túnel».
A Cobertura televisiva
Em dez dias, os norte-americanos repeliram os Viet Cong, à exceção da capital imperial de Hue. Apesar do triunfo tático e militar dos americanos, os media focaram as suas reportagens na batalha de Hue e no ataque à embaixada norte-americana, e depressa a opinião pública despertou contra a tese de Washington, de que os Viet Cong estariam à beira da derrota. A partir desse momento, a cobertura mediática acerca da guerra passou a assumir um tom mais negativo e sensacionalista.
No outono de 1967, 90 por cento das notícias da noite eram dedicadas à guerra. Estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas assistiram a estas notícias na televisão todas as noites. O icónico jornalista Walter Cronkite foi um dos nomes responsáveis pela cobertura, ficando conhecido como “the most trusted man in America.”
Em 1968, depois de regressar do Vietname onde cobrira a ofensiva de Tet, partilhou com o público a sua perspetiva sobre a guerra.
“It seems now more certain than ever that the bloody experience of Vietnam is to end in a stalemate.” [Parece mais certo do que nunca que a experiência sangrenta do Vietname é para terminar num impasse]
Após a emissão, o Presidente Johnson terá, alegadamente, dito: “If I’ve lost Cronkite, I’ve lost Middle America.” [Se perdemos o Cronkite, perdemos a América Central Entretanto, o tema chegou a todo o mundo].
As populações, e as suas condições de vida, passaram a fazer parte da cobertura. A cobertura mediática dos combates, incluindo os desaires, com imagens cruas das vítimas e um relato fiel do terror da guerra, é apontada como causa do apoio decrescente dos norte-americanos à guerra.
Documentário The Quiet Mutiny, Charles Denton
Em consequência da queda na confiança pública, o Presidente Lyndon B. Johnson anunciou que não se iria recandidatar.
Os jornalistas não se coibiram de dar cobertura noticiosa aos protestos a nível nacional, ilustrando a forma como a guerra estava a ser experienciada nos Estados Unidos. A 4 de abril de 1967, precisamente um ano antes da sua morte, Martin Luther King profere o famoso discurso “Beyond Vietnam”.
Também John Lennon foi um ativista reconhecido em todo o mundo. As suas músicas Give Peace a Chancee Imagine foram usadas como hinos antiguerra.
Em 1968, o repórter português José da Câmara Leme testemunhava a intensificação da guerra. Mas o jornalista não ficava convencido quanto à eficácia das tropas americanas no terreno.
«O que se me afigurou verdadeiramente importante, isso sim, foi o caráter de coisa denunciada de que se revestiu todo o movimento (…) Já nem falo dos “very-lights” que nos projetavam em sombras gigantescas. Recordo principalmente a ação da artilharia» – Diário Popular, 15 de maio de 1968.
A intensificação dos protestos
A 15 de outubro de 1969, milhões de pessoas protestam contra a Guerra do Vietname, uma iniciativa que ficou conhecida como Peace Moratorium e foi seguida, um mês depois, da Moratorium March. Walter Cronkite chamou-lhe “historic in its scope. Never before had so many demonstrated their hope for peace.” [Nunca antes tantas pessoas manifestaram a sua esperança pela paz].O novo presidente, Richard Nixon, decide aumentar os bombardeamentos no Vietname do Norte.
Os protestos nas ruas americanas intensificavam-se e é criada a impressão de que os EUA não teriam condições políticas para prolongar a guerra. Depois de muitos avanços e recuos, o acordo de paz foi finalmente assinado em Paris a 23 de janeiro de 1973. Contudo, a guerra entre os dois Vietnames continuaria.
Até ao fim, o impasse
Em 1974, o Vietname do Norte lança uma ofensiva limitada, de modo a testar a reação americana. Apesar da crítica dos EUA sobre a violação do acordo de paz, a potência mundial não interviria. As autoridades de Hanói ordenam a última ofensiva em março de 1975, e a 30 de abril do mesmo ano as forças norte-vietnamitas entram em Saigão. A guerra finalmente acabara.
Todavia, vários anos depois, esta guerra continuaria muito presente nas mentes da população norte-americana.
A guerra do Vietname e as suas estórias deram origem a de mais de 750 romances e 250 filmes.
Um dos fatores mais relevantes da Guerra no Vietname foi a cobertura jornalística, sem qualquer tipo de censura. Se ainda não havia possibilidade de realizar reportagens em direto, o aparecimento dos satélites, em 1967, possibilitou aos repórteres o envio de informação em menos tempo do sudeste asiático para as televisões dos lares americanos. 300 a 400 repórteres, de vários pontos do mundo, estavam acreditados, mas só 30 a 40 acompanhavam em cada dia as unidades de combate. Foi também uma guerra que matou 63 jornalistas.
O conflito no Vietname dividiu a nação dos EUA, marcando a psique social da população e alterando a opinião pública sobre as instituições, o governo, o exército e, principalmente, os media. Em 1964, existiam 40 press corpsno Vietname. Em agosto de 1965, eram 419.
Guerras
Iraque no corpo da notícia
A Guerra do Iraque dá início a nova era da cobertura mediática: a partir da TV, milhares de pessoas assistem, em direto, aos bombardeamentos, de Washington a Bagdad. A guerra do Iraque fica conhecida por «guerra das coberturas jornalísticas»
Uma guerra que revoluciona o mundo e a forma como se faz jornalismo. Os repórteres, agora integrados nas milícias, trocam as armas pelas câmaras. As explosões e os tiros entram nas nossas salas de estar, e uma nova era mediática toma forma: a era do direto veio para ficar.
Na cobertura das guerras mediáticas do século XXI, habituámo-nos a ver o colete azul tão distinto e tão reconhecível da imprensa (press).
Mas a verdade é que os cenários de guerra nem sempre foram tão acessíveis para os jornalistas. Com o avanço das tecnologias e a introdução do direto nos conflitos, havia ainda algo em falta – algo crucial para informar o público sobre a perspetiva da guerra. Cobrir a guerra a partir da incorporação dos jornalistas no exército. Esta forma de fazer jornalismo ganhou a designação de embedded journalism.
Um evento que muda o jogo
Ainda no século XX, nos anos 90, a tensão entre os EUA e o Iraque era de cortar à faca. Com o virar do século, estas pressões estavam longe do fim. Mas nada fazia prever o verdadeiro terror que estava para vir. A 11 de setembro de 2001, o mundo assistia horrorizado ao ataque terrorista da al-Qaeda às torres do World Trade Center em Nova Iorque. A imagem de duas torres a arder numa nuvem de fumo preto e destroços marcaria o século XXI.
Alegando que os Estados Unidos estavam vulneráveis após o ataque terrorista às torres gémeas, George W. Bush virou as atenções para Saddam Hussein, acusando-o de apoiar a al-Qaeda e de continuar a fabricar armas. A prioridade de desarmar o Iraque estava criada. A 17 de março de 2003, o presidente Bush declara o fim da diplomacia e faz um ultimato a Saddam para sair do país. O líder iraquiano recusa-se, e a situação agrava-se.
A 20 de março, os EUA e as forças aliadas (que incluíam o Reino Unido, a Austrália e a Polónia) bombardeiam Bagdad. Num verdadeiro circo mediático, vários jornalistas já tinham partido para Bagdad, à espera que o ataque aéreo começasse. O início da guerra era transmitido em direto para todo o mundo.
Da RTP, Carlos Fino noticiava o bombardeamento em primeira mão a Portugal. «Estão a trovejar sobre Bagdad! Há claramente mísseis no ar. É um trovejar tremendo sobre Bagdad; no entanto as luzes continuam acesas. Os pássaros fogem e silenciam».
Pouco depois do início do bombardeamento aéreo a Bagdad, George W. Bush proferia as seguintes palavras: “The people of the United States and our friends and allies will not live at the mercy of an outlaw regime that threatens the peace with weapons of mass murder. We will meet that threat now, with our Army, Air Force, Navy, Coast Guard and Marines, so that we do not have to meet it later with armies of fire fighters and police and doctors on the streets of our cities.” [O povo dos EUA e os nossos amigos e aliados não vão viver à mercê de um regime criminoso que ameaça a paz com armas de assassínio em massa. Vamos encontrar com essa ameaça agora, com o nosso exército, Força Aérea, Marinha, Guarda Costeira e fuzileiros, para que não tenhamos de encontrá-la mais tarde com exércitos de bombeiros e polícias e médicos nas ruas das nossas cidades]
Entretanto, a notícia do começo da guerra espalhava-se pelos jornais.
Quando o jornalismo tradicional não chega
Contudo, com o estalar da guerra, novos obstáculos impunham-se aos jornalistas. Estes eram submetidos às press pools, um sistema que agrupa um número limitados de órgãos de comunicação e jornalistas que combinam entre si os seus recursos na recolha de informação. As informações são depois distribuídas pelos restantes repórteres e meios.
Através deste sistema, implantado pelas tropas norte-americanas desde 1983, uma questão fundamental colocava-se aos media. Como cobrir um conflito armado em que o acesso à informação era restrito?
Era necessária uma solução que permitisse uma maior liberdade aos jornalistas durante a guerra. Assim, foi introduzida uma nova forma de jornalismo: embedded journalism. Esta prática consiste em incorporar os jornalistas a um dos lados do conflito, sendo-lhes permitido acompanhar as tropas nas zonas de combate.
Se, nestes tempos conturbados, são muitas as questões que se colocam sobre a objetividade dos media, ainda mais argumentos se opõem a esta forma de fazer jornalismo.
Por um lado, o embedded journalism é necessário devido aos perigos de rapto e assassínio que os jornalistas enfrentam com cada vez mais regularidade em cenários de guerra. Por outro, este modo de fazer jornalismo produz uma perspetiva distorcida da guerra.
O argumento utilizado é simples: os jornalistas, ao pertencerem a um dos lados do conflito, ficam limitados a uma única visão da guerra, mais influenciada pela estratégia militar. Para além disso, os desenvolvimentos mais importantes durante um conflito são de natureza política, que acabam por não estar presentes no relato destes jornalistas.
A cobertura feita da guerra do Iraque através do embedded journalism mostrava uma faceta do conflito em nada contaminada, mas muito «higiénica». Nenhuma peça mostrava pessoas a serem abatidas e as imagens, apesar de dramáticas, não eram gráficas.
Entretanto, do lado político, a relação entre os aliados, em especial entre os EUA e o Reino Unido, era bastante satirizada nos media.
Tudo parece correr bem
No decorrer do conflito, as forças da aliança encontraram pouca resistência iraquiana e, a 9 de abril de 2003, os fuzileiros americanos derrubaram uma estátua de Saddam Hussein na Praça Firdos, rodeados de civis iraquianos em festa. O jornal The New York Times citava um iraquiano anónimo em lágrimas: “Touch me, touch me, tell me that this is real, tell me that the nightmare is really over.” [Toca-me, toca-me, diz-me que isto é real, diz-me que o pesadelo acabou mesmo]
Apesar da resistência de alguns grupos isolados de apoiantes de Saddam, as tropas norte-americanas conseguiram conquistar várias cidades no Iraque. A 1 de maio, o presidente Bush anunciava o fim das grandes operações de combate no país, a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln. Uma faixa com as palavras “Mission Accomplished” [Missão Cumprida] marcaria este célebre discurso de vitória.
No entanto, a situação no Iraque era tudo menos ideal. A violência nas ruas crescia de dia para dia, especialmente contra o novo governo iraquiano e contra as tropas aliadas que ocupavam o território. Em 2004, as perdas norte-americanas rondavam as 1000. Em 2007, o número já ultrapassava as 3000.
As imagens que chegavam dividiam as opiniões dos norte-americanos acerca da nova forma de jornalismo embedded. Enquanto a maioria apoiava esta nova forma de cobrir os eventos, outra parte da opinião pública americana preocupava-se, principalmente, que o embedded journalism fornecesse demasiada informação ao inimigo.
A 3 de julho de 2003, George W. Bush respondia a uma pergunta de um jornalista sobre o eventual apoio de França, Alemanha ou Rússia. “There are some who feel like the conditions are such that they can attack us there. My answer is, bring them on.” [Há pessoas que sentem que as condições são tais que eles conseguem atacar-nos lá. A minha resposta é, eles que venham]
Apesar da opinião favorável de muitos líderes europeus, o consenso geral na Europa e no Médio Oriente definia-se contra a guerra no Iraque.
A opinião pública contra a guerra começava a formar-se a grande escala. Don Rumsfeld, secretário da Defesa, argumentava, em abril de 2003, que a população recebia informação da guerra «em fatias». De facto, a cobertura focava-se muito no combate, e era caracterizada por diretos e peças sem trabalho de edição, ricas em pormenores.
Mais uma vez, o foco estratégico da guerra que o embedded journalism mostra é posto em causa. Até que ponto é legítimo informar o público sobre um conflito armado sem desvendar toda a estratégia militar das tropas? E, de acordo com o número crescente de mortes, os EUA aparentavam estar a perder a guerra.
Do lado dos jornalistas, contudo, esta nova forma de jornalismo constituía-se como uma revolução e uma mais-valia na cobertura mediática da guerra. Não era a primeira vez que os repórteres teriam acesso ao campo de batalha, mas era a primeira vez que se podia falar com eles e vê-los, em direto.
Era reportada uma nova perspetiva sobre a vida na frente de batalha, num tipo de cobertura altamente tecnológica nunca antes vista. O fascínio assomava-se à medida que o público descobria as refeições prontas a comer, os buracos feitos na areia para se dormir e a vida dentro dos tanques.
O conflito adensa-se
A 13 de dezembro de 2003, Paul Bremer, administrador da Autoridade Provisória da Coligação no Iraque, proferia as célebres palavras: “Ladies and gentlemen, we got him.” [Senhoras e senhores, apanhámo-lo]. Saddam Hussein era capturado.
O frenesim mediático foi instantâneo. Para além do número crescente de capas, as primeiras imagens do ex-líder iraquiano enquanto prisioneiro, bem como o seu exame médico, são divulgadas.
A 18 de outubro, Osama Bin Laden, o grande orquestrador do ataque ao World Trade Center, envia um vídeo endereçado ao povo iraquiano, que é divulgado pela Al Jazeera. O homem mais procurado do mundo continuava a monte.
“Any government set up by America will be a puppet and traitorous regime (…) Moreover, they have had a budget deficit for the third consecutive year. This year, the deficit reached a record peak of more than US $4.5 billion. Praise be to Allah.” [Qualquer governo estabelecido pela América será uma marionete e um regime traidor (…) Além disso, eles têm tido um deficit no orçamento pelo terceiro ano consecutivo. Este ano, o deficit atingiu um recorde de mais de 4.5 mil milhões de dólares. Louvado seja Alá]
Em março de 2004, cerca de 180 xiitas são assassinados num ataque suicida a santuários em Bagdad e Karbala. Os líderes religiosos acusam as tropas americanas de permitirem a concretização do massacre.
À medida que a situação se agravava no Iraque e as perdas americanas aumentavam, continuavam a não haver vestígios de armas nucleares. A opinião pública americana começava a criticar a administração de Bush.
As imagens e notícias de soldados americanos a maltratar iraquianos na prisão Abu Ghraib veio em muito contribuir para esta mudança de opinião pública. Por todo o mundo ouviam-se protestos contra o comportamento das forças americanas no Iraque. A ideia inicial de libertar o Iraque, que despoletou a guerra, começou a desvanecer-se.
Entretanto, o governo norte-americano cria uma comissão de investigação para analisar os ataques de 11 de setembro. Em julho de 2004, a comissão conclui que não havia provas que corroborassem a relação entre o governo de Saddam e a al-Qaeda. Uma das principais razões para os EUA iniciarem a guerra com o Iraque tinha caído por terra e deixado de ser válida.
Rapidamente o falhanço dos EUA em encontrar armas de destruição no Iraque, assim como a decisão de se entrar em guerra, começaram a liderar os debates políticos nos EUA.
A 16 de setembro, o The New York Times reporta que o Conselho Nacional dos Serviços Secretos dos EUA enviara um relatório pessimista a George W. Bush, alertando para a possibilidade de uma guerra civil no Iraque. Os media começavam a lançar dúvidas para o ambiente cada vez mais tenso.
“But for the President to accuse the press and others for being pessimistic, which he does commonly in his speeches isn’t that disingenuous when there’s reports from NIA which paint these sort of scenarios?” [Mas para o presidente acusar a imprensa e outros por serem pessimistas, como ele tão frequentemente faz nos seus discursos, não é insincero quando há notícias da NIA que pintam este tipo de cenários?]. A pergunta provinha de um jornalista e era dirigida a Scott McClellan, o secretário de imprensa da Casa Branca.
No segundo aniversário da queda de Saddam Hussein, em abril de 2005, milhares de iraquianos juntam-se numa manifestação pacífica a pedir a retirada das tropas americanas e que os prisioneiros iraquianos sejam libertados.
Meses mais tarde, o Governo norte-americano começava a ceder à pressão e a contradizer-se. A 27 de junho de 2005, Donald Rumsfeld dava uma entrevista à Fox News, admitindo que os EUA não iriam ganhar a guerra. “We’re not going to win against the insurgency. The Iraqi people are going to win against the insurgency. That insurgency could go on for any number of years…five, six, eight, 10, 12 years.” [Não vamos ganhar contra a insurgência. O povo iraquiano vai vencer a insurgência. Essa insurgência pode continuar por qualquer número de anos… cinco, seis, oito, dez, doze anos]
A partir daqui, o aparato sustentado pelo Governo cairia por terra. A 14 de dezembro de 2005, o presidente Bush admite a falha dos EUA no Iraque. “It is true that much of the intelligence turned out to be wrong. As President, I’m responsible for the decision to go into Iraq — and I’m also responsible for fixing what went wrong by reforming our intelligence capabilities.” [É verdade que muito dos Serviços Secretos se veio a provar errado. Como presidente, sou responsável pela decisão de invadir o Iraque – e também sou responsável por remediar o que correu mal através da reforma das capacidades dos nossos serviços secretos]
A 7 de junho de 2006, Abu Musab al-Zarqawi, o líder da campanha de insurgência iraquiana da al-Qaeda, é assassinado num ataque aéreo levado a cabo pelas forças iraquianas e americanas. Zarqawi era responsável por grande parte da violência sentida durante a guerra, e procurou dividir os sunitas e xiitas para prolongar o conflito.
Em setembro de 2006, o jornal The New York Times divulga os pormenores de um relatório secreto dos serviços secretos dos EUA, que garantia que “the Iraq war has made the overall terrorism problem worse.” [a guerra do Iraque tem agravado o problema do terrorismo]
Entretanto, a questão sobre o embedded journalism volta a vir à tona. Quando a CNN transmite uma peça que mostra um grupo de insurgentes a abrir fogo sobre as tropas norte-americanas, a estação televisiva é acusada de disseminar propaganda contra o inimigo.
Com o cenário cada vez mais negro para os EUA, em novembro de 2006, o secretário da Defesa Donald Rummsfeld demite-se.
No mês seguinte, Saddam é executado. Um vídeo gravado através de um telemóvel é divulgado e chega aos media. A execução causa muita controvérsia. Em parte, devido à divulgação do vídeo, e também devido à data da execução: um importante feriado muçulmano celebrado pelos sunitas. A morte apressada e violenta de Saddam Hussein torna-o num mártir árabe para muitos no Médio Oriente.
Plano B
Pouco depois de um mês do anúncio do Grupo de Estudo do Iraque ter revelado que a situação no país é «grave e a deteriorar-se», George W. Bush anuncia a mudança de estratégia militar do governo. “America will change our strategy to help the Iraqis carry out their campaign to put down sectarian violence and bring security to the people of Baghdad. (…) So I’ve committed more than 20,000 additional American troops to Iraq.” [A América vai mudar a nossa estratégia para ajudar os iraquianos a levar avante a sua campanha para pôr um fim à violência sectária e trazer segurança ao povo de Bagdad. (…) Então, eu comprometi-me a enviar mais de 20.000 tropas americanas adicionais para o Iraque]
E rapidamente o novo plano de Bush enchia as manchetes dos jornais norte-americanos.
Em maio de 2007, George W. Bush veta, pela segunda vez no seu mandato enquanto presidente, a legislação do Congresso a estabelecer a retirada das tropas americanas do Iraque até dia 1 de outubro. Uma sondagem feita pela CNN revela que 54% dos americanos estava contra o veto, e uma semana depois, 144 legisladores iraquianos assinam uma petição a pedir um prazo para a retirada das tropas americanas do Iraque.
Em junho de 2007, o ministro iraquiano do Interior declara que o número de corpos descobertos em Bagdad aumentou de 441 em abril para 726 em maio. Entretanto, os militares americanos mudavam as suas alianças, fornecendo armas a alguns grupos árabes sunitas que combatiam contra as tropas americanas.
A 26 de junho, a CNN anuncia que mais de 70% dos americanos dizia estar contra a guerra, além de 38% de republicanos que se opunham ao conflito.
A 11 de setembro de 2007, o General David Petraeus reporta o progresso da nova estratégia militar no Iraque. Quando perguntado pelo Comité dos Serviços Armados do Senado se a guerra do Iraque está a tornar a América mais segura, o general responde: “I don’t know, actually.” [Eu realmente não sei]. Dias mais tarde, o presidente Bush anuncia uma redução de tropas no Iraque até julho de 2008.
Em 2008, a campanha presidencial aproximava-se. Hillary Clinton, senadora de Nova Iorque, afirma num debate democrático na Carolina do Sul que traria para casa as tropas americanas dentro de 60 dias. O senador John Edwards ataca Clinton e Barack Obama, o então senador de Illinois. Obama responde: “I want to be as careful getting out as we were careless getting in.” [Eu quero ser tão cuidadoso a sair como fomos tão descuidados a entrar]
Entretanto, a situação no Iraque continua a intensificar-se. A 7 de fevereiro de 2008, as forças americanas e iraquianas divulgam imagens de crianças a serem treinadas e armadas pela al-Qaeda. No mesmo dia, Angelina Jolie, enquanto embaixadora da boa-vontade do Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas, visita o país, onde cerca de 4.2 milhões de residentes fugiram das suas casas.
E a máquina mediática continuava bem oleada. As capas da imprensa a questionar o governo e toda a guerra proliferavam, tornando a guerra do Iraque no conflito mais mediático de sempre.
Em setembro de 2008, as forças americanas fazem algum progresso e ocupam a província Anbar, entregando o controlo da segurança da região à polícia iraquiana. No entanto, o General David Petraeus recusa a chamar a este avanço uma vitória: “This is not the sort of struggle where you take a hill, plant the flag and go home to a victory parade.” [Esta não é o tipo de luta em que se toma uma colina, planta-se uma bandeira e vamos para casa numa marcha de vitória]
Em outubro de 2008, as tropas americanas atacam um edifício na fronteira do Iraque com a Síria, matando 8 pessoas. A Síria alega que os mortos eram civis, enquanto os militares americanos defendem que eram todos militantes, incluindo um líder da al-Qaeda no Iraque.
Entretanto, milhares de pessoas juntam-se numa manifestação contra o ataque americano em Damasco. Os media ocidentais reportam que as pessoas a protestar fazem parte de um evento ensaiado pelo governo sírio.
O fim vislumbra-se no horizonte
Em novembro de 2008, Barack Obama ganha as eleições. O novo presidente cumpre a promessa de acabar com a guerra no Iraque, e é acordado com o governo iraquiano que as tropas americanas podem ficar até 31 de dezembro, a data de fim do mandato das Nações Unidas. Ficou ainda acordado que, a partir de 2009, as tropas americanas ficariam de se retirar até 2011.
No mesmo mês, foi lançada, em Nova Iorque e outras cidades americanas, um jornal falso do The New York Times, com uma capa sonante a informar que a guerra tinha acabado. A iniciativa foi levada a cabo por um promotor de filmes, três funcionários do Times e um professor de arte.
A 14 de dezembro de 2008, na sua última visita a Bagdad, George Bush torna-se um alvo fácil do jornalista iraquiano Muntazer al-Zaidi, que lhe atira os seus sapatos – um gesto considerado muito desrespeitoso no Médio Oriente – gritando “This is a gift from the Iraqis; this is the farewell kiss, you dog!” [Este é um presente dos iraquianos; isto é um beijo de despedida, seu cão!]
A 27 de fevereiro de 2009, Barack Obama anuncia o seu plano da retirada de tropas americanas do Iraque. “What we will not do is let the pursuit of the perfect stand in the way of achievable goals. We cannot rid Iraq of all who oppose America or sympathize with our adversaries. We cannot police Iraq’s streets until they are completely safe, nor stay until Iraq’s union is perfected…” [O que nós não iremos fazer é deixar que a procura pela posição perfeita se meta no caminho dos objetivos alcançáveis. Não podemos livrar o Iraque de todos os que se opõem à América ou simpatizar com os nossos adversários. Não podemos policiar as ruas do Iraque até estarem completamente seguras, nem podemos ficar até que a união do Iraque seja perfeita…]
A retirada das tropas americanas estende-se por 19 meses, e não em 16 meses, como Obama anunciara. Além disso, o presidente evita dizer se os EUA venceram a guerra do Iraque, sublinhando apenas que não quer pensar no passado.
Mas a violência continua
Contudo, a violência em Bagdad volta a despontar. Em março de 2009, insurgentes realizam um ataque-suicida, ceifando a vida a mais de 60 pessoas.
A 7 de abril, Obama faz uma visita surpresa às tropas americanas no Iraque. O presidente diz aos jornalistas que, enquanto pensa numa solução para o Afeganistão, não quer que os americanos esqueçam o que ainda falta fazer no Iraque.
Em junho de 2009, as tropas americanas começam a retirar-se do Iraque. Nuri al-Maliki, o primeiro-ministro iraquiano, celebra o evento, declarando-o o Dia da Soberania Nacional. Mas a retirada dos americanos não seria um processo fácil. Vários confrontos são despoletados por todo o Iraque, acabando em consequências desastrosas. O governo iraquiano aumenta os seus esforços para combater os insurgentes, lançando várias operações antiterror.
No final de dezembro de 2009, os legisladores iraquianos arranjam um acordo que permite a realização de eleições no início de 2010. Os militares americanos, que cronometravam a sua saída com as eleições, receberam a notícia com alívio.
Em março de 2010, as eleições no Iraque realizam-se, dando a vitória ao então primeiro-ministro Nuri Kamal al-Maliki. As eleições foram consideradas um marco histórico nos planos da retirada das tropas americanas do Iraque.
Contudo, os problemas não paravam aqui. Em outubro de 2010, a Wikileaks publicou online cerca de 400.000 documentos secretos do exército americano .Os documentos não mudaram a opinião geral que o público retinha da guerra, mas revelaram que as perdas civis eram mais altas do que o número divulgado publicamente, e que as forças americanas ignoraram o recurso à tortura pelas forças de segurança iraquianas.
Em julho de 2011, os militares americanos anunciaram que o Iraque e os EUA se encontravam em negociações para manter vários milhares de tropas americanas no Iraque depois de dia 31 de dezembro. No entanto, ambas as partes não conseguiram chegar a um acordo, e em outubro Barack Obama revela que os 39.000 soldados ainda em território iraquiano iriam sair do país até ao final do ano.
O exército americano declarou formalmente o fim da missão no Iraque numa cerimónia em Bagdad a 15 de dezembro.
A guerra do Iraque seria o grande conflito do século XXI. Ao decorrer numa era caracterizada pela tecnologia, o conflito ficaria conhecido por «guerra das coberturas jornalísticas», e iria celebrizar repórteres e cinegrafistas.
O colete «press» à prova de bala marcaria um confronto e o mundo jornalístico. A necessidade de melhor informar o público falou mais alto.
O Mundo Depois dos Factos
O Tempo dos Factos
Durante décadas, o jornalismo assentava numa promessa: os factos vinham primeiro. Mas não vinham sozinhos. Eram trabalhados, confirmados, contextualizados… o tempo fazia parte da notícia. E o tempo criava confiança. Esse processo criou um centro, um lugar reconhecível. Uma redação, uma mesa de texto… era ali que se decidia o que merecia ser notícia e porquê. Esse centro começou a deslocar-se, com novas tecnologias, novos ritmos, novas formas de consumir informação. E numa tarde qualquer, sem que déssemos por isso, deixou de existir. – Inês Paixão
O Mundo Depois dos Factos
Amanhecer
O NewsMuseum abriu portas à meia-noite de 25 de abril de 2016… uma data que não foi escolhida por acaso. Era um gesto simbólico, num tempo em que a liberdade de imprensa nunca pode ser assumida como permanente. É aqui que esta história começa. Antes de ser museu, o NewsMuseum foi apenas uma ideia… uma vontade suspensa no tempo. Para percebermos como chegamos até aqui, precisamos de recuar até ao momento em que este lugar era ainda uma promessa por cumprir. – Inês Paixão
João Paixão – No encontro das equipas da LPM no Natal de 2014, levamos o teaser. É o primeiro momento público do NewsMuseum. As equipas da LPM iriam criar toda a experiência: os conteúdos, os visuais, o multimédia, o digital… Nesse momento, sem aviso prévio, requisitámos uma equipa de mais de 20 pessoas para os próximos 16 meses. Tratamos de formalizar o NewsMuseum através de uma associação privada sem fins lucrativos. A premissa é não depender de qualquer apoio financeiro público. Usamos o nome de Acta Diurna, o primeiro jornal a existir na época da Roma Antiga.
Desenhamos o primeiro plano da experiência. Com este dossiê, vamos fazer um conjunto de contactos para definirmos potenciais localizações. O Media Age Experience estava no terreno!
Sintra-Lisboa, Sintra-Lisboa… 12 meses até à abertura. Em Lisboa, reuniões de trabalho constantes. Olhamos cada sala de alto a baixo. Atualizamos, em ficheiro colaborativo, as novas imagens, os conteúdos, as demos. Em loop constante, chegamos aos 80% de cada espaço. Em Sintra, começa a preparação de obra e a instalação.
Fomos pesquisando e produzindo milhares de conteúdos. Todos esses conteúdos seriam integralmente disponibilizados no digital e animados para o espaço. O mapa de conteúdos do NewsMuseum é dividido em três tipos de visitantes: os Swimmers, os que nadam por cima, divertem-se durante uma hora e passam para outra; os Skimmers, que com o tubo observam o fundo, por exemplo o projeto educativo; e os Divers, que com a sua botija, ficam longos tempos na profundidade.
Chegamos aos últimos três meses completamente satisfeitos. Estamos nos 100% da experiência pretendida. Fazemos visitas prévias especiais com as pessoas que nos ajudaram. Temos o guia fechado e o primeiro visitante confirmado: o Presidente da República, recém-empossado. Tudo pronto para o visitante nº 1 do NewsMuseum.
Rodrigo Moita de Deus – Nós olhamos para o todo, mas o NewsMuseum é uma soma de detalhes. Detalhes, mais detalhes e pormenores… Muitos pormenores. Parar, ver e ouvir. Todos os detalhes contam histórias e a soma dos detalhes conta a história. Como um carreiro para irmos seguindo. E nada, mesmo nada, é por acaso. Tudo foi debatido, discutido, disputado e contestado. Da prancha de desenho das diferentes equipas aos curadores e à direção. Contamos com as ideias e os contributos de dezenas de pessoas e profissionais. Fomos sempre os nossos mais exigentes críticos.
Todos foram somando, todos foram acrescentando. Como esta torre de Babel: 70 televisões do mundo inteiro a emitir em simultâneo. Um reflexo da cacofonia dos media nestes tempos. Notícias diferentes, em diferentes países, em diferentes línguas, muitas vezes contando diferentes versões.