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Num mundo cada vez mais conectado, a informação circula em alta velocidade, e distinguir entre o que é verdadeiro e o que é falso tornou-se uma habilidade essencial.

Quiz Fake News

Bem-vindo ao nosso quiz sobre Fake News! Num mundo cada vez mais conectado, a informação circula em alta velocidade, e distinguir entre o que é verdadeiro e o que é falso tornou-se uma habilidade essencial.

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Luís Lupi

Luís Lupi foi “jornalista, espião e empresário”. Foi o fundador da agência noticiosa portuguesa Lusitânia. Foi correspondente de agências estrangeiras em Portugal e autor de diversos livros sobre as ex-colónias portuguesas, publicados entre as décadas de 50 e 70 do século XX.

Luís Lupi foi “jornalista, espião e empresário”. Foi o fundador da agência noticiosa portuguesa Lusitânia. Foi correspondente de agências estrangeiras em Portugal e autor de diversos livros sobre as ex-colónias portuguesas, publicados entre as décadas de 50 e 70 do século XX.

DAS ORIGENS A REPRESENTANTE E CORRESPONDENTE EM PORTUGAL

Luís Caldeira Lupi nasceu no dia 27 de dezembro de 1901, em Lisboa. Contudo, cedo foi para a antiga Lourenço Marques, com 2 anos apenas, por o seu pai ter sido nomeado diretor de Tráfego dos Caminhos de Ferro de Moçambique.

Iniciou os seus estudos na antiga província do Transvaal Oriental, no colégio de Lydenburg, de padres irlandeses, onde aprendeu a língua inglesa. Em 1911, Luís Lupi muda-se para Inglaterra, aos cuidados de um amigo da família – Leo Weinthal, proprietário e diretor do jornal “The African World”.

Já havia estalado a Primeira Guerra Mundial (1914-18) quando Luís Lupi regressa a Moçambique para trabalhar como agrimensor. Ao mesmo tempo, trabalha como correspondente no “The African World”, uma ligação que manteria até ao fim da sua vida. Escreve ainda alguns artigos para “O Africano”, para o “The Lourenço Marques Guardian” e para o “Moçambique”. Um dos seus artigos mais controversos, sobre o “magaíça” – os trabalhadores moçambicanos que trabalhavam nas minas de ouro da África do Sul, em regime de semiescravidão – será publicado por Reinaldo Ferreira, conhecido pelo pseudónimo de “Repórter X”. Para além de diversos artigos, Lupi fará várias traduções, entrevistas e adaptações de publicações anglófilas para a revista de Reinaldo Ferreira.

Em 1927, volta para Lisboa. Com uma curta carreira no jornalismo, mas fluente em inglês e com contactos com o mundo anglo-saxónico, Lupi procura tornar-se oficialmente jornalista. Continua como colaborador da Agência Geral das Colónias e do “Jornal Europa”, bem como correspondente de agências e jornais ingleses. Esta ligação com o Reino Unido também lhe virá a valer o epíteto de “espião” no futuro. Tal fama virá a acentuar-se com o início da II Guerra Mundial, época em que a capital portuguesa está dividida entre anglófilos e apoiantes da Alemanha.

Em 1930, torna-se codiretor e, posteriormente, diretor da revista “Portugal Explorador”, uma edição mensal de discussão da atividade comercial com o estrangeiro, sob a égide dos ministérios das Colónias e dos Estrangeiros. Lupi assinará o cabeçalho da revista até abril/maio de 1931. O número 4 de “Portugal Explorador”, a primeira edição em que aparece o nome de Luís Lupi, elogia o trabalho do General Norton de Matos em Angola, revelando a cumplicidade de Lupi com um dos principais estrategas do colonialismo português durante a Primeira República e candidato à Presidência da República, em 1949. O jornalista acumula vários cargos e, ainda nesse mesmo ano, também se torna correspondente do “Comércio da Guiné”, o novo jornal publicado em Bissau.

A primeira agência telegráfica a colaborar com os jornais portugueses foi a Havas, em 1866. A agência de notícias Havas teve uma posição privilegiada no mercado português até ao ano de 1930, data a partir da qual se viriam a realizar acordos com outras agências mundiais — Reuters, Associated Press e Wolff (2). Lupi começa a colaborar com a Associated Press em 1932, acumulando com o trabalho para a Reuters. Manterá a colaboração com a Reuters até ao final de 1939, ano em que cessa contrato na perspetiva de se dedicar inteiramente à Associated Press.

Pouco depois da sua vinda para Lisboa, Lupi envolve-se na Maçonaria, o que também marcará a sua ficha política durante vários anos. Com o nome simbólico de Karl Marx, Luís Lupi é iniciado na Maçonaria, a 14 de julho de 1929, mas a sua ligação dura pouco tempo. A 21 de novembro de 1931, Lupi é exonerado por alegada falta de pagamento de quotas. No entanto, a polícia política continua a identificá-lo como maçon durante vários anos. Admirador de Salazar, não deixa de ter problemas com o Regime: chega a ser detido pela polícia política em 1936, segundo a PIDE, por ter dado informação “inconveniente” a Londres.

Em junho de 1938, Lupi tenta inscrever-se no Sindicato Nacional de Jornalistas. Contudo, uma denúncia de que Lupi enviava para o estrangeiro notícias prejudiciais a Portugal divide a classe. O processo de adesão prolongar-se-ia por cerca de três anos. Assim, apenas aos 40 anos de idade, Lupi torna-se oficialmente jornalista, quando o seu pedido de adesão ao Sindicato Nacional dos Jornalistas é finalmente aceite.

Lupi colaborou com a Sociedade de Geografia e versou sobre assuntos africanos e de política internacional. Foi ainda autor de diversos livros sobre as ex-colónias portuguesas, publicados nas décadas de 50 e 70 do século XX, bem como sobre as suas memórias em três volumes (1971/1973). Entre as suas obras, destacam-se “Achtung! – uma civilização ameaçada” (1936), de teor anticomunista; “Portugal tem o dever de salvar África para a Europa” (1951), em que defende a ideia das então províncias portuguesas como “oásis afro-europeus”; a publicação de “Quem incendiou o Congo” (1960), sobre os acontecimentos no Congo Belga na época da independência, que provocaram vítimas e refugiados que foram acolhidos em Angola.

LUSITÂNIA: UMA AGÊNCIA DE NOTÍCIAS EM PORTUGAL

Muito está por contar sobre as agências de notícias em Portugal. Existem referências a agências de notícias em Portugal durante os anos 20 e 30 do século XX, tais como a “Latino-Americana”, criada por Virgínia Quaresma em 1921, ou mesmo a “Radio” ou a homónima da “Lusitânia” de Lupi (2).

Seguindo o exemplo de outros países da Europa, Lupi tenta criar uma agência de notícias em Portugal. Lupi estava descontente com as notícias que eram publicadas através de agências estrangeiras nos jornais das ex-colónias, pelo que, ainda durante os anos 30 do século XX, começa a projetar a criação de uma agência de informação. Em 1939, envia um projeto de criação da agência de notícias ao Secretariado da Propaganda Nacional. Enquanto não recebia uma resposta, Lupi foi obtendo alguns apoios para o seu projeto junto do “Diário de Notícias”, do “Século” e do “Diário de Lisboa”. Lupi defendia a criação de uma agência de notícias portuguesa, uma agência cooperativa constituída por todos os jornais portugueses da metrópole das colónias, pois considerava que a maioria dos jornais portugueses era preenchida pelos monopólios do noticiário estrangeiro, cujas informações eram influenciadas por interesses externos ao país.

Apesar da inimizade com António Ferro que o afastaria do Secretariado da Propaganda, a 30 de dezembro de 1944, com o apoio de Marcelo Caetano e da Sociedade de Propaganda de Portugal, Lupi funda a Lusitânia, apontada como a primeira agência de notícias portuguesa.

Marcelo Caetano atribuiu um subsídio para a formação da agência. Lupi aceitou o apoio à revisão de tarifas das telecomunicações por parte do Ministério das Colónias, sendo que a responsabilidade pelos restantes encargos e riscos ficaram a cargo de Lupi. Aliás, a agência funcionou, física e funcionalmente, integrada na Sociedade de Propaganda de Portugal. Considerou-se que a Lusitânia deveria ser “exclusivamente devotada” aos interesses da Nação, independente da influência de partidos ou grupos dominantes, estando sujeita à influência do ministro Marcelo Caetano, enquanto membro do Governo.

Logo após iniciar o serviço noticioso da Lusitânia, Lupi distribui uma carta a todos os jornalistas e correspondentes da agência: seria o primeiro livro de estilo de que há registo na Imprensa portuguesa.

No primeiro ano de existência, a Lusitânia cumpre um papel muito importante nos jornais das então colónias portuguesas, chegando mesmo a ultrapassar a presença da Reuters, há muito estabelecida em África.

Estima-se que entre a data da inauguração da agência e o ano de 1951, a Lusitânia terá enviado para o antigo Ultramar um total de 152 398 notícias, através da Companhia Portuguesa Rádio Marconi. No entanto, Lupi não viria a atingir o objetivo de transmitir uma imagem positiva de Portugal para a opinião pública internacional, sobretudo a norte-americana.

Após o 25 de Abril de 1975, a Lusitânia e a ANI – Agência de Notícias e Informação (concorrente direta da primeira, fundada por Dutra Faria, em 1947) extinguem-se, por estarem vinculadas aos ideais do Estado Novo. A Lusitânia é extinta a 18 de novembro de 1974. Durante o “Verão Quente de 1975” é criada a ANOP – Agência Noticiosa Portuguesa, que nas palavras de Luís Paixão Martins será “a primeira agência com relevância nacional e prestígio internacional”.

A Lusitânia encerra a sua atividade e Luís Caldeira Lupi, nacionalista convicto e feito Visconde de Baçaim pelo Papa João XXIII, falece em 1977, em Madrid. A agência Lusitânia ficará até aos dias de hoje conotada com a colaboração com o Estado Novo, mas, perante o Regime, Lupi nunca perderia a fama de conspirador. A análise da vida de Lupi e da agência à qual está intimamente ligado são muito importantes para a compreensão da história das agências noticiosas portuguesas.

Referências:

  1. Fonseca, W.; Rosa, G.P. (2023) Jornalista, Espião e Empresário. A Vida Aventureira de Luís Lupi nos Corredores do Estado Novo. Lisboa: Âncora Editora.

  2. Sales, J. das C.& Mota, S. (2021) As agências de notícias portuguesas/ em Portugal: um contributo para a sua história. Livros ICNOVA, (2). Obtido de https://colecaoicnova.fcsh.unl.pt/index.php/icnova/article/view/18

  3. https://www.castroesilva.com/store/sku/1604PG030/viewItem.asp?idProduct=22329&image=3

O bacalhau é um mundo que move Ílhavo

Aveiro. Milhares de homens rumaram ao Atlântico Norte. A pesca continua a ser dura, mas o salário compensa.

No Museu Marítimo de Ílhavo preserva-se a memória da faina bacalhoeira FOTO RUI DUARTE SILVA
No Museu Marítimo de Ílhavo preserva-se a memória da faina bacalhoeira FOTO RUI DUARTE SILVA

Jeremias Vilarinho Ferreira, 83 anos, “nascido, batizado, casado e natural da Gafanha da Nazaré”, tem um amor à vida que celebra a cada frase. Está reformado de 50 anos na pesca, 19 na faina do bacalhau. “Primeiro fui moço, verde, que é o primeiro ano, depois maduro, pesquei quatro anos à linha na Gronelândia e na Terra Nova”, conta sobre a ponte que liga ao “Santo André”, arrastão transformado em museu vivo, no Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré, Ílhavo. Cumprimenta Manuel Louvado, também ele pescador dos tempos duros do bacalhau. Andavam nos dóris, pequenos botes de madeira que eram largados aos 60 do navio principal com um homem a bordo, que lançava a “linha de mão” com 900 anzóis. Enchiam o barquito de peixe e regressavam ao navio principal 10 horas depois, para a segunda parte do trabalho.

“Você não se acredita, mas ainda hoje sonho que ando no mar”, desabafa Manuel. Tem 75 anos, nasceu na Murtosa, mas veio para Ílhavo “pequenito”, para o bairro dos pescadores, já o pai era contramestre. Começou no “Allain Villiers” com 16 anos: “Andei à linha até 1968, depois é que fui para o arrasto no navio maior da frota bacalhoeira, o ‘David Melgueiro’”, conta enquanto percorremos o navio que a autarquia de Ílhavo musealizou. Depois de regressarem ao navio grande, ainda amanhavam, escalavam, tiravam caras e samos ao bacalhau. O descanso era pouco, não sem antes comer a chora, a sopa de cabeças de bacalhau que aconchegava o estômago dos velhos pescadores.

“Ainda hoje gosto de uma boa chorinha.” No enorme porão do “Santo André” preserva-se a memória da salga. Nesta enorme barriga, situada abaixo do nível do mar, reduzia-se o tamanho do enorme monte de sal que embarcava com a tripulação no início da viagem. Era aqui que terminava o ciclo do bacalhau, num ramerrame que podia durar meses, dependendo do estado do mar e do peixe que se conseguia apanhar. “Ir ao bacalhau agora é como quem vai dar um recado. Nós chegávamos a fazer viagens de nove meses. Eles agora vão com contratos de três meses”, argumenta Jeremias. O frio e o isolamento, além do trabalho duro, eram o dia a dia de milhares de portugueses na Terra Nova. “Em 1960 o salário era 12 ou 13 contos em seis meses de mar. Depois chegávamos a terra e não havia trabalho a bordo. E era o inverno cá.”

Manuel e Jeremias são dois dos milhares de homens que se fizeram ao mar à procura de melhor vida. Tal como eles, muitos escaparam à tropa e à Guerra Colonial nos mares do Norte.

“Só no período do Estado Novo há 22 mil homens, de Vila Praia de Âncora até à Fuzeta, que foram ao bacalhau. A nós interessa-nos recolher esses depoimentos”, vinca Nuno Costa, diretor do Museu Marítimo de Ílhavo, por onde já passaram este ano 65 mil visitantes. O aquário dos bacalhaus, um dos pontos altos da visita, mostra dezenas de peixes da espécie Gadus morhua, o bacalhau que é pescado e consumido pelos portugueses.

Cativar a “malta nova”

O armador Aníbal Paião, administrador da Pascoal & Filhos, conhece-o bem. O empresário, economista, filho, neto e sobrinho de gente ligada à faina do bacalhau cresceu a bordo dos navios. Hoje tem uma frota de dois naviosfábrica — o “Cidade de Amarante” e o “Pascoal Atlântico” -, que por estes dias navegam no Atlântico Norte. São dois dos nove naviosfábrica para a pesca do bacalhau por arrasto que Portugal tem. Os nove navios portugueses estão todos sedia dos no Porto de Aveiro e “produzem anualmente entre 20 e 25 mil toneladas de pescado, de forma sustentável”, diz Aníbal Paião. Pescam na Noruega, em Svalbard, onde se localizam os melhores pesqueiros de bacalhau do mundo, e no Canadá. A bordo seguem sempre observadores, monitorizando todo o processo. “O stock está em ótimo estado de conservação”, assegura o empresário, que é também dirigente associativo e presidente dos Amigos do Museu Marítimo de Ílhavo.

A frota portuguesa abastece cerca de 2% do consumo nacional. “Nunca fomos autossuficientes.” Importamos bacalhau da Noruega, Islândia e Canadá. Esta é uma das questões do sector, a braços com falta de mão de obra. No Cais dos Bacalhoeiros, onde está sediada grande parte das empresas, sucedem-se os anúncios de trabalho. O empresário garante que “o rendimento médio desta pesca é compensador”. O pessoal de mar recebe uma percentagem da receita bruta do navio. “Pode ir, por viagem, de milhão e meio a dois milhões e meio de euros. A mestrança, contramestre e cozinheiro estão a ganhar 1% sobre estes valores. Eles recebem só de receita bruta €20 mil, mais o salário, subsídios”, explica. Os navios saem duas a três vezes por ano. Aníbal Paião conta que, há uns anos, muitos chegavam a terra e compravam um carro com o que tinham ganhado. Não resiste a piscar o olho: “É muito importante que esta malta nova venha para os navios.”

Um mapa na mão e uma estrada em branco

Pelo país. Resumo de um ano de viagens em reportagem por todo o país

Um mapa na mão e uma estrada em branco

E de repente tens um mapa de Portugal na mão e uma grande estrada em branco. O que fazer? Jornalismo.

Foi assim que começou, há um ano, o desafio de fazer reportagem, seguindo a toada da exposição que marcou os 50 anos do Expresso. À medida que os 50 múpis com as primeiras páginas do jornal avançavam pelo país, fazíamos reportagens em cada um dos distritos. Durante nove meses, a cada duas semanas estávamos mergulhados num território diferente. Levávamos uma, duas ou três conversas marcadas, e não tardávamos a encontrar outros motivos de reportagem. E foi um desassossego.

Em Santarém comprámos um mapa. Era preciso ver Portugal inteiro fora do retângulo falante do GPS. Não foi à primeira que o encontrámos, os mapas são espécies em extinção. Numa estação de serviço numa rotunda movimentada do Ribatejo ali estavam, finalmente, num expositor. Pedimos um à jovem que estava na caixa. Respondeu que não tinha, e eles ali acima da cabeça que dizia não. Espantou-se quando descobriu que, afinal, vendia mapas. “Nem sabia que isso estava aí.” Seguimos pelo país todo com o mapa de papel, assinalando os lugares e as pessoas que encontrávamos, sem dispensar o GPS. Seguimos entre passado, presente e futuro.

Em Viseu, fomos saber como vão à escola as crianças que vivem em zonas remotas ou porque se faz fila para o teatro numa aldeia. Em Vila Real, como nasceu um museu a partir da paixão de um padre por moe das antigas, em Elvas um centro de arte contemporânea que disputa atenção com os grandes museus. Na ilha da Madeira, o que transporta o seu linguajar. Em Viana do Castelo, como o ouro popular se entranhou nestas mulheres e como os estaleiros se tornaram uma “fábrica de nada”. Nos Açores, como é que um homem (José do Canto) mudou a paisagem, como uma cidade (Angra do Heroísmo) ainda se faz com mastros das naus dos descobrimentos e como um artesão húngaro mantém vivas as fechaduras de madeira do Corvo. No Fundão, como se recuperam motos portuguesas antigas que fazem furor pelo mundo. O que significa Braga ser “o pequeno Brasil”.

São perto de centena e meia os trabalhos do projeto dos 50 anos do Expresso. Estão todos disponíveis online. Os que aqui se apresentam são uma pequena seleção desta viagem moldada pelo tempo — que foi pouco, porque o calendário era exigente e porque procurámos sempre mais, e foi muito porque permitimo-nos escutar as vozes do caminho fintando a correria. E escutar, com tempo, é um luxo.

Em Videmonte, no distrito da Guarda, sentámo-nos com Alcina, pastora e queijeira com enorme amor às ovelhas e ao seu labor. Caía uma luz branca de cozinha de pequena produção artesanal com um asseio laboratorial, e as mãos de Alcina iam espremendo o leite coalhado — e a vida. Escutámos vários relatos de quem, como esta pastora de Videmonte, não teve opção, de quem pouco ou nada estudou, carregando agora uma sabedoria única. Gente agarrada à terra e a um saber fazer que era sustento de avós e pais e seria também o seu futuro. São eles os guardiões da terra e dos ofícios. Este foi um Portugal que encontrámos. Com este Portugal, convive(m) outro(s). O de Filipe e de Ana Teresa, ela com duas licenciaturas (biologia e engenharia florestal) e os cursos de pastora e de queijeira, ele engenheiro agrónomo. Eles são jovens pastores por opção, por convicção, na serra da Estrela.

Nesta descoberta do país, as portas abriram-se para conhecermos tantos outros projetos inovadores. A busca incessante das sete dezenas de cientistas do laboratório HERCULES — Herança Cultural, da Universidade de Évora, gente com uma curiosidade peculiar. Interessam-se por iluminuras do século XVI, pelos frescos de Almada Negreiros ou por ossadas de freiras carmelitas com 600 anos com um entusiasmo contagiante. Destas pesquisas sai conhecimento que permitiu, por exemplo, perceber quais os materiais mais adequados para restaurar os painéis de Almada Negreiros nas gares marítimas, em Lisboa. Ou como Évora era um importante centro artístico a nível europeu no século XVI.

Em Coimbra seguimos os caminhos da investigação aplicada à saúde, em Vila Real acompanhámos o trabalho do Centro de Recuperação de Animais Selvagens, da Universidade de Trás-os-Montes. Em Bragança, desvendámos como se perspetiva o futuro da alimentação no Politécnico da cidade, em Braga, como nasceu um subúrbio industrial de excelência. Em pleno verão, visitámos o Centro Nacional de Reprodução do um lugar de missão a tempo inteiro, com os médicos veterinários a monitorizar os felinos 24 horas por dia, 365 dias por ano, para os preparar para serem libertados. Em sete anos, salvaram a espécie de extinção e por esta altura deverão andar dois mil linces pela Península Ibérica.

Neste quase ano de viagem, há temas que atravessam todo o território: a falta de mão de obra (na agricultura, na indústria, na restauração, na construção) aplacada em algumas regiões com a presença de imigrantes, que mudam a paisagem de aldeias e cidades — o caso do Fundão é um exemplo de muitos; o turismo, a mudar hábitos, ementas e lugares, mas também a criar uma nova economia; a especulação imobiliária; aldeias desertas de gente, algumas capitais de distrito reféns de universidades ou politécnicos ali instalados; o desafio de fixar os jovens fora dos grandes centros; o desafio de fixar os jovens no país; o desafio de ser velho em Portugal.

Ouvimos várias vezes a pergunta, em vários pontos mais ou menos remotos do mapa: “Mas, afinal, o que andam aqui a fazer?” Explicávamos. Em várias ocasiões apontavam-nos novos caminhos. Fomos publicando a cada duas semanas, no site e nas páginas do Expresso, o resultado desta viagem tentacular. Muito ficou por contar, felizmente. Portugal tem uma riqueza de vozes, de saberes, de olhos vivos à procura do futuro.

CSI do património desvenda mistérios

Évora Cientistas produzem informação preciosa para historiadores e arqueólogos no Laboratório HERCULES

csi Arqueologia
csi Arqueologia

“Isto deve ter sido feito num convento aqui de Évora, e, se foi produzido aqui, existiam já materiais muito inovadores em Évora no século XVI. Qualquer pessoa que vem a Évora hoje em dia acha que é muito pitoresco, mas muito parado no tempo. Na altura era um centro de conhecimento.” Catarina Miguel está na sala de reservados da Biblioteca Pública de Évora a estudar um livro de coro, com 500 anos, recorrendo a um equipamento portátil de tecnologia avançada. “Já viu a beleza que ressalta da iluminura?”, entusiasma-se a investigadora, explicando que o termo significa precisamente iluminar, dar luz ao texto, para que pudesse ser visto a grande distância.

Esta é a investigação que a cientista portuguesa, a primeira a entrar no Vaticano para analisar pergaminhos, tem em curso. Está a “excitar as moléculas” das iluminuras centenárias com feixes de luz, provocando reações que lhe vão permitir perceber quais os pigmentos usados. É uma minudência que, após ser estudada e analisada (a equipa de trabalho, multidisciplinar, inclui uma historiadora), vai produzir conhecimento — e, em muitos casos, mudar a História: em 2017 mostrou que Portugal estava um século mais avançado do que o resto da Europa na produção de manuscritos.

Évora continua a ser um discreto, mas poderoso centro de conhecimento. Quem passa no Palácio do Vimioso, edifício seiscentista em frente à Sé, não imagina o que se passa lá dentro. No Laboratório HERCULES — acrónimo de HERança CULtural, Estudos e Salvaguarda —, mais de 70 cientistas de 19 nacionalidades trabalham em investigação material aplicada ao património. Criada em 2009, a instituição da Universidade de Évora produz informação preciosa. “Fazemos estudo do património, mas sempre do ponto de vista material. Nós não temos historiadores de arte, temos pessoas das áreas da física, química, bioquímica ou geologia, porque trabalhamos os materiais”, ressalva José Mirão, diretor do HERCULES, que nos vai guiar de sala em sala. Dá a sensação de que estamos no “CSI”, a investigar coisas que parecem impossíveis de investigar. A analogia com a série policial é usada — embora na televisão os resultados pareçam imediatos e aqui possam demorar muito tempo a surgir.

“O objetivo deste estudo é sempre a valorização do património. Tentamos fazê-lo de duas formas. Por um lado, utilizar esse património como fonte de informação, quer sobre o trabalho artístico quer sobre sociedades antigas, por outro, a sua própria conservação. Nesse âmbito, estamos a desenvolver a criação de novos produtos químicos para proteção desse próprio património”, explica o diretor. O currículo do HERCULES e dos seus investigadores, todos doutorados, é vasto. Recentemente, uma equipa do laboratório alentejano (que José Mirão, a par de António Candeias e Sara Valadas, integrou) trabalhou como Museu Munch, em Oslo, nos trabalhos de conservação de pinturas do artista norueguês.

O geólogo italiano Fabio Sitzia estuda de que forma as alterações climáticas afetam a conservação dos edifícios (esta linha de trabalho do HERCULES já teve aplicações práticas em monumentos em Alcobaça e na Batalha). Mafalda Costa dedica-se ao estudo de contas de vidro da Idade do Ferro, para perceber onde foram feitas e como chegaram a Portugal. O nigeriano Joseph Babatunde analisa colagénio com 600 anos, proveniente de ossos de freiras algarvias. Com a sua pesquisa procura perceber se a dieta dos séculos XVI a XIX foi influenciada pelo transporte de alimentos por via marítima durante a época da expansão portuguesa.

Milene Gil estuda as pinturas murais de Almada Negreiros em Lisboa e acaba de ver o seu trabalho reconhecido com o prémio Europa Nostra. A importância da pesquisa que está a desenvolver prende-se também com o restauro dos murais das gares marítimas de Alcântara: “Precisamos de saber, afinal, o que ele utilizou, para depois saber como conservar, como restaurar.” O resultado do seu trabalho está a começar a ser posto em prática.

Ilustrações 50 Anos

Aveiro

Aveiro

Beja

Beja

Braga

Braga

Bragança

Bragança

Castelo Branco

Castelo Branco

Coimbra

Coimbra

Évora

Évora

Faro

Faro

Funchal

Funchal

Guarda

Guarda

Leiria

Leiria

Lisboa

Lisboa

Ponta Delgada

Ponta Delgada

Portalegre

Portalegre

Porto

Porto

Santarém

Santarém

Setúbal

Setúbal

Viana do Castelo

Viana do Castelo

Vila Real

Vila Real

Viseu

Viseu

179 – China

A República Popular da China (RPC) é a maior prisão do mundo para jornalistas, e o seu regime coordena uma campanha de repressão ao jornalismo e ao direito à informação em todo o mundo.

A República Popular da China (RPC) é a maior prisão do mundo para jornalistas, e o seu regime coordena uma campanha de repressão ao jornalismo e ao direito à informação em todo o mundo.

Os principais grupos de imprensa chineses, que incluem a agência de notícias Xinhua, a Televisão Central da China (CCTV), a Rádio Nacional da China (CNR), os jornais China Daily (Diário da China), Diário do Povo e Global Times, pertencem ao Estado e são controlados diretamente pelas autoridades. Todos os dias, o Departamento de Propaganda do Partido Comunista envia aos meios de comunicação uma lista detalhada de tópicos a serem destacados e uma lista de tópicos cuja abordagem é proibida, sob pena de sanções. Os grupos estatais China Global Television Network (CGTN) e Rádio Internacional da China (RCI) difundem a propaganda do regime por todo o mundo.

Aos olhos do regime, a imprensa deve atuar como porta-voz do partido e difundir a sua propaganda. Jornalistas independentes e bloggers que ousam investigar um assunto considerado sensível são colocados sob vigilância, perseguidos, detidos e, em alguns casos, torturados. Para obter e renovar as suas credenciais de imprensa, os jornalistas devem usar a aplicação de propaganda “Estudar Xi, Fortalecer o País”, que pode recolher os seus dados pessoais.

A Constituição da República Popular da China garante “liberdade de expressão (e) de imprensa”, mas o regime viola rotineiramente o direito à informação, com total impunidade. Para silenciar os jornalistas, acusa-os de “espionagem” e “subversão” ou de “incitar brigas e provocar tumulto”, três crimes cuja definição é tão vaga que podem ser invocados em qualquer contexto. A lei permite que jornalistas freelancers sejam mantidos por até seis meses em “vigilância residencial em local designado” (RSDL), um eufemismo para confinamento solitário nas “prisões negras” do regime chinês, onde são privados de qualquer representação legal e podem ser submetidos a tortura.

O setor é muito lucrativo, mas é quase inteiramente controlado pelo governo e pelo Partido Comunista Chinês, que planeia aprovar uma lei que proíbe qualquer investimento privado na imprensa. Se aprovada, essa lei pode consolidar as restrições já existentes e fortalecer o controle do regime sobre a imprensa, silenciando as últimas vozes independentes.

O presidente Xi Jinping, que assumiu o poder em 2012, restaurou uma cultura mediática digna da era maoísta, na qual o acesso livre à informação é crime e o fornecimento de informação um crime ainda mais grave. Os meios de comunicação chineses públicos e privados estão sob controlo cada vez mais rígido, ao mesmo tempo que o governo multiplica os obstáculos ao trabalho dos correspondentes estrangeiros.

O regime chinês usa vigilância, coerção, intimidação e assédio para impedir que jornalistas independentes façam reportagens sobre tópicos que considera “sensíveis”.

79 – Ucrânia

O cenário mediático da Ucrânia é diversificado, mas permanece em parte nas mãos dos oligarcas, que controlam a maioria das redes de TV nacionais.

O cenário mediático da Ucrânia é diversificado, mas permanece em parte nas mãos dos oligarcas, que controlam a maioria das redes de TV nacionais. O setor sofre com o forte impacto da agressão russa, a partir de fevereiro de 2022, que desestabilizou o trabalho das redações, chegando a ameaçar a sua sobrevivência. Nos territórios controlados pelos russos – a Crimeia, anexada em 2014, Donbass e as áreas ocupadas pelo Exército russo em 2022 –, a imprensa ucraniana é silenciada e muitas vezes substituída pela propaganda do Kremlin.

Mesmo antes do confronto militar, a “guerra de informação” com a Rússia mantinha um clima destrutivo na Ucrânia: proibição de imprensa considerada pró-Kremlin por decreto presidencial, restrição de acesso às redes sociais russas… Esta intensificou-se desde a invasão liderada por Moscovo. A imprensa que transmitia a propaganda russa foi bloqueada, enquanto o exército russo alvejava deliberadamente jornalistas, meios de comunicação e infraestruturas de telecomunicações para impedir que a população ucraniana tivesse acesso a informações independentes.

Desde a “Revolução da Dignidade”, em 2014, o país está a adotar uma série de leis sobre transparência da imprensa, acesso à informação e proteção de jornalistas. A criação da emissora pública independente Suspilne, em 2017, foi a mais emblemática dessas reformas. A aprovação, no fim de 2022, de uma nova lei de imprensa, após anos de preparação, tem por objetivo uma harmonização com a legislação europeia. A aplicação da lei marcial traduz-se, por vezes, em restrições ao trabalho informativo dos jornalistas.

A invasão russa fragilizou a economia e fez com que os meios de comunicação sofressem uma perda significativa de assinantes e anunciantes. Somada a outras consequências da guerra, como a destruição, o colapso das cadeias de abastecimento e o exílio forçado de funcionários, essa situação ameaça a sobrevivência de um grande número de meios de comunicação ucranianos. Várias centenas deles já tiveram de fechar, outros reduziram as atividades e colocaram os seus funcionários em licença temporária não remunerada. A imprensa local continua a ser a mais frágil diante desses desafios.

A guerra mudou drasticamente o trabalho dos jornalistas e os temas cobertos por eles. Os ataques russos que acontecem por todo o território transformaram todos em repórteres de guerra. A imprensa ucraniana, contudo, continua a cobrir questões sociais e a desempenhar o seu papel fundamental na denúncia da corrupção das elites do país.

A desigualdade de género na imprensa ainda é um problema, especialmente quando se trata de procurar a opinião de especialistas em determinados assuntos – situação que se agravou depois da invasão russa.

36 – Espanha

Em Espanha, o mercado mediático caracteriza-se por uma elevada concentração dos meios de comunicação.

Em Espanha, o mercado mediático caracteriza-se por uma elevada concentração dos meios de comunicação.

Os grupos privados de média audiovisual Atresmedia e Mediaset, e o serviço público RTVE representam mais de 75% do mercado. Na esfera regional, o setor é marcado pela forte presença de órgãos públicos reunidos na FORTA (Federação das Organizações ou Entidades Regionais de Rádio e Televisão), o que aumenta o risco de interferência política. A diversidade no setor de imprensa é maior.

A polarização política reflete-se nos média, que confundem perigosamente a fronteira entre a informação e a opinião, contribuindo para o clima de descrédito em relação ao jornalismo. A liberdade de imprensa também está ameaçada pelo aumento dos processos-mordaça (SLAPP) contra meios de comunicação e jornalistas.

Assim como a sociedade espanhola, parte dos média está polarizada e cada vez mais substitui a informação pela opinião, um fenómeno que alimenta a desconfiança geral dos cidadãos em relação aos jornalistas. O governo tem sido acusado por vários meios de comunicação de se recusar a responder a perguntas em conferências de imprensa, enquanto os partidos extremistas fazem ataques verbais contra os jornalistas que consideram inconvenientes. O grupo de extrema direita VOX continua a espalhar informações falsas e a negar aos jornalistas e aos média o acesso às suas conferências de imprensa e outros eventos.

O governo e os seus aliados no Parlamento tentaram revogar os artigos mais controversos da “Lei da Mordaça” ao longo de toda a legislatura. A falta de um acordo sobre essa questão antes das eleições legislativas previstas para o outono de 2023 constituiria um grave incumprimento de uma das principais promessas do governo. A polícia continua a usar a sua autoridade para assediar a imprensa, e os tribunais tendem a privilegiar a versão dos policias, em detrimento da versão dos jornalistas vítimas da violência policial.

A forte concentração dos média privados é acompanhada pela falta de transparência sobre a real influência que os proprietários de meios de comunicação exercem sobre políticos e funcionários do governo. Essa falta de transparência também afeta os gastos com publicidade tanto das administrações públicas, quanto das grandes empresas do setor privado. Desde a crise económica de 2008 e da consequente onda de encerramento de órgãos e demissões em massa, o jornalismo tornou-se numa profissão caracterizada pela precariedade crónica.

Na sociedade espanhola, tolerante e aberta à diversidade, os jornalistas raramente são pressionados, a não ser pelas autoridades. O Parlamento iniciou um processo de descriminalização das “ofensas à coroa” e de outros ataques aos “símbolos da nação”, que no passado foram obstáculos à liberdade de expressão.

O abrandamento do conflito em torno da independência da Catalunha, que já havia desencadeado uma grande violência contra jornalistas por parte de manifestantes e policias, reduziu drasticamente os ataques e agressões a esses profissionais. Por outro lado, um número cada vez maior de jornalistas é vítima de assédio nas redes sociais, especialmente por parte de governantes e “trolls” da extrema direita e da extrema esquerda.

3 – Dinamarca

Na Dinamarca, um país com apenas 5,8 milhões de habitantes, existem oito jornais (Politiken, Berlingske, Morgenavisen Jyllands Posten, etc.), cinco estações de rádio e dois canais de televisão nacionais, além de oito canais regionais. Os média exclusivamente online também cresceram nos últimos anos.

Na Dinamarca, um país com apenas 5,8 milhões de habitantes, existem oito jornais (Politiken, Berlingske, Morgenavisen Jyllands Posten, etc.), cinco estações de rádio e dois canais de televisão nacionais, além de oito canais regionais. Os média exclusivamente online também cresceram nos últimos anos.

De maneira geral, embora os dinamarqueses desconfiem das redes sociais e da imprensa local, são muito leais aos média nacionais. Isto é especialmente verdadeiro para os órgãos públicos (Denmarks Radio, TV2), muito seguidos pelas gerações mais jovens durante a pandemia.

Em geral, os políticos e as instituições públicas respeitam a liberdade de imprensa, embora isto tenha sido abalado por um grande caso no final de 2021: as agências de inteligência da polícia e da defesa intimidaram jornalistas e ameaçaram o sigilo das suas fontes. Sem fornecer informações específicas ou razões para a sua decisão, as agências alertaram os média contra a publicação de informações classificadas relacionadas com a segurança nacional, sob pena de prisão.

O quadro legislativo relativo à proteção da liberdade de imprensa e dos jornalistas mudou pouco e continua a ter uma base sólida. A lei de liberdade de informação, adotada em 2014, é, no entanto, alvo de críticas por parte dos próprios meios de comunicação, que a consideram um obstáculo ao direito de informar, pois permite que as instituições sejam mais restritivas na retenção de informações de interesse público.

O sistema de subsídios destina a maior parte do financiamento às emissoras públicas, cujos montantes são distribuídos de acordo com um princípio de independência. As emissoras de rádio e TV estão sujeitas ao regulador dos média que, embora nomeado pelo governo, representa as diferentes visões de um painel de especialistas. Como noutras partes do mundo, gigantes da tecnologia como Google e Facebook detêm uma grande fatia do mercado de publicidade, o que está a minar o modelo de negócios dos média privados dinamarqueses.

De forma geral, os jornalistas desfrutam de um alto nível de aceitação na sociedade dinamarquesa. No entanto, o debate público, por vezes acalorado, sobre a imigração gerou um certo ceticismo em relação à imprensa, que pode ocasionalmente transformar-se em hostilidade em certos bairros das grandes cidades.

Por último, algumas revelações sobre sexismo nos média dinamarqueses provocaram uma acalorada controvérsia e chocaram tanto os diretores dos meios de comunicação quanto o público. Um documentário sobre as práticas atuais dentro do canal TV2 incentivou os média a tomar medidas para proteger melhor as mulheres jornalistas.

Em geral, os jornalistas dinamarqueses trabalham livremente e não enfrentam ameaças significativas.

2 – Irlanda

Na Irlanda, os jornalistas trabalham livremente e sem interferências.

Nos últimos anos, tem aumentado o pluralismo de meios de comunicação, cortando com a forte concentração de propriedade que antes se verificava. A venda da participação do empresário Denis O’Brien na Independent News & Media (INM), em 2019, e na Communicorp, em 2021, abriu o cenário mediático para mais concorrência e diversidade.

A Comissão sobre o Futuro dos Média, criada pelo Dáil Éireann (Parlamento Irlandês) em outubro de 2020, publicou em 2022 um relatório, no qual indica que o governo aceitou 49 das 50 recomendações da Comissão, entre as quais estão o novo Fundo para os Média e o apoio ao jornalismo local. Contudo, o financiamento da emissora pública RTÉ, permanece ainda sem solução.

Recentemente, têm sido publicadas recomendações, com amplo acolhimento, sobre uma proteção mais precisa do jornalismo de interesse público e a criação de mecanismos anti-SLAPP (Strategic Lawsuit Against Public Participation, ou processos-mordaça). No entanto, a abolição de júris nos casos de difamação gera uma certa preocupação.

As emissoras de rádio e televisão e outros meios de comunicação irlandeses, sobretudo os regionais, continuaram a enfrentar fortes dificuldades económicas em 2022. O governo ainda não tomou medidas decisivas necessárias para reformar os mecanismos de financiamento da RTÉ e de outros meios de informação.

A abolição do crime de blasfémia em 2020, possibilitou a descriminalização da publicação de “comentários blasfemos, sediciosos ou indecentes” e a extinção do crime de difamação contra qualquer religião – um avanço bem-vindo.

Embora ocasionalmente jornalistas irlandeses relatem que a sua segurança foi ameaçada por grupos criminosos, nenhum caso significativo foi relatado em 2022, ainda que ataques contra jornalistas nas redes sociais sejam fonte de preocupação.

Desde a Lei Garda Siochána, de 2005, que é proibido à polícia falar com jornalistas sem autorização prévia, sob pena de demissão, multa ou até sete anos de prisão.

PAQUETE DE OLIVEIRA

(1936 – 2016)

“Fisicamente, morre-se uma única vez; socialmente, podemos morrer e nascer várias vezes”. Era o próprio Paquete de Oliveira quem o afirmava, assumindo a sua multifacetada trajetória, ou seja, os seus múltiplos e «diversificados caminhos».

(1936 – 2016)

“Fisicamente, morre-se uma única vez; socialmente, podemos morrer e nascer várias vezes”. Era o próprio Paquete de Oliveira quem o afirmava, assumindo a sua multifacetada trajetória, ou seja, os seus múltiplos e «diversificados caminhos».

Professor, investigador, sociólogo e sempre amigo, Paquete de Oliveira era um Homem com quem dava gosto conversar, mesmo quando havia divergências. É, pelo menos, assim que o recordam alguns dos muitos que com ele se cruzaram (“nunca o vi zangar-se, era incapaz de levantar a voz” – diz José Rebelo, seu amigo e companheiro de lides académicas), enquanto evocam os diferentes percursos da sua vida: o de padre, o de jornalista, o de sociólogo, o de investigador e o de professor.

DO SEMINÁRIO PARA AS CIÊNCIAS SOCIAIS

José Manuel Paquete de Oliveira nasceu em 1936, no Funchal (Madeira), e morreu em Lisboa, no dia 11 de Junho de 2016. Foi ordenado padre em 1960, depois de ter frequentado o Seminário do Funchal, onde foi professor e responsável pela área da Educação.

Foi, na ocasião, membro da direção do Clube Desportivo Nacional (o Nacional da Madeira), tendo, inclusive, dirigido o boletim então editado pelo clube e integrado, em 2010, a comissão de honra comemorativa do centenário.

Apaixonado desde cedo pelo Jornalismo (aos 23 anos, já padre, foi chefe de redação do Jornal da Madeira, um diário, então, ligado à diocese do Funchal) e, mais tarde, pela Sociologia, licenciou-se em 1973, em Ciências Sociais (ramo da Sociologia) na Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

Após a revolução de 25 de Abril, já desvinculado do sacerdócio, dirigiu o Diário de Notícias (da Madeira) e integrou a Junta de Planeamento, órgão de gestão governativa do Arquipélago até à criação das novas estruturas democráticas.

Em 1976, é convidado, por Adérito Sedas Nunes, a lecionar a disciplina de Sociologia da Comunicação no ISCTE – Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (hoje, ISCTE – IUL-Instituto Universitário de Lisboa), no curso que apenas viria a ser reconhecido no ano seguinte, já que, mercê da oposição reiterada do Estado Novo, “a sociologia portuguesa”, como escreveu Madureira Pinto, só começou verdadeiramente” depois de Abril de 74

Ao ISCTE, Paquete de Oliveira dedicou a vida, a ponto de, segundo José Rebelo, essa docência ter marcado a sua própria identidade. Com a importante curiosidade de, na opinião de Céu Neves, jornalista que foi sua aluna, mulher e mãe dos seus dois filhos, à prática do jornalismo, ter associado a prática do estudo e a prática da investigação.

Recorda, a propósito, que, logo no primeiro dia de aulas, «o José Manuel identificava todos os alunos pelo nome», porque, como o viria a “constatar mais tarde”, antes de iniciar o ano letivo, lia atentamente o currículo de cada aluno, debruçando-se particularmente sobre as fotos.

Foi ainda no ISCTE que se doutorou (1988), com uma tese que, sob o título de Formas de “Censura Oculta” na Imprensa Escrita em Portugal no Pós 25 de Abril (1974-1987), continua a constituir um documento indispensável ao entendimento das complexas relações dos media com a sociedade – em causa, as «censuras invisíveis». Naquele Instituto, assumiu também importantes cargos científicos e de gestão, tendo integrado, designadamente, o seu Conselho Executivo (1989-2006). Dirigiu, entre 1986 e 1989, Sociologia, Problemas e Práticas, revista de que foi um dos fundadores.

Atento à evolução e inovação da comunicação, criou, cerca de uma década depois, o pioneiro curso de mestrado na área da Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação, onde, segundo António Firmino da Costa, investigador e sociólogo que foi professor catedrático no ISCTE-IUL, «adicionou às vertentes da sociedade, da cultura, da comunicação e do poder a modernidade das novas tecnologias». Com a importante vantagem de, no dizer de alguém, sempre ter pugnado pela abertura da universidade ao mundo e sempre ter recusado a restrição da «investigação à academia».

Lecionou ainda no Instituto Superior de Economia (atual ISEG) e no Centro de Estudos Judiciários. Foi um dos fundadores da SOPCOM, a Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação, criada em 1998, com o objectivo de representar a investigação em Ciências da Comunicação junto do poder político, tendo integrado a sua primeira direcção e sido seu presidente, entre 2002 e 2005. Foi membro do Conselho Consultivo da Comissão Nacional da UNESCO (1999-2002), presidiu, entre 2002 e 2006 à direção da LUSOCOM, a Federação Lusófona de Ciências da Comunicação fundada em 1998, com o objetivo de promover o desenvolvimento de estudos das ciências e políticas da comunicação no espaço lusófono, e ao Conselho Geral da Universidade da Beira Interior.

Lecionou ainda no Instituto Superior de Economia (atual ISEG) e no Centro de Estudos Judiciários. Foi um dos fundadores da SOPCOM, a Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação, criada em 1998, com o objectivo de representar a investigação em Ciências da Comunicação junto do poder político, tendo integrado a sua primeira direcção e sido seu presidente, entre 2002 e 2005.

Foi membro do Conselho Consultivo da Comissão Nacional da UNESCO (1999-2002), presidiu, entre 2002 e 2006 à direção da LUSOCOM, a Federação Lusófona de Ciências da Comunicação fundada em 1998, com o objetivo de promover o desenvolvimento de estudos das ciências e políticas da comunicação no espaço lusófono, e ao Conselho Geral da Universidade da Beira Interior.

ENTRE A ACADEMIA E O JORNALISMO

Com a vida especialmente centrada no ensino e na investigação, Paquete de Oliveira nunca abandonou, no entanto, o Jornalismo, tendo sido uma presença regular em jornais como o ExpressoDiário de LisboaDiário de Notícias ou Jornal de Notícias. Foi ainda, entre 1994 e 1997, comentador residente do programa “Casos de Polícia”, transmitido pela SIC.

Como afirma José Jorge Barreiros, que foi seu amigo e companheiro académico, desde sempre, de facto, que se “interessou pelas questões do jornalismo, da comunicação, da informação, das notícias”, ou seja, os media constituíram “um traço marcante” de “todo o seu percurso de vida”.

De sublinhar, ainda, a sua importante intervenção na defesa dos direitos dos espectadores e dos leitores, tendo sido provedor do telespectador da RTP, entre 2006 e 2011 (“Voz do Cidadão”), e, mais tarde, provedor do leitor do jornal Público, cargo que ocupou entre Dezembro de 2013 e o dia da sua morte (11 de Junho de 2016).

Alguns dos que acompanharam mais de perto esta sua atividade consideram que a forma “ponderada” e “refletida” como tratava as mensagens recebidas fizeram com que o seu programa televisivo tivesse atingido uma inesperada audiência. Há mesmo quem, a propósito, considere que ele foi o provedor capaz de ensinar o País a “pensar” a Comunicação.

Em 2004, publicou, com Gustavo Cardoso e José Jorge Barreiros, Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação(2004), uma obra que, de acordo com os seus autores, pretendia dar um “contributo” e ser “uma reflexão sobre os impactos e consequências da Internet nos processos de inovação e mudança social que desencadeia”.

Cerca de um ano depois da sua morte (Outubro de 2017), o ISCTE-IUL promoveu a publicação de um livro, onde, sob o título de Comunicação e Quotidiano: Textos e Intervenções – 1983-2016 (coordenação de Gustavo Cardoso e edição de Tinta da China) se encontram reunidos, a par dos seus trabalhos “académicos dispersos” e das suas “reflexões de provedor”, vários “textos inéditos”.

Para Gustavo Cardoso, catedrático e investigador no ISCTE-IUL, Paquete de Oliveira conseguiu criar uma escola capaz “de pensar a Comunicação de forma diferente”, ou seja, “uma Sociologia da Comunicação com um olhar próprio”, integrando “contributos da Antropologia, da Sociologia, da Gestão, da Economia e da História”. Em causa, na opinião daquele sociólogo, um olhar (uma “compreensão”) diferente sobre a comunicação – “não apenas sobre o Jornalismo, mas sobre a comunicação como um todo”.

Em homenagem ao professor e jornalista que “se distinguiu na defesa das ciências da comunicação, dos princípios da transparência e da neutralidade no trabalho jornalístico, na defesa do respeito pelos cidadãos e pelas regras do pluralismo democrático nos meios de comunicação”, em 2018, o ISCTE-IUL, com o apoio do grupo PortoBay, criou o “Prémio Paquete de Oliveira”, com o objetivo de distinguir anualmente ensaios sobre os meios de Comunicação Social em Portugal.

 

Em debate realizado por ocasião do centenário             do Nacional da Madeira (2010), cuja comissão de honra integrou.
Em debate realizado por ocasião do centenário do Nacional da Madeira (2010), cuja comissão de honra integrou.