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News Standard

Glossário

Em 2017, “Fake news” foi eleita a expressão do ano pelo dicionário Collins, que a definiu como informações falsas que são disseminadas em forma de notícias, muitas vezes de maneira sensacionalista.

Em 2017, “Fake news” foi eleita a expressão do ano pelo dicionário Collins, que a definiu como informações falsas que são disseminadas em forma de notícias, muitas vezes de maneira sensacionalista. Nos últimos seis anos, esta e outras palavras que lhe estão relacionadas continuam a ser atuais. Sejam mentiras intencionais ou conteúdos não verificados, misturam-se com as notícias e põem em causa a própria informação.

  • Fake news: Distribuição deliberada de informação falsa ou informação manipulada ou desinformação. O problema é identificar e distinguir as duas últimas.
  • Clickbait: Título sensacionalista, que leva o leitor a carregar num hyperlink para abrir uma notícia, vídeo ou imagem. Em português podemos chamar-lhe a caça ao clique.
  • Deep fake: Colocar, em vídeo, pessoas a exprimirem palavras que nunca disseram, ou mesmo substituir caras, criando situações falsas. Através de técnicas de inteligência artificial, consegue ser tão bem feito que, a olho nu, é muitas vezes impossível reparar que se trata de uma mentira.
  • Bots: Diminutivo de Robot, ‘bot’ é um programa de computador que executa tarefas de forma autónoma, repetitiva e pré-definida. Os bots imitam o comportamento humano, mas como são automáticos, são muito mais rápidos do que os utilizadores humanos. Estes podem executar tarefas úteis, mas também podem ser usados como malware, ou seja, para controlar totalmente um computador.
  • Desinformação: A desinformação tem como objetivo enganar propositadamente. Através das redes sociais, qualquer pessoa pode desinformar, partilhando ou apenas “gostando” de alguma imagem ou mensagem que não é verdadeira. Na política e na publicidade, a desinformação é muito usada. Por exemplo, através de mensagens onde se oculta o que não interessa ou se realça algum aspeto de forma exagerada por forma a induzir a opinião do público no sentido de determinados interesses.
  • Manipulação: Segundo o dicionário, manipulação é a influência, controlo ou ação indevida ou ilegítima no desenrolar de um processo. A manipulação dos Media pode significar enganar intencionalmente o público através de informação alterada ou falsa, mas pode também significar a manipulação dos próprios órgãos de comunicação com objetivos individuais, económicos, políticos etc. Nestes casos, é habitual a informação publicada tornar-se ‘viral’ muito rapidamente, pelo que pode ser partilhada pelos Media sem primeiro se avaliar a sua autenticidade.

E agora?

Muito tem sido feito para travar as Fake News. As empresas foram forçadas a agir. Muito foi feito. Muito mais há para fazer. No tempo da Inteligência Artificial, as Fake News até são fáceis de detetar. O problema está nas Deepfake…

Muito tem sido feito para travar as Fake News. As empresas foram forçadas a agir.

Muito foi feito. Muito mais há para fazer. No tempo da Inteligência Artificial, as Fake News até são fáceis de detetar. O problema está nas Deepfake…

A Meta implementou um algoritmo de deteção de Fake News que depois são verificadas por equipas nacionais. Ao mesmo tempo, a Meta passou a financiar plataformas de Fact Checkers.

O X (Twitter) criou as notas da comunidade, um mecanismo através do qual os utilizadores verificados podem denunciar Fake News e/ou desinformação.

A Google deu outro destaque à sua ferramenta de reverse searching para imagens.

O Digital Services Act (2022) da União Europeia criou um quadro regulatório para as grandes plataformas e que, entre outros pontos, responsabiliza essas plataformas pela exibição e disseminação de Fake News. Ou seja, as plataformas estão agora obrigadas a tomar medidas e a retirar esses conteúdos online.

A União Europeia também lançou o EUVSDesinf. Uma plataforma que identifica e denuncia narrativas utilizadas para desinformação.

Em março de 2023, uma fotografia viralizou na Internet e até foi notícia na Vogue Brasil: o Papa Francisco com um casaco comprido acolchoado branco. Era um deepfake.

A imagem falsa foi criada numa app de Inteligência Artificial – Midjourney. A fotografia tinha sido originalmente publicada na comunidade do Reddit, mas rapidamente foi partilhada e disseminada nas diversas redes sociais como verdadeira.

Em 2023, as imagens falsas do ex-Presidente dos EUA, Donald Trump, a ser condenado, e na prisão, também inundaram as redes sociais. As fotografias foram criadas a partir de comandos de texto, com Inteligência Artificial ( AI Midjourney). Muitas pessoas acreditaram que fossem verdadeiras.

Em maio de 2024, ocorre um fenómeno raro em Portugal: foi possível ver auroras boreais nos céus do país. Os noticiários e redes sociais mostraram imagens das auroras boreais nos céus de Lisboa e Porto, contudo este fenómeno só seria visível nas zonas menos iluminadas, fora dos centros urbanos. As imagens não eram verdadeiras, mas há mesmo quem tenha garantido ter visto as auroras boreais nos mesmos locais que mostravam as fotografias, mesmo que isso nunca tivesse acontecido.

As imagens foram tratadas com uma ferramenta de inteligência artificial e começaram a ser partilhadas nas redes sociais como se fossem fotografias reais.

Os motores de inteligência artificial têm hoje capacidade para gerar texto, voz, vídeo e imagens em movimento. Têm a capacidade de manipular profundamente num vídeo as palavras de um interlocutor ao ponto de não conseguimos distinguir o que é “verdadeiro” ou “falso”.

Quando assim acontece falamos de Deepfake.

A evolução destes motores tem sido exponencial. O seu impacto tem sido amplamente discutido nas empresas de software. Assim como a criação de ferramentas de controlo da sua aplicação.

A guerra contra as Fake News ainda agora começou. E estamos a perder.

Cambridge Analytics

Reino Unido, 2015. Os utilizadores de Facebook do mundo todo são convidados a preencherem pequenos questionários ou a participar em jogos e passatempos.

Reino Unido, 2015. Os utilizadores de Facebook do mundo todo são convidados a preencher pequenos questionários ou a participar em jogos e passatempos. Enquanto preenchem estes questionários, uma empresa acumula os seus dados pessoais e traça o seu perfil socioeconómico. Essa mesma empresa, a Cambridge Analytics, seria mais tarde contratada para participar na campanha do Brexit.

Os dados acumulados permitiram segmentar mensagens eleitorais através das redes sociais e para veicular desinformação sobre os montantes pagos e recebidos.

Em março de 2018, o jornais The Guardian e The New York Times denunciam a Cambridge Analytics recorrendo a informações de um ex-funcionário. A empresa não resiste ao escândalo e fecha as portas pouco tempo depois. O Facebook alega que não conhecia o esquema e escapa com o pagamento de uma multa milionária.

A saída do Reino Unido da União Europeia venceu por apenas 2%.
E essa não foi a única campanha feita pela Cambridge Analytics.

Expresso: da origem ao presente

No primeiro sábado de 1973, a opinião pública encontrou nas bancas um semanário diferente de todos os outros. Inspirado pela imprensa semanal britânica, o Expresso é lançado com uma redação formada por uma dezena de profissionais. A tiragem ultrapassou os 60 mil exemplares, impressos na rotativa do “Diário de Lisboa”. 50 anos depois, o Expresso, nascido antes da revolução, continua a ser um jornal de referência da sociedade portuguesa. O NewsMuseum recupera dois filmes que mostram a origem e o presente de um jornal com mais de meio século de vida que passa em revista a história do país e do mundo.

A Origem

6 de janeiro de 1973, a data que mudou para sempre o sábado dos portugueses.

Publica-se o semanário Expresso, pelas mãos de Francisco Pinto Balsemão. Uma “lufada de ar fresco”, uma “novidade” na imprensa portuguesa, um exercício de “liberdade vivida por meio da palavra escrita”. Resistindo ao lápis da censura e, depois, à instabilidade do pós-25 de abril, o Expresso “foi testemunha de um tempo que confirmou uma das suas missões, dar expressão e relevo a pessoas e ideias que ajudaram a formar o Portugal democrático”.

O filme que nos leva a uma viagem aos primórdios do semanário Expresso, com testemunhos na primeira pessoa.
 

A ORIGEM | 2023

Texto | Reinaldo Serrano

Realização | Rúben Tiago Pereira

Edição de imagem | Jorge Costa

Grafismo | Nuno Gonçalves

Locução | Augusto Seabra
 

O Expresso, atualmente (2023)

A “grande marca da informação em Portugal”, que se soube reinventar e acompanhar os tempos: jornal, revista, suplementos, site, podcast, vídeo, infografia, redes sociais.

Informação e opinião nos temas que impactam a vida de todos: sociedade, economia, política, internacional, tribuna, investigação.

O que é o Expresso, hoje, entre o papel e o digital e os desafios de fazer jornalismo na atualidade. Testemunhos de quem constrói, todos os dias, este jornal de referência.
 

O EXPRESSO ATUALMENTE, HOJE| 2023

Direção | João Vieira Pereira

Realização e Edição | Rúben Tiago Pereira

Imagem | Rúben Tiago Pereira, Joana Beleza,

José Cedovim Pinto, Arquivo Expresso

Drone 4KFLY e Grafismo animado | Carlos Paes

Coordenação de Grafismo | Tiago Pereira Santos

Coordenação Editorial | Joana Beleza
 

A fuga dos centros urbanos para o Oeste

Depois do nascimento da primeira filha, a rotina de Charlotte e do marido tornou-se caótica. Viviam em Lisboa, mas João ia todos os dias para Torres Vedras, onde tinha uma clínica de fisioterapia. Chegava a casa às nove da noite e só via a filha acordada quando a levava à creche de manhã. A mãe, também fisioterapeuta, passava o dia presa no trânsito e a correr contra o relógio. O aumento “brutal” da renda da casa em 2017 ditou a solução: mudaram-se para o centro histórico de Torres Vedras, onde já nasceram os dois filhos mais novos.

“Aqui faço tudo a pé. Os miúdos só precisam de acordar às oito, vão para a escola às nove, por vezes até de bicicleta”, conta Charlotte, 34 anos. “Toda a rotina é melhor.” Nos últimos dez anos, milhares de famílias mudaram-se para concelhos como Mafra, Torres Vedras, Sobral de Monte Agraço e Arruda dos Vinhos, mais longe dos grandes centros urbanos, mas ainda dentro do distrito de Lisboa. Segundo os Censos, estes quatro municípios ganharam 14 mil habitantes entre 2011 e 2021. Só de Lisboa e de Sintra receberam 4400 pessoas em dois anos. E o interesse continua a crescer: em 2022, a venda de casas em alguns destes locais ficou entre 20% e 30% acima do período pré-pandemia.

O Oeste é agora visto como um “laboratório” desta fuga dos centros urbanos. “Está a ocorrer uma transformação muito grande”, resume o geógrafo João Ferrão. Também Jorge Malheiros, investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, considera que é um “caso paradigmático” da transição do espaço urbano para o periurbano. “Há um motivo económico: a procura por casas mais baratas. O agravamento dos preços em Lisboa e na periferia mais próxima tem levado as pessoas a procurar casa cada vez mais longe.” Mas não são só os preços a motivar a mudança. “Aqui ainda se vive devagar”, diz Nuno Santos, informático de 48 anos, que se mudou do Estoril para Mafra com a mulher e os filhos há dois anos. “Queríamos que as crianças pudessem ir a pé para a escola, tal como íamos há 30 ou 40 anos.”

Charlotte Cazaban e João Caetano, 34 anos, mudaram-se para Torres Vedras e têm três filhos FOTO NUNO BOTELHO
Charlotte Cazaban e João Caetano, 34 anos, mudaram-se para Torres Vedras e têm três filhos FOTO NUNO BOTELHO

Ferrugem nos portões

Mafra é o município do distrito de Lisboa que mais cresceu na última década (13%), ganhando quase 10 mil habitantes. Entre eles está quem o tenha escolhido para aproveitar a reforma, como é o caso de Margarida Casanova, que tem 65 anos e há sete se mudou com o marido de Massamá para a Ericeira. “Reformei-me e tinha o sonho de ir viver para outro sítio. Quando o meu filho mais novo emigrou para a Malásia, senti-me mais descomprometida. Encantei-me com a Ericeira, convenci o meu marido e comprámos cá casa. É aqui que quero acabar os meus dias.” Apesar de a humidade lhe enferrujar os portões da casa e o fundo das “latas dos bolos”, está feliz com a mudança e tem visto aumentar o número de habitantes Gaté pela ocupação dos autocarros, o que já levou a Barraqueiro Oeste, que serve esta zona, a aumentar a frequência em vários percursos. Em Torres Vedras, a venda de casas em 2022 ficou 30% acima da média em 2018/19, enquanto que em Sobral de Monte Agraço e Arruda dos Vinhos subiu 20%, segundo a Confidencial Imobiliário. Os preços é que já estão bem longe do que eram: um imóvel em Mafra ou Torres Vedras já custa mais 50% do que há três anos.

Face ao progressivo ‘alastramento’ da população pela Grande Lisboa, Sandra Marques Pereira, investigadora do Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território do ISCTE, considera que os limites administrativos e geográficos da área metropolitana estão “desadequados” e deveriam ser “redefinidos”, sublinhando a necessidade de “uma política de habitação a nível metropolitano, articulada com a de transportes, já em curso”. Mas há duas dificuldades: “Os transportes, outro dos calcanhares de Aquiles das políticas nacionais, e, não menos importante, a competitividade entre concelhos.”

Saúde em “rutura”

Nem tudo são elogios. As famílias que se mudaram para o Oeste nos últimos anos sentem que alguns serviços, sobretudo de educação e saúde, não foram redimensionados. É o caso das vagas na pré-escolar. Mónica e Rodrigo, de 31 e 40 anos, pais de três crianças, mudaram-se para Torres Vedras em 2019. “O nosso filho de três anos não teve colocação nas cinco escolas de preferência escolhidas em 2022.” Além disso, nenhuma das crianças tem médico de família, algo que se repete com os filhos de Charlotte e João.

Com mais de 300 mil utentes, o Centro Hospitalar do Oeste, que serve dez concelhos, está em “rutura de serviços”, diz Vítor Dinis, da comissão de utentes. A pressão deve-se ao aumento da população residente, mas também ao turismo e crescente número de trabalhadores agrícolas.

Entretanto, mais famílias continuam a chegar a estes concelhos e já ninguém tira Margarida Casanova do Oeste. “Só não gosto da confusão no verão e sinto falta do cinema. Mas para isso vou a Lisboa, o autocarro é rápido e tenho o passe a €20.”

O ouro é uma história feita de mulheres

“É único descer a avenida. As lágrimas aparecem…” Até aos 27 anos, Helena Quesado foi mordoma nas Festas da Senhora da Agonia. Passaram-se três décadas, uma vida ligada a esta herança, que passa agora à filha, Daniela. A jovem, de 14 anos, estreou-se no Desfile da Mordomia, momento alto das festas de Viana do Castelo, no ano passado. As duas estão de saiote, camisa, meias de renda e chinelos na sala de ensaios do Grupo Folclórico de Santa Marta de Portuzelo, freguesia a poucos quilómetros da cidade. Também Daniela Sousa, de 32 anos, e Carolina Pereira, de 17, se preparam para envergar o traje.

Durante meia hora as quatro mulheres vestem-se com os fatos tradicionais, impecavelmente preservados, com tecidos de lã, linho ou algodão. O corpo jovem de Carolina vai transportar o pesado fato de mordoma, fazenda ricamente bordada com lantejoulas e vidrilhos; o de Daniela Sousa o de lavradeira rica (final do século XIX, início do século XX). Em movimentos lentos, Helena veste a filha com o traje de lavradeira, peça a peça, saiotes (vários, para fazer uma anca farta), saia de lã tecida em tear, camisa de linho bordada, colete, o lenço traçado sobre o peito. A jovem recebe no corpo as várias peças.

Depois de cada peça de roupa estar no lugar, cada fita laçada, cada botão na sua casa, começam a abrir-se as caixas, revelando o ouro que vão pendurar ao pescoço, a juntar ao que já trazem nas orelhas. Um amontoado de fios e cordões, cujo caos é apenas aparente. Começam a disposição pelo “eixo central” e distribuem o ouro de forma simétrica, seguindo as regras de bem-ourar. Daniela coloca um fino colar a que dá três voltas, seguem-se vários cordões, o grosso fio de corda. Traz ouro da avó, da mãe, da irmã e seu.

Tradição passa por gerações e há quem desfile com ouro emprestado FOTO TIAGO MIRANDA
Tradição passa por gerações e há quem desfile com ouro emprestado FOTO TIAGO MIRANDA

Dois quilos de ouro

Nas Festas da Senhora da Agonia “muita gente desfila com ouro seu ou da família, mas há pessoas que não têm absolutamente nenhuma peça e desfilam com um ou dois quilos que pedem aos vizinhos, nas ourivesarias”, explica Rosa Maria Mota. Esta investigadora, com amplo trabalho publicado sobre o ouro popular do Norte de Portugal, segue os movimentos das mulheres de Santa Marta de Portuzelo embevecida. No desfile de 17 de agosto de 2023 participaram cerca de 600.

“Eu já desfilei duas vezes. Quando comecei a estudar o ouro, no primeiro ano quis desfilar para ver qual é a sensação e fiz o ritual todo, a roupa, o ouro, e realmente entramos numa corrente de mulheres que estão por trás de nós, que fizeram aquilo que somos, e somos parte de uma cadeia. Não é uma coisa pessoal, é uma cadeia, uma tradição feminina que vai de família em família, de mulher para mulher, de vizinha para vizinha”, diz.

“O que está sempre presente em Viana é a memória”, acentua Daniela Quesado, desde os 16 anos no grupo etnográfico, conciliando-o com os estudos na universidade. Entrou na dita corrente feminina, replicando gestos, preceitos, usos. O penteado, o trajar, preservando as peças feitas de forma artesanal (cada vez mais raras), exibindo o ouro da família. Mais do que dançar, o grupo folclórico assume-se como um guardião desta memória.

Helena é a presidente da assembleia-geral e ensaiadora. Filha do presidente da Junta de Freguesia de Santa Marta de Portuzelo, que relançou o grupo em 1972, começou a dançar com seis anos. Explica que há uma constante busca por peças de traje antigas, de pessoas que as querem vender ou desfazer-se delas, para as resgatar do esquecimento. Foi mordoma até aos 27 anos, seguindo debruada a ouro rua fora, com centenas de mulheres. “Há senhoras que já são avós e ainda vão”, conta-nos. “O ouro tornou-se moda. As mordomas gostam de ser mordomas. Têm fatos que alugam ou compram, há pessoas que vão a vida toda”, enquadra Rosa Maria Mota.

Para ela, a Romaria de Nossa Senhora da Agonia explica a força do ouro em Viana. “Vemos isso pela quantidade de ouro que os ourives ambulantes vendiam no Alentejo ou nas Beiras. Porque é que agora não aparece ouro nesses sítios e aqui aparece? Porque houve um movimento contrário. Enquanto no resto do país o ouro foi sendo vendido ou distribuído em partilhas, em Viana, por causa das festas e desta vontade de mostrar, manteve-se e foi-se sempre comprando. Até hoje.” E nota que aqui impera o chamado ouro popular ou tradicional, que são peças que se desenvolveram entre a população rural e se caracterizam por não terem pedras preciosas e não variarem nas tipologias: “Na ourivesaria clássica o que se quer é a diferença, a novidade. Na popular, não. Tu tens, eu tenho de ter igual, ou maior, ou mais. Como as peças são as mesmas, vamos buscar a diferença ao tamanho e à quantidade.”

Segundo a investigadora, com o fim da moeda em ouro a ourivesaria foi também valorizada: “O que é que fica para as pessoas do campo que não acreditavam nos bancos? O que é que eu vou comprar, no que é que eu vou acreditar? No ouro. No ouro sempre se acreditou.”

A nova vida das lojas históricas do Porto

Naquele tempo, na Baixa do Porto quase só se viam cabeças no ar. Agora os bancos reduziram-se para 15%, as companhias de seguros também. Foram saindo daqui centenas que tinham poder de compra e que mantinham as nossas casas de pé, porque era pessoal que gostava do bom e podia pagar o bom! Esses desapareceram. Os que aparecem por aqui vêm ao barato, sem qualidade. Mais nada.” Alberto Rodrigues é proprietário da Mercearia do Bolhão, no 305 da Rua Formosa, uma das casas mais antigas do Porto, há 25 anos. Fundada em 1880, era a secção de mercearia da Confeitaria do Bolhão.

“Há 25 anos, para nós era muito melhor, fazia-se o triplo do negócio que se faz hoje. Mas quanto é que aumentou o artigo de lá até cá? Evidentemente que ainda tenho o cliente com poderio e que sabe distinguir o produto.” Poucos números abaixo, no 279, está a superstar das mercearias finas do Porto — graças à fachada de azulejos Arte Nova, a Pérola do Bolhão já há de ter sido cenário de milhares de selfies. A casa é de 1917, sempre na mesma família, a de António Reis. Tem 91 anos e está na caixa registadora. Nasceu no andar de cima, e a mercearia que o pai fundou é a sua vida. Fez o curso comercial e aprendeu inglês, francês e espanhol. As línguas “deram jeito” para atender os turistas, que durante o ano são os principais clientes. “O negócio está parado. Têm vindo os turistas, os nacionais parece que não comem”, diz o comerciante.

A clientela há de encher esta e as outras mercearias da Baixa do Porto na altura do Natal e na Páscoa, as épocas altas. Também na Favorita do Bolhão, na Rua Fernandes Tomás, mudou o padrão de compra. São as conservas que ocupam grande destaque à entrada, bem como o vinho do Porto, o artigo que mais vende. Nesta mercearia, de 1934, nas mãos do atual proprietário desde 1974, o responsável de loja, Nuno Jesus, explica: “Os nossos clientes são muito fiéis, o segredo é o atendimento e a qualidade do produto. Temos casos de três gerações que continuam a vir, às vezes até ficam comovidos.” O relógio da Favorita está parado nas 10 horas. Funciona quando lhe dão corda, e não é sempre, porque a operação é delicada. Há meio século, quando estas mercearias se enchiam de clientes, as zonas comerciais da cidade estavam bem definidas. Se os portuenses queriam parafusos, iam à Rua do Almada, retrosarias era na Rua Fernandes Tomás, xailes e gravatas na Rua dos Clérigos, chapéus era na 31 de Janeiro.

Nas mercearias da Baixa mudou a clientela: mais turistas que levam conservas e vinho do Porto FOTO RUI DUARTE SILVA
Nas mercearias da Baixa mudou a clientela: mais turistas que levam conservas e vinho do Porto FOTO RUI DUARTE SILVA

O efeito Harry Potter

É outro Porto este que percorremos, com muitos turistas, o trânsito (automóvel e pedestre) virado do avesso com as obras de expansão do metro e filas permanentes para a Livraria Lello, onde a visita custa €8, e ocasionais para o Majestic, onde um café custa €5. Há um efeito Harry Potter no turismo da cidade, com oferta de várias visitas guiadas aos locais onde se acredita que J.K. Rowling se inspirou para a famosa saga, bem como oferta de produtos inspirados nesse universo. É o caso da Escovaria de Belomonte. A loja, no número 34 da rua que dá nome à casa, nasceu em 1927, pelas mãos do bisavô materno de Sérgio Rodrigues. À entrada da loja, expositores com pincéis de barba e escovas de cabelo, pequenas e grandes vassouras, escovilhões grandes e pequenos, piaçabas. E, em destaque, a vassourinha do Harry Potter.

“Recebemos muitas visitas de fãs que dizem que a J.K. Rowling se inspirou na nossa loja, nas nossas vassouras, para imaginar a vassoura do Harry Potter. Não temos nenhuma confirmação oficial, mas fomos quase obrigados a fazer uma”, diz Sérgio, designer, de 30 anos. Passando o balcão e os expositores, encontramos a oficina. Daqui saem escovas também para a indústria e para o mercado do luxo. “Somos os únicos na Península Ibérica a fazer todo o trabalho, desde trabalhar as madeiras às furações, ao pelo. Até fazemos a cera”, conta o pai, Rui Rodrigues. O filho desenvolveu a linha de cuidado pessoal, bem como toda a imagem. A escovaria tradicional deu um salto de valor, posicionando-se de outra forma, criando canais de venda online. Há edições especiais e escovas que podem custar €400.

No Porto, quem precisa de sapateiros ainda pode subir ao Cimo de Vila. Na Casa Crocodilo reparam-se malas, carteiras, mochilas, sapatos, colocam-se fechos e fivelas, dá-se nova vida a marroquinaria que parecia condenada. Fundada em 1945, está viva graças ao neto do fundador, um farmacêutico de 41 anos que mudou de vida com a pandemia. Custava-lhe ver a loja onde brincara desde menino a definhar. “Em 2019 decidi suspender a minha profissão e vim tratar de reerguer a loja”, conta André Coutinho. O incentivo da Câmara Municipal, através do Porto de Tradição, programa de salvaguarda das lojas históricas da autarquia, foi importante para esse passo: criado há seis anos, já apoiou 110 estabelecimentos, dos quais 17 ligados às artes e ofícios, num valor total de €1,2 milhões. André Coutinho está agora empenhado em seguir com o negócio da família e tem ideias de criar uma linha própria. “Os estrangeiros valorizam muito se é feito cá.”

Os Bots e a Guerra da Ucrânia

São Petersburgo, 2014. Foi neste ano que Yevgeny Prigozhin cria a Internet Research Agency (IRA). Uma empresa criada para propagar conteúdos na Internet, em diferentes línguas e países.

São Petersburgo, 2014. Foi neste ano que Yevgeny Prigozhin cria a Internet Research Agency (IRA). Uma empresa criada para propagar conteúdos na Internet, em diferentes línguas e países.

A IRA tinha mais de 1000 colaboradores. Cada um destes colaboradores tinha uma quota diária de 100 comentários. Teve um papel ativo nas eleições americanas de 2016, no referendo do Brexit, no referendo da Catalunha e, mais recentemente, na Guerra da Ucrânia.

Em março de 2022, arranca a “operação militar especial”, com o pretexto de que era necessário salvar o país de um “governo de drogados” e “nazis”. As duas narrativas foram sendo amplificadas através de diferentes fábricas de bots que remetiam comentários para sites ou blogs noticiosos fictícios e com conteúdos manipulados.

Um dos casos mais famosos foi o vídeo viral de Zelensky a consumir droga.

A guerra de desinformação russa atingiu tais proporções que o Parlamento Europeu acabou por banir diferentes media russos e outras páginas de “notícias” relacionadas com a campanha de descredibilização dos ucranianos.

A IRA acabou por ser extinta com a morte de Prigozhin e o desmantelamento do Grupo Wagner. A IRA era apenas uma de muitas empresas do género na Rússia. Quase todas com ligações ao Kremlin.

A Fábrica

Estamos em 2016. Nos Estados Unidos da América, discutem-se as presidenciais e o escândalo dos emails de Hillary Clinton.

Estamos em 2016. Nos Estados Unidos da América, discutem-se as presidenciais e o escândalo dos emails de Hillary Clinton. A candidata à Casa Branca teria utilizado um endereço Gmail para tratar de assuntos de segurança. O candidato republicano, Donald Trump, faz deste caso o principal assunto da campanha. O tema é discutido nas redes sociais e são publicadas centenas de notícias.

Trump vence as eleições. Mais de um ano depois, uma investigação deteta a origem destas e outras notícias: uma pequena cidade na Macedónia do Norte chamada Veles. Uma cidade onde dezenas de jovens eram pagos para publicar e republicar conteúdos e Fake News internacionais.

Dimitri”, criador de fake news em Veles, Macedónia

A denúncia da NBC conduz a uma investigação do FBI. A agência e o Congresso acusam formalmente a Rússia de estar por detrás destas notícias. Na prática, acusam a Rússia de interferência eleitoral.

Trump sempre negou ter conhecimento da interferência russa.

Com as denúncias de interferência nas eleições de 2016, foram identificados mais de 150 sites de Fake News geridos em Veles, por jovens. Estes sites eram nomeados de forma a parecerem americanos, tais como:

  • WorldPoliticus.com
  • TrumpVision365.com
  • USConservativeToday.com
  • DonaldTrumpNews.com
  • USADailyPolitics.com

Perfil dos criadores de Fake News em Veles:

  • Jovens na casa dos 20 anos;
  • Educação de nível elementar e sem formação em jornalismo, sem emprego estável;
  • Consideram que fazem marketing digital e não jornalismo, têm orgulho neste trabalho;
  • Consideram este trabalho uma atividade lucrativa e prestigiosa:
    • “As Fake News na sociedade atual são um processo através do qual cada pessoa (…) pode ganhar muito dinheiro e ter grande sucesso na área publicitária”.
    • “As Fake News na sociedade atual são uma mentira verdadeira que toda a gente conhece, mas de que não se apercebe”.
    • “As Fake News são um tipo de trabalho em que pensamos como escrever e o que escrever em várias páginas para nos tornarmos populares e ricos”.
  • Consideram os riscos mínimos: “Para ser sincero, no início tive um pouco de receio porque se tratava de política e porque estava a escrever para pessoas importantes como Hillary Clinton e Donald Trump, mas os riscos não se revelaram graves; é que já não posso existir no Facebook com o meu nome”.

Reutersgate

Líbano, 12 de julho de 2006. O sequestro de dois soldados israelitas desencadeou uma ofensiva israelita contra o grupo terrorista do Hezbollah.

Líbano, 12 de julho de 2006. O sequestro de dois soldados israelitas desencadeou uma ofensiva israelita contra o grupo terrorista do Hezbollah. No meio do conflito, a reputada agência internacional Reuters publica uma fotografia que dá a volta ao mundo e faz capa no New York Times.

No dia seguinte, a própria Reuters, pela primeira vez, emite uma “picture kill”, um pedido para que a imagem não seja utilizada pelos restantes meios. A Reuters justifica-se dizendo que tinha recebido a imagem, já manipulada, de um fotojornalista local (Adnan Hajj). A imagem não foi caso único ou exclusivo. Durante todo o conflito, houve queixas e denúncias de manipulação de imagens com “produção” excessiva para aumentar o seu dramatismo. As Fake News tinham chegado às fotografias

Outros exemplos como este se seguiram.

A Agência Reuters retira uma segunda fotografia adulterada. A fotografia supostamente apresenta um avião caça F16 nos céus do Líbano a disparar mísseis, tendo sido distorcida para fazer parecer que estava a disparar muitos mísseis. Contudo, o avião da imagem só está a disparar um sinalizador defensivo, sendo os outros cópias do primeiro.

A Reuters retira as imagens e remove da sua base de dados todas as fotografias deste autor, Adnan Hajj, anunciando que iria estabelecer uma política mais rigorosa de avaliação de imagens do conflito no Médio Oriente.

A 27 de julho de 2006, o The New York Times publica um artigo de Tyler Hicks que mostra imagens de um homem morto a ser resgatado depois de um ataque aéreo à cidade de Tiro. Na legenda da foto, diz-se que ainda se encontram corpos debaixo dos destroços do ataque aéreo, apelando-se ao fim do bombardeamento por Israel. Contudo, como se perceberá depois, trata-se de uma fraude, dado que o mesmo homem aparece noutras fotografias depois do ataque, a apontar e a movimentar-se pelos destroços.

Em Beirute, após um ataque de Israel, o Hezbollah cria uma campanha visual, com peluches limpos sob os escombros da cidade, mudando a narrativa para um massacre de cidadãos libaneses inocentes.

Beirute

O Iraque (2003)

No dia 19 de março de 2003, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, Colin Powell (então Secretário de Estado) faz uma apresentação em PowerPoint apresentando provas de que o regime iraquiano tinha acumulado armas de destruição maciças.

No dia 19 de março de 2003, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, Colin Powell (então Secretário de Estado) faz uma apresentação em PowerPoint apresentando provas de que o regime iraquiano tinha acumulado armas de destruição maciças. A informação é transmitida por todos os meios de comunicação social do mundo. O regime iraquiano desmente a informação e convida um grupo de jornalistas a visitar uma das instalações referidas por Powell. Com a fonte identificada e a informação em “on”, o escrutínio à informação americana é pouco ou inexistente.

Colin Powell discursa no Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre o Iraque, 2003.

A 20 de março, começa a invasão terrestre do Iraque. A guerra termina em maio e as armas nunca foram encontradas. A carreira política de Powell termina (chegou a ser dado como presidenciável). Não há inquérito nem são apuradas responsabilidades pelo “erro”.

Em 2004, o jornal The New York Times publica um pedido de desculpas por ter reportado a presença de armas de destruição maciça no Iraque:

Editors at several levels who should have been challenging reporters and pressing for more skepticism were perhaps too intent on rushing scoops into the paper. Accounts of Iraqi defectors were not always weighed against their strong desire to have Saddam Hussein ousted.”

We consider the story of Iraq’s weapons, and of the pattern of misinformation, to be unfinished business. And we fully intend to continue aggressive reporting aimed at setting the record straight.”

Quase 20 anos depois do início da Guerra do Iraque, um inquérito revelou que 62% de adultos e 64% de veteranos de guerra consideram que não valeu a pena lutar.

A História do Maine (1898)

Na noite de 15 de fevereiro de 1898, uma forte explosão faz afundar o navio de guerra americano “Maine”. O incidente conduziu os Estados Unidos da América para a guerra.

Na noite de 15 de fevereiro de 1898, uma forte explosão faz afundar o navio de guerra americano “Maine”. O incidente conduziu os Estados Unidos da América para a guerra.

Deflagrava a guerra pela independência, contra o domínio colonial espanhol, e os jornais norte-americanos noticiavam os maus tratos que as autoridades espanholas infligiam sobre a população cubana e sobre cidadãos americanos que residiam na ilha. O governo dos Estados Unidos responde à pressão da imprensa: a 25 de janeiro, o navio de guerra norte-americano entra no porto de Havana.

O Maine era um dos mais modernos navios da frota americana e a sua chegada a Cuba foi vista como uma forma de pressão sobre os espanhóis. Três semanas após a sua chegada, o navio explode e morrem mais de 250 marinheiros.

O caso é explorado e manipulado pela imprensa americana, sobretudo pelo New York Journal e pelo New York World. Os jornais são impiedosos e acusam os espanhóis de sabotagem. A opinião pública exige que sejam vingados os mortos com o ‘grito’ criado pelos jornais: “Remember the Maine”. Dois meses depois, é declarada a guerra.

A Guerra Hispano-Americana durou menos de 4 meses. Em pouco tempo, as tropas americanas invadem Cuba e a guerra expande-se para o Pacífico. Os EUA vencem e é assinado o armistício. Através do Tratado de Paris, assinado em dezembro desse mesmo ano, a Espanha cede aos americanos o que restava do seu império colonial: Porto Rico, Cuba, Guam e a soberania das Filipinas. A Espanha acaba por vender as restantes possessões no Pacífico aos Alemães. Foi o fim do império colonial espanhol na América e na Ásia. Foi o princípio da presença global dos Estados Unidos da América.

Em 1976, os restos do Maine são trazidos de Havana para os Estados Unidos. O motivo da explosão nunca foi esclarecido, mas os exames mais recentes apontam para um acidente, provocado por um incêndio nos depósitos de carvão ou de munições. Os espanhóis não tinham sabotado o navio. Fake news.

O fenómeno da pressão mediática exercida sobre as autoridades americanas foi amplamente estudado a posteriori. Ao tipo de jornalismo criado pelas manchetes bombásticas e textos inflamados dessa altura deu-se o nome de yellow journalism (jornalismo tabloide). Pulitzer e Hearst são duas das figuras dos Média associadas ao aparecimento deste modelo jornalístico.

Em 1883, Pulitzer aplica uma série de novas técnicas com o objetivo de salvar o jornal The World. Desde 1917, Pulitzer é o nome do prémio que reconhece o jornalismo e a escrita de qualidade. Hearst segue os passos de Pulitzer e convida jornalistas do The World para trabalharem no seu jornal The New York Journal, inclusive Outcault, o autor da emblemática figura de banda desenhada da yellow press: o Yellow Kid. Hearst foi a inspiração para um dos mais famosos personagens de cinema: Citizen Kane é William Randolph Hearst.