MEDIA AGE EXPERIENCE
"INESPERADO, INTELIGENTE E DIVERTIDO"

News Standard

Genocídio com embargo

Um conflito de etnias – Tutsis versus Hutus –provocou no Ruanda, em 1994, a morte de mais de um milhão de pessoas. A cobertura mediática foi, na primeira fase, praticamente inexistente, porque os Media encontravam-se na África do Sul a cobrir a eleição do primeiro presidente negro

Em 100 dias, estima-se que mais de 800.000 pessoas foram mortas no Ruanda. E o repórter não estava lá. Foi um massacre para o qual a cobertura mediática chegou tarde demais.

“By late afternoon, they looked like water lilies cloaking the river’s surface. Only when the light reflected off the water did you catch a truer glimpse of them: bodies by the dozen, bloated and obscene, floating together downstream”.

«Ao final da tarde, pareciam lírios de água a cobrir a superfície do rio. Apenas quando a luz era refletida na água se via de relance a imagem real: corpos às dezenas, inchados e obscenos, a flutuar com a corrente».

Tom Giles, BBC, 7 de abril de 1994

A onda de violência que se abateu sobre o Ruanda remonta à conflituosidade étnica entre Hutus e Tutsis.

As tensões entre as duas já advinham do período colonial do Ruanda.

Após a Primeira Guerra Mundial, a Bélgica assumiu a liderança das colónias.

Os belgas consolidavam a distinção entre as duas etnias, emitindo bilhetes de identidade que indicavam a etnia dos cidadãos.

Além disso, a minoria Tutsi era favorecida através de cargos de liderança, em detrimento da maioria Hutu.

Em 1959, os Hutus rebelaram-se contra os Tutsis, obrigando milhares de Tutsis a fugirem para o Uganda. A partir de 1961, os Hutus vitoriosos expulsavam o monarca Tutsi que se encontrava no poder e declaravam o Ruanda uma república.

A independência da agora república era concedida pela Bélgica em 1962.

Mas, após a independência, a violência entre as duas etnias iria agravar-se.

Rebenta a Guerra Civil

Em 1973, o General Juvenal Habyarimana, um Hutu moderado, sobe ao poder e ordena a suspensão da violência.

Durante um longo período de mais de 15 anos, o Ruanda viveu numa relativa paz, com a maioria dos Tutsis refugiados no Uganda.

No entanto, a guerra civil que eclodiu no Uganda fez com que os Tutsi exilados no país se juntassem às forças rebeldes ugandesas. Em 1987, os Tutsis formam a Frente Patriótica Ruandesa (FPR) e, em 1990, invadem o leste do Ruanda.

Este era o ponto de viragem que Habyarimana precisava para unificar os Hutus contra o inimigo comum: os Tutsis.

Na capital do país, Kigali, a motivação fornecida pelo presidente financiou a criação do jornal Kangura, que passou a difundir mensagens antitutsi.

Os franceses e os belgas não se coibiram de apoiar os Hutus contra o FPR, fornecendo-lhes armamento. E os massacres e as perseguições continuaram, intensificando-se em 1992.

Em agosto de 1993, a esperança voltou. O presidente Habyarimana assinava, em Arusha, na Tanzânia, um acordo de paz com o FPR, que o incluía num governo de transição para o Ruanda.

Os Hutus extremistas, todavia, não iriam ficar satisfeitos com o Acordo de Arusha. O pior estava ainda para acontecer.

Escalada de violência

A 6 de abril de 1994, um avião que transportava o presidente Habyarimana e o presidente do Burundi, Cyprien Ntaryamira, foi abatido, não deixando quaisquer sobreviventes.

As acusações variavam entre os extremistas Hutus e o FPR.

Apenas uma hora depois do ataque, as milícias Hutus bloqueavam as estradas e as ruas, como se fosse tudo parte de um plano previamente delineado.

A RTLM (Radio Télévision des Milles Colines), também difusora de propaganda antitutsi, ordenava publicava o início da matança dos Tutsis.

A porta para o genocídio em massa dos Tutsis e dos Hutus moderados tinha sido aberta.

A milícia Hutu denominada Interahamwe ficou encarregue de executar sumariamente os Tutsis, e armas e listas de alvos a abater eram distribuídas pelos locais.

Vizinhos matavam vizinhos, professores matavam alunos, e até padres e freiras foram acusados de homicídio.

O caos e o horror tinham-se instalado e não havia retorno.

Paralelamente ao genocídio de milhares de Tutsis, uma guerra civil entre o FPR e os Hutus eclodiu no território.

A 12 de abril de 1994, apenas uma semana após o início da chacina, havia apenas 21 jornalistas estrangeiros em território ruandês.

Um deles era Rui Araújo, enviado especial da RTP.

«Tiros de morteiro e rajadas de armas automáticas, os combates em Kigali continuam. As tropas ruandesas entraram esta manhã no aeroporto, estão aqui atrás de mim, os rebeldes do FPR cercam a cidade e cercam-nos a nós».

Durante esse mês de abril, a história de um dos piores crimes do século XX não estava a ter destaque na cobertura televisiva. Tal situação era ainda mais flagrante devido à era globalizada dos satélites em que nos encontrávamos.

Além da dificuldade de acesso ao Ruanda, a maioria dos correspondentes estava na África do Sul, a cobrir a eleição do primeiro presidente negro.

A 11 de abril, apenas quatro dias depois do início do combate, o The New York Times escrevia que a violência tinha “appeared to slacken”  («parecia abrandar»), com o Le Monde a escrever, no dia seguinte, que o combate tinha “diminished in intensity” («reduzido em intensidade»).

Também as estimativas quanto ao número de vítimas avançadas pelas publicações eram erróneas.

A 16 de abril, mais de uma semana depois do início do conflito, o The Guardian apenas estimava um total de 20 mil mortes.

“The graves are not yet full” [«As sepulturas ainda não estão cheias»].

Esta era a mensagem difundida pelo emissor da RTLM, que incitava o povo Hutu a matar a minoria Tutsi.

Mas Rui Araújo, que se manteve no Ruanda no mês seguinte, assistia aos horrores da carnificina, que prosseguiu com todo a força e vigor.

«As pernas de um homem foram comidas pelos cães depois de ter sido morto (…) Uma jovem ficou com a cabeça feita em bocados por uma catana», escreveu Rui Araújo para o Diário de Notícias, a 28 de maio de 1994.

“This is the beginning of the final days. This is the apocalypse”, [“Este é o início dos dias finais. Isto é o apocalipse”], lia-se na capa da Time, a 1 de agosto de 1994.

A 27 de junho, a BBC transmitiu o documentário Journey into Darkness, que ilustrava a verdadeira dimensão do horror, sem censura.

Era difícil transmitir a mensagem de genocídio, pois as imagens eram escassas e muitas vezes censuradas, devido ao seu teor altamente gráfico.

Além disso, a ONU e os Estados Unidos recusavam chamar ao conflito um genocídio, para evitarem os termos da Convenção de Genebra e serem obrigados a intervir.

Os Estados Unidos, em especial, recusavam a interferência no país, devido ao embaraço da recente «Operação Restaurar a Esperança» na Somália.

Apesar das forças belgas e das Nações Unidas no campo de batalha, a organização não mandava a ordem para parar com a matança.

Aos olhos de muitos, França teve o comportamento mais vergonhoso.

Com o objetivo de manter a sua zona de influência francófona em África, os franceses apoiaram o governo Hutu durante todo o genocídio, unindo-se contra a FPR, cujos efetivos falavam inglês.

A vergonha era ainda maior, uma vez que não poderiam alegar desconhecimento de causa. França foi o primeiro país a divulgar as primeiras notícias das tensões étnicas e da matança no Ruanda.

Quando em julho de 1994, a FPR começou a ganhar território e ocupou a capital ruandesa, os Hutus migraram em massa para o Zaire (atualmente República Democrática do Congo).

A guerra acabara.

Muitos organizadores e executores do genocídio misturaram-se entre os refugiados que recebiam ajuda humanitária no Zaire, tornando a sua identificação muito difícil.

Contudo, estes campos de refugiados no Zaire tornar-se-iam um foco mediático, mesmo depois de toda a carnificina ter passado.

O massacre, que outrora tinha sido ignorado, ganhava lugar na sétima arte.

Hotel Ruanda, o filme de Terry George, levou ao grande ecrã a história de Paul Rusesabagina, o gerente do Hôtel des Milles Colines, que foi responsável pela salvação de mais de 1.000 Tutsis e Hutus.

O filme recebeu três nomeações aos Óscares (melhor ator, melhor atriz secindária e melhor argumento original) e ganhou o «Prémio do Público» no festival de Toronto, no Canadá.

Em 100 dias de conflito, é estimada a morte de mais de 800.000 pessoas.

Quando a ONU finalmente reconheceu o estatuto de genocídio e criou tribunais para julgar os seus autores, já era tarde de mais. Era difícil identificar os responsáveis e o número esmagador de vítimas era incontornável.

O genocídio em Ruanda tornar-se-ia uma das grandes atrocidades do século XX, e um dos grandes falhanços dos media.

À conquista da Terra Santa

Política, religião, etnicismo; o Médio Oriente as diferenças gerem conflitos. A censura, os perigos e os desafios dos profissionais que fazem Jornalismo a partir de um dos territórios mais perigosos do planeta

Um dos territórios mais perigosos do nosso mundo, o Médio Oriente é terreno fértil para repórteres de todas as origens. O olhar dos Media, que já foi mais atento do que é hoje, sobre um conflito interminável.

«A meia dúzia de metros, os canhões de Israel bombardeiam com grandes labaredas à saída das bocas de fogo. O barulho é tanto que nem sequer ouvimos a aviação rasante sobre as nossas cabeças. Seguimos para a fronteira e ao longo do caminho o espetáculo é sempre o mesmo: destroços de guerra à mistura com rolos de fumo, línguas de fogo e um ruído ensurdecedor a que já nos habituámos».

José Manuel Teixeira, do jornal Expresso, chegava a Israel e encontrava um país mergulhado em guerra.

Não era de estranhar. O país estava ferido: tinha sido atacado pelo Egito e pela Síria em pleno Yom Kippur, o dia mais santo do calendário judaico.

As hostilidades de 1973 constituíam-se apenas como mais um episódio de um confronto já muito antigo, que remonta à criação de um Estado Judaico na Palestina (sionismo).

O final da Segunda Guerra Mundial iria conferir aos judeus uma legitimidade para a criação de um Estado Judaico na Palestina.

Os judeus começaram a exercer pressão sobre os EUA, que cederam e apoiaram, juntamente com a ONU, a divisão da Palestina em três partes: uma judaica, outra árabe e outra (a cidade de Jerusalém), internacionalizada.

O conflito iria ser despoletado imediatamente nesse ano de 1947. Enquanto os judeus aceitavam a divisão, os árabes não.

Os EUA e a União Soviética apoiaram os judeus, que conseguiram retaliar com sucesso e lançaram uma campanha de expulsão das populações palestinianas da região.

Em 1948, David Ben-Gourion proclamou a Declaração de Independência de Israel.

Em 1959, Yasser Arafat criou a Fath, que mais tarde passou a controlar a Organização de Libertação da Palestina (OLP).

A caixa-de-pandora estava aberta: Israel multiplicaria as suas forças contra os Estados árabes.

O conflito alastra-se

Durante o conflito dos Seis Dias em 1967, Israel conquistou vários territórios e tornava-se a grande potência do Médio Oriente.

Como resultado, o Egito perdeu a Península de Sinai e a Faixa de Gaza, a Jordânia perdeu a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, e a Síria perdeu os Montes Golã.

Em 1972, o presidente do Egito, Anwar el-Sadat, expulsa 20.000 conselheiros soviéticos e abre os canais de comunicação com os EUA.

Washington, sendo um grande aliado de Israel, desempenharia, no ver do presidente egípcio, um papel fundamental para negociações de paz entre o Egito e Israel.

No entanto, não se chegam a negociações. O Egito forma uma aliança com a Síria, e os ataques a Israel são planeados.

As forças israelitas foram apanhadas de surpresa, mas conseguiram reagir.

Em pleno clima de Guerra Fria, a URSS apoiou as nações árabes, enquanto os Estados Unidos ficaram do lado de Israel.

Mas os envolvidos não se ficaram por aqui. As forças iraquianas rapidamente se juntaram ao conflito contra Israel, e a Jordânia apoiou a Síria.

Israel contra-atacou em força, à custa de várias perdas nas forças israelitas. Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos na altura, ordenou o envio aéreo de armas para auxiliar Israel, mas tal decisão foi adiada por uma semana, devido à simpatia expressa dos EUA pelo Egito.

Nos Estados Unidos, a ABC reportava os ataques israelitas na Península de Sinai.

Mas os vários jornalistas enviados deparavam-se com diversos condicionantes.

O jornalista José Manuel Teixeira, do Expresso, tinha chegado a Tel Aviv a 8 de outubro e imediatamente sentira o apertado controlo das forças israelitas sobre a imprensa.

«É impossível informar com verdade e objetividade a partir do território de Israel. […] A censura militar é de tal forma repressiva que não dá nenhuma hipótese de fazer sair de Israel qualquer notícia ou foto que não apoie diretamente a política do Governo de Telavive».

De volta a Lisboa, o português escrevia a sua última crónica sobre o Médio Oriente naquele outubro de 1973.

À medida que os confrontos se agravavam, os Estados Unidos iam relatando com alguma indiferença os acontecimentos.

De tal forma que a BBC, ao longo das notícias que publicava sobre a guerra de Yom Kippur, declarava a morte de cerca de 6.000 israelitas. Mais tarde, o Ministério da Defesa de Israel revelava que as perdas do país no conflito rondavam as 2.222.

Do lado israelita, os jornais enchiam-se de notícias sobre o apoio militar dos EUA a Israel, e enalteciam os avanços do exército israelita.

O cessar-fogo

Os israelitas sairiam vitoriosos na disputa pelos Montes Golã na Síria e, no dia 10 de outubro, expulsam de vez os sírios da região. No mesmo dia, Manuel Batoréo desembarca em Tel Aviv e Pedro Oliveira em Beirute, no Líbano. Ambos eram enviados de A Capital.

Nesta altura, a situação militar israelita mostrava-se bastante favorável.

«Observadores imparciais creem que os exageros israelitas são maiores do que os dos árabes. […] Segundo os observadores internacionais as informações judaicas são extremamente exageradas», escreveu Pedro Oliveira para A Capital, 13 de outubro de 1973.

No fim-de-semana de 20 e 21 de outubro, o secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, deslocou-se a Moscovo para iniciar as negociações de paz entre a ONU e a União Soviética.

Um cessar-fogo foi assinado por ambas as partes.

Contudo, Manuel Batoréo reportava atividade na fronteira com o Egito:

«A grande altitude, conseguimos ver aproximarem-se dois aviões. Depois, formava-se um rasto de fumo, uma labareda enorme caía no solo, desenvolvendo um cogumelo negro que demorou algum tempo a dissipar-se», relatou.

A 24 de outubro, as Nações Unidas voltam a intervir, e aprovam uma segunda resolução de cessar-fogo.

Mas somente a 29 de outubro os militares israelitas e egípcios deram início às negociações de paz, pondo um fim ao conflito do Yom Kippur.

Em 1974, Daniel Bloch levantava a seguinte questão no jornal Davar:

“Did journalism fill its duty in exposing problems, distortions and blunders in the security system or did it share the common conception that the military and the security establishment are never wrong?”

[«Será que o jornalismo cumpriu o seu dever, expondo os problemas, distorções e erros no sistema de segurança, ou será que partilhava a conceção comum de que os estabelecimentos militares e de segurança nunca estão errados?»]

De facto, o jornalista acusava os meios israelitas de não questionarem a preparação do país para a guerra, assim como as avaliações positivas do governo perante as intenções dos seus vizinhos.

Como resultado, Israel foi completamente apanhado desprevenido aquando da invasão da Síria e do Egito.

Nos anos 1950, os meios de Israel aceitavam a censura militar a que eram expostos, para além de serem convencidos por parte do governo que o exército israelita era invencível após a Guerra dos Seis Dias em 1967.

No rescaldo do conflito de Yom Kippur, os jornalistas israelitas assumiram a responsabilidade na falha de alertarem o público sobre a guerra iminente.

O conflito seria um fator decisivo na mudança da posição dos media israelitas, que passaram de meros relatores para organismos críticos em busca da verdade.

O choque petrolífero

Depois do fim do conflito, a reputação do presidente Sadat no Médio Oriente aumentou, devido aos primeiros avanços de sucesso feitos pelo Egito.

Assim, em 1974, o primeiro de dois acordos que indicavam o regresso de várias porções da Península de Sinai ao Egito foi assinado, e em 1979 o primeiro acordo de paz entre Israel e os seus vizinhos árabes foi também firmado.

No entanto, para a Síria, a história era muito diferente. O inesperado cessar-fogo entre Israel e o Egito expôs a Síria à sua derrota militar, e Israel acaba por ganhar o controlo de ainda mais território nos Montes Golã.

Aliás, no rescaldo da derrota no conflito de Yom Kippur, cinco países árabes produtores de petróleo reuniram-se no Kuwait a 18 de outubro de 1973 e decidem cortar a sua produção e iniciar um embargo petrolífero aos EUA, Canadá e Holanda, considerados apoiantes do sionismo.

Assistia-se ao primeiro choque petrolífero.

Em 1975, a guerra civil eclodiu no Líbano. A chegada dos palestinianos ao país, para organizarem as suas ações contra Israel, veio agravar o frágil equilíbrio da política libanesa, e os cristãos libaneses entram em conflito com os muçulmanos libaneses, que formam uma aliança com os palestinianos.

Israel decide intervir, e a 6 de junho de 1982, o país invade o Líbano para pôr um fim aos palestinianos e às bases da OLP na região. Milhares de palestinianos recuam as posições militares e refugiam-se em Beirute.

José Goulão, enviado especial de O Diário, e Álvaro Martins Lopes, do Expresso, assistiram ao cerco de Beirute Ocidental, levado a cabo pelos israelitas e pela Falange, a milícia cristã libanesa.

«Os bombardeamentos aéreos prolongaram-se durante três horas e cederam lugar à artilharia pesada (…) Durante a tarde e a noite o tiroteio não parou, variando apenas de intensidade», escreveu José Goulão para O Diário, a 13 de agosto de 1982.

Também Álvaro Martins Lopes, do Expresso, reportou o acontecimento.

«O espetáculo é insólito […] metade da cidade feericamente iluminada e a outra metade imersa em total escuridão – apenas quebrada pela luz fantasmagórica dos ‘very lights’ israelitas que levam imenso tempo a extinguir-se ou pela explosão alaranjada dos obuses e ‘rockets’».

As televisões mostravam os bombardeamentos violentos a Beirute.

O presidente Ronald Reagan, dos EUA, contacta Menahem Begin, primeiro-ministro de Israel, e exige o fim dos ataques.

Um cessar-fogo é acordado entre ambas as partes.

A 21 de agosto, a OLP começa a retirar-se de Beirute.

«As aclamações da população civil libanesa, os beijos e abraços dos irmãos de armas da esquerda libanesa (…) Ar de festa e garridice que fazia esquecer as ruínas e o luto», descreveu Álvaro Martins Lopes.

Mas os horrores não ficavam por aqui.

Massacres correm mundo

A 16 de setembro de 1982, o exército cristão Falange dá início a um genocídio de milhares de civis palestinianos no Líbano, nomeadamente no bairro de Sabra e no campo de refugiados Shatila em Beirute.

Em 1983, o governo israelita criou a Comissão Kahan, com o objetivo de se investigar os massacres e apurar os culpados. A comissão viria a apontar o ministro da Defesa, Ariel Sharon, indiretamente responsável pela violência cometida no Líbano.
Os media ocidentais começaram a atribuir a culpa pelos massacres a Ariel Sharon como se se tratasse de um facto incontornável.

Em 1983, o ministro israelita levou aos tribunais a revista Time, devido a uma capa que indicava que Sharon tinha encorajado os massacres.

Ficou concluído que a revista agiu negligentemente, interpretando de forma errada o documento israelita no qual a acusação se baseou.

No 30.º aniversário dos massacres, Robert Fisk, o correspondente no Médio Oriente do jornal britânico The Independent, voltou aos locais dos massacres.

O jornalista descobriu novas provas que indicam que mais de 1000 palestinianos foram levados e assassinados pelos israelitas após os massacres.

A guerra no Líbano ficaria gravada na memória do Médio Oriente. Em 2008, Ari Folman dirige o primeiro documentário de animação israelita, Waltz with Bashir, que aborda as memórias de guerra do próprio no conflito de 1982.

O filme foi muito aclamado pela crítica, tendo sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro do Ano. Além disso, ganhou vários prémios reconhecidos internacionalmente.

O Médio Oriente sempre foi caracterizado pela sua elevada instabilidade política, religiosa e étnica.

O conflito de Yom Kippur e o cerco a Beirute Ocidental seriam só mais uns entre vários episódios que se sucederam ao longo dos tempos, intensificando uma grande guerra que se estende até aos dias de hoje.

Room With a View

Um hotel em Sarajevo torna-se o «quartel-general» dos media que cobrem a desintegração da Jugoslávia. Cabe aos repórteres contar ao mundo os horrores de mais um conflito, este no coração do Velho Continente

A violência e o horror deste conflito chega ao mundo a partir do quartel-general dos Media algures numa janela de hotel em Sarajevo.

A Praça da Ljubljana

No verão de 1991, o presidente da Eslovénia declarava a independência na praça central de Ljubljana. Carlos Santos Pereira, a escrever para o Público, era o único repórter português no local.

Mas a Sérvia não aceita a independência da Eslovénia, e o conflito acaba por estalar. Os EUA afirmam que o conflito é problema europeu. A CEE intervém e a 28 de junho envia uma troika de ministros dos negócios estrangeiros a Belgrado e Zagreb. O Governo federal decreta um cessar-fogo que é violado no mesmo dia. A 29 de junho, a troika da CEE (formada pelos chefes de diplomacia da Holanda, Itália e Luxemburgo) forçam os países a assinar novo acordo de cessar-fogo. A CEE queria a suspensão das independências da Croácia e da Eslovénia, para além da retirada das tropas sérvias.

Os eslovenos, que em nada beneficiavam com esse acordo e que sentiam que a opinião pública europeia não virava a seu favor, foram os primeiros a reatar os combates. Mas algo estranho se passava. Os jornalistas portugueses em Ljubljana rapidamente começaram a perceber que a guerra era encenada. Havia tiros ocasionalmente e várias barricadas, mas não se assistiam a combates.

Mais tarde, a CEE consegue que os países cheguem a um acordo na ilha de Brioni, onde eslovenos e croatas aceitam moratória de 3 meses sobre a sua declaração de independência a troco do fim das hostilidades. O Acordo de Brioni não representou o triunfo da diplomacia europeia, mas antes o começo da guerra.

O deflagrar do conflito

A julho de 1991, a guerra entre a Sérvia e a Croácia rebenta. O exército federal já não pretendia defender as fronteiras da Jugoslávia, mas antes a defesa das comunidades sérvias espalhadas pela Federação.  Os sérvios da Krajina não queriam independência como a Croácia, e os dois lados entram em rota de colisão.

A 26 de agosto dá-se início à limpeza étnica na Croácia, por parte dos sérvios. José Pedro Castanheira, do Expresso, assistiu aos croatas a cercar os quartéis do exército federal jugoslavo em Zagreb, assim como a preparação da cidade para o exército. «A cidade vive permanentemente em sobressalto. O ambiente era de verdadeiro pânico, devido à possibilidade de um ataque de tanques»

A 17 de setembro, começava o primeiro bombardeamento de Zagreb por parte da aviação federal.

«Vindo do breu, não se sabe de onde nem para onde, um Mig 21 sobrevoa a cidade a baixa altitude. Em pleno centro, ultrapassa a barreira do som, provocando o tradicional estampido que a surpresa, o escuro, o silêncio e o medo reinantes multiplicam por mil. A defesa antiaérea riposta de diversas direções» – José Pedro Castanheira, Expresso.

A guerra pela independência da Croácia iria durar quatro longos anos. Maria João Carvalho, uma repórter freelancer, faria algumas crónicas para a RTP: «A Guarda patrulha a cidade e procura detetar atiradores especiais cetnik nas janelas e terraços dos prédios do centro. Todos os cidadãos foram alertados para estarem atentos a movimentos suspeitos e contactarem a polícia. Sabe-se que, até segunda-feira, Zagreb será atacada. Com os quartéis controlados pelo exército federal e os batalhões do sul a forçarem caminho até à cidade, os croatas estão tensos e suspeitam de tudo e de todos».

O conflito agudiza-se

Em novembro, com o agravar da situação, Artur Albarran e Godofredo Guedes, enviados especiais da RTP, chegaram a Zagreb.

«Ambos os lados se acusam de comportamentos inumanos, massacres e outras violações da Convenção de Genebra […] O pior é que ambos têm razão, porque a situação aqui, na Jugoslávia [ouve-se explosão] está fora de qualquer tipo… certamente fora de qualquer ética militar».

Em 1992, Carlos Santos Pereira, agora repórter da RTP, deslocava-se para a Bósnia-Herzegovina para cobrir os dois dias de referendo que decidiam a independência ou a permanência na Federação Jugoslava.

«Uma afluência hesitante do eleitorado às urnas e o número escasso dos incidentes registado, eis o balanço das primeiras horas deste referendo na Bósnia-Herzegovina». – RTP, 29 de fevereiro

«À medida que o astro-rei se escondia há horas atrás das montanhas, um longo suspiro percorria a Bósnia-Herzegovina (…) A prova terrível deste referendo sobre a independência parece para já ultrapassada sem a explosão de violência étnica que muitos receavam». – RTP, 1 de março

No dia a seguir o repórter conta-nos que as guerrilhas iriam eclodir: «Ao cair da noite, Sarajevo é uma cidade fantasma. Vive-se um silêncio tenso e pesado, constantemente interrompido pelos disparos e rajadas das metralhadoras que se ouvem de vários pontos da cidade, o medo instalou-se em Sarajevo e toda a gente espera o pior para esta noite». Santos Pereira, RTP, 2 de março

O referendo, que tinha sido boicotado pelos sérvios, confirmou a vontade dos muçulmanos e dos croatas de se afastarem da Jugoslávia. Mas os sérvios declaravam guerra em abril de 1992.

O «quartel-general» dos media

Em Sarajevo, o hotel Holiday Inn tornou-se o «quartel-general» dos media. «Naquele local não ias para a guerra, a guerra vinha ter contigo», afirma Martin Bell, correspondente da BBC.

A 2 de maio de 1992, o presidente da Bósnia, Alija Izetbegovic, voltava de Portugal após uma sessão falhada de negociações com a CEE.

Em pleno telejornal bósnio, o apresentador entrevistava, em direto, o presidente. «Penso que fui raptado», confessava Alija Izetbegovic ao apresentador. Seguiram-se momentos de negociações entre o pivô e o general do Exército jugoslavo, em direto na televisão.

Nos anos seguintes, vários jornalistas portugueses relatavam os horrores da guerra na Bósnia-Herzegovina.

«O crepitar das metralhadoras, o troar dos canhões, o medo e a incerteza constantes marcam o ritmo das horas em Sarajevo» – Carlos Santos Pereira, RTP, 13 de julho de 1992.

«Dentro da cidade [Mostar], o cheiro a pólvora e a queimado é intenso. Rebentamentos e disparos de armas automáticas ouviam-se, não muito longe» – Henrique Vasconcelos, RTP, 16 de junho de 1992.

«Casas completamente devastadas, famílias inteiras sem um teto para as abrigar, cadáveres amontoados» – Ana Leal, Rádio Comercial, agosto de 1992.

“Since events in what used to be Yugoslavia seem to have no impact whatsoever on the safety of our homes and families […] we have remained remarkably untouched, unmoved, by what is, indisputably, a gigantic human tragedy” [Visto que os eventos na antiga Jugoslávia parecem não ter qualquer impacto na segurança das nossas casas e famílias […] continuamos impávidos e serenos relativamente àquilo que é, sem dúvida, uma imensa tragédia humana], desafiava o repórter da ABC, Ted Koppel.

A situação tornava-se difícil de ignorar e Bill Clinton deparava-se com perguntas desconfortáveis.

Penny Marshall, da ITN, e Ed Vulliamy, do The Observer, mostraram ao mundo os campos de Omarska and Trnopolje.

Rapidamente os jornalistas presentes em Sarajevo tornaram-se alvos no meio da guerra entre bósnios e sérvios.

«O carro da televisão portuguesa aqui em Sarajevo foi alvo de um ataque. Escapámos por pouco» – Pinto Amaral, Telejornal, RTP, 1 de setembro de 1992.

«O Holiday Inn, onde está a maior parte dos jornalistas, foi bombardeado toda a noite e manhã de hoje. A razão disso é por se esconderem ali snipers, e, por isso, apesar do acordo das três forças em não o bombardearem, ele é atingido diariamente» – Maria João Carvalho, Rádio Renascença, 28 de agosto de 1992.

«Ao fim da tarde, os snipers aguardam os jornalistas à saída do ‘escritório’ da BBC, com tiros e granadas» – Maria João Carvalho, Diário de Notícias, 30 de agosto de 1992.

E as imagens da guerra continuavam a espalhar-se pelo mundo.

A 5 de fevereiro de 1994, o mercado de Sarajevo era bombardeado pelos sérvios, em plena praça povoada de gente. Em pleno efeito CNN, as imagens chocantes do ataque divulgadas pelos media iriam despoletar a ação da NATO, apoiada pelo governo dos EUA.

A 9 de março de 1995, o The New York Times publicava um artigo que culpava os sérvios por 90% dos crimes de guerra. Uma tendência que os media parecem ter refletido. A cobertura da guerra na Bósnia foi alvo de críticas por ser parcial, confusa e pouco clara na explicação da origem do conflito.

Em 1995, a Bósnia-Herzegovina era bombardeada pela NATO. «ONU ameaça continuar ações militares se sérvios bósnios não retirarem das “zonas de segurança”», escrevia o Diário de Notíciasa 31 de agosto de 1995.

A 1 de novembro, os americanos conseguiram juntar os presidentes da Sérvia, Croácia e Bósnia na mesa das negociações. O Acordo de Dayton era assinado e marcava o fim da guerra na Bósnia-Herzegovina. As tensões nos Balcãs eram atenuadas, mas não ficariam resolvidas…

Em 2007, vários artistas bósnios ergueram uma estátua de uma lata de comida em Sarajevo, num gesto de homenagem irónico à ajuda humanitária fornecida pelos europeus durante a guerra.

The Ikar canned beef is remembered by the people of Sarajevo with disgust. Cats and dogs did not want to eat it and people had to.” [A lata de carne é lembrada pelo povo de Sarajevo com repugnância. Os gatos e os cães não a queriam comer, e as pessoas tinham de fazê-lo], afirmou Dunja Blazevic, do Centro de Arte Contemporânea de Sarajevo. A Europa falhou aqui, e continuou a falhar no Kosovo.

A crise do Kosovo

A tensão no Kosovo já datava de muito antes, quando o país começou a ser povoado por uma maioria albanesa, em detrimento dos sérvios, que consideravam a região o berço da Sérvia. Em setembro de 1991, os albaneses organizaram um referendo clandestino aprovando a criação da República do Kosovo. Não haveria retorno. O UÇK, ou Exército de Libertação do Kosovo, iria insurgir-se contra as autoridades sérvias no território, através de vários atentados entre 1996 e 1998.

Pedro Cruz, enviado da TSF, chegou a Priština, a capital do Kosovo, em junho de 1998. O repórter verificava:

«Os sérvios estão cada vez a perder mais o controlo da situação, eles controlam apenas as estradas principais, tudo quanto vira para estradas secundárias, então quem domina tudo são os rebeldes albaneses, que patrulham, controlam, têm check-points em todas as estradas».

«É possível ver já a circulação de veículos militares fortemente armados e com muitos soldados dentro, ou seja, o exército jugoslavo começa agora a entrar neste jogo que, até agora, tinha sido só entre a polícia e o UÇK».

As imagens de aldeias inteiras a serem incendiadas, de milhares de civis a viverem nas florestas percorreram os media de todo o mundo. A opinião internacional crescia em direção da intervenção, para evitar que o Kosovo se tornasse numa nova Bósnia.

O massacre de Gornje Obrinje foi um dos pontos críticos do conflito que gerou atenção mediática. A 12 de outubro, a NATO interveio, lançando um ultimato a Belgrado para que as tropas sérvias se retirassem do Kosovo.

No entanto, o acordo da NATO não contemplava a independência do Kosovo, nem tão-pouco a ação do UÇK. Enquanto os sérvios se retiravam do Kosovo, o UÇK retaliou e provocou as tropas de modo a que estas cometessem atrocidades que levassem a uma intervenção militar da NATO. Os sérvios caíram na armadilha e o conflito reacendeu-se com nova intensidade.

Após vários meses de negociações, a Sérvia não acatava as condições impostas pela NATO. A 24 de março de 1999, a NATO deu início à «Operação Força Aliada», bombardeando os principais pontos militares sérvios. A primeira retaliação sérvia tomou como alvo os jornalistas ocidentais. Todos os repórteres presentes no Kosovo foram expulsos do território. Em 1999, novos ataques da NATO, desta vez em Belgrado.

Os bombardeamentos da NATO prolongar-se-iam até junho de 1999. Vários jornalistas portugueses faziam a cobertura do conflito a partir de Belgrado.

José Rodrigues dos Santos relatava o primeiro bombardeamento à capital sérvia para a RTP: «Senti a noite iluminar-se com uma luz muito forte. Olhei pela janela. Vi ainda os restos de um clarão branco alanrajado a diminuir, e, depois, um segundo depois, senti uma detonação de tal modo forte, (…) que tive que me encolher com medo de que os vidros se partissem».

«A NATO prometeu uma vaga de bombardeamentos sem precedentes, e cumpriu. As explosões das bombas e mísseis da NATO, e o frenético crepitar da antiaérea sérvia, bem o testemunharam esta noite, em Belgrado». – Santos Pereira, Telejornal, RTP, 7 de abril de 1999.

«Uma série de violentas explosões acordou-me a mim e deve ter acordado toda a gente aqui em Belgrado. (…) Esta foi uma das noites mais violentas aqui em Belgrado, e eu já levo aqui um mês de guerra». – Aurélio Faria, SIC, 22 de abril de 1999.

«Começou o trânsito ensurdecedor de aviões que não se veem, de balas tracejantes e dos barulhos abafados das antiaéreas» – Pedro Rosa Mendes, Público, 21 de maio de 1999.

Durante a maior parte da guerra, as autoridades sérvias negaram acesso ao Kosovo à maioria dos jornalistas. Quando era permitido fazer a cobertura, esta tinha de decorrer sob supervisão oficial.

A 9 de junho de 1999, era assinado um acordo de paz entre a Jugoslávia e a NATO. Restavam três repórteres portugueses em Belgrado.«A capital da Jugoslávia anima-se de alívio, mas há uma raiva no ar», escreveu Pedro Rosa Mendes para o Público.

Grande parte da informação disponível para os jornalistas ocidentais  advinha da NATO, um dos principais protagonistas. Desta forma, levantavam-se as dúvidas sobre o ângulo abordado pelos media. Ainda antes do final do conflito, The Indepedentquestionava o papel da NATO na cobertura mediática.

Em 2001, Slobodan Miloševic, o homem que governou a Jugoslávia durante a guerra nos Balcãs, foi acusado de crimes contra a Humanidade pelo Tribunal Penal Internacional da ONU. A Jugoslávia foi dissolvida em março de 2002.

A guerra dos jornais amarelos

Estamos no início do Séc. XX. Espanha e EUA envolvem-se numa luta pela conquista e defesa do território cubano. Contudo, a tensão entre as duas nações é exacerbada pela guerra das tiragens da “yellow press entre Pulitzer e Hearst

A Guerra de Cuba e o que dela se sabe é reportada nos jornais. Numa acérrima batalha de Imprensa entre os magnates Hearst e Pulitzer, a narrativa mais excêntrica sai sempre a ganhar. Uma guerra abastecida pelo sensacionalismo do “yellow journalism”.

A primeira página do New York Journal, a 9 de fevereiro de 1898, mostrava uma carta enviada pelo embaixador espanhol nos Estados Unidos ao Presidente norte-americano no qual, o embaixador faz juízos de valor sobre este: débil y populachero y además un politicastro que quiere dejarse una puerta abierta y quedar bien con los jingoes(n) de su partido.” [«fraco e popularucho e, além disso, um politiquinho que quer deixar a porta aberta e ficar bem com os patriotas exacerbados seu partido].

Enrique Dupuy de Lôme escrevera a missiva em meados de dezembro, expressando a sua opinião sobre a situação cubana e a diplomacia do Presidente McKinley.

Desde a revolta de 1868 que Cuba, então uma colónia espanhola, lutava com a metrópole pela independência, numa guerra com várias fases, que se estendia pela segunda metade do século XIX.

Os Estados Unidos estavam cada vez mais próximos de entrar na batalha.

Dias depois da divulgação da correspondência do embaixador, a tensão subia ainda mais de tom. A 15 de fevereiro, o navio norte-americano U.S.S. Maine explodia no porto de Havana, matando mais de 250 membros da tripulação.

O navio tinha sido enviado no mês anterior, para proteger os interesses norte-americanos na ilha. Com a explosão do Maine afundavam-se todas as esperanças de resolver diplomaticamente a questão de Cuba.

Apenas dois dias depois da tragédia, o New York Journal publicava a manchete: “Destruction of the war ship Maine was the work of an enemy” [«A destruição do navio de guerra Maine foi obra de um inimigo»].

O jornal chegava mesmo a oferecer uma recompensa choruda por informações que conduzissem ao culpado. Uma edição extra sobre o caso ia ainda mais longe, proclamando: “Spanish Treachery” [«Traição Espanhola»].

O tom da imprensa era tão aguerrido e inflamado que até Edwin Lawrence Godkin, do intelectual New York Evening Post, escreveu, no seu editorial.

“Nothing so disgraceful as the behavior of these newspapers in the past week has been known in the history of American journalism. […] It is a crying shame that men should work such mischief simply to sell more papers.”

[«Nunca se viu nada tão triste na história do jornalismo norte-americano como o comportamento observado na passada semana por estes jornais. […] É uma vergonha pública que o Homem seja capaz de fazer tanto mal simplesmente para vender mais jornais»].

Mas era tarde demais; a febre da guerra tinha contagiado até as publicações de referência.

A guerra nos jornais

A 6 de março, o New York Times publicava: “Madrid Press Feels Alarm: Talk of Destroying American Commerce and of Sending An Army to the United States” [«A imprensa de Madrid sente o alarme: Conversa sobre destruição do comércio americano e envio de tropas para os EUA»].

No mesmo dia, a edição do New York World colocava ainda mais pressão sobre o Governo.

Mais de 100 mulheres de todo o país tinham sido questionadas para a peça “American Women Ready to Give up Husbands, Sons and Sweethearts to Defend Nation’s Honor” [«Mulheres americanas dispostas a abdicar de maridos, filhos e namorados para defender a honra da nação»].

A 25 de abril, o Congresso norte-americano declarava oficialmente guerra. O conflito era resultado de um impasse com três lados.

Os revoltosos cubanos não se contentavam com nada menos do que a independência face a Espanha.

Os espanhóis estavam reticentes em perder a sua última colónia no hemisfério ocidental.

Os EUA, por razões económicas e humanitárias, não podiam ignorar o conflito.

A revolução do Yellow Journalism

Um quarto não tardava a entrar em ação e William Randolph Hearst seria um dos protagonistas deste «mecanismo». Hearst chegou ao jornalismo nova-iorquino em 1895.

Joseph Wisan, um teórico, acredita que “The Spanish-American War would not have occurred had not the appearance of Hearst in New York journalism precipitated a bitter battle for newspaper circulation” [«A Guerra Hispano-Americana não teria ocorrido não fosse a chegada de Hearst ao jornalismo de Nova Iorque ter precipitado uma batalha feroz pela circulação de jornais»].

Depois de, em poucos anos, ter tornado o San Francisco Examiner no jornal mais popular de São Francisco, Hearst ansiava por dar cartas num mercado maior.

Com apoio familiar, comprou o New York Journal e protagonizou uma revolução no jornalismo praticado em Nova Iorque.

A sua estratégia para o sucesso passou por atrair os melhores repórteres, artistas e cronistas da época, alguns dos quais trabalhavam num dos mais populares jornais do mercado: o New York World.

Depois de duas décadas de fracasso, o periódico tinha sido comprado por Joseph Pulitzer em 1883 e tornara-se num verdadeiro sucesso de vendas ao publicar histórias apelativas e de interesse humano.

À semelhança de Hearst, também Pulitzer começara por um mercado mais pequeno. Sob a sua alçada, o St. Louis Post-Dispatch tornara-se, no final dos anos 70, num caso sério do jornalismo local.

A redação do World incluía afamados repórteres de investigação, como a pioneira Nellie Bly. O jornal foi também o primeiro a publicar banda-desenhada a cores, com a criação do Yellow Kid, de Richard F. Outcault.

O mesmo Richard F. Outcault que Hearst recrutou para o seu Journal, anos depois. A banda desenhada viria a contribuir para batizar a imprensa sensacionalista praticada por Hearst e Pulitzer de yellow press.

A rivalidade entre os dois proprietários e a guerra travada entre o Journal e o World para conquistar o público nova-iorquino são o foco do documentário Hearst vs. Pulitzer.

A revolução que o yellow journalism causou no jornalismo norte-americano alterou por completo a cobertura jornalística e o panorama mediático do país.

Títulos chamativos, histórias bombásticas, tiragens astronómicas. Assim era a rotina do World e do Journal, que se digladiavam para conquistar o público americano. A sua oportunidade de ouro chegou no final da década de 1890, com o escalar da tensão em Cuba. A concorrência entre os periódicos trouxe a pequena ilha para as manchetes norte-americanas.

Acusado por outros jornais de ter contribuído para a invasão americana de Cuba, o New York Journal publicou, em maio de 1898, o epigrama: “How Do You Like the Journal’s War?” [«Está a gostar da guerra do Journal?»].

Em consequência, poucos dias depois lia-se no editorial: “This war has been called a war brought on by the New York Journal and the press which it leads. This is merely another way of saying that the war is the war of the American people, for it is only as a newspaper gives voice to the American spirit that it can be influential with the American masses”.

[«Esta guerra foi chamada de uma guerra criada pelo New York Journal e pela imprensa que este lidera. Esta é meramente outra forma de dizer que esta guerra é a guerra dos americanos, porque é apenas devido ao facto de um jornal dar voz ao espírito americano que consegue influenciar as massas americanas»].

A influência da imprensa junto dos americanos não era de subestimar. Na década de 1890, a América era uma nação de leitores: contavam-se milhares de semanários e cerca de 1.900 diários. Durante a guerra hispano-americana, metade dos títulos fazia parte da yellow press.

O General Valeriano Weyler, responsável pelas forças espanholas em Cuba, era apelidado de «Butcher Weyler» [«Carniceiro Weyler»] pelos media. A opinião pública clamava a intervenção americana. Em novembro de 1896, McKinley era eleito Presidente dos Estados Unidos com uma promessa eleitoral: libertar a população cubana.

O faro jornalístico de Hearst e Pulitzer tinha colocado, há muito, os seus repórteres no rasto dos conflitos em Cuba. No início de 1897, o Journalenviara o correspondente Richard Harding Davis e o ilustrador Frederic Remington à ilha.

Menos de uma semana depois, Remington escrevia um telegrama a Hearst: “Everything is quiet. There will be no war. I wish to return” [«Está tudo calmo. Não haverá guerra. Quero regressar»]. Mas Hearst insistia: “Please remain. You furnish the pictures, and I’ll furnish the war” [«Está tudo calmo. Não haverá guerra. Quero regressar»].

Apesar de Hearst ter negado alguma vez ter proferido tal frase, esta ficou imortalizada na história do jornalismo, ilustrando o sensacionalismo. Em 1941, no filme Citizen Kane, este episódio é retratado.

Ainda antes de o conflito rebentar, chegava à redação do New York Journalaquele que se iria tornar num dos exclusivos do ano. No verão de 1897, um dos principais correspondentes do jornal relatava o caso da jovem cubana Evangelina Cossio y Cisneros, aprisionada há mais de um ano pelos espanhóis.

O episódio tinha sangue, beleza, juventude, traição e injustiça; ingredientes que tornavam a história irresistível para Hearst… e para os leitores norte-americanos.

O principal concorrente do Journal, o New York World, tentava desacreditar a história, procurando mostrar que os seus rivais exageravam e distorciam os factos. Um esforço que poderia ter chegado a bom porto, não fosse o Journal decidir agir.

No final do mês de agosto, o repórter Karl Decker chegava a Havana com a missão secreta de resgatar a jovem e levá-la para os Estados Unidos.

A vasta campanha de libertação promovida por Hearst envolveu até a mãe do Presidente McKinley e o Papa Leão XIII.

Mas nem toda a imprensa se deixou conquistar pela heróica missão.

O New York Times escreveu:  “We do not intend to express any horror or indignation over the lawless act of our contemporary, the Journal, in taking Evangelina Cossio y Cisneros from a Cuban prison” [«Não queremos expressar qualquer horror ou indignação sobre o ato ilegal do nosso contemporâneo, o Journal, ao tirar Evangelina Cossio y Cisneros de uma prisão cubana»].

Em outubro, o New York Journalpublicava a história da libertação de Evangelina, chamando-lhe “the greatest journalistic coup of this age” [«o maior golpe jornalístico da era»].

A sua chegada aos Estados Unidos teve direito a diversos eventos mediáticos e até a uma receção oficial na Casa Branca.

Desde o início, a simpatia dos norte-americanos estava do lado dos rebeldes, que batalhavam, tal como os Estados Unidos tinham feito, para se libertarem do «império opressor». Evangelina tornara-se num símbolo da luta de todos os cubanos.

Pela Europa

Do outro lado do Atlântico, o patriotismo também chegava às páginas dos jornais. A imprensa espanhola encontrou na guerra de Cuba espaço para cultivar o sensacionalismo: os mais pequenos detalhes das batalhas enchiam páginas e páginas dos periódicos. A imprensa tornava-se porta-voz da euforia bélica. Os jornalistas enalteciam as qualidades dos «heróis» do exército espanhol e os editoriais falavam de honra, pátria e vitória.

A imprensa também orientava a opinião pública, contribuindo para tornar os poucos espanhóis que, na altura, sabiam ler favoráveis à guerra.

A «nobre» Espanha opunha-se «bravamente» a dois inimigos: os independentistas cubanos e o Governo norte-americano.

As caricaturas e publicações satíricas eram promovidas como forma de mostrar a confiança da velha nação espanhola na superioridade que a História lhe concedia.

À recém-criada nação «yanqui» [«ianque»] opunha-se a gloriosa Espanha, representada como um leão, símbolo de poder e vitória.

O Heraldo de Madrid escrevia que os soldados norte-americanos iriam desertar mal soasse o primeiro tiro.

Já o El País defendia: “El problema cubano no tendrá solución mientras no enviemos un ejército a los Estados Unidos” [«O problema cubano não terá solução enquanto não enviarmos um exército para os Estados Unidos»].

Estima-se que, à época, se publicassem mais de 1.000 periódicos em Espanha, embora muitos se pautassem por um caráter efémero ou periodicidade irregular. As guerras coloniais em Cuba e nas Filipas seriam as principais responsáveis pelo aumento significativo da tiragem dos diários.

O sensacionalismo que invadiu a imprensa espanhola levou a Unión Republicana a recomendar aos jornais madrilenos que evitassem as inflamadas afirmações patrióticas, porque estas podiam ser mal interpretadas nas várias capitais europeias onde os periódicos espanhóis eram vendidos.

O primeiro confronto

Apesar do frenesim mediático gerado à volta da guerra, a primeira peça sobre o conflito hispano-americano foi, ironicamente, um desastre noticioso.

A armada espanhola foi derrotada no início de maio de 1898, em Manila Bay, nas Filipinas. A batalha tinha terminado em apenas uma manhã, virtualmente sem imagens fotográficas e com cobertura mínima a partir do local.

Nas semanas que se seguiram, a esfera mediática girava em torno do conflito. Apesar da declaração de guerra, não havia grande ação na ilha, o que não impedia os jornais de continuarem a publicar manchetes fantasiosas.

Os repórteres aguardavam, juntamente com as forças militares norte-americanas, escrevendo sobre as preparações para a batalha e esperando partir para a ilha com as forças de invasão. Entre eles estava Anna Northend Benjamin.

A partir de Tampa, na Flórida, a jornalista do Leslie’s Weeklyescreveu relatos das preparações das tropas para a invasão de Cuba.

À data da partida das forças americanas, a repórter encontrou resistência; o Governo norte-americano tinha banido as jornalistas da frente de batalha e as autoridades e os colegas de profissão masculinos encontravam-se reticentes em deixá-la partir.

Anna Northend Benjamin acabou por chegar a Cuba, clandestinamente, acompanhando as batalhas e o pós-guerra.

Também Kathleen Blake Watkins teve dificuldades em chegar ao palco da batalha, batendo-se firmemente por acreditação com o Departamento de Guerra dos Estados Unidos. A repórter do Toronto Daily Mail and Empire recebeu orientações editorias para escrever histórias de interesse, deixando as peças da frente de batalha para os colegas. Uma distinção que não agradava à jornalista.

Outra das pioneiras do jornalismo feminino de guerra, Katherine White, foi das primeiras repórteres a chegar a Cuba, ao alistar-se como enfermeira da Cruz Vermelha. A técnica utilizada pela jornalista do Chicago Record viria a ser repetida por várias jornalistas em conflitos futuros.

Os custos da cobertura mediática da guerra atingiram quantias astronómicas. Estima-se que um terço das despesas totais de um jornal fosse direcionado para os correspondentes. Não existem dados exatos sobre o número de repórteres, fotógrafos e artistas que acompanharam a preparação da invasão a Cuba, mas acredita-se que deva ultrapassar os 300, podendo chegar mesmo aos 500.

O New York Journal, sozinho, tinha mais de 50 correspondentes a cobrir o conflito.

Um deles era Hearst. O proprietário do Journal queria reportar in loco a guerra.

A sua proximidade à frente de batalha era tal que o seu navio chegou a ser confundido com uma embarcação inimiga e perseguido pelas forças norte-americanas.

Foi a bordo do Sylvia, enquanto perscrutava a costa cubana, que Hearst se deparou com um dos furos da guerra.

Numa praia, encontravam-se mais de 20 espanhóis, “battered and bruised, half clothed, half drowned, half starved” [«maltratados e magoados, meio despidos, meio afogados, meio famintos»], depois de terem fugido dos seus navios em chamas. Armado do seu bloco de notas, Hearst resgatou-os e entregou-os às autoridades. As suas aventuras fizeram manchetes e chegaram até às páginas dos jornais concorrentes.

No The Times podia ler-se: “We observe that the proprietor of our esteemed and enterprising yellow contemporary The Journal has carried his characteristic enterprise into Cuban waters” [«Observamos que o proprietário do nosso estimado e empreendedor contemporário yellow, The Journal, levou as suas características iniciativas para as águas cubanas»].

Uma guerra contada e desenhada

Apesar das histórias repletas de vivacidade e dos relatos emocionantes, a cobertura efetuada pelos repórteres estava muito dependente de informadores.

As peças eram escritas em segunda ou terceira mão, com factos pouco precisos, deturpados ou até inventados pelos jornalistas para contribuir para o efeito dramático.

Os cabos de ligação da ilha tinham sido cortados, forçando os correspondentes a deslocar-se ao local mais próximo com transmissão por telégrafo ou cabo para enviar as peças.

Os barcos eram um meio de transporte popular entre a imprensa para seguir a ação no campo de batalha, por vezes até perturbando os navios de guerra. ONew York Journal,sozinho, tinha dez embarcações à sua disposição.

Ainda antes do início da guerra, a fotografia tinha sido fundamental para mostrar aos americanos as condições de vida dos cubanos e mobilizar a opinião pública.

A partir do início de 1898, a imprensa norte-americana enviava cada vez mais fotógrafos para Cuba.

Chegados à ilha, estes defrontaram-se com a impossibilidade de capturar imagens da guerra, devido às condições do terreno e à distância de segurança do campo de batalha.

Os artistas e ilustradores eram responsáveis por reproduzir visualmente os combates.

As imagens da guerra também chegaram às páginas da imprensa europeia, particularmente através de periódicos ilustrados. Le Petit Journal, Berliner Illustrierte Zeitung, Graphice Illustrated London Newsforam algumas das publicações a cobrir a guerra.

A vitória americana

E a guerra continuava a escalar. Depois da vitória nas Filipinas, as tropas norte-americanas chegaram à cidade cubana de Santiago.

A cidade rendeu-se em julho. A armada espanhola foi perseguida pelos navios americanos e destruída em poucas horas.

Se, na frente de batalha, a vitória americana parecia certa, também no campo mediático a guerra era travada de forma desigual. Depois da derrota espanhola nas Filipas e em Santiago, a situação tornava-se insustentável para a imprensa espanhola.

Era imposta a censura total e assistia-se à suspensão dos direitos constitucionais. Os jornais apenas estavam autorizados a publicar informação governamental. A censura e a apreensão de publicações tornava-se rotineira, com o Governo a defender a sua intervenção por razões de Estado.

Contudo, o impasse não iria durar muito. As forças americanas conquistavam Porto Rico no final de julho. Depois de 114 dias, era acordada a paz.

Em dezembro de 1898, era assinado o Tratado de Paris, no qual Espanha renunciava aos seus territórios em Cuba, Porto Rico, Antilhas, Filipinas e Guam. Depois de 400 anos, o império espanhol no Novo Mundo aproximava-se do seu fim. Os Estados Unidos confirmavam a sua emergência enquanto potência global.

Nos anos que se seguiram à guerra, a imprensa espanhola entrou num período de desorientação, de perda de credibilidade e de leitores. O patriotismo deu lugar ao pessimismo.

Em 1905, lia-se na Nuevo Mundo:

“Es como si a los lectores de los periódicos de Madrid les fuese acometiendo, uno a uno, un cansancio, una fatiga de prosa periodística, y uno a uno fueran dejando el diario que antes les apasionaba.”

[«É como se aos leitores dos jornais de Madrid os fosse afetando, um a um, um cansaço, uma fadiga de prosa jornalística e, um a um, fossem deixando o diário que antes os apaixonava»]

Nos Estados Unidos, Hearst expandiu o seu império media a outros estados norte-americanos e continuou a exercer influência sobre a opinião pública através das suas publicações. O Journal acabaria por fechar portas em 1966, 15 anos depois da morte de Hearst.

Com o virar do século e a morte de Pulitzer, em 1911, também o World se aproximava do declínio. O aumento do preço do periódico teve consequências negativas na sua circulação, levando, eventualmente, à sua extinção, em 1931. O legado de Pulitzer e a sua contribuição para o jornalismo ficariam imortalizados nos Prémios Pulitzer, que distinguem, desde 1917, a excelência na área.

O Journal e o World, expoentes máximos da yellow press, revolucionaram o jornalismo e continuam a influenciar o modo como se reflete sobre o mundo mediático. A rivalidade entre os dois jornais ficaria para sempre associada à Guerra Hispano-Americana. Um conflito influenciado – ou mesmo fomentado – por uma outra batalha, travada a milhares de quilómetros de distância: a guerra da imprensa.

O famoso Paralelo 38

Durante o período da Guerra Fria vários conflitos despoletam pelos cantos do mundo. A Guerra da Coreia é o primeiro e um dos mais relevantes. A norte do Paralelo 38 estão Coreia do Norte, China e União Soviética. A sul, Coreia do Sul, EUA e Reino Unido

A guerra entre as Coreias do Norte e do Sul dura três anos. Num misto entre guerra civil e ideológica, milhões de vidas são ceifadas num drama que envolve EUA, China e URSS. Mais de meio século depois do conflito bélico, a inimizade mantém-se: um norte e sul de costas voltadas, que na verdade é uma cisão entre Oriente e Ocidente.

Paralelo 38

O calendário marcava o dia 25 de junho de 1950 e Jack James, repórter da United Press, estava prestes a entrar na sala de imprensa da Embaixada norte-americana em Seul, capital da Coreia do Sul, quando um militar o inquiriu sobre novidades da fronteira. James nada sabia, mas a tensão entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul era bem conhecida entre os repórteres instalados em Seul. Todavia, a conversa com o militar revelou-se frutífera: o jornalista acabou, mais tarde, por perceber que tinha havido uma invasão.

Depois de duas frenéticas horas a tentar confirmar a informação, James enviou um boletim, mesmo a tempo das edições de domingo dos Estados Unidos, reportando “general attacks along the 38th parallel” [ataques gerais no paralelo 28], mas aconselhando a não usar a palavra “war” [guerra]. Por essa altura, nem o Governo norte-americano nem as Nações Unidas tinham sido informadas do ataque. Em Nova Iorque, a notícia era recebida com cautela, pois já antes tinham existido falsos alarmes sobre a Coreia.

A Associated Press utilizou a expressão “we are checking reports” [estamos a verificar informações], por forma a proteger a sua reputação, no caso de as notícias serem falsas. Sem a confirmação da agência noticiosa, o The New York Times recusou-se a imprimir a história. Outros meios não foram tão cautelosos e deram destaque de primeira página à invasão.

As notícias dos conflitos da Coreia também chegam a Portugal. O Diário de Notícias do dia 26 de junho de 1950 anuncia o início do conflito.

«A rádio de Pyongyang, capital da República Popular da Coreia do Norte, anunciou hoje de madrugada que aquele país declarou guerra à Coreia do Sul».

A invasão chegava depois de anos de tensão na península coreana. Com o fim do domínio japonês, após a Segunda Guerra Mundial, o território foi divido. Na Coreia do Sul foi criada a República da Coreia, liderada por  Syngman Rhee, com influência norte-americana (ocidental). Na Coreia do Norte surgiu a República Popular Democrática da Coreia, chefiada por Kim Il-Sung, pró-soviética. Em 1948, tratavam-se de duas nações independentes, divididas pelo famoso paralelo 38.

E a guerra estala…

A estratégica geopolítica dos Estados Unidos não via na Coreia do Sul uma prioridade: em janeiro de 1950, nem sequer fazia parte dos estados protegidos pelo seu perímetro defensivo na Ásia. “No person can guarantee these areas against military attack” [Ninguém pode assegurar essas áreas face a um ataque militar], garantia o Secretário de Estado, Dean Acheson.

Kim Il-Sung, que já tinha manifestado o desejo de conquistar a Coreia do Sul e unificar a península, concluiu que a hipotética invasão não encontraria resistência norte-americana. Os seus planos foram para a frente em junho de 1950. O Conselho de Segurança da ONU emitiu uma recomendação no sentido da retirada das tropas norte-coreanas., sendo que   do qual não fazia parte, por um outro desentendimento, a União Soviética.

Dois dias depois da invasão, a 27 de junho, o Presidente norte-americano, Harry S. Truman, divulga um comunicado: “I have ordered United States air and sea forces to give the [South] Korean Government troops cover and support.” [Ordenei às forças aéreas e marítimas que dessem cobertura e proteção ao exército do Governo [sul-]coreano]

Em conferência de imprensa, Truman insistia que os Estados Unidos não estavam em guerra. “Mr. President, would it be correct, against your explanation, to call this a police action under the United Nations?” [Sr. Presidente, seria correto, face à sua explicação, chamar a isto uma ação policial sob a alçada das Nações Unidas?], perguntou um repórter. “Yes. That is exactly what it amounts to” [Sim. É exatamente disso que se trata],  respondeu o Presidente.

O Congresso norte-americano nunca chegaria a declarar guerra, abrindo um precedente no sistema político do país. A decisão solitária do Presidente, que Truman afirmava estar apoiada pela recomendação da ONU, foi elogiada por alguns comentadores políticos, que a consideraram “courageous” [corajosa]. No contexto norte-americano, a palavra «guerra» viria a perder precisão e as declarações de guerra passariam a ser vistas como desnecessárias ou inconvenientes. On Sunday, June 25th, Communist forces attacked the Republic of Korea. This attack has made it clear, beyond all doubt, that the international Communist movement is willing to use armed invasion to conquer independent nations. [No domingo, 25 de junho, forças comunistas atacaram a República da Coreia. Este ataque tornou claro, sem qualquer dúvida, que o movimento internacional comunista está disposto a usar uma invasão armada para conquistar nações independentes]

O General MacArthur foi o escolhido para liderar as operações na Coreia. Herói da Segunda Guerra Mundial, MacArthur gozava de vasta popularidade junto dos norte-americanos devido às vitórias conquistadas no campo de batalha pelo exército por si liderado. O General, os seus triunfos – e até a sua família – eram alvo de grande atenção mediática.

Os media norte-americanos seguiam atentamente os desenvolvimentos na Coreia. Tratava-se do primeiro conflito decorrido durante a Guerra Fria, um período de ansiedade e dúvidas em relação ao «perigo vermelho».

Os correspondentes

A cobertura mediática dominante reflete este espírito anti-comunista, pautando-se por um cenário de oposição entre «nós» [os americanos] e «eles» [os comunistas]. Existia uma narrativa oficial, criada de acordo com o contexto ideológico da época: as dificuldades do exército eram subvalorizadas e as vitórias exacerbadas, verificando-se uma cobertura pouco crítica das ações americanas. Os media reportavam notícias de uma nação comunista a invadir uma pobre e indefesa nação democrática.

A tecnologia incipiente fazia com que alguns jornalistas tivessem de voar até Tóquio, no Japão, para enviar as suas informações. Devido aos contratempos tecnológicos e logísticos e às dificuldades em obter informação, os repórteres tinham como principais fontes as altas patentes militares, sem contestar a sua veracidade. Nas fases iniciais da guerra, o The New York Times chegou a publicar verbatimas informações diárias divulgadas pelos militares, normalmente ocupando quase a totalidade da segunda página.

Entre os repórteres, erguiam-se algumas vozes dissidentes. Richard Johnson escrevia, em julho de 1950, no The New York Times: “in the last few bloody days of fighting, the bravado and self-assurance have given way to the sober realization that at best the United States troops face a long and costly campaign to drive the invaders from South Korea.” [nos últimos dias sangrentos de combate, a bravata e a auto-confiança deram lugar à compreensão sóbria de que, na melhor das hipóteses, as tropas norte-americanas enfrentam uma campanha longa e dispendiosa para expulsar os invasores da Coreia do Sul]

Também os meios britânicos eram mais críticos, pelo menos numa primeira fase, questionando a atuação americana e os números divulgados pelos militares. Grande parte dos repórteres ingleses que cobriram o conflito tinham estado na Segunda Guerra Mundial, pelo que já tinham experiência no relato de guerra, revelando uma abordagem mas cínica sobre o conflito.

Em setembro de 1950, travou-se a batalha de Inchon, que interrompeu uma série de vitórias da Coreia do Norte, marcando uma reviravolta no curso da guerra. Com o sucesso das tropas norte-americanos, os media do país deixaram-se contagiar pelo entusiasmo. “Since it became apparent that their Korean satellite was lost, the Russians talked more loudly than ever about peace” [Desde que se percebeu que o seu satélite coreano estava perdido, os russos falam mais alto do que nunca sobre paz], escrevia a Newsweek. “Korea had looked like a sure thing and it had blown up in Stalin’s face” [A Coreia parecia algo certo e rebentou na cara do Estaline], podia ler-se na Time.

O trajeto dos fuzileiros norte-americanos até ao território inimigo de Inchon foi acompanhado por Marguerite Higgins. A repórter do New York Herald Tribuneera uma exeção. As jornalistas do sexo feminino tinham sido banidas da frente de guerra, por se considerar que não existiam equipamentos disponíveis para as acomodar. Apesar da diretiva, o jornal norte-americano conseguira convencer MacArthur a autorizar Higgings a permanecer na frente de batalha. Por esta altura, Higgins era uma dos 330 repórteres acreditados.

Marguerite Higgins não era novata na cobertura da guerra da Coreia. A repórter escreveu sobre a capital sul-coreana nos dias que antecederam à invasão.

Quando o jornal enviou Homer Bigart, um repórter mais experiente, para cobrir o conflito, Higgins recusou-se a abandonar a Coreia, dando início a uma competição com Bigart pelas melhores histórias.

O seu estatuto enquanto correspondente de guerra foi-se estabelecendo junto do público, com destaque para o facto de ser uma repórter do sexo feminino. O seu estatuto enquanto correspondente de guerra foi-se estabelecendo junto do público, com destaque para o facto de ser uma repórter do sexo feminino. Muito embora os media referissem que, “in her ‘working clothes’ as a war correspondent in Korea, Marguerite Higgins still manages to look attractive [nas suas “roupas de trabalho” como correspondente de guerra na Coreia, Marguerite Higgins continua a ser atraente], a jornalista tornou-se a primeira jornalista do sexo feminino a vencer um Prémio Pulitzer pela sua reportagem internacional.

Marguerite Higgins não foi a única mulher a reportar a partir do palco da guerra. «A correspondente de O Globo salva-se de para-quedas na Coreia», podia ler-se na manchete d’ O Globoa 5 de junho de 1951. Tratava-se da portuguesa Fernanda Reis, enviada especial do jornal brasileiro para a Guerra da Coreia. A repórter acompanhou uma operação de retaliação aérea levada a cabo pela ONU, depois de as forças norte-coreanas terem atacado a sua posição, um cenário dramático que Fernanda não viria a esquecer: «Montões de carne e de ossos, ensanguentados, sem feitio da gente que foram, mutilados, dispersos, parecendo – que Deus me perdoe a comparação – peças de um puzzle monstruoso».

O destaque televisivo

Em 1950, a televisão começava a dar os primeiros passos. Os jornais não eram o único meio a levar notícias da guerra ao público. A tecnologia de satélite ainda não estava disponível, pelo que as gravações tinham de ser enviadas por meio aéreo para as emissoras. Um processo demorado, que fazia com que as notícias perdessem atualidade. Assim, os jornais e a rádio continuavam a ser os principais meios de informação.

Durante a guerra da Coreia, a televisão era um meio emergente, pelo que as emissoras não estavam preparadas para cobrir um conflito com recurso a imagem e som. Recorriam a agências de produção de newsreel, mais habituadas à produção audiovisual.

As televisões utilizavam também imagens recolhidas na frente de batalha pelos fotógrafos dos U.S. Army Signal Corps, mas estas não eram captadas segundo um critério jornalístico: mais uma vez, eram aquilo que os militares queriam que os americanos vissem da guerra.

Os media que não possuíam condições técnicas ou financeiras para enviar correspondentes especiais manifestavam grande dependência das fontes militares. Mesmo os repórteres destacados na linha da frente contavam com apoio militar para transporte e assistência, uma relação próxima que punha em causa a objetividade dos jornalistas. Apesar da proteção militar, 11 repórteres acreditados morreram durante a cobertura da Guerra da Coreia.

Edward Murrow foi o principal protagonista da cobertura da CBS, com o programa See it Now, onde conseguia mostrar o lado humano do conflito.

Em agosto de 1950, apenas sete semanas depois do início da guerra, Murrow comentava a devastação causada nas aldeias norte-coreanas: “Their pitiful possessions have been consumed in the flames of war. “Will our reoccupation of that flea-bitten land lessen, or increase, the attraction of Communism?” [As suas paupérrimas posses foram consumidas nas chamas da guerra. A nossa reocupação daquela terra abandonada e decrépita irá reduzir ou aumentar a atração do comunismo?]

As palavras de Murrow foram gravadas, mas não chegaram ao ecrã. A CBS censurou a reportagem, por considerar que poderia prejudicar os esforços de guerra. No final de 1950, o General MacArthur impôs censura sobre a informação que chegava dos jornalistas destacados na Coreia. Até então, os repórteres não estavam sujeitos a restrições sobre o que publicar, mas, mesmo assim, nem todas as informações eram passadas para o papel. George Herman, enviado especial à Coreia, tinha por política não escrever qualquer informação que pudesse ajudar o inimigo. “All of us in the press corps, knew there was going to be an invasion at Inchon in a couple of weeks […] Without censorship there was no restriction on us, but nobody leaked the story.” [Todos nós no corpo de imprensa sabíamos que ia haver uma invasão em Inchon dali a algumas semanas. […] Sem censura, não havia restrições, mas ninguém noticiou a história]

Na Coreia do Norte, os meios de comunicação eram extremamente controlados, contribuindo para o culto de personalidade de Kim Il-Sung e tornando-se um veículo propagandista. A liberdade de imprensa era também um mito na Coreia do Sul. A 1 de novembro de 1950 era fundado o The Korea Times, um jornal diário escrito em inglês com o objetivo de cobrir a guerra, dentro e fora de fronteiras. O Presidente Rhee, que mantivera relações favoráveis com a publicação numa primeira fase, mostrava a intenção de pressionar o jornal para que a linha editorial lhe fosse favorável.

Na frente de batalha o conflito agudizava-se. Truman autoriza as tropas norte-americanas a avançar para além do paralelo 38, que marcava a divisão entre os territórios. Em outubro, comunistas chineses juntam-se à luta contra as tropas americanas. Uma vitória que parecia fácil para os Estados Unidos começa a transformar-se numa luta para não ser derrotado. À frente do exército norte-americano, o General MacArthur manifestava a sua frustração pela estratégia de Truman em manter a guerra circunscrita à Coreia, que o impedia de atacar a China. Tratava-se, defendia MacArthur, de “an enormous handicap, without precedent in military history.” [um enorme entrave, sem precedente na história militar]

A 11 de abril de 1951, MacArthur é afastado. Truman comunica ao país a decisão. “I believe that we must try to limit the war to Korea […] A number of events have made it evident that General MacArthur did not agree with that policy. I have, therefore, considered it essential to relieve General MacArthur.” [Acredito que devemos tentar limitar a guerra à Coreia […] Uma série de eventos mostrou que o General MacArthur não concorda com essa política. Considero, por isso, essencial, dispensar o General MacArthur]

A partir de Tóquio, o General descobre o seu afastamento através da chamada de um subordinado, que escutara a notícia na rádio minutos antes. Numa primeira fase, os norte-americanos ficaram solidários com MacArthur, com a aprovação pública de Truman a descer.

O General regressa aos Estados Unidos como um herói. O seu discurso perante o Congresso foi interrompido 30 vezes com ovações. A frase “old soldiers never die, they just fade away” ficou para a História. Mas também o mito que envolvia MacArthur se desvaneceu. A reputação do general viria a ficar prejudicada com as audições dos comités de relações internacionais e serviços armados do Senado, em maio de 1951.

Na Coreia, a batalha parecia ter acalmado. No início de 1951, os combates tinham atingido um impasse. Em agosto, após a emissão de uma resolução por parte das Nações Unidas, os Estados Unidos, a China, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul dão início às negociações de paz. Nos media, a Guerra da Coreia era eclipsada por outras tensões crescentes da Guerra Fria.

Os tiros cessam mas o conflito continua

Em novembro de 1952, Dwight D. Eisenhower é eleito Presidente dos Estados Unidos, tendo como um dos seus compromissos o retirar do exército americano da Coreia assim que possível. O Presidente visita a Coreia a 29 de novembro de 1952. A guerra estava prestes a chegar ao fim.

O armistício era assinado a 27 de julho de 1953, após dois anos de negociações.

Eisenhower dava as notícias ao país. “An armistice was signed almost an hour ago in Korea. It will quickly bring to an end the fighting between the United Nations forces and the Communist armies.” [Um armistício foi assinado há quase uma hora na Coreia. Vai rapidamente colocar um ponto final nos combates entre as forças das Nações Unidas e os exércitos comunistas]

Nos media, o consenso era que as tréguas não eram nem uma vitória nem uma derrota para os Estados Unidos, mas sim parte de um conflito muito maior com as forças comunistas. No armistício, assinado em 1953, era acordado um cessar-fogo até se chegar a um “final peaceful settlement” [acordo final de paz], que continua por encontrar até hoje.

A tensão entre as nações não se dissipou com o passar das décadas. A 25 de junho de 2015, no 65.º aniversário do início da Guerra da Coreia, a Coreia do Norte apelou ao mundo que se junte a si para “dismember the gangster US imperialists.” [desmembrar os gangsters imperialistas norte-americanos]

O grupo Guardians of Peace hackeou o sistema de computador da Sony, divulgando informação interna e dados sobre futuros lançamentos e exigindo à Sony que cancelasse o lançamento de The Interview, que chamavam “the movie of terrorism” [A Coreia do Norte queixou-se às Nações Unidas sobre The Interview, com a justificação de que promove terrorismo contra o país]. A poucos dias da estreia, os hackers ameaçaram levar a cabo ataques terroristas nos cinemas que exibissem o filme, que não se chegaram a concretizar. The Interview viria a tornar-se o lançamento online mais lucrativo da história da Sony.

Mais de 60 anos depois do final da guerra da Coreia, as feridas ainda estão por sarar. As diferenças políticas, sociais e culturais entre os dois países criam tensão constante na península. A Coreia continua divida no paralelo 38.

A guerra na ponta da crónica

A crónica é um género jornalístico que ganha reputação na cobertura da guerra. Grandes nomes e grandes peças imortalizam conflitos, vencedores e derrotados

Muitos dos momentos da História mais recente da Humanidade chega-nos através de relatos de jornalistas. São aquelas situações que ninguém quer que existam mas que os jornalistas adoram reportar. Os grandes conflitos bélicos do Séc. XX ficam registados em algumas das melhores crónicas do Jornalismo assinadas por autores que se destacam.

Ser cronista de guerra

Os jornais enviavam os seus primeiros correspondentes para o foco da violência e, a par das reportagens de guerra, surgiam as crónicas de guerra. Mas o que diferencia um repórter de guerra de um cronista de guerra?

Muitas vezes, os dois géneros andam de mãos dadas. No entanto, enquanto a crónica regista apontamentos mais opinativos, a reportagem procura mais os factos. Numa verdadeira aproximação do jornalismo à literatura, a crónica acaba por se distinguir com o seu estilo muito próprio. Prova disso é o aparecimento do jornalismo literário.

John Sack

Este novo género foi personificado na escrita de muitos jornalistas. John Sack foi um deles. Ao criar uma narrativa criativa para reportar os factos, produzia as histórias mais comoventes dos esforços de guerra.

O seu estilo tão próprio de relatar os acontecimentos mais cruéis e violentos da guerra consolidou-se com a sua longa e duradoura colaboração com a revista Esquire. Sack tornou-se um verdadeiro especialista em jornalismo de guerra, chegando a cobrir, em primeira mão, cada guerra dos EUA nos últimos 60 anos.

Desde a guerra da Coreia, passando pelo Vietname, a anexação do Kwuait pelo Iraque, e a guerra nos Balcãs, John Sack acompanharia ainda as tropas norte-americanas a expulsar membros da al-Qaeda das montanhas afegãs. Sempre acompanhada da crónica, a questão da objetividade impõe-se, onde o autor e o objeto de notícia não se distanciam um do outro. O jornalista chegou a assumir: “I myself don’t believe in objectivity – no New Journalist does.” [Eu próprio não acredito na objetividade – nenhum novo jornalista acredita]

John Sack chegou mais longe ao dizer que quaisquer esforços para tentar alcançar a objetividade só distorcem a verdade dos relatos. Mas estas declarações não foram a única controvérsia presente na carreira de Sack. Autor de várias obras, o livro An Eye for an Eye: The Untold Story of Jewish Revenge Against Germans in 1945abalou fortemente a opinião pública, ao abordar o assunto sensível das perseguições entre alemães e judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Ryszard Kapuściński

Ryszard Kapuściński foi outro grande percursor do jornalismo literário. Apesar de ter colaborado com vários órgãos de comunicação, Kapuściński distinguiu-se enquanto correspondente da agência noticiosa polaca Polska Agencja Prasowa (PAP).

Ao longo de 10 anos, Kapuściński cobriu 50 países para a PAP. Viveu 27 revoluções e golpes de Estado, foi preso cerca de 40 vezes e sobreviveu a quatro sentenças de morte. Os seus trabalhos mais conhecidos são o relato do fim dos impérios coloniais europeus em África. As suas experiências durante a guerra pela independência de Angola, nos anos 60 e 70, foram compiladas no livro Mais um dia de Vida – Angola 1975. Kapuściński publicou dezenas de livros, desde reportagem e ficção a fotografia.

O seu estilo, unanimemente cunhado de «jornalismo mágico», faria do jornalista polaco um dos mais aclamados do século XX.

Os antecessores

Nos dias de hoje, o género da crónica está estabelecido e é largamente conhecido. Contudo, existem outras narrativas mais antigas que envolveram os seus leitores nas estórias e que resultaram igualmente em livros. No século XIX, Flora Tristán distinguiu-se pelas suas crónicas.

Esta sua faceta iria torná-la numa grande percursora dos direitos das mulheres e da classe trabalhadora. A sua obra Promenades in London(1840) relata as condições impactantes dos trabalhadores ingleses.

No entanto, foi com o livro Peregrinations of a Pariah(1838) que Flora Tristán revelaria os seus dons de cronista. Nele, a jornalista conta os acontecimentos políticos de um Peru assolado por guerras civis, através de um estilo marcadamente irónico e crítico, onde não falta um agudo sentido de observação. Infelizmente, os primeiros exemplares deste brilhante relato de viagem foram queimados publicamente na Plaza de Armas de Arequipa, no Perú.

Já no Brasil, em 1896, Machado de Assisficaria muito célebre com a sua crónica intitulada «Canção de piratas», publicada na coluna A Semana do jornal Gazeta de Notícias. Esta foi uma entre muitas crónicas que Machado Assis escreveu para demonstrar o seu posicionamento em questões delicadas da vida política brasileira, durante a guerra de Canudos. Este episódio opôs Antônio Conselheiro (fundador de um movimento popular que procurava estabelecer uma sociedade socialista) de um lado, e o Exército brasileiro do outro.

A imprensa brasileira de então, era marcada por um tom especialmente sensacionalista. De acordo com Machado de Assis, a imprensa, ao criticar e apelidar Antônio Conselheiro de «fanático», prejudicava a compreensão da opinião pública sobre a cena política.

Cansado da linha editorial de qualidade duvidosa da imprensa, Machado de Assis recorreu à crónica para defender Antônio Conselheiro.

Rubem Braga

Anos mais tarde, também no Brasil, Rubem Braga destacar-se-ia como um dos maiores cronistas brasileiros de sempre. A sua carreira de jornalista teve início durante a Revolução Constitucionalista de 1932, ao escrever para o jornal de Belo Horizonte, Diários Associados.

A crónica tornou-se a sua especialidade, e o seu estilo bastante mordaz e crítico, especialmente do Estado Novo brasileiro, valeu-lhe várias detenções.  Braga faria inúmeras contribuições para vários periódicos durante a sua carreira, atuando ainda como correspondente junto da F.E.B. (Força Expedicionária Brasileira) na Segunda Guerra Mundial, para o jornal Diário Carioca.

John Reed

No outro continente americano, um dos grandes cronistas de guerra que ficou para a História é John Reed.

Fazendo jus ao pressuposto de que atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher, Louise Bryant teve a sua quota parte como correspondente de guerra. Os dois apaixonados, já marido e mulher, tornaram-se nas primeiras testemunhas estrangeiras da revolução russa, entre agosto de 1917 e fevereiro de 1918.

A partir do seu quarto de hotel, os dois relatavam os acontecimentos da revolução em vários artigos, que mais tarde foram compilados no livro Six Red Months in Russia(de Bryant) e Ten Days that Shook the World(de Reed). Louise Bryant entrevistou várias figuras femininas proeminentes da revolução russa, como Katherine Breshkovsky, Maria Spiridonova e Aleksandra Kollontai, trabalhos que lhe valeram os títulos de sufragista e feminista.

Porém, a passagem de John Reed pela Rússia não ficaria imortalizada apenas no jornalismo. O filme Reds, de 1981, relata a história do casal americano durante a revolução de outubro. Com os atores Diane Keaton, Warren Beatty e Jack Nicholson, a obra cinematográfica ganhou 3 Óscares da Academia, incluindo o de Melhor Atriz Secundária e de Melhor Realizador.

No entanto, a revolução russa não foi o primeiro conflito que catapultou a carreira jornalística de Reed. Sempre grande defensor das ideias libertárias, Reed viu a revolução mexicana de 1912 como um acontecimento mediático, que reportou arriscando a sua vida. Durante este conflito, Reed chegou ainda a fazer uma entrevista histórica a Pancho Villa, um dos líderes da revolução camponesa, de quem se tornou amigo.

Com a reduzida escala dos acontecimentos bélicos do século XIX e início do século XX, não se via a necessidade de fazer proliferar o estilo da crónica. A Primeira Grande Guerra seria o primeiro grande conflito à escala mundial. Todos os elementos estavam reunidos para inverter esta tendência no jornalismo.

O Fator guerra

José Augusto Correia, correspondente do Diário de Notícias, encontrava-se em Paris quando foi ordenada a mobilização geral da população para a guerra que se avizinhava.

«Como por encanto, mudou completamente o aspeto cívico de Paris (…) a multidão apoderou-se das vias públicas, desfilando em colunas enormes e compactas», escreveria nas suas «Crónicas de Guerra».

Outro português que arriscou a vida nas trincheiras foiAntónio Lobo de Almada Negreiros, pai do artista Almada Negreiros. O correspondente enviava as suas crónicas de guerra a partir de França para o jornal O Século.

Apesar de se manter nesta publicação até 1933, Negreiros escreveu para muitos outros jornais lisboetas e estrangeiros. Em 1917, as suas vivências da Primeira Grande Guerra, contadas nas suas crónicas, foram compiladas no seu livro Portugal na Grande Guerra.

«O campo de batalha é um grande cemitério. Os montões de cadáveres dos soldados são facilmente ocultos à luz do sol que os apodrece».

«O esfuziar das bombas, o estampido dos canhões, o “ciciar” dos foguetões dos sinaleiros dariam ideia d’um fogo de artifício monumental, se todos estes instrumentos de morte não mugissem, como feras indomáveis, aos nossos ouvidos torturados. Andamos a saltar por cima das trincheiras, não sei para quê».

André Brun

Aos 36 anos, André Brun, capitão enviado do Corpo Expedicionário Português e com uma carreira conhecida nos teatros lisboetas como autor de peças, chega à Flandres em pleno cenário de guerra. Seriam estas experiências que dariam lugar ao seu livro de crónicas A Malta das Trincheiras. No seu estilo irónico e mordaz, Brun relata na primeira pessoa como era a vida quotidiana dos soldados nas trincheiras.

«Eu que escrevera para um álbum meia dúzia de linhas, que podiam parecer dum humorismo fácil, vi quanto as múltiplas angústias do meu espírito, acumuladas nos primeiros oito meses de trincheiras, me tinham levado a ser profeta em terra alheia». Expressões como «ir aos arames», «balázio» ou «camone», utilizadas nestas crónicas, dão ainda a entender que muita da gíria que ainda hoje se utiliza nasceu nas trincheiras da Flandres.

«Eu que escrevera para um álbum meia dúzia de linhas, que podiam parecer dum humorismo fácil, vi quanto as múltiplas angústias do meu espírito, acumuladas nos primeiros oito meses de trincheiras, me tinham levado a ser profeta em terra alheia».

Expressões como «ir aos arames», «balázio» ou «camone», utilizadas nestas crónicas, dão ainda a entender que muita da gíria que ainda hoje se utiliza nasceu nas trincheiras da Flandres.

Júlio Mesquita

Júlio Mesquita foi um jornalista brasileiro que acompanhou os desenvolvimentos da Primeira Guerra Mundial através de várias crónicas no jornal O Estado de S. Paulo, do qual foi também o seu primeiro diretor.

Numa análise semanal, jornalística e reflexiva, Mesquita assumiu o papel de informar e explicar os acontecimentos aos leitores. Apesar de o jornalista não se encontrar no terreno do conflito, foi precisamente este distanciamento que lhe permitiu relatar a guerra com exatidão e objetividade. Os textos jornalísticos acabariam por ser compilados na obra A Guerra 1914-1918.

Tratando-se do primeiro conflito que trazia uma afluência enorme de correspondentes de vários pontos do mundo, a censura era bastante apertada e o acesso dos jornalistas às linhas da frente, proibido.

Basil Clarke

Basil Clarke foi um dos correspondentes que desafiou esta interdição de Lord Kitchener. Correndo o risco de ser preso, Clarke manteve-se em Dunkirk, fazendo-se passar por refugiado, para ter acesso às estórias provenientes das frentes de combate. Apesar das dificuldades, este ato fora-da-lei rapidamente deu frutos: Clarke foi o primeiro jornalista a chegar a Ypres após a sua destruição pelos alemães a novembro de 1914.

“The city, so silent and empty and waste, might have been unpeopled by a plague, shattered by a mad god. You looked, and still looking, could hardly believe.” [A cidade, tão silenciosa e vazia e desperdiçada, poderia ter sido despovoada por uma praga, destruída por um deus louco. Olhava-se, e ainda a olhar, mal se acreditava]

Além disso, ficou conhecido pela sua memorável descrição da atmosfera em Dunkirk depois de os Aliados ganharem a vantagem estratégica na Batalha de Yser.

O seu relato do combate sangrento no Dia de Natal em 1914 ofereceu ainda uma perspetiva completamente diferente das estórias que passavam sobre uma Trégua de Natal. As descrições de Clarke, embelezadas por um estilo literário que desafiava a objetividade adotada pelo jornalismo ocidental, são um contributo essencial para o relato independente de guerra.

Em janeiro de 1915, Clarke foi forçado a partir para Inglaterra, sob ameaça de ser detido pela polícia. A aventura da sua vida dava-se por terminada. Mais tarde, Clarke afastava-se do jornalismo e tornou-se o pioneiro das Relações Públicas no Reino Unido.

Philip Gibbs

Philip Gibbs foi outro jornalista que sofreu na pele a censura imposta pelos militares durante a Primeira Guerra Mundial. Escapou várias vezes das autoridades britânicas e francesas para poder levar as suas estórias da frente de combate ao jornal Daily Chronicle, mas também foi preso mais do que uma vez pela sua persistência.

Os seus relatos da guerra foram considerados por muitos como prodigiosos. Além das inúmeras crónicas que escreveu para a imprensa, o trabalho de Gibbs sobre o conflito notabilizou-se através dos livros The Soul of the War (1915), The Battle of the Somme (1917), Now It Can Be Told (1920) e The Realities of War (1920).

“Pains and penalties were threatened against any newspaper which should dare to publish a word of military information beyond the official communiques issued in order to hide the truth”, escrevia Gibbs mais tarde sobre as suas experiências. [Penas e sanções ameaçavam qualquer jornal que se atrevesse a publicar uma palavra de informação militar para além dos comunicados oficiais publicados de forma a esconder a verdade]

Gibbs foi capturado em Le Havre, em 1915. Depois de ter sido ameaçado com “dolorosas consequências”, o jornalista decidiu voltar a Inglaterra e retirar-se da guerra.

O seu trabalho como jornalista continuou – e voltou a ser correspondente de guerra quando as tensões se reavivaram na Europa em 1939, ainda que durante pouco tempo. Não se pode falar das crónicas da Primeira Guerra Mundial sem abordar Ernest Hemingway. A experiência do então jornalista a conduzir ambulâncias na frente de batalha, em Milão, serviria de inspiração para o seu livro de não-ficção Death in the Afternoon.

Martha Gelborn

Contudo, foi na Guerra Civil Espanhola, em 1937, que Hemingway, correspondente da North American Newspaper Alliance, escreveu sobre os conflitos armados. As suas vivências resultaram, mais tarde, no seu aclamado romance For Whom the Bell Tolls. Foi igualmente nessa altura que conheceu Martha Gellhorn, uma outra correspondente de guerra destacada pelo Collier’s Weekly para cobrir a guerra em Espanha.

A carreira jornalística de Gellhorn foi marcada pela cobertura dos maiores eventos bélicos do século XX. A Segunda Guerra Mundial tornou-se o foco das suas crónicas mais conhecidas.

Gellhorn reportou a guerra a partir da Finlândia, Hong Kong, Birmânia, Singapura e Inglaterra. Mais tarde, a jornalista admitia: “I followed the war wherever I could reach it.” [Eu seguia a guerra para onde a conseguia alcançar]

Ao lhe faltarem credenciais de imprensa para assistir aos desembarques da Normandia, Gellhorn escondeu-se numa casa de banho de um navio-hospital. Foi a única mulher presente no Dia D, a 6 de junho de 1944. Esteve igualmente entre os primeiros jornalistas a cobrir a libertação do campo de concentração de Dachau. Em 1999, foi estabelecido o Martha Gellhorn Prize for Journalism. Entre outras distinções, Martha Gellhorn foi a única mulher a ser reconhecida na coleção de selos American Journalists de 2008.

Por fim, a crónica

Quando a imprensa dava os seus primeiros passos, a fronteira entre o escritor e o jornalista era muito esbatida. A crónica é a génese deste cruzamento entre jornalismo e literatura, quando não se sabia bem onde começava a estória e acabavam os factos.

As características da crónica desde cedo prenderam os seus leitores. A aproximação formal ao realismo da notícia, a narrativa na primeira pessoa e a atualidade dos acontecimentos descritos, desde logo ultrapassaram o simples relato vazio de interpretação tão ligado à cobertura jornalística.

Mais do que informar, a crónica permite ao seu autor assumir uma posição mais reflexiva e pessoal. De jornalista a escritor, o autor torna-se uma só figura, com o infindável poder de transportar os seus leitores para outras realidades, até ali muitas vezes desconhecidas. O caminho para cimentar um lugar próprio para a crónica estava palmeado.

A revolta dos boxers vem de telégrafo

A invenção do telégrafo revolucionou a vida política e social da época e transformou o mundo da Comunicação. A influência foi tal que a nova ferramenta teve um papel primordial na revolta dos boxers que, em 1900, abalou a China

No Séc. XIX, a invenção do telégrafo afetou todos os aspetos da vida política e social da época, do comércio à diplomacia e às relações internacionais. A prova disso foi a revolta dos boxers na China de 1900.

A 30 de maio de 1900, Claude Maxwell MacDonald, o ministro britânico na China, envia um telegrama a Lord Salisbury, seu colega dos Negócios Estrangeiros, a pedir reforços para Pequim, no norte da China.

A 4 de junho, MacDonald envia nova mensagem:

“I have to report that the situation in Peking is such that we may be besieged at any moment here, with the telegraph lines cut and the railway obstructed.” [«Tenho de reportar que a situação em Pequim é tal que podemos ser cercados a qualquer momento, com as linhas telegráficas cortadas e o caminho de ferro bloqueado»].

Dá-se início a um surto de mortes e violência.

O longo domínio estrangeiro na China, por parte de Inglaterra e do Japão, tornava-se opressivo para grande parte da população. A grave disrupção económica, aliada ao período de seca extrema que se vivia, provocaram a criação de uma sociedade secreta chinesa denominada Yihequan.

Os membros de Yihequan, rapidamente apelidados de boxers pelos estrangeiros, lideraram uma revolta no norte da China, onde a influência japonesa e ocidental no país mais se denotava.

O pânico estava lançado.

O isolamento

Com sede de vingança, os boxers matam chineses e missionários cristãos por onde passam. Tudo o que estava associado à cultura ocidental era considerado um inimigo.

A 20 de junho de 1900, os boxers cercam o distrito de legação estrangeira de Pequim.

No dia seguinte, a imperatriz Tzu’u Hzi declarou guerra a todas as nações estrangeiras com relações diplomáticas na China – o Governo da Dinastia Qing aliava-se aos boxers.

Enquanto os aliados estrangeiros juntavam forças para combater a revolução, os boxers mantiveram o braço de ferro, não levantando o cerco.

As forças de apoio não conseguiam chegar à cidade porque os boxers tinham destruído os caminhos de ferro, para além de cortarem o telégrafo entre Pequim e Tianjin, e entre Pequim e a Rússia.

Na altura, o telégrafo estava longe de ser utilizado com frequência no império britânico. Os diplomatas britânicos na China temiam a nova tecnologia, pois a informação recebida proveniente de Inglaterra sobrepunha-se à sua jurisdição no território colonial.

Com as ligações cortadas, Pequim ficava incomunicável com o exterior. A Embaixada da China em Londres não tinha como saber o que estava a acontecer na capital, e a única alternativa de comunicação era via carta, que demorava cerca de dois meses a chegar ao destino.

Os chineses usavam as tecnologias ocidentais contra o domínio estrangeiro.

Nem os ministros britânicos das outras cidades chinesas conseguiam comunicar com MacDonald em Pequim. Restava apenas a especulação sobre a situação na capital chinesa por parte dos oficiais em Londres.

O poder do telégrafo

A 14 de agosto de1900, as tropas ocidentais tomaram Pequim e libertaram a delegação estrangeira. Os responsáveis foram executados e uma valiosa lição era aprendida.

Os chineses, ao usarem o telégrafo contra as forças ocidentais, mostravam ao poder britânico a derradeira importância da comunicação em tempos de crise.

Após a revolução, a Grã-Bretanha utilizou este meio de comunicação para reivindicar territórios e montou várias linhas em toda a China para apoiar as esferas de interesse britânicas ao longo da costa chinesa.

O telégrafo, para além de um instrumento do imperialismo, tornava-se também um meio de colonização na China.

O jornal The San Francisco Call, de 14 de junho de 1901, gritava o seguinte cabeçalho:

“Sir Claude MacDonald declares boxer uprising was cau5ed by the aggressions of foreigners and enmity of mandarins” [Sir Claude MacDonald declara que a revolução dos boxers foi causada pelas agressões dos estrangeiros e a inimizade dos mandarins»].

A consciência da culpa do lado ocidental fazia-se notar. No entanto, tal não impediu que os responsáveis pela revolução, incluindo o próprio Governo chinês, fossem severamente punidos.

A 7 de setembro de 1901, era assinado o Protocolo Boxer, entre o Império Qing e os Aliados estrangeiros (incluindo o Reino Unido, os EUA, Itália, França, Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia e Japão).

O Governo da dinastia Qing ficava destituído de autoridade e completamente humilhado com este acordo.

Como havia sido provado na guerra hispano-americana ou na guerra Boer, o controlo do Governo sobre as linhas do telégrafo era crucial para o resultado do conflito, ao lhe dar acesso e controlo sobre a informação.

A importância do telégrafo como meio de comunicação era, mais uma vez, testada.

Esta nova tecnologia ganhava reconhecimento no imperialismo e na transnacionalização das relações económicas entre os países.

De soldados para soldados

Os jornais das trincheiras, as publicações antiguerra, os folhetos humorísticos. Do The Stars and Stripes da Guerra Civil Americana ao Jornal do Exército do Ultramar. Jornalismo feito por soldados e para soldados

Além de fazerem manchetes pelas suas conquistas no campo de batalha, os combatentes sentem, cedo, a necessidade de criar a sua própria Imprensa, para capturar de forma fiel a realidade da guerra. Ou para motivar.

A 7 de novembro de 1861, em plena Guerra Civil Americana, um batalhão da União acampou na praticamente deserta cidade de Bloomfield, no Missouri.

Ao explorar a cidade, os soldados descobriram a redação abandonada do Bloomfield Herald e decidiram publicar o seu próprio jornal.

A 9 de novembro, nascia o The Stars and Stripes.

Testemunha dos maiores conflitos do século XX, é publicado ininterruptamente desde 1942 na Europa e desde 1945 no Pacífico, constituindo a mais antiga e reconhecida publicação de guerra.

A longevidade do Stars and Stripes não foi seguida pela maioria dos periódicos de guerra.

“Have you ever sat in a trench in the middle of a battle and corrected proofs? Try it.” [«Alguma vez se sentou nas trincheiras, a meio de uma batalha, e corrigiu provas? Tente»].

O conselho é do Capitão F. J. Roberts, editor do The Wipers Times, o mais popular jornal de trincheiras inglês durante a Primeira Guerra Mundial.

Conta a lenda que o oficial e o Tenente Jack Pearson descobriram uma máquina de impressão nas ruínas de Ypres, na Flandres.

Em fevereiro de 1916, nascia o The Wipers Times, assim batizado devido à incapacidade dos soldados britânicos de pronunciar «Ypres».

O jornal foi publicado até dezembro de 1918, com a exceção de períodos onde a batalha se intensificava.

Além das dificuldades técnicas, a produção também era marcada pela ameaça contínua de ataques.

Segundo o Capitão Roberts, o jornal era “produced when the air was generally full of shells… Often one had to stop writing an article in order to ‘stand to.” [«produzido quando o ar estava cheio de bombardeamentos … Muitas vezes alguém tinha de parar de escrever um artigo para se preparar para a batalha»].

Longe de ser um porta-voz da máquina de propaganda britânica, a publicação reunia uma combinação única de humor negro e subversivo, piadas privadas e sátira à vida nas trincheiras.

De histórias sobre a comida, a ração de rum e as ratazanas, passando por críticas aos jornalistas da frente doméstica e até à própria censura, o The Wipers Times apresentava a guerra vista da perspetiva de quem a combatia.

Uma caraterística comum às publicações que se multiplicaram por toda a Europa, durante a Primeira Guerra Mundial.

A imprensa das trincheiras

Os jornais produzidos por soldados surgiram, em parte, como reação à imprensa publicada nas terras-natais das tropas.

O jornalismo oficial parecia-lhes, muitas vezes, desapropriado, uma vez que a imprensa controlada e autocensurada tendia a produzir relatos patrióticos, otimistas e confiantes, que, muitas vezes, faziam uma representação errada da guerra para os leitores da frente doméstica.

O jornalismo de trincheiras procurava manter a moral e desenvolver uma cultura militar, ao criar meios através dos quais os soldados podiam socializar, partilhar conquistas e desabafar frustrações com a vida no campo de batalha.

Este tipo de imprensa também celebrizava os feitos individuais e da unidade e promovia rivalidades saudáveis em eventos desportivos, debates, música e outras competições menos convencionais.

De simples folhas escritas a lápis e copiadas com papel de carbono, a publicações de várias páginas reproduzidas em máquinas de impressão, sabe-se que foram publicados mais de uma centena de jornais britânicos e mais de quatrocentas publicações francesas.

Também os portugueses davam cartas na imprensa de trincheiras.

A 1 de janeiro de 1926, a Liga dos Combatentes dava início à publicação da revista A Guerra.

«A “Liga dos Combatentes da grande Guerra” iniciando hoje a publicação desta revista, tem por fim tornar mais conhecidos os seus intuitos e dar uma mais larga expansão à sua atividade», lia-se, no editorial, assinado pelo Major Ribeiro de Carvalho.

A revista era um órgão de comunicação da Liga; «os que nela trabalham, fazem-no absolutamente de graça e até com alguns sacrifícios materiais…».

A publicação autoproclamava-se «na Imprensa Portuguesa o único porta-voz dos direitos de todos aqueles que juntos se bateram, engrandecendo a Pátria e honrando a Raça».

Testemunhos dos conflitos

A Primeira Guerra Mundial chegou ao fim em 1918, mas o espírito empreendedor dos soldados-jornalistas não terminava com ela.

A imprensa produzida e dedicada aos combatentes foi reavivada durante a Segunda Guerra Mundial.

Egbert White, que trabalhara no Stars and Stripes, propôs a criação de uma nova publicação: a revista Yank, the Army Weekly.

Esta foi publicada em 1942 e tornou-se um sucesso imediato.

Dos cartoons humorísticos às reportagens de guerra, passando pelas imagens das pin ups americanas, a revista correu mundo.

Os números eram editados na cidade de Nova Iorque e enviados para as várias bases, do Mediterrâneo ao Pacífico Ocidental, onde os editores podiam acrescentar artigos sobre a realidade local.

Com uma circulação mundial de mais de 2,6 milhões de cópias, a revista tornou-se a mais lida na história militar dos Estados Unidos.

A paz ditou o seu fim; cessou publicação em dezembro de 1945.

15 anos depois, os Estados Unidos envolviam-se num dos mais problemáticos – e polémicos – conflitos da sua História: a Guerra do Vietname.

O espírito de oposição à guerra viajava pelas unidades de combate através da imprensa.

O movimento GI, uma iniciativa antiguerra, utilizou os jornais como forma de disseminar clandestinamente pelas bases ideias de oposição ao conflito, estimando-se que mais de 300 títulos tenham sido publicados durante a guerra.

O envolvimento de soldados no ativo na produção e distribuição deste tipo de imprensa significava ação disciplinar.

Vietnam GI foi uma das mais influentes publicações da guerra do Vietname.

A primeira edição do jornal foi publicada no final dos anos 60, pelo veterano de guerra Jeff Sharlet.

O jovem alistara-se no início da década, mas regressara aos Estados Unidos desiludido com o envolvimento do país naquilo que considerava ser uma guerra civil vietnamita.

Juntamente com outros veteranos de guerra e objetores de consciência, criou a publicação, com o objetivo de dar voz à oposição que grassava entre as forças norte-americana.

Nos primeiros meses de publicação, o Vietnam GI atingiu uma tiragem de 30 mil exemplares.

Com a morte de Sharlet, em 1969, o jornal acabou por fechar portas.

A partir do Ultramar

Em Portugal, a Guerra Colonial abria novos horizontes a este tipo de imprensa, que passava a fazer parte do quotidiano de milhares de soldados.

Em janeiro de 1960, saiu o primeiro Jornal do Exército, com uma tiragem de 20 mil exemplares.

Nos primeiros anos de guerra, o jornal publicou uma série de «Conselhos aos Soldados no Ultramar», que juntavam humor e crítica para motivar os soldados e prepará-los para os desafios que iriam vivenciar.

A publicação contava com o talento de militares no terreno, como Vicente da Silva e José Rui, entre outros que, mais tarde tiveram sucesso como desenhadores de cartoons.

As páginas humorísticas, que caricaturavam as missões das tropas e as situações vividas nas várias fases da comissão, ajudavam os soldados a integrar-se na realidade da guerra.

Do século XIX à atualidade, a história do jornalismo cruza-se com a história da guerra em múltiplas ocasiões.

As publicações destinadas a soldados profissionalizaram-se e alcançaram outros formatos; hoje, muitas são produzidas por uma redação composta por jornalistas e publicadas em plataformas como a Internet.

Uma imprensa militar distante dos primeiros jornais de batalha, criados pelos próprios soldados.

Mais do que apenas informar, cimentar o espírito de camaradagem e de missão comum era um dos principais objetivos destas publicações.

Um tipo de jornalismo feito por soldados, para soldados.

Guerra 4G

Os conflitos já não se travam apenas no campo de batalha e nos Media tradicionais. Chegaram às redes sociais. Os tuítes sobre as revoluções, os blogues sobre os inimigos, os posts sobre os conflitos. A guerra nas redes

O acesso à informação altera-se. E, com essa mudança, transforma-se a cobertura mediática dos acontecimentos. A comunicação em tempo real impôe-se através das redes sociais – que começam a acolhar cada vez mais jornalistas e… jornalistas-cidadãos.

A espera pela televisão ou pela rádio para se saber de notícias caiu por terra. A internet virou o principal meio de acesso, e o imediatismo do Twitter tornou-se uma das principais fontes de informação para os jornalistas.

O conceito de última hora, e das «breaking news» como as conhecemos, morreu. As redes sociais viraram concorrência para os repórteres.

Em primeira mão

A 6 de junho de 2015, rebeldes em Sa’dah, no Iémen, lançaram um míssil à cidade de Khamis Mushayt, na Arábia Saudita.

O míssil quase chegou ao seu destino, se não fossem dois mísseis lançados pelas forças militares da Arábia Saudita a intercetarem a missiva a meio do seu trajeto.

A razão? O Twitter.

O Tenente Geral Vincent Stewart anunciava o episódio durante o jantar da Intelligence and National Security Alliance’s (INSA), a 30 de julho de 2015.

“The first warning of that event: ‘hashtag scudlaunch’… Someone tweeted that a Scud had been launched, and that’s how we started to search for this activity.” [«O primeiro aviso desse evento: “hashtag scudlaunch”… Alguém tuítou que um Scud havia sido lançado, e foi como iniciámos a procura por esta atividade»].

De acordo com a BBC Monitoring, que analisa os media locais em mais de 100 línguas de 150 países, deu conta de vários tweets de diversos utilizadores que reportaram o lançamento do míssil em tempo real.

Às 2:45, à hora da interceção, o utilizador @MiZo729 tuíta: «Urgente: forte explosão ouvida nos arredores de Abha!».

Às 3:31, o utilizador @7kayaa6 publicou um pequeno vídeo que dava conta das sirenes de ataque: «Sirenes de aviso na cidade, um míssil militar foi disparado contra Khamis Mushait e, felizmente, foi intercetado por um míssil Patriot e destruído».

Às 4:05, um vídeo do acontecimento já circulava no YouTube.

Pouco depois, os eventos chegavam aos media. Às 5:45, a Saudi Press Agency anunciava o acontecimento oficialmente na sua conta do Twitter.

Pelas 8:13, a Associated Press emitia o alerta de notícia de última hora, e 23 minutos depois, a AlJazeera English transmitia a sua própria história.

Este episódio mostra bem a importância das redes sociais no relato dos acontecimentos minuto a minuto.

Em situações de conflito, a característica do tempo real oferecida pelas redes sociais torna-se ainda mais vital para fornecer uma perspetiva nunca antes vista.

Os media tradicionais já não detêm o monopólio de como as catástrofes e a guerra são representadas visualmente.

Hoje, 350 milhões de fotografias são publicadas no Facebook todos os dias, 27.800 fotografias são partilhadas no Instagram a todos os minutos e 20% de todas as imagens na história da fotografia foram tiradas nos últimos dois anos.

A imagem tornou-se dominante na comunicação.

Bem-vindo à era da tecnologia.

De utilizador a «produser»

Apesar da banalidade de muitas das fotografias publicadas nas redes sociais, várias pessoas utilizam estas ferramentas para alertar consciências e documentar atrocidades, conflitos e causas.

Numa era em que o utilizador passa também a ter o papel de produtor e se transforma em «produser», são as redes sociais que permitem esta partilha de conteúdos e uma perspetiva diferente dos acontecimentos.

O visual ganha assim um poder capaz de mobilizar cidadãos em todo o mundo.

A 17 de dezembro de 2010, na Tunísia, Mohamed Bouazizi imolou-se em protesto após a polícia ter confiscado a sua banca de vegetais e fruta.

Uma acha havia sido lançada para a fogueira que se iria alastrar por todo o país.

Imagens e vídeos de um Mohamed Bouazizi hospitalizado circularam numa rede de familiares e amigos da vítima, via online. Movimentos de revolta organizaram-se no Facebook e no Twitter, apelando à revolução e aos protestos em massa contra a repressão política do Presidente Zine al-Abidine Ben Ali, bem como a pobreza generalizada e as altas taxas de desemprego.

O Governo tentou banir as redes sociais e os sites de vídeo como o DailyMotion e o YouTube. Mas as tentativas viam-se goradas: dentro de dias, as redes sociais eram o instrumento de escolha das pessoas apologistas da democracia.

Menos de 20% da população na Tunísia utilizava de forma ativa as redes sociais, mas a maioria tinha acesso a um telemóvel.

A revolta, denominada «Revolução de Jasmim» nos media, forçou o Presidente a fugir do país a 16 de janeiro de 2011.

O sucesso da revolta foi a inspiração para os países do Médio Oriente e do Norte de África, onde os protestos rapidamente se espalharam como fogo.

A Primavera Árabe estava em movimento.

Tudo graças às redes sociais: as tecnologias ajudaram os apoiantes da democracia a construir extensivas redes de comunicação entre si, e a organizar a ação política.

A máxima que antes ditava que a revolução não seria transmitida pela televisão sofreu uma volta de 180º.

Desta vez, a revolução foi tuítada.

À medida que os distúrbios no Egito se intensificavam, as pessoas recorriam cada vez mais ao Twitter para relatar o que se passava. A hashtag rapidamente criada dava conta desta nova forma de fazer revolução: #Twitterrevolution.

O fenómeno chegou aos programas de comédia dos EUA quando Jon Stewart, no The Daily Show, aproveitou o recente poder das redes sociais para criticar o Governo.

“If two speeches and a social media site is all we needed to spread democracy then why did we invade Iraq, why didn’t we just, I don’t know, poke them.”

«Se dois discursos e uma rede social é tudo o que precisamos para disseminar a democracia, então por que invadimos o Iraque, porque, não sei, não nos limitámos apenas a mandar-lhes um toque?»

Ativismo nas redes

Contudo, não foram só as formas de ativismo que mudaram.

O chamado «Clicktivism», ao basear-se no paradoxo de tomar ação à distância de um clique, no conforto do sofá ou da cadeira, foi sempre visto com uma conotação negativa.

O mundo tornou-se indivisível da Internet e das redes sociais, especialmente para a juventude que nasceu sob a influência das novas tecnologias.

Se, por um lado, as pessoas se comprometem e envolvem no mundo virtual; por outro, é impossível não o fazerem no mundo real.

Com a promessa de melhorar este mundo, é impossível não apelar à mudança através das redes sociais.

Em dezembro de 2014, num cerco de 16 horas feito a um café em Sidney, na Austrália, morreram dois reféns.

A consequência deste ato rapidamente chegou às redes sociais. Várias mensagens antimuçulmanas proliferaram e, juntamente com elas, nasceu uma hashtag contrária: #illridewithyou. O objetivo? Apoiar emocionalmente os muçulmanos perseguidos nos transportes públicos.

Tudo começou quando a população Facebookiana implicou com uma publicação feita por Rachel Jacobs. Nela, a utilizadora contava que tinha visto uma mulher muçulmana a retirar o seu hijab para evitar ser vitimizada em público. Rachel abordou-a e ofereceu-se para a acompanhar, para a proteger de possíveis assédios.

Depois dos incidentes no jornal satírico Charlie Hebdoem janeiro de 2015, as redes sociais despertaram com mensagens de apoio através da imagem a preto com a frase «Je suis Charlie».

Mas este não foi um gesto isolado.

No Instagram, mais de um milhão de resultados mostrava a imagem icónica. Um dia depois do ataque, a hashtag #jesuischarlie era usada 6.500 vezes por minuto.

As hashtags #jesuischarlie e #illridewithyou são dois exemplos de «Clicktivism» no seu lado mais generoso e solidário. Este tipo de ativismo não é preguiçoso e desligado, pelo contrário, move multidões não só no mundo virtual, mas também no mundo real.

Ao segundo

6 de agosto de 2011. 9 horas da noite. Várias mensagens curiosas começaram a circular no Twitter.

Mais tarde, a hashtag #TottenhamRiots tornou-se trending topic. As pessoas usavam o Twitter para obter mais informações e notícias sobre os tumultos em Londres, assim como avisar amigos e entes queridos que estavam a salvo.

As notícias de que um protesto contra a morte de Mark Duggan pela polícia tinha escalado para a violência eram trocadas entre os utilizadores do Twitter muito antes de os jornalistas chegarem ao local.

Durante os motins, que se espalharam um pouco por toda a cidade de Londres, as redes sociais desempenharam um papel importante para identificar e capturar os responsáveis.

A polícia chegou mesmo a utilizar as redes sociais para investigar vários suspeitos e prevenir novos casos de vandalismo e futuros danos.

Mais uma vez, as redes sociais mudavam o mundo.

No entanto, a utilização das redes sociais, especialmente em contexto de guerra, tem o reverso da moeda.

Há que pensar duas vezes antes de se publicar nas redes sociais. E para os soldados na guerra entre a Rússia e a Ucrânia, esta é uma questão de vida ou de morte.

O uso crescente do Facebook e do seu equivalente russo, Vkontakte, já custou vidas e danos a muitas das tropas do conflito.

Por um lado, as selfies e as publicações dos soldados informam os seus familiares e amigos sobre o seu bem-estar.

Por outro, revelam as posições geográficas das tropas.

As redes sociais não mudaram apenas o mundo jornalístico, mas também o ativismo.

Quer seja algo simples como gostar de uma página, partilhar opiniões ou documentar ações que consideremos erradas, a internet abriu todo um novo caminho em direção da mudança.

Com ou sem «likes», o mundo nunca mais será o mesmo.

Jornalismo, Séc. XIX

Da Imprensa de opinião ao jornalismo noticioso. O Séc. XIX, em Portugal, é a etapa charneira para a industrialização do sistema mediático

Os jornais desempenham um papel revolucionário na sociedade portuguesa do Séc. XIX. Numa época em que a Comunicação formal está restrita à Imprensa, o papel do Jornalismo está condicionado pela elevada taxa de analfabetismo e pelo baixo poder de compra da população

O Jornalismo oitocentista, marcado pelos tempos da Revolução Francesa até à queda definitiva de Napoleão, em 1814, começou pela chamada «imprensa de opinião».  As edições contavam com grandes nomes da literatura como Eça de Queiroz ou Ramalho Ortigão.

No entanto, importância da imprensa foi notada num artigo, de 1841, da Revista Universal Lisbonense que registava a seguinte observação: «A imprensa cinge o mundo. Dantes reinava a espada – hoje governa a pena (…) A antiga civilização estava nas guerras, a nova está na imprensa».

Contudo, no início do século XIX, em plena Idade das Luzes, ainda existia Inquisição em Portugal escondida sob a designação Santo Ofício. Este fator combinado com o atraso industrial atrasaram a expansão da imprensa portuguesa.

No campo da censura destacavam-se os decretos do intendente da polícia Pina Manique, que, em 1803, reforçou a censura contra todas as publicações, nacionais e estrangeiras.

Ainda assim começavam a notar-se, em várias frentes, sinais de vontade de desenvolver o jornalismo em Portugal.

O aparecimento tímido dos diários

A partir de 14 de junho de 1809, a Gazeta de Lisboa, até então de periodicidade trissemanal, passou a diário.

A periodicidade diária da Gazeta e do Diário Lisbonense, entre outros, indicia que em Portugal, apesar do crónico atraso do país, já existiam condições para o aparecimento de jornais diários, embora mais de um século depois deles terem surgido noutros pontos da Europa.

O jornalismo diário aprofundou o interesse pelo que havia de novo no país e no mundo, onde novas ideias se propagavam, sentindo-se a  necessidade de informações.

A expulsão definitiva dos invasores franceses de Portugal, com o auxílio de Inglaterra, não levou à liberdade de imprensa. Pelo contrário. Anacronicamente, as autoridades reforçaram os dispositivos da censura para impedirem a propagação das ideias liberais, contrárias ao Absolutismo Régio. Entre 1810 e 1820, foram poucos os jornais que conseguiram manter a periodicidade.

Depois da revolução

Após a Revolução Liberal de 1820 foram preparados princípios que regulamentaram a afirmação da corrente liberal em Portugal. No art.8º, deste conjunto de cláusulas, versava o princípio da liberdade da comunicação e expressão.

A 12 de julho de 1821 foi aprovada a primeira lei de liberdade de imprensa que previa mecanismos jurídicos para condenar os abusos. Posteriormente, com a publicação da Constituição Liberal de 1822 reforçou-se o direito à liberdade de expressão e de imprensa.

Todavia, sem conseguir acompanhar o ritmo da Europa industrializada, Portugal continuava a produzir jornais de forma muito artesanal.

O espírito liberal expandiu-se para os territórios ultramarinos. Em Goa apareceu a Gazeta de Goa, em Macau surgiu a Abelha da China e no Brasil surgiram vários periódicos de cariz político que impulsionavam a independência do país.

Em 1823, o golpe absolutista protagonizado por D. Miguel I, decretou o regresso da censura e o fim de muitos jornais. No entanto vários liberais exilados procuraram introduzir publicações clandestinas em Portugal, animando a causa liberal.

Já em 1826, com D. Maria II à frente dos destinos do país, foi aprovada a Carta Constitucional que parecia assegurar a liberdade de imprensa, embora a censura prévia tivesse continuado a existir.

Não obstante, a promulgação da Carta Constitucional criou condições para a aceleração do ritmo de aparecimento de novos periódicos.

D. Miguel I, à época exilado, regressou a Portugal para casar com a sobrinha D. Maria II e não hesitou, ao contrário do que prometera, em instalar novamente um regime absolutista. Para a imprensa isso significou o regresso da censura e o impedimento de criação de novas publicações.

Somente em 1834, quando os liberalistas venceram os absolutistas, é que o Jornalismo em Portugal voltou a viver momentos de aparente liberdade.

O desenvolvimento da imprensa foi progressivo até 1840, ano em que foi publicada uma lei que restringiu o exercício da liberdade de imprensa e, começaram a ser denunciadas perseguições aos jornais e jornalistas.

Essa situação manteve-se até 1851, apesar de não ter impedido por completo a edição de jornais oposicionistas. De acordo com José Manuel Tengarrinha é nesta altura que «começam a aparecer as primeiras reportagens em Portugal».

Dando conta da repressão que se abatia sobre a imprensa, o jornal A Revolução de Setembro publicou a seguinte notícia:

«No Porto, na segunda capital do reino, às barbas das autoridades, que são dois condes de nova data, é onde a liberdade de escrever se desacata sob a administração que tem um só pensamento e uma só vontade!».

época de agitação política e…jornalística

Em época de grande agitação política foram muitos os jornais criados em virtude desta causa. OProcurador dos Povos, A Lança, O Atleta e A Revolução de Setembro são exemplos dessas publicações. Devido à falta de assinantes, algumas publicações tiveram uma existência efémera, outras chegaram a ter tiragens com mais de dois mil exemplares.

Deste modo, a imprensa configurava um novo espaço público, mais simbólico do que material e entendido, essencialmente, como arena pública.

Joel Serrão considera que «A imprensa da época é, em primeiro lugar política, em segundo lugar, literária e só acidentalmente noticiosa dos acontecimentos da vida quotidiana».

Na segunda metade deste século fizeram-se sentir os primeiros sinais do frenetismo da Revolução Industrial. Estava na altura de fazer experimentações.

As luzes da industrialização, aliadas à sedimentação da liberdade de imprensa, fizeram Portugal florescer com novas publicações diárias. O tom opinativo dos artigos começou a dar lugar ao relato de notícias do quotidiano. O jornalismo, ou melhor, os jornais estavam mais acessíveis e mais perto da população portuguesa.

Tengarrinha afirma que «só entre 1865 e 1885 é que se estabeleceram em Portugal as condições propícias à transformação industrial da imprensa», dando ênfase à necessidade de desenvolver as técnicas de escrita jornalística.

Eça de Queiroz, conhecido por projetar um jornalismo do futuro, escreveu na primeira edição do jornal Distrito de Évora, a 6 de janeiro de 1867, um artigo sobre o que entendia que deveria ser o Jornalismo em Portugal:

«O jornalismo na sua justa e verdadeira atitude, seria a intervenção permanente do país na sua própria vida política, moral, religiosa, literária e industrial. […] É o grande dever do jornalismo fazer conhecer o estado das coisas públicas, ensinar ao povo os seus direitos e as garantias da sua segurança, estar atento às atitudes que toma a política estrangeira, protestar com justa violência contra os atos culposos, frouxos, nocivos, velar pelo poder interior da pátria, pela grandeza moral, intelectual e material em presença das outras nações, pelo progresso que fazem os espíritos, pela conservação da justiça, pelo direito, da família, do trabalho, pelo melhoramento das classes infelizes».

O aparecimento do jornalismo noticioso

O aparecimento do Diário de Notícias, em 1864, criou uma nova dinâmica no panorama jornalístico português. Tratava-se de um jornal diário, barato e que relatava cenas do quotidiano.

Era um jornal diferente dos restantes jornais portugueses de então, nos conteúdos noticiosos, no estilo claro, conciso e simples) na forma, nomeadamente no aspeto com paginação a quatro colunas, na dimensão sensivelmente semelhante aos tabloides da época, e ainda no preço – dez reis por exemplar, menor ainda quando vendido por assinatura.

Esta renovada e contemporânea perspetiva do jornalismo noticioso e generalista propunha-se a ser neutro, independente e dirigido a toda a população. Na primeira página do primeiro número anunciavam:

«O Diário de Notícias – o seu título o está dizendo – será uma compilação cuidadosa de todas as notícias do dia, de todos os países, e de todas as especialidades, um noticiário universal. Em estilo fácil, e com a maior concisão, informará o leitor de todas as ocorrências interessantes, assim de Portugal como das demais nações, reproduzindo à última hora todas as novidades políticas, científicas, artísticas, literárias, comerciais, industriais, agrícolas, criminais e estatísticas, etc. Eliminando o artigo de fundo, não discute política, nem sustenta polémica».

Em 1870, três anos depois do seu manifesto no Distrito de Évora, Eça de Queiroz, aceitou um desafio proposto pelo diretor do Diário de Notícias, Eduardo Coelho, e escreveu uma série de quatro reportagens para este jornal relatando a inauguração da rota do Canal de Suez. Do acontecimento à publicação da reportagem passaram dois meses, mas nem isso demoveu o interesse dos leitores na estória contada ao pormenor pelo «enviado especial».

«Port Said, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos urras da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da Europa, cheio de flâmulas, de arcos, de flores, de músicas, de cafés improvisados, de barracas de acampamento, de uniformes, tinha um belo e poderoso aspeto de vida. A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas».

Depois do Diário de Notícias, a intenção comercial e a ambição informativa da imprensa alastraram-se. O público estava ávido de notícias relevantes e interessantes, como prova a fundação de vários jornais dentro da mesma linha editorial noticiosa, como oDiário Popular (Lisboa, 1866) e o Jornal de Notícias (de 1888), do Porto.

A imprensa da época contou, posteriormente, com um importante auxílio: o telégrafo. Surgiram, então, as agências noticiosas. A Agência Havas, a Reuters, a Wolff, a Agence France-Presse e a Agenzia Stefani foram criadas no século XIX.

O Jornalismo português nasceu sob a influência europeia, em particular da França. As guerras napoleónicas e o liberalismo ditaram a abertura ao modelo britânico de Jornalismo, assente no princípio da liberdade de imprensa.

A guerra que derruba o Estado Novo

O domínio de Salazar paira como uma nuvem cinzenta sobre Portugal. Mas uma faísca de coragem é o suficiente para incendiar o movimento da liberdade e levar à Revolução de 1974. É uma guerra distante que pôs em cheque a ditadura

O domínio de Salazar paira como uma nuvem cinzenta sobre Portugal. Mas uma faísca de coragem é o suficiente para incendiar o movimento da liberdade e levar à Revolução de 1974. É uma guerra distante que pôs em cheque a ditadura​.

15 de março de 1961. A União das Populações de Angola (UPA) dá início aos ataques às fazendas dos colonos brancos, provocando uma onda de terror e destruição no Norte de Angola. Era o despertar da guerra entre Portugal e as colónias, que reivindicavam a sua independência. Mas nada fazia prever as consequências que este conflito teria na política estabelecida em Portugal.

No continente, as notícias não se faziam chegar muito eficazmente. O Diário de Lisboa é o primeiro a referir os incidentes de 4 de fevereiro de 1961 (na capa do próprio dia), quando o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) atacou a cadeia de Luanda com o objetivo de libertar os presos, acabando por serem mortos sete polícias.

A 5 de fevereiro, O Século tornava-se o segundo diário a anunciar estes incidentes.

No entanto, os acontecimentos só começaram a ser tratados como guerra nas notícias a partir de maio desse ano. Logo aqui, a censura e a propaganda salazarista faziam-se sentir nas notícias dos jornais. De um lado, as Forças Armadas e os portugueses que viviam em Angola como heróis; do outro, os negros nativos e a comunidade internacional avessa ao colonialismo como vilões.

Sobre o massacre de 15 de março, o número de mortes nunca é referido nas páginas d’O Século. Só dois dias depois o jornal refere os acontecimentos e faz capa, com um texto de Adelino Tavares da Silva a partir de Luanda: «Mais um ataque vindo do exterior que tenta perturbar a vida de brancos e negros na pacífica terra de Angola».

Mais tarde, o mesmo jornal lança a rubrica «Século no Ultramar», que saía às quartas e sextas-feiras. Neste suplemento era reportado o que se vivia nos territórios além-mar, mas pouco era referido sobre os conflitos ultramarinos, reservando esse assunto para outras páginas do jornal.

Em vez disso, salientavam-se os «infindáveis recursos naturais de Angola, Guiné e Moçambique», a exploração agrícola das colónias, as festas de muitos portugueses e o orgulho na gestão que Portugal fazia do seu património.

Nesta altura, surgiram dois tipos de jornalistas: os que se encontravam em Angola a cobrir várias temáticas relacionadas com o país e que não esperavam o eclodir dos conflitos, tornando-se repórteres de guerra devido às circunstâncias; e os jornalistas enviados embedded no exército e destacados com a missão de cobrir a guerra.

Uma série de infortúnios

O ano de 1961 é considerado o annus horribilis de Salazar e do Estado Novo. Na mensagem de Ano Novo de 1960/1961, a primeira difundida pela televisão, o presidente Américo Tomás previu problemas para o país.

A Argélia e o Congo, países igualmente africanos e colonizados, ganhavam a sua independência de França e da Bélgica, respetivamente. Este cenário ameaçava as colónias portuguesas do Antigo Regime, que já sentia a pressão estrangeira das Nações Unidas.

Logo em janeiro, os problemas começaram a ganhar forma. Em Angola, vários trabalhadores da Cotonang protestam contra as condições de trabalho impostas pela companhia algodoeira. A manifestação é reprimida pelo exército português, mas os precedentes para o início da luta armada de libertação de Angola estavam lançados.

A 22 de janeiro, dá-se o desvio do paquete Santa Maria, comandado por Henrique Galvão. Numa tentativa de golpe militar, o navio é rebatizado Santa Liberdade, e é conseguida uma cobertura noticiosa internacional que abalaria profundamente o regime de Salazar. A fotografia da faixa que rebatiza o navio nunca seria publicada em Portugal.

Em março, a propósito dos incidentes no Norte de Angola, as Nações Unidas apelam ao governo português a introdução de medidas nas colónias. Em Luanda e em Lisboa, os portugueses reúnem-se em grandes manifestações contra a descolonização às portas da embaixada dos EUA.

Mais tarde, Lopes Alves, Ministro do Ultramar, declarava: «Não é uma política do Governo português o facto de os territórios ultramarinos serem províncias e não colónias. É uma questão de estrutura nacional, que provém do sentimento do povo, e não de uma doutrina ou determinação do Governo». As relações diplomáticas com o país aliado Estados Unidos estavam comprometidas.

Em abril, surge uma nova crise, desta vez dentro do regime. Júlio Botelho Moniz, Ministro da Defesa, cansado da resistência de Salazar à descolonização, tenta forçar a demissão do dirigente no âmbito da legalidade do regime, juntamente com Craveiro Lopes e outras personalidades ligadas ao poder. O golpe, denominado «Abrilada de 1961», acaba falhado. Com o acumular das tensões, Salazar anuncia, a 13 de abril, o início da Guerra Colonial, com a célebre frase: «Para Angola, rapidamente e em força».

As notícias que marcam os tumultos em Angola na época eram altamente manipuladas pelo regime. De caráter sensacionalista, o tom jornalístico passava ideais do Estado Novo e retratava os revoltosos como selvagens e terroristas.

No final do ano de 1961, a 18 de dezembro, as tropas da União Indiana ocupam os territórios de Goa, Damão e Diu. Salazar ordena que as tropas portuguesas lutem até à morte, mas o governador, general Vassalo e Silva, recusa-se a obedecer e opta pela rendição. O jornalista Urbano Carrasco, do Diário Popular, foi um dos enviados-especiais à zona do conflito. Acabou por ficar detido durante meses num campo de concentração para prisioneiros de guerra.

Um sistema mediático controlado

Onde iniciou a carreira?

Em Lisboa, em 1980, no entretanto extinto semanário Tempo e no vespertino A Tarde (da mesma empresa), de onde meses depois me transferi para a Rádio Renascença.

O que podemos esperar ler no seu novo livro “Uma Vida em Directo”?

“38 Anos de Aventuras da Casa Branca a Timor-Leste”, como diz o subtítulo. Nos relatos dessas aventuras de repórter, momentos históricos, tragédias humanas, grandezas de alma e muitas baixezas há, disse José Eduardo Agualusa, “fragmentos da história do nosso tempo”, ou como escreveu Ramalho Eanes, “uma grande lição prática de geopolítica (da americana, sobretudo)”. E onde Rui Veloso viu “um jornalista ‘à antiga’, de reportagem, de investigação, oposta ao jornalismo de sofá”, Rogério Alves encontra “Tintim, herói da célebre banda desenhada, que situava o protagonista num mosaico tão rico em peripécias como variado nas suas latitudes e longitudes.” Creio que este livro é tão eclético quanto a minha experiência como repórter que andou aí pelo Mundo.

Na sua opinião quais são as mais importantes características de um jornalista correspondente num país que não é o seu?

Capacidade de aprendizagem para estudar tudo sobre esse país. Humildade para que o nosso preconceito não nos impeça de apreender a nova realidade. Capacidade analítica e de observação para podermos explicar esse país às nossas audiências, traduzi-lo para a nossa cultura. Resiliência, para fazer face ao desconhecido que nos rodeia no dia-a-dia. Vontade de vencer sem queixumes. Disponibilidade para “estar de serviço” 24 horas por dia.

Enquanto correspondente naquele país, que memórias tem da forma como os EUA foram marcados pelo 11/9?

Foi um choque brutal num país que não estava habituado a ser atacado. Foi a descoberta da vulnerabilidade que levou os Estados Unidos a, progressivamente, tentarem fechar-se ao Mundo. Foi, ainda, a constatação de que a classe política e os serviços de inteligência passam muito tempo a dormir ao volante. E de que é mais fácil encontrar bodes expiatórios do que soluções reais.

Como perspetiva o atual paradigma do jornalismo? 

Vivemos tempos de grande ameaça ao jornalismo e, consequentemente, à sociedade democrática de que o jornalismo é um pilar fundamental. De um lado, temos o novo business model que descobriu no mau jornalismo boa fonte de receitas e, logo, não incentiva o bom jornalismo. Por outro, e em parte como consequência do business model e do poder brutal das redes sociais, temos as fake news cuja difusão generalizada é mais fácil do que nunca e cuja aceitação é facilitada pelo mau trabalho em muitas redacções as quais produzem essas fake news ou produtos muito semelhantes. Este assunto que carece de reflexão profunda porque o fenómeno, não combatido, destruirá o jornalismo.

Uma guerra para além das armas

Muitas vezes só o olhar clínico dos especialistas consegue detetar o artifício das informações que circulam potenciando a capacidade de propagação de um espaço mediático sem a vigilância dos chamados “gatekeepers” do século passado.

A manipulação não é, no entanto, algo de novo. Desde que a Imprensa se industrializou e os Media tomaram a maior relevância social foram sendo criados mecanismos e estratégias de comunicação com o objetivo de conduzir as massas para determinados comportamentos e objetivos. E, apesar do ressoar quase sempre negativo de termos como propaganda, narrativa, publicidade e promoção, em muitos casos tal foi feito com a melhor das intenções.

A partir de Outubro vamos ter, no NewsMuseum, um novo espaço expositivo digital dedicado à história recente da manipulação. Vamos apresentar um roteiro dos seus génios e diabos.

Referenciamos Sigmund Freud, como o cientista que teorizou sobre as energias motivacionais que estão na origem das formas de manipulação mais sofisticadas do séc. XX, assim como o seu sobrinho, Edward Bernays, o pai das “Public Relations” modernas que defendia a ideia de que “as élites devem organizar o caos” através da comunicação.

Invocamos Paul Joseph Goebbels, o ministro nazi da propaganda que foi pioneiro na aplicação das então novas teorias da mobilização das massas – a manipulação do medo. E António Ferro, a personagem maior do aparelho ideológico do Estado Novo.

Apresentamos David Sawyer e Scott Miller, os estrategas de campanhas eleitorais nos EUA que marcaram a diferença e que exportaram o modelo de propaganda política norte-americano para diversos países, em todo o mundo, a par de Charles e Maurice Saatchi, atores do marketing político moderno, Dick Morris, Alastair Campbell, Karl Rover, Philipe Gould, Mark Penn.

A nossa exposição focará ainda George Gallup, que criou as primeiras metodologias para pesquisa dos hábitos e motivações, David Ogilvy, um dos mais célebres “mad men” dos anos de ouro da publicidade, Julian Assange, autor das maiores fugas de informação das últimas décadas, e Noam Chomsky, o grande denunciante das práticas de manipulação das massas.

São estes os génios, por vezes do bem, muitas vezes do mal, da propaganda do século passado que terão relevo acrescido no NewsMuseum. Mas, no mesmo espaço, também destacaremos o grande manipulador deste início do séc. XXI – o anónimo.

Todos os dias, a toda a hora, somos manipulados por milhões e milhões de anónimos, dos amadores bem intencionados (provavelmente também eles vítimas de uma qualquer manipulação) aos profissionais remunerados.

No território da web e dos media sociais, os micro-influenciadores substituem os “gate keepers”, os “bots” substituem os líderes de opinião e as narrativas fabricadas propagam-se muito mais que os factos, propagam as “fake news”.

A manipulação, é um facto, evolui mais depressa que a inteligência dos humanos.

Os jornalistas no terreno

Em Portugal, as imagens e as notícias eram transmitidas através deste tom propagandístico. Como os jornalistas enviados para a zona de conflito acompanhavam o exército português, a informação vinha logo enviusada da própria fonte, uma vez que os próprios militares limitavam o fluxo da informação.

Além disso, os repórteres enviados foram muito poucos, todos eles selecionados cuidadosamente pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI) e pelo exército. Quanto aos jornalistas que já se encontravam nos territórios quando a guerra eclodiu inesperadamente, apesar de terem mais liberdade para reportar os factos, eram alvo da censura prévia antes das peças serem publicadas.

Os primeiros relatos da guerra, que davam conta apenas do restabelecimento da ordem pública pelas forças armadas, indicando que os povos das colónias não passavam de dissidentes e terroristas, entretanto começaram a mudar ligeiramente o tom.Apelando à luta dos portugueses contra o comunismo internacional nas colónias, a RTP já transmitia imagens de vestígios de ataques a fazendas, assim como várias colunas de militares a avançar com ações de combate.

Entre 1969 e 1974, Marcello Caetano falava à população portuguesa no programa da sua inteira responsabilidade, “Conversa em Família”. Nele explicava as políticas do Estado Novo e as tarefas que o governo estava a realizar, nomeadamente na guerra colonial.

Porém, a situação na guerra era sempre suavizada e não correspondia totalmente à verdade. O Presidente do Conselho chegou mesmo a afirmar que a imprensa internacional não apoiava os movimentos de libertação das colónias. Enquanto isso, a imprensa estrangeira relatava a verdadeira guerra colonial.

À medida que a guerra se prolongava, as mensagens de Natal e Feliz Ano Novo dos soldados portugueses, transmitidas pela RTP, ficavam na memória coletiva de Portugal.

A guerra colonial iria durar até 1974, quando se deu a Revolução dos Cravos. O Movimento das Forças Armadas (MFA) tomava Lisboa e fazia tombar o Estado Novo. A guerra foi sempre apontada como um dos fatores que contribuiu para a revolução, e a independência foi finalmente concedida às colónias portuguesas.

A guerra colonial foi o conflito militar mais longo em que Portugal se viu envolvido, desde as guerras da Restauração, entre 1640 e 1668. A guerra colonial desenrolou-se nas chamadas províncias ultramarinas de Moçambique, Guiné e Angola. Em meados de 1975, uma ponte aérea trouxe milhares de portugueses vindos das antigas colónias. Ganhariam a designação de retornados, e as imagens de caixotes e malas acumulados junto ao Padrão dos Descobrimentos ficaria para sempre gravada na memória coletiva dos portugueses.

Oscar Mascarenhas

A homenagem do NewsMuseum a Oscar de Mascarenhas, um dos comissários da galeria dos Imortais, o espaço que reservamos às figuras de referência do Jornalismo português já falecidas

A biografia, as estórias e o contributo de Oscar Mascarenhas para o Jornalismo português. A homenagem do NewsMuseum ao repórter que via a sua profissão como a «mais bela e apaixonante do mundo»

O convite

Nos primórdios do NewsMuseum, quando «Os Imortais» ainda se chamavam «Panteão de Jornalistas» e o conceito não passava de um rascunho, Luís Paixão Martins convidou Oscar Mascarenhas para um café no hotel Tivoli.

À mesa, nascia a ideia que ia dar origem ao Comissariado: reunir profissionais de mérito reconhecido, que seriam responsáveis pela seleção dos grandes nomes do Jornalismo português homenageados neste espaço.

Uma escolha disputada, desafiante, em constante atualização. Um desafio que o jornalista não hesitou em abraçar.

A conversa com Luís Paixão Martins assemelhava-se àquela que Oscar Mascarenhas tivera com Carlos Cáceres Monteiros, mais de quatro décadas antes.

Os primeiros passos

«Vais trabalhar para A Capital. Já tratei de tudo».

O anúncio de Cáceres Monteiro apanhou Oscar Mascarenhas de surpresa.

Eram meados de 1974 e o então estudante de Direito da Universidade de Lisboa estava a cumprir o serviço militar obrigatório na Força Aérea.

À época, já estava decidido abandonar o curso de Direito e decidiu aceitar a «experiência de emprego» proposta pelo amigo.

Em janeiro de 1975, chegou ao vespertino, dando início a uma longa e profícua carreira no mundo do jornalismo.

Entre dezenas de viagens, centenas de reportagens e milhares de artigos, Oscar Mascarenhas cobriu diversos eventos marcantes, nacionais e internacionais, dos últimos 40 anos.

Um das suas primeiras lutas no mundo do jornalismo – e que se manteve durante décadas de profissão – foi a grafia do seu nome.

Oscar – escrito assim, sem acento – nasceu a 9 de dezembro de 1949 em Goa, antigo Estado Português da Índia.

A paixão pelo jornalismo manifestou-se ainda na juventude, escrevendo episodicamente para o jornal de parede Fórum, no Liceu Gil Vicente, e para revista Futuro, do Interact Clube de Almada.

Contudo, foi no jornal A Capital que abraçou verdadeiramente o jornalismo.

Repórter-viajante

Em 1984, com dez anos no jornalismo, efetuou uma das reportagens mais marcantes da sua carreira.

«Talvez tenham sido os Jogos Olímpicos de 1984 o trabalho mais importante da minha vida», afirmou o jornalista.

Na madrugada de 13 de agosto, Portugal ficou colado ao ecrã da RTP a acompanhar a Maratona Olímpica.

Oscar Mascarenhas estava em Los Angeles, a acompanhar a comitiva portuguesa ao serviço do Diário de Notícias.

Chegara ao jornal dois anos antes, em 1982, depois de sete anos n’A Capital.

«Lopes traz para Portugal primeira medalha de ouro», era a capa da edição especial do Diário de Notícias.

Uma vitória que, denunciou o enviado especial, os americanos tentaram eclipsar.

Apesar da importância da maratona entre as provas olímpicas, A Portuguesa foi substituída pelo hino americano na última cerimónia dos Jogos de Los Angeles.

«Nada podia estragar a festa patriótica dos americanos nem Carlos Lopes e a primeira medalha de ouro portuguesa», escreveu.

Um feito que, mais de três décadas depois, continua a marcar a história do desporto nacional.

Pelo mundo fora

Oscar Mascarenhas permaneceu na redação do Diário de Notícias durante duas décadas, chegando a redator principal.

Em 1990, cobriu as primeiras eleições livres na RDA após a queda do Muro de Berlim.

Assistiu ao início da Operação Tempestade no Deserto, escrevendo sobre a Guerra do Golfo, em 1990-1991, a partir da Jordânia, Arábia Saudita e Bahreim.

A partir de Jacarta, reportou sobre a X Conferência dos Países Não Alinhados. Juntamente com o Rui Moreira (LUSA), tornou-se um dos primeiros jornalistas em Timor-Leste, cobrindo o julgamento de Xanana Gusmão.

Uma década depois, reportou, a partir de Nova Iorque, os horrores do rescaldo do 11 de setembro.

O espaço aéreo americano estava encerrado, pelo que só no dia 17 chegou ao Diário de Notícias o primeiro texto.

Naqueles dias, Nova Iorque vivia «de silêncios gritantes, a dizerem tudo. […] O pior desses silêncios é o que vem dos escombros dos colossos derrubados. A polícia e os familiares já não têm registado chamadas telefónicas ou sinais de vida».

A um trabalho profícuo enquanto repórter, Oscar Mascarenhas juntava uma escrita crítica, mordaz e raramente consensual, que contribuiu para o tornar num opinion maker.

Assinou, durante uma década, a coluna semanal «Manifestos & Exageros», publicada no Diário de Notícias às quartas-feiras.

Novos desafios

Em 2003, chegou à agência noticiosa Lusa enquanto assessor editorial.

Dois anos depois, tornou-se redator principal.

Em 2007, aceitou um novo desafio: o de «guarda noturno» da informação.

Passou a trabalhar no turno da madrugada, função que desempenhou até passar à pré-reforma, em 2009.

Regressou ao Diário de Notícias, já em 2012, como Provedor do Leitor, função que desempenhou até 2014.

Um cargo onde se manteve igual a si próprio: frontal, crítico, eloquente, e sem temer uma boa discussão.

Uma voz livre… e polémica do jornalismo português, que lhe valeu a fama de um dos mais controversos Provedores da história da publicação.

«Poiares Maduro e Lomba são tão-somente o fascismo a bater-nos à porta», escreveu, num dos seus artigos mais contestados.

Às críticas, Oscar Mascarenhas respondeu com a sua sagacidade habitual:

«Escrevo artigos de opinião. A minha opinião. A minha arma é o verbo e o meu mérito, quando o tenho, é o convencimento. Disparo de frente. E estou de frente à espera de réplica».

Ao longo da sua carreira, colaborou ainda com a Página Um (1976) e com o Jornal do Fundão, onde, em 2003, exerceu as funções de editor executivo.

As suas reportagens foram distinguidas pelo Clube Português de Imprensa com o Prémio Reportagem, em 1985.

No ano seguinte, conquistou o Prémio de Viagem.

Luta pela profissão

Colaborou ainda com diversos organismos como o extinto Conselho de Imprensa, a Comissão da Carteira Profissional e a direção do Sindicato dos Jornalistas, presidindo ao seu Conselho Deontológico durante oito anos.

Esteve diretamente envolvido em negociações de contratos coletivos, nas quais lutou pelos direitos dos jornalistas, sem nunca deixar de exigir destes o cumprimento dos seus deveres.

Entre outubro de 2001 e março de 2002, viajou para Bratislava, na Eslováquia, a convite do Programa Phare, colaborando no projeto de uma nova lei de imprensa.

Além do trabalho no terreno, Oscar Mascarenhas também se distinguiu pela sua atividade no mundo académico.

Já com uma carreira de duas décadas, decidiu tirar uma pós-graduação em jornalismo no ISCTE e na Escola Superior da Comunicação Social.

Seguiu-se o mestrado, e admitira recentemente avançar para o doutoramento em Ciências da Comunicação, também pelo ISCTE.

Mesmo depois da reforma, continua a ser uma voz ativa no mundo mediático, lecionando na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa.

Faleceu a 6 de maio de 2015, vítima de um ataque cardíaco.

A notícia foi recebida com pesar pela comunidade jornalística. Marcelo Rebelo de Sousa não deixou de prestar a sua homenagem, no seu comentário semanal na TVI.

As redes sociais também foram utilizadas para relembrar o jornalista, o professor e, acima de tudo, o homem.

As obras

Ao seu trabalho jornalístico, soma-se a publicação de duas obras.

Em 2001, lançou O Poder Corporativo Contra a Informação.

Três anos depois, seguiu-se Nuvem de Chumbo. O Processo Casa Pia na Imprensa, com Nuno Ivo.

A sua tese de mestrado, intitulada O Detetive historiador. O jornalismo de investigação e a sua ética, estava em fase de publicação.

Preparava ainda um livro com uma vasta seleção de citações, que foi lançado a título póstumo a 2 de dezembro de 2015.

O Grande Livro dos Pensamentos & das Citaçõesreúne mais de 5 000 frases sobre temas tão variados como o amor, a guerra, a religião ou a vida.

Um trabalho cujos méritos não se esgotam no título de contracapa – Cábula de Falsa Erudição para Abrilhantar Discursos, Apresentações Promocionais, Trabalhos Académicos, Dedicatórias, Conversas de Salão e Imprimir em T-shirts.

Uma obra de confronto de pensamentos, de diversão, de revisita de momentos marcantes da História, e, essencialmente, de descoberta. Uma obra que cabe ao próprio leitor terminar, acrescentando as citações que recolheu.

A atravessar toda sua carreira, um apurado sentido de missão.

«Quando ingressei no jornalismo, já em tempo de liberdade, fui para não ser como (eu achava que) os outros tinham sido».

Um contributo inegável para jornalismo, aquela que considerava «a profissão mais bela e apaixonante do mundo».

A homenagem

O NewsMuseum presta a sua homenagem a Oscar Mascarenhas, no espaço que reservamos para aqueles que tanto fizeram pelo Jornalismo português e que, através dele, contribuíram para a evolução do país.

O jornalista deixa a sua marca na seleção dos nomes que integram o espaço nobre do NewsMuseum, dedicado aos «Imortais».

Uma evocação simbólica da biografia, das estórias e das páginas do Jornalismo português que Oscar Mascarenhas ajudou a escrever.

«Esta é uma para os meus biógrafos».

O testemunho de Carolina Mascarenhas

Oscar Mascarenhas tinha para si duas profissões: jornalista e polémico – ainda que só declarasse uma. Dedicava-se a ambas por igual e abraçava-as com o mesmo profissionalismo militante.

Para o meu pai, o jornalismo não devia viver sem a polémica – um jornalismo sossegadinho e que não importunasse ninguém não era jornalismo, pelo menos não era o que queria fazer. Nunca quis. Sempre incomodou. Sempre gostou de incomodar. Sempre gostou que o incomodassem também – o que, para sua felicidade, nunca deixou de acontecer.

Mas também a polémica, a verdadeira polémica, vive mais pobre sem o jornalismo. Porquê verdadeira polémica? Bem, talvez verdadeira não seja o termo mais correto, mas falo da polémica como o meu pai a via, e como a transmitiu a quem o rodeava. A polémica que almejava nada tinha a ver com escândalo nem com ofensas gratuitas. Não. A polémica que perseguia era a que suscita reações, pensamentos, e controvérsia. A polémica como génese do debate. E para essa, para essa o jornalismo, a investigação, a vontade de saber mais, importam e muito.

Vivia a polémica de forma tranquila e ao mesmo tempo entusiasta. Nunca se incomodou com os insultos, mas tentou nunca deixar uma crítica sem resposta. Vivia a polémica em todos os aspetos do seu quotidiano. Nos jornais por onde passou, nas aulas que deu, nos grupos em que participou, até na sua forma peculiar de tão bem escrever.

Na sua vida pessoal, o debate e a polémica não esmorecia. Tal era notório com os seus amigos: ninguém que se possa dizer amigo de Oscar Mascarenhas foi privado de uma mais ou menos acalorada discussão. Mas também em casa. O debate foi sempre fomentado e obrigatório. Lançava temas, ou deixava-me lançar a mim, e passávamos à discussão. Depois, invariavelmente, eu perdia a argumentação. E também invariavelmente dizia: «Está melhor, filha. Essa argumentação melhorou».

No entanto, calculo que os debates que mais gozo lhe deram foram, por certo, os que travou com adversários. Adversários, sim, pois inimigos, nunca lhe conheci nenhum.

Orgulhava-se da sua retórica e oratória, por escrito e em versão oral. Orgulhava-se do que pensava e de como pensava bem. Orgulhava-se de quem era e dos que tinha à sua volta. Orgulhava-se do que escrevia, mas também do que não escrevia para não humilhar outros. Oscar Mascarenhas era, sem dúvida, um orgulhoso. E quando esse orgulho lhe corria bem, e a mais das vezes correu, Oscar Mascarenhas era vaidoso. E que bem lhe ficava a vaidade.

Oscar Mascarenhas escrevia e falava com ênfase na polémica. Oscar Mascarenhas vivia no que escrevia e por isso vive ainda. O meu pai, o meu orgulhoso e vaidoso pai, será sempre imortal.

Oscar Mascarenhas era duas coisas: jornalista e polémico. Para mim é Pai.