MEDIA AGE EXPERIENCE
"INESPERADO, INTELIGENTE E DIVERTIDO"

News Standard

Os Kennedy num veleiro

São vários os momentos imortalizados de John e Jackie Kennedy a bordo de veleiros. Esta fotografia, captada em Hyannis Port, Massachusetts, em 1953, retrata uma dessas ocasiões

Autor: Hyman Peskin
Nacionalidade:Norte-Americana
Ano: 1953
Publicação: LIFE

 

 

 

Os Beatles na piscina

Esta fotografia é captada em 1964, por John Loengard, na primeira viagem dos Beatles aos EUA. É inverno, a piscina está gelada, mas o «Quarteto de Liverpool» aceita ser fotografado para aparecer na capa da LIFE

Autor: John Loengard
Nacionalidade: Norte-americana
Ano: 1964
Publicação: LIFE

 

 

Elvis em palco

Charles Trainor fotografa Elvis, em 1956, e mostra ao mundo a garra e dedicação do «Rei» do rock and roll em palco

Autor: Charles Trainor
Nacionalidade: Norte-Americana
Ano: 1956
Publicação: Time & Life Pictures

O trompete de Armstrong

Com o seu trompete, Louis Armstrong revoluciona o mundo do Jazz. Esta fotografia mostra-o, em pleno, num dos seus concertos

Autor: Larry Burrows
Nacionalidade: Inglesa
Ano: 1963
Publicação: GETTY

Sophia Loren

Alfred Eisenstaedt fotografou inúmeras personalidades e momentos icónicos do século XX. Sophia Loren é uma das musas deste fotojornalista

Autor: Alfred Eisenstaedt
Nacionalidade: Polaca/Norte-Americana
Ano: 1961
Publicação: LIFE

Sartre em Veneza

Jean-Paul Sartre, escritor francês, foi frequentemente fotografado em pontos distintos do mundo. Este momento foi captado em Veneza, numa das suas viagens de inspiração literária

Autor: Desconhecido
Nacionalidade: Desconhecida
Ano: 1957
Publicação: Keystone-France

 

O velório espanhol

Em 1951, o fotógrafo W. Eugene Smith retrata, num ensaio fotográfico, a população de Deleitosa – uma pequena aldeia espanhola. A fotografia que aqui figura mostra a tristeza de um grupo de mulheres perante o velório de Juan Larra

Autor: W. Eugene Smith
Nacionalidade: Norte-Americana
Ano: 1951
Publicação: LIFE

 

Carlos Pinto Coelho

Jornalista de imprensa, rádio e televisão. O «Senhor Acontece» é um dos grandes projetores da Cultura em Portugal

Comunicador que marca gerações, Carlos Pinto Coelho fica imortalizado na memória dos portugueses como o «Senhor Acontece». A sua carreira passa pela Imprensa, Rádio e TV

«E assim, acontece». Esta foi a frase que imortalizou o jornalista Carlos Pinto Coelho, comummente chamado de «Senhor Acontece».

O jornalista esteve sempre intimamente ligado ao programa cultural que teve na RTP2, de 1994 a 2003.

Apesar de ter feito carreira na RTP por 26 anos, Carlos Pinto Coelho não esteve apenas associado à televisão.

Carlos Nuno de Abreu Pinto Coelho nasceu em Lisboa a 18 de abril de 1944. No ano seguinte mudou-se, com a família, para Moçambique.

Filho de um juiz e da jornalista e escritora Sarah Augusta de Lima e Abreu, Carlos Pinto Coelho regressou a Portugal em 1963.

Começou por frequentar a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa mas, ao chumbar à disciplina de Direito das Sucessões, acabou por desistir mais tarde.

Foi nesta altura que o bichinho do jornalismo o mordeu.

Imprensa, rádio e televisão

Em 1968, ingressou no Diário de Notícias como repórter. Em abril de 1975, acabaria por sair do jornal, sob a tumultuosa direção de Luís de Barros e José Saramago.

Mais tarde, encontrava-se entre os fundadores do Jornal Novo, dirigido por Artur Portela.

Até 1977 foi redator da Agência de Notícias A.N.I., correspondente em Portugal da rádio Deutsche Welle e redator da revista Vida Mundial, dirigida por Natália Correia.

Em 1982 assumiu a direção executiva da revista Mais, altura em que iniciou igualmente a sua colaboração com a RTP. Foi diretor-adjunto de Informação (1977), chefe de redação do Informação/2 (1978), diretor de programas (1986-1989) e diretor de Cooperação e Relações Internacionais (1989-1991).

Carlos Pinto Coelho não se ficava por aqui.

Na rádio foi locutor das estações TSF, Rádio Comercial, Antena 1 e Teledifusão de Macau, distinguindo-se especialmente com a apresentação do magazine Acontece, entre 1994 e 2003.

Em 2003 estreava-se como professor de jornalismo na Escola Superior de Tecnologia do Instituto Politécnico de Tomar.

Entre vários cargos que ocupou, destacam-se os de membro do Conselho de Administração da Europa TV (1986-1987), coordenador dos Encontros de Televisões de Língua Portuguesa (1989-1992), júri dos Prémios Emmy de Jornalismo de Investigação (1984) e do Fantasporto (1986).

Os seus interesses extrapolavam entre a África lusófona e a fotografia.

«Não há dia nenhum que chegue à minha varanda do Alentejo e olhe para o céu – e o céu todos os dias está diferente – em que não tenha de ir procurar a minha câmara fotográfica, porque desta vez, desta vez é que estas nuvens são as melhores de sempre»

O reconhecimento

A 9 de junho de 2000, o jornalista era nomeado Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2009, recebia o título de Oficial da Ordem das Artes e das Letras de França.

No jornalismo, destacou-se ainda com o Prémio Bordalo, na categoria de Televisão, pela Casa da Imprensa (1995), o Grande Prémio Gazeta, do Clube dos Jornalistas (1997), e o Prémio Carreira Manuel Pinto de Azevedo Jr., d’O Primeiro de Janeiro (2002).

A sua fama com o programa Acontece ultrapassava barreiras.

De tal forma, que Herman José chegou a imitar o jornalista no seu programa cómico da altura, Herman Enciclopédia.

Carlos Pinto Coelho faleceu a 15 de dezembro de 2010.

O grande senhor por detrás da projeção da cultura em Portugal, através do mais antigo jornal cultural da Europa, deixaria um grande legado atrás.

«Sou um homem sem pátria, sem terra, sem raiz, sem sítio, um homem do tempo, do dia, do momento. Corri mundo, conheci muita gente e muita coisa que me enriqueceu. Não é aqui, onde estou de passagem, que tenho o meu coração. Tenho-o no sítio onde estou, no momento em que estou. E não sei qual será o último e onde estarei quando morrer».

A Capital vai à guerra

A cobertura da 1.ª Guerra Mundial fica marcada pela censura. A dimensão do conflito justifica o envio, pela primeira vez, de repórteres à linha de combate. Mas os jornalistas não gozam de grande liberdade – acompanhados por militares, que são guias, intérpretes e… censores

A Primeira Guerra Mundial marcou a estreia de um enviado especial português ao campo de batalha. A dimensão mundial do conflito fez com que tivesse repercussões na Impresa de todo o mundo. Aliados e adversários à parte, um fator em comum: a censura.

O primeiro enviado especial

«Hermano Neves dar-nos-há da guerra a visão portugueza; dará movimento e vida aos seus factos, tornando-nos familiares os seus aspectos […] Só assim se faz historia, e o jornalismo moderno é a historia de todos os dias».

A 29 de agosto de 1914, A Capital anunciava a partida de Hermano Neves para França. Era o repórter português era o primeiro enviado especial a partir para o palco da guerra.

À época, a cobertura noticiosa feita em Portugal dependia, em grande parte, das informações que chegavam através de meios estrangeiros e de agências internacionais.

Um conflito imortalizado na história do jornalismo português como o primeiro contar com repórteres nacionais no terreno. Uma guerra cujos primeiros desenvolvimentos haviam chegado a Portugal dois meses antes.

Rebenta a guerra

«O arquiduque herdeiro da Áustria e sua esposa mortos a tiros de pistola».  A 29 de junho de 1914, a capa do Diário de Notícias era dominada pelo trágico acontecimento.

No dia anterior, Franz Ferdinand e a sua mulher tinham sido alvejados em Sarajevo. O crime tinha feito manchetes na imprensa de todo o mundo.

O atirador – o nacionalista sérvio Gavrilo Princip – foi detido, mas as consequências do crime eram inevitáveis. O tiroteio deixava feridas mais profundas, que o antetítulo do Diário de Notícias já deixava antever: «O ódio de raças».

A 28 de julho de 1914, o império austro-húngaro, apoiado pela Alemanha, declara guerra à Sérvia.

Os jornais iam dando conta do clima de tensão vivido na Europa, culminando com a declaração de guerra da Alemanha à Rússia, a 1 de agosto de 1914, e, dois dias depois, a França. A 4 de agosto, a Grã-Bretanha junta-se ao conflito.

A Europa estava em guerra.

À medida que os conflitos se agudizavam no resto da Europa, em Portugal debatia-se se o país devia ou não envolver-se. Em fevereiro de 1916, o Governo português ordena a apreensão de navios alemães no porto de Lisboa.

Alemanha declara Guerra a Portugal a 9 de março de 1916. Em 1917, Corpo Expedicionário Português partiu para a Flandres.

Joshua Benoliel capturou, através da sua lente, partida das tropas nacionais.

A Ilustração Portuguesa deu grande ênfase à participação nacional no conflito, acompanhando os portugueses na guerra através das imagens captadas pelo fotógrafo Arnaldo Garcez.

No terreno encontrava-se Adelino Mendes, do jornal A Capital e repórter que acompanhava o exército nacional.

Também Adriano Sousa Lopes, nomeado pelo Governo como «oficial-artista» do Corpo Expedicionário Português, estava na frente ocidental.

Antes de partir, anunciou a intenção de «documentar artisticamente» a participação de Portugal no conflito e explicou publicamente os seus objetivos, em entrevista ao jornal O Século.

«Em primeiro lugar, é uma obra de propaganda do nosso esforço militar. Eu passaria a colaborar em várias revistas estrangeiras, que ilustraria com assuntos da vida do nosso Exército em campanha».

A guerra do silêncio

Por cá, a máquina de propaganda de guerra montada pelo ministro da Guerra, General Norton de Matos, continuava oleada.

A introdução da fotografia permitia inovar a arte de dar notícias, tornando-se o principal veículo de comunicação de imagens e contribuindo para os primeiros passos do fotojornalismo português.

Dirigida por Augusto Pina, a revista quinzenal ilustrada Portugal na Guerra documentou a intervenção militar do Corpo Expedicionário Português.

O outro lado da guerra, que escapava à seriedade dos relatórios e documentos militares, estava visível na publicação João Ninguém: Soldado da Grande Guerra, um relato humorístico das provações do Corpo Expedicionário Português.

Mas nem todas as informações chegavam aos portugueses.

A censura militar, instituída pela I República em 1916, excluía da cobertura noticiosa qualquer dado estratégico ou que pudesse abalar o moral das tropas.

A Censura Prévia estava a cargo do Ministério de Guerra, sendo vista como uma exceção temporária, uma vez que era assumidamente anticonstitucional.

A indignação dos jornalistas face ao regime censório tornou-se cada vez mais evidente.

«Esta guerra é a guerra do silêncio», escrevia Adelino Mendes no jornal A Capital, em 1917.

Mesmo no terreno, os enviados especiais eram acompanhados por militares, que serviam de guias, intérpretes e, sobretudo, censores.

O humorista e escritor André Brun destacou-se na dupla função de soldado-jornalista, combatendo no conflito e, simultaneamente, escrevendo para periódicos portugueses e brasileiros.

Eram raros os jornais que questionavam a participação portuguesa na guerra.

A cobertura noticiosa estava recheada de descrições elogiosas, em tom patriótico, dando destaque aos feitos dos «nossos bravos soldados», mesmo em caso de derrota.

A mais trágica das batalhas portuguesas

Até La Lys, a mais trágica das batalhas para os portugueses, ficou marcada na imprensa portuguesa pelo orgulho nos combatentes.

Esta tendência censória é comum à cobertura internacional.

A 1 de julho de 1916, 19.000 ingleses perderam a vida em Somme.

Sujeito à censura e sem condições para reportar a partir do campo de batalha, o jornalista Philip Gibbs escreveu:

“We may say it is, on balance, a good day for England and France. It is a day of promise in this war” [«Podemos dizer que é, em balanço, um bom dia para Inglaterra e França. É um dia de promessa nesta Guerra»].

No ano anterior, também a sua cobertura de 40 páginas da batalha de Loos tinha sido sujeita a cortes pelo lápis azul.

Os jornais britânicos publicavam histórias sobre os alemães sem fontes fiáveis, contribuindo para fortalecer o espírito nacionalista e o apoio à guerra.

Em 1914, apenas quatro dias depois da entrada do Reino Unido na Primeira Guerra Mundial, era aprovado o Defence of the Realm Act, que instituía a censura.

A Guerra torna-se mundial

Além das notícias sobre a Grande Guerra, eram publicados artigos sobre a frente doméstica.

Uma cobertura que chegava a todo o mundo.

Apesar dos constrangimentos externos, eram dados sinais de que a forma de fazer jornalismo estava a mudar.

A jornalista Peggy Hull, do El Paso Morning Times, convenceu o seu editor a enviá-la para França.

À época, o War Department dos Estados Unidos não concedia acreditação a jornalistas do sexo feminino, mas isso não impediu Hull de passar um mês e meio num campo de treino de artilharia como correspondente de guerra.

Em 1918, Peggy Hull tornou-se a primeira jornalista do sexo feminino acreditada pelo Governo norte-americano.

As mudanças na cobertura noticiosa feita nos Estados Unidos refletiam o interesse crescente do país no conflito.

A política de guerra submarina germânica, que incluiu ataques a navios e tripulações norte-americanas, levou ao corte de relações oficiais com Berlim.

A neutralidade declarada pelos Estados Unidos em 1914 tornava-se insustentável.

Os Estados Unidos declaram guerra à Alemanha a 6 de abril de 1917.

O conflito que deflagrara há quase três anos na Europa tornava-se assim, verdadeiramente, numa guerra mundial.

Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, as contas complicavam-se para o exército germânico. A Alemanha rendia-se a 11 de novembro de 1918. A paz regressava à Europa e ao mundo.

«Viva Portugal! Vivam o Exército e a Marinha Portugueses!», lia-se no Diário de Notícias. Mais de noventa anos depois do conflito, a RTP emitiu, em 2008, o documentário «Portugueses nas Trincheiras», que documenta a participação portuguesa na Primeira Guerra e recorda algumas histórias dos soldados que lutaram no Norte de França.

O documentário começa com uma canção entoada pelo soldado João Neves num campo de prisioneiros alemão, em 1918. Acredita-se que esta seja a primeira gravação de um cantor português não-profissional.

Em direto na TV

A guerra do Golfo que, envolve os Estados Unidos e países do Golfo Pérsico, vê nascer o relato em direto da guerra, com a descrição dos eventos por parte de três jornalistas da CNN, a partir da janela do seu quarto, pelo telefone via satélite

Chega tecnologia. Numa época em que os avanços tecnológicos eram mais conservadores, a resportagem mantinha as ferramentais tradicionais. Ninguém suspeitava que toda a máquina mediática mudasse drasticamente, especialmente na forma como se fazem as grandes coberturas jornalísticas de guerras.

A guerra do Golfo ficou assim conhecida devido ao envolvimento dos países que se estendem em volta do Golfo Pérsico.

Os problemas começaram quando Saddam Hussein, então presidente do Iraque, decidiu anexar o Kuwait. Para além de questões territoriais, os iraquianos acusavam o Kuwait de exceder as quotas de produção petrolífera, e eram grandes devedores do país, devido à guerra entre o Iraque e o Irão.

A 2 de agosto de 1990, o Iraque invade o Kuwait. A Arábia Saudita, o maior exportador e produtor de petróleo do mundo, viu-se ameaçada com a ação do Iraque, e os Estados Unidos, para salvaguardar a sua fonte primordial de petróleo, pressionam as Nações Unidas (ONU) para intervirem no conflito.

O efeito CNN

A 29 de novembro, o Conselho de Segurança da ONU autorizou o uso da força por parte dos EUA e exigiu a retirada do Iraque até 15 de janeiro de 1991. James Baker, secretário de Estado norte-americano, emitiu o derradeiro ultimato ao Iraque utilizando a CNN, e não o encarregado de Negócios Estrangeiros americano em Bagdad.

Criava-se, assim, o efeito CNN. Os governos e os jornais já não guardavam a informação pública; o poder havia sido transferido para os media, nomeadamente através da televisão.

O efeito CNN e o fator Arnett tornaram-se características essenciais das guerras pós-modernas: os governos e os militares tiveram de se adaptar à capacidade dos jornalistas em mostrar o outro lado – o lado inimigo – da guerra.

O consenso internacional sobre a gravidade da invasão por parte de Saddam levou à criação da maior aliança militar reunida desde a Segunda Guerra Mundial. Os EUA obtiveram o apoio do Médio Oriente, através da Arábia Saudita, do Egito, da Síria e do Omã. No Ocidente, através de Portugal, Espanha, Itália e, principalmente, do Reino Unido.

O nascer do direto

A primeira ofensiva dos EUA, denominada Operação Tempestade no Deserto, teve lugar a 17 de janeiro de 1991, com o bombardeamento aéreo de Bagdad. Na noite em que as hostilidades começaram, havia em Bagdad duas televisões com telefone por satélite: a CNN e a BBC.

John Simpson, enviado da BBC, abandonou o hotel à procura de imagens, fiel aos hábitos tradicionais de cobertura de guerra. Quando regressou, deu conta que a sua própria estação colocava no ar o relato em direto da CNN. O jornalista não percebera que as coisas haviam mudado, e que na altura era o direto que passara a ser essencial.

A guerra do Golfo via nascer o relato em direto da guerra, com a descrição dos eventos por parte de três jornalistas da CNN, a partir da janela do seu quarto, pelo telefone por satélite. O mundo inteiro assistia, espantado, ao decorrer dos eventos, lado a lado com os líderes das maiores potências mundiais. As regras de cobertura jornalística mudavam e não havia ponto de retorno.

A primeira guerra realmente pós-moderna foi a Guerra do Golfo, com a acelerada globalização mediática que se fez sentir devido à televisão.

Embora vários jornalistas se encontrassem em Bagdad em janeiro de 1991, a CNN era o único canal que possuía os meios técnicos para transmitir com o exterior. Tal vantagem valeu à estação o furo jornalístico dos primeiros bombardeamentos à capital iraquiana, permitindo-lhe sobressair face às três outras grandes estações televisivas norte-americanas (ABC, CBS e NBC).

A CNN ganhou muita popularidade pela cobertura intensa que fez do conflito. Ao ser o único canal da altura que transmitia notícias 24 horas por dia, a CNN já tinha a experiência que lhes permitiu possuir todo o equipamento necessário para seguir os eventos em Bagdad.

Além disso, quando o governo norte-americano avisou os jornalistas do bombardeamento e que não conseguiam assegurar a sua segurança, Bernie Shaw, John Holliman e Peter Arnett decidiram ficar na capital. A Guerra do Golfo catapultou para a fama a estação televisiva norte-americana CNN.

A decisão de ficarem em Bagdad, todavia, teve repercussões negativas. A CNN foi inundada de protestos de telespetadores furiosos, chegando a acusá-los de traição. O porta-voz da Casa Branca, Marlin Fitzwater, chegou mesmo a afirmar que a estação se transformara num «canal da desinformação iraquiana». Arnett ficou apelidado de “Baghdad Pete”, mas a CNN não vacilou e manteve a decisão de cobrir a guerra pelo lado iraquiano.

Uma guerra inatingida de sangue

Após o primeiro bombardeamento dos EUA, Paulo Camacho, enviado do Expresso, e Artur Queirós, do Jornal de Notícias, contradiziam-se nas suas crónicas sobre o primeiro bombardeamento feito a Bagdad pelos EUA.

«Aparentemente, o Ministério da Defesa não tinha sido atingido. Acertaram num prédio de habitação, uma ‘ninharia’ que é da responsabilidade dos sofisticados aparelhos que equipam os aviões de combate», relatava Artur Queirós, no Jornal de Notícias, a 19 de janeiro de 1991.

«No centro da capital iraquiana, os únicos edifícios que vi atingidos eram o Ministério da Defesa e uma fábrica de produtos químicos», contrariava Paulo Camacho, no Expresso, no mesmo dia.

No entanto, os relatos de Peter Arnett, da CNN, apoiavam o testemunho de Paulo Camacho. Também Alfonso Rojo, enviado do jornal espanhol El Mundo, afirmava igualmente que os aviões americanos «têm uma pontaria incrível», referindo ainda a «precisão diabólica» dos pilotos.

Novas tecnologias como satélites, câmaras de alta tecnologia e equipamento de visão noturna marcaram o ponto de viragem para um novo tipo de cobertura mediática. Continuava a notar-se, porém, grande dependência da informação e das imagens divulgadas pelas forças militares. O Pentágono divulgou um documento de diretrizes chamado “Annex Foxtrot”, onde estabelecia que apenas jornalistas escolhidos podiam visitar a linha da frente ou entrevistar os soldados, sendo sempre acompanhados pelos oficiais.

Além de autorização prévia, os jornalistas tinham de se sujeitar à censura, de forma a proteger a divulgação de informação sensível. Estas diretrizes tinham base na experiência militar da Guerra do Vietname, na qual a opinião pública desfavorável cresceu nos Estados Unidos.

A cobertura mediática da guerra era censurada e «limpa» de mortos e sangue. Em contraste, eram publicadas imagens tecnologicamente avançadas. A guerra do Golfo foi uma guerra de simulacro. Os telespetadores pensavam ver a guerra em direto, mas não a viam realmente, pois os jornalistas não tinham acesso ao campo de batalha.

A Guerra do Golfo, a nível da imagem, foi o conflito do simulacro. Os vídeos das câmaras incorporadas nos mísseis e as imagens em direto de jornalistas com máscaras antigás deram a ilusão aos telespetadores de que viam a guerra quando, na verdade, os jornalistas não tinham acesso direto ao campo de batalha.

Durante o bombardeamento do bunker de Al-Amiriya, as imagens do massacre captadas pelas equipas ocidentais de televisão presentes em Bagdad foram desprovidas das cenas mais repugnantes, devido à preocupação de se proteger o público. Ainda assim, a divulgação das imagens provocou a revolta na Inglaterra, resultando em milhares de espetadores a telefonarem para as televisões a contestarem a decisão de difundir as imagens. O The Daily Mail chegou mesmo a acusar a BBC de ser a “Baghdad Broadcasting Corporation”.

Registaram-se igualmente restrições quanto ao teor gráfico das imagens. A fotografia de Ken Jarecke, de um soldado iraquiano carbonizado, foi banida nos Estados Unidos. Mas na Europa a fotografia era divulgada.

O fator Arnett

Duas semanas depois do início da guerra, Peter Arnett conseguiu entrevistar Saddam Hussein.

A permanência de Peter Arnett em Bagdad veio abalar gravemente as conceções tradicionais de guerra. O repórter chegou a desafiar, em direto, as declarações dos chefes militares americanos. O acontecimento mais célebre foi o bombardeamento do bunker de Al-Amiriya, que matou mais de 300 civis iraquianos.

Em Washington, os responsáveis militares tiveram problemas em lidar com os efeitos colaterais das reportagens de Arnett. Colin Powell, o chefe de estado-maior, revelou que a cobertura da CNN sobre aquele acontecimento específico influenciou a decisão de avançar com a guerra terrestre e, dessa forma, apressar o desfecho do conflito. O fator Arnett estava criado. Os políticos nunca mais poderiam conduzir uma guerra da mesma maneira devido à influência do repórter em Bagdad.

De acordo com Jamie Shea, porta-voz da NATO na guerra da desintegração da Jugoslávia, na ausência de mecanismos de restrição ou imposição, a solução passa por um vigoroso news management, ou seja, uma gestão informativa que conduza, subtilmente, os jornalistas à direção pretendida pela máquina militar.

O fator Arnett constituiu-se como uma bênção para as populações dos países em ataque. Uma vez que os civis não entravam nas contas dos militares, os resultados mostravam-se desastrosos: carnificinas que jamais seriam noticiadas.

Jornalistas «às escuras»

Como retaliação, o Iraque bombardeia Tel Aviv, em Israel. O objetivo de Saddam Hussein era provocar uma resposta militar em Israel, de modo a forçar os países árabes a saírem da aliança com os EUA.

Duarte Valente, enviado da Rádio Atlântico e da Rádio Nova, era o único correspondente português em Tel Aviv. A alguns quilómetros de distância, os jornalistas do Público, do Diário de Notícias, do Expresso, da TSF e da RTP encontravam-se em Jerusalém.

João Almeida, da TSF, entrava em direto: «Eu peço desculpa por eu estar a falar com máscara, mas é apenas por uma questão de segurança. Espero que me estejam a ouvir (…) Eu tenho a máscara colocada, como de resto toda a gente aqui em Jerusalém tem a máscara colocada, porque está confirmado, mais do que confirmado, [que] de facto isto trata-se de um ataque. São dois [os] mísseis que já atingiram neste momento Tel Aviv». A informação veio a provar-se errada. Apenas um míssil atingira Tel Aviv.

Os erros multiplicaram-se. Manuel Neto, do Diário de Notícias, reportava uma notícia que também ela estava longe da verdade: «O que se temia, aconteceu, às primeiras horas da madrugada de hoje, ogivas contendo armas químicas caíram sobre Tel Aviv». Mas não foi lançada nenhuma arma química. No entanto, essa foi uma notícia que chegou a correr durante a noite, sendo transmitida pela CNN e chegando à Casa Branca através dos seus canais próprios.

A censura israelita impedia que fosse divulgado o sítio exato do impacto. Ao creditarem-se nos centros de imprensa israelitas, todos os jornalistas tiveram de assinar um documento onde se comprometiam a submeter os seus trabalhos ao visionamento prévio pelo Gabinete de Censura das Forças de Defesa de Israel.

Reportagens às escondidas

A 20 de fevereiro, o presidente George Bush lançou um ultimato: se o Iraque não retirasse as suas forças do Kuwait no prazo de três dias, seria lançada uma ofensiva terrestre. Mário Rui de Carvalho, um operador de câmara português da CBS, acompanhou os militares nesta ofensiva.

Os correspondentes portugueses receberam ordens para avançarem para Dahran, uma cidade no norte da Arábia Saudita que os aliados escolheram para quartel-general das suas forças. Em Dahran, as forças armadas americanas controlavam os jornalistas através de pools: apenas alguns jornalistas eram autorizados a acompanhar os militares, que escolhiam o tema que ia ser coberto e o dia correspondente. As imagens seriam posteriormente partilhadas entre todos os jornalistas.

Os repórteres indignaram-se e começaram a disfarçar-se de militares para obter imagens junto das linhas da frente. Entre estes jornalistas, apelidados de unilaterais, constavam Artur Albarran, da RTP, e Adelino Gomes, do Público.A notícia que a ofensiva terrestre havia começado era divulgada na rádio, e Adelino Gomes escrevia: «Quase não chega a fazer-se silêncio na tenda, como se a notícia não passasse da mera repetição do que já se sabia de ciência certa».

A investida terrestre da aliança conseguiu finalmente entrar no Kuwait. A imagem de Artur Albarran, num direto às escondidas à entrada do país, tornar-se-ia muito famosa em Portugal através da RTP. «Estamos a acompanhar a coluna das forças multinacionais árabes e acabámos de entrar no Kuwait. Ultrapassámos agora a famosa barreira de areia que os sauditas tinham construído ao longo da sua linha de fronteira com o Kuwait. Este comboio é o maior movimento militar que alguma vez vi na vida».

Entretanto, Cáceres Monteiro, enviado de O Jornal (publicação gerida apenas por jornalistas e um projeto assumidamente de esquerda) e da TSF, e Adelino Gomes, do Público, acompanhavam a coluna militar egípcia e kuwaitiana.

«Passamos por tendas iraquianas, ‘bunkers’ abandonados, e vemos capacetes, granadas, latas, restos de uniformes, de mochilas. À nossa volta, é ensurdecedor o barulho de minas a rebentar e, na linha da superfície do deserto, sobem rolos de fumo espesso» – Cáceres Monteiro.

«É uma festa, desde o primeiro minuto, a longa e lenta marcha iniciada há 48 horas. Soldados empoleiram-se na torre dos tanques, levantam os dedos em sinal de vitória» – Adelino Gomes, Público.

Os repórteres portugueses encontrar-se-iam com soldados iraquianos na sua jornada. A 1 de março de 1991, O Jornal fazia manchete sobre este encontro: «IRAQUIANOS RENDEM-SE A REPÓRTER DE O JORNAL». Cáceres Monteiro acrescentava: «Ao aproximarmo-nos conseguimos ver, por entre a água e a lama do para-brisas do jipe, um pano branco na ponta de um pau. Esfomeado, cansado por dias de caminho, por longas horas de pavor, queria render-se». O jornalista de O Jornal e da TSF rapidamente percebeu que o Exército iraquiano «não passava de uns desgraçados que tinham sido para ali atirados como carne para canhão».

Vitória!

A 27 de fevereiro, Saddam Hussein ordenava a retirada das tropas iraquianas do Kuwait, e o presidente dos EUA declarava o território libertado. “Crianças e velhos e mulheres de ‘abaya’ preta correm das casas até à berma, com bandeiras, com gritos, desenhando com os dedos o sinal de vitória”, escreve Adelino Gomes.

David Borges, enviado da TSF, relatava em direto para Lisboa: «Eu peço perdão pela emoção que eventualmente possa transparecer da minha voz, e peço perdão também pela eventualidade de não poder ser tão claro quanto desejaria, porque estou em plena Cidade do Kuwait, num ambiente de perfeita loucura coletiva, na festa dos kuwaitianos pela sua libertação».

A 27 de fevereiro, a emissão da RTP era interrompida para dar destaque à comunicação do presidente Bush, anunciando o fim da guerra.

Artur Albarran entra em direto para o Telejornal, a 28 de fevereiro de 1991, no segundo dia de libertação do Kuwait e o primeiro do fim da guerra: «Anoiteceu em Kuwait City ao meio-dia, porque o fumo dos poços de petróleo que ardem no Kuwait (…) cobriram a cidade logo ao princípio da tarde, e desde essa altura que é tão de noite como agora, absolutamente negro, não se vê um palmo à frente».

A 1 de março, as equipas da RTP e da TSF eram os únicos meios portugueses no local. Um direto de Artur Albarran a lado de um corpo a sair pela porta semiaberta de um carro, num confronto em Mutla, levantou polémica. Depois de imagens totalmente limpas de sangue e mortos, esta transmitia, pela primeira vez, a noção de que este não era um conflito limpo. «A estrada do Kuwait para Baçorá é uma desolação. É um cemitério de tanques ou veículos blindados, ou de carros atacados pelo ar, como este, e cadáveres pelo chão».

No hospital Mubarak, os enviados da TSF e da RTP descreviam os horrores dos cadáveres espalhados. No entanto, os repórteres portugueses não mencionaram que os corpos não excediam as duas dezenas. Antes da ofensiva terrestre, os relatos sobre as atrocidades cometidas pelas tropas iraquianas no Kuwait proliferavam.

A notícia de que soldados iraquianos tiraram bebés das incubadoras e levaram as máquinas para o Iraque, deixando as crianças a morrer, correu mundo. De facto, o testemunho mais perturbador de tal história foi de uma rapariga kuwaitiana de 15 anos, chamada Nayirah. Mais tarde, veio-se a descobrir que a rapariga era filha do embaixador dos EUA no Kuwait. A história tinha sido fabricada pela firma de relações públicas Hill and Knowlton.

Guerra fria acaba a quente

Em 1991, a bandeira da URSS é hasteada pela última vez. O fim do império soviético fica ligado a uma onda de violência e conflito entre os antigos territórios irmãos. Uma realidade observada de perto pelo mundo mediático

A década de 90 é marcada pelo fim da União Soviética. A bandeira deste império voa pela última vez em 1991. Contudo, logo depois, a questão nacionalista impôe lutas sem precedentes entre territórios irmãos.

A Queda do Muro de Berlim

Em 1989, a queda do muro de Berlim marcava o fim da Guerra Fria e, mais tarde, o início do fim da União Soviética.

Dois anos depois, a 21 de agosto de 1991, os olhos do mundo estavam voltados para a União Soviética. «Moscovo, meio-dia, dez horas portuguesas de hoje, Boris Ieltsin desfralda e agita ao vento a bandeira tricolor da velha Rússia. É a vitória reconfirmada sobre o golpe. A multidão rejubila. Vira-se uma página na História do país». As palavras são de Carlos Fino, correspondente da RTP, que assistiu de perto à tentativa falhada de golpe de Estado que abalou a União Soviética.

O Golpe de estado e a resistência (russa)

O golpe de Estado já se tinha iniciado a 19 de agosto. Foi anunciado que o presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, estava doente e tinha sido afastado do seu posto, quando na verdade estava em férias na Crimeia.

No entanto, os criadores do golpe de Estado depararam-se com a resistência promovida pelo presidente da Rússia, Boris Ieltsin, que se deslocou à Câmara Branca (parlamento russo) na tentativa de deter os golpistas.

Carlos Fino estava in locono preciso momento em que Boris Ieltsin subiu a um tanque apelando à ordem e à democracia.

«A mobilização popular contra o golpe é muito grande, e a consciência desta força ajuda a diminuir o medo. Para esta noite, ainda se espera um eventual ataque das tropas fiéis à Junta que tomou o poder, e os tanques de Ieltsin têm por isso que estar preparados para toda a eventualidade».

Nessa noite, ocorreram vários confrontos que provocaram mortos e feridos. Horas depois, a tensão foi diminuindo. Tornava-se claro que não haveria assalto ao parlamento por parte dos golpistas. Ao nascer do sol, dez carros blindados atravessaram a cidade e colocaram-se ao lado de Ieltsin. Carlos Fino registava o momento:

«Vemos aqui os tanques passarem, encaminhando-se para as imediações da sede do governo da Rússia, não para o atacarem, mas pelo contrário, para o defenderem das tropas fiéis às autoridades centrais».

A 23 de dezembro, é publicada na Time uma entrevista exclusiva com o presidente da União Soviética.

A 25 de dezembro de 1991, Mikhail Gorbachev comunica ao país o seu pedido de demissão.

Na mesma noite, a CNN transmite uma entrevista com o líder demissionário. As suas declarações espalharam-se pelo mundo.

“Tonight the red flag of the Kremlin was lowered for the last time.” [Esta noite a bandeira vermelha do Kremlin foi baixada pela última vez], noticiava a ITN.

A dissolução da União Soviética

Este acontecimento veio abrir a caixa-de-pandora. Muitos países que até aí estavam sob o domínio da URSS viram várias questões nacionalistas e étnicas rebentarem. O primeiro conflito a revelar-se foi o de Nagorno-Karabakh. A região, que já havia pertencido ao Azerbaijão em 1923 e à Arménia em 1988, volta a ficar no centro da disputa quando a Arménia e o Azerbaijão conseguiram a independência da União Soviética.

Em 1992, a European Broadcasting Union lança uma operação para cobrir o conflito, que se encontrava no seu auge. A RTP adere à ação, e Carlos Fino é o enviado especial. [Esta é uma imagem do inferno. Algures na fronteira do Nagorno-Karabakh, um lança-mísseis de quarenta canos, manejado por soldados azeris, despeja uma salva de fogo e aço sobre a vizinha povoação arménia de Askeran]

Carlos Fino experienciava os horrores da guerra, e obtinha provas de que existiam massacres na região. A 14 de março abre a sua crónica no Telejornal com imagens chocantes dos resquícios de uma ofensiva arménia a Khodjali. [As imagens brutais do massacre de Khodjali, no passado dia 26 de fevereiro, quando um número indeterminado de famílias azeris em fuga foi dizimado por guerrilheiros arménios, chocaram o Azerbaijão e mudaram a perceção Ocidental da guerra]

Os nacionalismos

O conflito entre a Arménia, o Azerbaijão e o Nagorno-Karabakh viria a estender-se até 1994, quando um cessar-fogo foi assinado entre representantes dos países. Nagorno-Karabakh tornou-se uma república independente de facto, enquanto permanece de jureparte do Azerbaijão. Todavia, ainda hoje conversações de paz são mantidas entre as duas nações para decidir o futuro do território.

Jim Clancy, pivô do canal norte-americano CNN, conta que estava em Baku, no Azerbaijão, quando os populares o reconheceram.

They recognized us. (…) Ten thousand people turned around and they gave a rousing applause for CNN. Just for who we were. Because we were able to go beyond the borders, to leap across them, with satellite news coverage and let them know what was happening in other countries.” [Eles reconheceram-nos. (…) Dez mil pessoas viraram-se e deram um enorme aplauso à CNN. Apenas por quem éramos. Porque nós éramos capazes de ir para além das fronteiras, saltávamo-las, com cobertura mediática através de satélite e mostrávamos-lhes o que estava a acontecer nos outros países]

O fim da União Soviética originou também a separação da Moldávia. A república, que pertencia à vizinha Roménia, ganhou independência da URSS, levantando problemas para as minorias russas que para ali emigraram. Em 1990, a população russa da margem esquerda do rio Dniestre declarou a sua independência em relação à Moldávia, criando a República do Dniestre. Esta separação não seria reconhecida pela Moldávia nem pela comunidade internacional.

O conflito agravou-se em 1992, e a rede das televisões públicas europeias instalou-se na capital moldava de Kishinev, novamente numa operação montada pela European Broadcasting Union. Mais uma vez, Carlos Fino e o operador de câmara Vadim Meshki juntaram-se à TVE e cruzaram as linhas russas «à caça» de imagens.

«Situação de pânico, esta tarde, em Gueska, uma pequena aldeia na margem direita do Dniestre. No tiroteio que se seguiu, o material de guerra que levavam a bordo explodiu, e os quatro jovens dos destacamentos especiais da polícia moldova morreram queimados».

Centenas morreram neste conflito. A violência acabaria quando as tropas russas intervieram, mas a independência da República de Dniestre nunca seria reconhecida.

Os conflitos entre a Geórgia e a Abcásia são igualmente um marco importante na história da desagregação da União Soviética.  Zviad Gamsakhurdia foi eleito em 1991 para a presidência da Geórgia, após um referendo que legitimou a independência do país. Mas depressa as suas ações lhe valeram vários inimigos, que retaliaram no final desse mesmo ano. Eduard Shevardnadze aceita o convite para governar a Geórgia.

Todavia, Gamsakhurdia, depois de dez dias de exílio, regressa ao seu país e reinicia a guerra, com o apoio de uma aliança criada com o governo da Abcásia (região autónoma pertencente à Geórgia). Tal aliança entre Gamsakhurdia e os abcases não foi aceite pelo governo da Geórgia, e o conflito rebenta em 1992, em plena capital da Abcácia, Sukhumi.

«O aeroporto de Sukhumi, ele já alvo de ataques por parte dos abcases, é palco todos os dias de cenas de caos, com milhares de pessoas a invadir a pista sempre que chega um novo avião de Tbilissi, e tentando depois, na confusão, obter um lugar a bordo», descreve Carlos Fino no Telejornal da RTP a 17 de outubro de 1992.

Um ano depois, em 1993, Carlos Fino voltava para o centro da guerra na Geórgia. Na localidade portuária de Poti, disputada por ambos os lados do conflito, o repórter português teve a confirmação de que as tropas russas tinham entrado nas hostilidades. Um oficial russo explicava a Carlos Fino: «Agora, as coisas são mais claras, a Rússia entrou em conflito com Gamsakhurdia. Oficialmente, já nos disseram que ele é inimigo das tropas russas».

A última crónica da guerra na Geórgia, a 25 de outubro de 1993, fecha com um soldado sorridente. «Numa pausa dos combates, um simples soldado georgiano teve mesmo à vontade suficiente para vir falar à reportagem da RTP e dizer que de política nada sabe, mas gostaria era de mandar um abraço ao Eusébio».

O Caso da Chechénia

A Chechénia é o caso mais famoso de luta separatista na Rússia desde o colapso da União Soviética. Em 1991, a Chechénia declara-se independente. Em 1994, o presidente da Rússia, Boris Ieltsin, ordena o envio de tropas para restaurar a soberania russa na região.

A 11 de dezembro de 1994, as tropas invadem a capital chechena, Grozny. No entanto, a milícia russa vir-se-ia mal preparada para a ofensiva contra os chechenos, que retaliaram e conseguiram afastar os russos.

Carlos Fino, num direto feito no meio da praça da capital, proferia as seguintes palavras: «Não há nervosismo nem tensão. Pelo contrário, aqui em Grozny viemos encontrar uma grande calma, baseada na determinação geral de defender a soberania da república».

A guerrilha entre chechenos e russos iria prolongar-se até agosto de 1996. As imagens emitidas no Telejornal da RTP eram de destruição, sofrimento e morte.

Paulo Moura, enviado do jornal Público, chegava à Chechénia a junho de 1995. Na sua primeira crónica, Moura escreve:

«A primeira impressão é o pó. Não é um pó normal, de terra. É um pó mais fino, cósmico. É um fumo que parece desprender-se das paredes negras, crivadas de balas, cheias de rombos, de fendas. (…) Das casas sem telhado, nem fachada, das fachadas sozinhas, sem casa. Das pontes destruídas. Dos edifícios de que só resta um esqueleto negro».

As tropas russas abandonaram a Chechénia no final de 1996. A guerra fizera 90.000 mortos. Mais tarde, em 1999, o primeiro-ministro russo Valdimir Putin organiza nova ofensiva contra os separatistas chechenos, e o conflito no país voltaria a reacender-se.

A transição que parece ter fim

Foi apenas em 1993 que o período de transição da era pós-soviética chegou ao fim.  As reformas de Boris Ieltsin entraram em conflito com o poder legislativo, e o presidente decidiu dissolver o parlamento, numa medida considerada inconstitucional.

Em setembro, o parlamento destitui Boris Ieltsin do seu cargo e nomeia Aleksandr Rutskoi como presidente.

Rapidamente a tensão cresce nas ruas. Vários protestos populares contra o presidente e contra a deterioração das condições de vida deflagram nas ruas de Moscovo, enquanto os deputados comunistas se barricam dentro da Casa Branca. Carlos Fino e José Milhazes estavam no local quando os manifestantes atacaram os cordões policiais para se aproximarem do parlamento. «Alguns polícias ainda tentaram dispersar a multidão, disparando várias vezes para o ar, mas a pressão acabou por se impor, e os manifestantes romperam o cerco ao Soviete Supremo».

A situação agravou-se quando Boris Ieltsin aciona o exército para pôr fim à crise, desencadeando centenas de mortes.

«Camiões do Exército avançaram para as paredes de vidro, os generais deram ordens a unidades suplementares de combate instaladas no parlamento para avançar, os populares desfizeram com barras de ferro as portas de alumínio do edifício», relata Carlos Fino.

O repórter da RTP assiste ao golpe final: tanques blindados começam a bombardear a Câmara Branca.

«Apesar de todo este aparato bélico e dos acontecimentos dramáticos que acabámos de presenciar, não se trata propriamente de uma guerra civil. Agora estamos perante a ação armada de um governo legítimo, destinada a desalojar um grupo ilegal que tomou conta do edifício do Soviete Supremo, e tentou tomar o poder».

O recurso à força acabou por acabar com a crise. Aleksandr Rutskoi e todos os outros parlamentares renderam-se e foram detidos. Boris Ieltsin acabava com os resquícios da URSS e instaurava uma nova configuração do regime político.

O palco que nunca fica vazio

A tensão no Afeganistão começa, em 1978, quando o novo governo comunista pró-soviético faz várias reformas que chocam com a ideologia e a cultura do Islão. A população, na maioria muçulmana, revolta-se

A tensão no Afeganistão começa, em 1978, com a revolta contra as reformas do novo governo comunista pró-soviético. Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, nos longínquos EUA, marcam uma nova era na História. O mundo volta as atenções para este palco de guerra que se torna num maiores conflitos do século XXI e dos que há mais tempo estão presentes nos Media.

Uma guerra à espera da notícia

A tensão no Afeganistão começou em 1978, quando o novo governo comunista pró-soviético fez várias reformas que chocavam com a ideologia e a cultura do Islão. A população, na sua maioria muçulmana, revoltou-se. A equipa da RTP, da qual também faziam parte Manuel Carvalho e Norberto Lopes, tinha ido ao Paquistão para filmar refugiados, e via-se agora a caminho do Afeganistão, onde os esperava um país em guerra.

A equipa da RTP, da qual também faziam parte Manuel Carvalho e Norberto Lopes, tinha ido ao Paquistão para filmar refugiados, e via-se agora a caminho do Afeganistão, onde os esperava um país em guerra.

No final de 1979, Hafizullah Amin liderou um golpe de Estado em Cabul, executando o seu antecessor e subindo ao poder. As tentativas de aproximação deste novo líder aos Estados Unidos preocuparam a União Soviética, que acabou por invadir o Afeganistão.

A 27 de dezembro de 1979, cerca de 50.000 tropas soviéticas entraram no Afeganistão. O palácio de Hafizullah Amin é invadido e 200 guarda-costas do presidente são mortos. Hafizullah Amin, encontrado escondido atrás de um bar, é assassinado a sangue frio. Babrak Karmal torna-se presidente.

Os jornalistas ocidentais tiveram dificuldade em cobrir este conflito, uma vez que nenhum dos lados simpatizava com o Ocidente. O acesso à informação era dificultado pelas tropas e pelos rebeldes, e as filmagens tornavam-se impossíveis.

Entretanto, a ajuda dos EUA chegava aos mudjahedin (soldados da jihad – guerra santa). Os rebeldes muçulmanos começaram a deixar as equipas de reportagem acompanharem-nos nas missões. Os EUA eram aliados por conveniência dos mudjahedin. Num contexto de Guerra Fria, a maior potência ocidental tentava desesperadamente vencer o exército russo.

O governo norte-americano manipula os media, enaltecendo as características dos rebeldes muçulmanos. Por todo o lado, os jornais celebravam os mudjahedin:

“The heroic struggle waged by the Afghan freedom fighters.” [A luta heroica travada pelos lutadores afegãos da liberdade] – Wall Street Journal, 30 de dezembro de 1987

“The Afghan guerrillas have earned the admiration of the American people for their courageous struggle…. The rebels deserve unstinting American political support and, within the limits of prudence, military hardware.” [Os guerrilhas afegãos ganharam a admiração do povo americano pela sua luta corajosa… Os rebeldes merecem o apoio político americano ilimitado e, dentro dos limites da prudência, equipamento militar] – L.A. Times, 23 de junho de 1986

“Fighting the good fight” [lutando a boa luta] – New Republic, 13 de junho de 1983

O jornal The London Observer reportava em janeiro de 1980: “the American embassy here [in Kabul]…has been sending wildly inaccurate information to American journalists, exaggerating the number of Russian troops in the country, the number of Russians killed, and the extent of the engagements.” [A embaixada americana aqui [em Cabul]… tem enviado informação altamente incorreta para os jornalistas americanos, exagerando o número de tropas russas no país, o número de russos mortos e a extensão da ocupação]

RTP aterra em Cabul cercada

Seis anos depois, em fevereiro de 1989, uma nova equipa da RTP, composta por Francisco Seruca Salgado, Nuno Jorge e Jorge Lopes, aterrava numa Cabul cercada.

«Contavam-se às centenas, carregando o bojo dos anafados Antonov e dos Illiuchine com haveres pessoais e equipamento militar. Foram os derradeiros momentos da presença militar do Exército Vermelho em território afegão», escrevia Seruca na Grande Reportagem, sobre os soldados russos no país.

A retirada soviética e o início da guerra civil

Muita coisa mudara no Afeganistão desde a aventura da jornalista Diana Andringa em 1983. Mikhail Gorbachev encontrava-se no poder em Moscovo, tendo assinado os acordos de Genebra que, entre outras medidas, estabeleciam a retirada soviética do Afeganistão até fevereiro de 1989. Mohammad Najibullah, apoiado pela União Soviética, substituía Babrak Karmal na presidência do Afeganistão.

Na madrugada de dia 15 de fevereiro de 1989, os últimos contingentes soviéticos abandonaram a capital afegã.

A equipa portuguesa da RTP filmava as ruas da cidade e Seruca reportava: «Cabul está calma, mas as pessoas tiritam de medo e de frio».

Após a partida das tropas russas, os soldados mais fiéis ao regime de Najibullah tentavam transparecer uma normalidade junto das câmaras de televisão estrangeiras. Mas era inevitável: os mudjahedin, apoiados pelos Estados Unidos, mantinham os seus esforços para derrubar o presidente. A guerra civil estava instalada.

Quando questionado pelo jornalista de investigação norte-americano Jon Alpert se o seu governo conseguiria manter-se por si mesmo, Mohammad Najibullah afirmava: “Sure, no problem.” [Claro, sem problema]

Em Cabul, Seruca Salgado descrevia que os soldados «fingiam desconhecer os bombardeamentos e a presença dos mudjahedin na cidade, no preciso momento em que se ouviam algumas explosões». Numa crónica enviada para Lisboa, o repórter afirmava: «se as granadas têm origem nos Mudjahedin que cercam a cidade, como aparentemente parecem ter, então estamos perante um indício de fraqueza e incapacidade de tomarem a cidade de assalto». Tal análise veio-se a provar correta.

José Barata-Feyo, o segundo repórter enviado da RTP, conseguiu convencer os mudjahedin a deixá-lo acompanhá-los no derradeiro esforço para tomarem Cabul.

Todavia, a odisseia até à capital revelar-se-ia infrutífera. Rapidamente a equipa de jornalistas percebeu o que Seruca havia pressentido semanas antes: os mudjahedin estavam longe de ter o controlo da situação de guerra, e que a paz não seria alcançada tão cedo.

Em 1992, três anos depois da chegada de Seruca Salgado e Barata-Feyo, Carlos Fino e o operador de câmara Vadim Meshki desembarcaram na capital afegã. Mohammad Najibullah tinha cedido perante os rebeldes.

«Miríades de balas tracejantes cruzam todas as noites os céus de Cabul, ao mesmo tempo que se ouvem repetidos tiros de morteiro e disparos de metralhadora. Milhares de mudjahedin fortemente armados, agora senhores da cidade, festejam assim a tomada da capital afegã, ao cabo de catorze anos de guerra contra o regime comunista apoiado por Moscovo», descrevia Carlos Fino.

No entanto, a guerra mantinha-se.  O líder militar Massoud tomara a cidade de Cabul, mas desta vez a guerrilha desenrolar-se-ia com uma outra fação mudjahedin, liderada por Hekmatyar.

Na última reportagem da equipa da RTP antes do regresso a Portugal, os jornalistas encontram um oficial das forças de Hekmatyar. O jovem Najibullah, de 25 anos, estava pronto para entrar em ação contra o novo regime, caso as conversações que ocorriam na altura não dessem resultados: «Iremos combater novamente».

Em 1993, a CNN fazia uma retrospetiva da guerra civil que decorria no país. A peça não poupava os governos de Reagan e Carter, que ajudaram os extremistas mudjahedin, liderados por Hekmatyar, com o envio de milhões de dólares.

A guerra civil entre mudjahedin iria prolongar-se até ao surgimento de uma nova corrente muçulmana: os talibãs.

A tragédia anunciada

As consequências deste movimento seriam catastróficas para o mundo, em especial para os Estados Unidos.

Poucos dias após o ataque ao World Trade Center em Nova Iorque, o jornal Le Monde revelava que Osama Bin Laden, o autor do atentado, havia sido contratado pela CIA durante a guerra civil no Afeganistão.

O homem mais procurado do mundo havia combatido junto à fação fundamentalista de Hekmatyar, altamente apoiada pelos EUA. Os acontecimentos do atentado a 11 de setembro marcariam uma nova era na História. O mundo voltava as suas atenções para o Afeganistão, que se tornava o palco principal de um dos maiores conflitos do século XXI. A guerra no Afeganistão é um dos conflitos que há mais tempo tem vindo a estar presente nos media.