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Cáceres Monteiro

«Eu mordi a maçã, foi decisivo. Apanhei logo ali o bichinho do jornalismo». Em 1968, um convite inesperado do chefe de redação da Flama levou Carlos Cáceres Monteiro, na altura um jovem estudante de Direito, para o jornalismo.

Jornalista-viajante, correu mundo e cobriu alguns dos mais marcantes conflitos do seu tempo. Cáceres Monteiro, o repórter que também se sentia em casa na redação, é um dos grandes jornalistas portugueses da segunda metade do século XX

«Eu mordi a maçã, foi decisivo. Apanhei logo ali o bichinho do jornalismo».

Em 1968, era Carlos Cáceres Monteiro um jovem estudante de Direito quando recebe um convite inesperado. Manuel Beça Múrias, chefe de redação da publicação Flama, propunha-lhe que fizesse a cobertura dos Jogos Olímpicos do México.

Cáceres Monteiro, que já tinha colaborado anteriormente com a publicação, estava reticente em aceitar, pois tinha exames de segunda época da faculdade.

Múrias insistiu: «Veja bem, faz os exames noutra altura, vai conhecer o México, para em Nova Iorque, se quiser…».

Cáceres acabou por se render.

Os primeiros artigos

Nascido a 9 de agosto de 1948, em Lisboa, iniciou a sua carreira no jornalismo aos 20 anos, na revista Flama.

Colaborou com diversas publicações, nomeadamente O Século Ilustrado, A Capital, o Diário de Notícias(onde foi editor de política), o semanário Se7ee como correspondente da revista espanhola Cambio 16.

Em 1975, já depois do 25 de abril, integrou um grupo de 15 jornalistas que cofundou o semanário O Jornal, do qual foi diretor adjunto. Na altura, «os acontecimentos eram um tal turbilhão que havia necessidade de explicar a realidade às pessoas», afirmou.

Em 1993, após a extinção d’ O Jornal, nasce a revista Visão.

Cáceres Monteiro foi diretor da publicação até 2005.

Nesse ano, passou a diretor editorial do grupo Edimpresa.

Presidiu ao Sindicato dos Jornalistas entre 1977 e 1981, estando ligado às primeiras leis que regularam o jornalismo depois da ditadura e acompanhando a criação do primeiro curso superior de Comunicação Social, na Universidade Nova de Lisboa.

Entre 1984 e 1985, com Mário Soares como Primeiro-Ministro, tornou-se diretor-geral da Comunicação Social.

Também se destacou enquanto analista político, colaborando com regularidade com a RTP, a SIC Notícias, a TSF e a Antena 1.

O jornalista-viajante

Um dos seus mais reconhecidos contributos para o mundo do jornalismo foi através do seu trabalho enquanto repórter, que o levou a viajar por todo o mundo.

Da América do Sul à China, do Médio Oriente aos Estados Unidos, Cáceres Monteiro tornou-se um dos mais viajados repórteres do jornalismo português. «A emoção começa quando se desce a escada do avião ou quando o barco encosta ao cais», escreveu.

Enviado especial por excelência, Cáceres Monteiro destacou-se no jornalismo de informação e na reportagem de guerra.

Em 1975, foi enviado para Angola para cobrir o conflito do país.

«Quando os soldados do MPLA marcham, com as grandes botas cardadas, no asfalto escaldante das ruas quase desertas, o batimento ressoa na espessura do silêncio, a herança deixada por centenas de milhares de portugueses».

As balas não mais abandonariam a sua carreira.

Em 1991, o também jornalista Adelino Gomes deu-lhe «boleia para a Guerra [do Golfo]», com a cumplicidade de um capitão seu «amigo». Foram os primeiros jornalistas portugueses a chegar a Koweit City.

Enquanto repórter de guerra, cobriu ainda os conflitos de Israel e Palestina, da América Latina e do Camboja.

As suas reportagens sobre a China valeram-lhe, em 1985, o Prémio Gazeta do Clube de Jornalistas. Foi ainda distinguido com o Grande Prémio de Jornalismo de 2001 pelo Clube Português de Imprensa.

Apesar de ter corrido mundo enquanto repórter, Cáceres Monteiro sentia-se em casa na redação.

«Antes de mais sou um jornalista de banca, gosto da chefia e de fazer sair as edições», admitiu.

O mundo em memórias

As aventuras de Cáceres Monteiro por todo o mundo foram imortalizadas nos seus livros.

Enquanto autor único ou em colaboração, Cáceres Monteiro publicou um total de nove obras.

Angola, país de vida ou de morte (1975), Fast Lane (1984), O mundo em AZERT (1985), China, Contra-revolução Tranquila (1986), Amazónia Proibida (1987) e Apogeu e queda de Bernardo Malaquias (1989) são alguns dos livros com a sua assinatura.

Destaque ainda para O Enviado especial(1991), Mistérios da Amazónia – cadernos de uma expedição nas Guianas e no Brasil(2002) e Hotel Babilónia (2004).

Cáceres Monteiro faleceu a 3 de janeiro de 2006, depois de uma carreira de quase quatro décadas no jornalismo, uma atividade que via como mais do que apenas uma profissão.

«Acredito na humanidade e no jornalismo como missão de vida. Com todos os erros, acho que, se exercermos bem a nossa profissão, podemos lutar por boas causas».

O Prémio de Reportagem Cáceres Monteiro, que distingue os melhores trabalhos produzidos no Grupo Impresa, foi batizado em sua homenagem.

O nome de Cáceres Monteiro foi também atribuído a uma avenida em Miraflores, na freguesia de Algés, onde o jornalista e escritor residiu mais de três décadas.

Um verdadeiro «repórter-viajante-aventureiro», Cáceres Monteiro consagrou-se como um dos grandes jornalistas portugueses da segunda metade do século XX.

Figura exemplar da reportagem de viagens, a sua vocação de enviado especial levou-o aos quatro cantos do mundo, acompanhando os acontecimentos internacionais de maior relevo das últimas décadas.

«A melhor sensação que um jornalista pode ter é sentir que está a viver, par a par, com a história do seu tempo». Uma história que, através das suas reportagens, Cáceres Monteiro ajudou a contar.

Eduardo Coelho

Em 1864, Portugal assiste às consequências da Revolução Industrial ao mesmo tempo que o Jornalismo começa a florescer. Neste ano surge, pelas mãos de Eduardo Coelho, o Diário de Notícias – primeiro periódico popular industrial

Em 1864, Portugal assiste às consequências da Revolução Industrial ao mesmo tempo que o Jornalismo começa a florescer. Neste ano surge, pelas mãos de Eduardo Coelho, o Diário de Notícias – primeiro periódico popular industrial

A industrialização chega à Imprensa

O ano era 1834. O triunfo dos liberais na Guerra Civil permitiu a promulgação de uma nova Lei da Liberdade de Imprensa. A interferência do poder político no jornalismo passava a ser vista com algum desdém, e a isenção de medidas preventivas começava a ser garantida. Aos jornais já consolidados, de teor elitista e partidário, começaram a juntar-se os periódicos político-noticiosos e populares. A imprensa em Portugal reflorescia.

Em 1864, o Diário de Notícias(DN) surgia como primeiro periódico popular industrial, nas mãos de Eduardo Coelho e Tomás Quintino Antunes. Assistia-se à chegada da Revolução Industrial a Portugal.

Da Tipografia para a secretária de uma redação

Foi este o país em que José Eduardo Coelho, o futuro diretor do Diário de Notícias, nasceu, a 23 de abril de 1835. Órfão de pai aos 13 anos, foi enviado para Lisboa pela mãe, para trabalhar na área do comércio. Em 1852, publicou o Livrinho dos Caixeiros, uma coleção de quadras de caráter reivindicativo e denunciante.

Dois anos depois, pagou pela publicação do romance O Pastor da Floresta no periódico Jardim Literário. Foi assim que se despediu do comércio, passando a aprender a arte da tipografia, ajudando a compor, gratuitamente, o jornal Jardim Literário. Tal permitiu-lhe continuar a publicar textos nesse periódico, onde acabou por obter emprego como tipógrafo. Em 1857, concorreu a um lugar desta profissão na Imprensa Nacional obtendo a vaga, mas abandonaria o lugar menos de um ano depois. Por esta altura, a ideia de lançar um jornal noticioso começou a germinar na cabeça de Eduardo Coelho.

Eduardo Coelho passava a subsistir da colaboração nos jornais O Conservador, o Gazeta de Portugal e o Revolução de Setembro enquanto noticiarista, editor de correspondência dos leitores e de matérias de correspondentes da província.

Além do jornalismo, vivia ainda da assessoria política, sendo secretário dos políticos José Estêvão (figura dominante da oposição de esquerda na Câmara dos Deputados) e António Feliciano de Castilho (grande propagandista do seu Método de Castilho para a leitura).

Inserido no mundo do jornalismo e da política, Eduardo Coelho permaneceu, ainda assim, partidariamente neutro. Escrevia essencialmente notícias ou críticas de teatro, para além de folhetins, e não artigos de fundo. Viajou também por Portugal, Espanha, França e outros países europeus, onde teve contacto com outros periódicos, como o Petit Journal em que mais tarde se basearia para fundar o DN.

O nascimento do Diário de Notícias

A 29 de dezembro de 1864, o primeiro número do Diário de Notícias começou a circular. Nascia um jornal diferente de todos os outros em Portugal, tanto nos conteúdos, como no seu estilo claro, conciso, preciso e simples.  Até a sua forma e dimensão se destacavam dos demais, e, especialmente, o seu preço: o mais barato no mercado.

Na primeira página do novo periódico podia ler-se:

«O Diário de Notícias − o seu título o está dizendo − será uma compilação cuidadosa de todas as notícias do dia, de todos os países, e de todas as especialidades, um noticiário universal. Em estilo fácil, e com a maior concisão, informará o leitor de todas as ocorrências interessantes (…) Eliminando o artigo de fundo, não discute política, nem sustenta polémica».

O objetivo era óbvio: fornecer uma nova perspetiva do jornalismo noticioso, informativo e generalista, que se propunha ser neutro, ético, independente e o mais verdadeiro possível. Dirigido a toda a população e encarado essencialmente como negócio.

A redação, instalada na Rua dos Calafates, no Bairro Alto, seria a primeira a ter um posto privativo de telegrafia sem fios.

Em meados do século XIX, o bairro passava por uma transformação. Rapidamente se convertia num meandro de tipógrafos e redações de jornais, onde se situava igualmente a Tipografia Universal, da qual Tomás Quintino Antunes era proprietário. A parceria entre Antunes e Eduardo Coelho estava formada, e a impressão e sobrevivência do Diário de Notícias assegurada. Anos mais tarde, em 1885, a rua faria homenagem ao diário, tal não foi o seu contributo para o jornalismo português.

O DN, lido pela população e até pela Família Real, garantiu desde logo o seu imenso sucesso. Com uma tiragem inicial de cinco mil exemplares, passados cinco anos já tirava 17 mil. Em 1885, tirava já 26 mil exemplares diários e apresentava-se perante o público com mais conteúdos e mais anúncios.

Outra particularidade que o novo diário introduzia era a implementação de um sistema organizado de recolha de informações para o noticiário, através de uma rede de informadores que se estendia a vários correspondentes espalhados pelo país, no Brasil e em Espanha. Além disso, contava com o telégrafo, as agências noticiosas e os caminhos de ferro para obter informação de todo o lado.

A Notoriedade

No entanto, o início do jornal não foi feito apenas de sucesso. O jornalismo pioneiro do DN chocava com a sociedade oitocentista, particularmente as elites, que acusavam o diário de um «jornalismo decadente», ao prestar atenção ao crime, a trivialidades sociais e a outros assuntos do quotidiano das pessoas. Apesar de alguns obstáculos, o Diário de Notícias conseguiu vingar e prosperar.  Aliás, o seu preço baixo deu origem a uma explosão do número de ardinas.

Na verdade, o diário ganhou notoriedade e revolucionou o jornalismo em Portugal devido a muitas inovações, como a introdução das reportagens e o aparecimento de espaços virados para o leitor, a publicação de números especiais e a criação de uma secção de anúncios a baixo preço. Além disso, tornou-se o primeiro jornal a fazer páginas intensamente ilustradas, como é o exemplo da primeira página dedicada ao Carnaval, da autoria do artista Rafael Bordallo Pinheiro, publicada a 26 de fevereiro de 1895.

O jornal prosperava à conta das ações extraordinariamente pensadas e calculadas de Eduardo Coelho. Um desses exemplos passa igualmente pela publicação do folhetim «O Mistério da Estrada de Sintra», assinado por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão.

Eduardo Coelho seria diretor do Diário de Notícias até à sua morte, a 14 de maio de 1889. Grande fundador da história da imprensa portuguesa influenciaria O Comércio do Porto e O Primeiro de Janeiro, os jornais de referência no Norte do país. A par destes, destacam-se os nomes de Silva Graça e Pereira da Rosa, personalidades atrás d’O Século, que seguiria igualmente a linha editorial do DN.

Eduardo Coelho ficaria para sempre conotado como um empreendedor dos media e do jornalismo na sociedade portuguesa oitocentista. A Avenida da Liberdade em Lisboa é o palco do legado que este fundador deixou na imprensa portuguesa.

Emídio Rangel

«Esta rádio bissexta vai ficar nos vossos recetores 24 horas por dia, com música e notícias». Antes do arranque oficial da rádio, às 7 da manhã de 29 de fevereiro de 1988, Emídio Rangel apresenta aos ouvintes a TSF. O comunicador ocupa os cargos de diretor e presidente da administração

Considerado por muitos um visionário, Emídio Rangel marca o audiovisual em Portugal e traz formatos inovadores à Rádio e à TV

«Esta rádio bissexta vai ficar nos vossos recetores 24 horas por dia, com música e notícias».

Antes do arranque oficial da rádio, às 7 da manhã do dia 29 de fevereiro de 1988, Emídio Rangel apresentava aos ouvintes a TSF.

Quatro anos antes, tinha ido para o ar uma emissão pirata que incluía depoimentos de cerca de 60 personalidades portuguesas a defender a legalização de novas emissoras.

Uma iniciativa «decisiva para que o Parlamento viesse a criar a Lei da Rádio», considerou Emídio Rangel, um dos nomes por detrás do projeto.

Uma estação feita de estórias

No mesmo ano em que deu início às suas emissões regulares, a TSF conquistou o reconhecimento do público e do mundo do jornalismo pela sua cobertura do incêndio do Chiado.

«Caso a informação não governamental não existisse, a repercussão mediática de um enorme acontecimento seria provavelmente muito diferente. Estes diretos dinamitavam qualquer controlo informativo. Marcávamos a agenda», considerou Emídio Rangel.

O comunicador ocupou os cargos de diretor e presidente do conselho de administração da TSF.

Uma estação que ficou marcada pelas estórias.

«Uma vez soubemos que tinha chegado um barco com sete pessoas negras refugiadas. […] Estavam num contentor em condições infra-humanas. Resolvemos fazer a emissão 24 horas sobre 24 horas a partir de lá. […] Eles deixaram de ser tratados como animais para a passarem a ser tratados como seres humanos».

Uma abordagem – e uma atitude – inovadoras no panorama mediático nacional.

Ficou, aliás, célebre o episódio em que Rangel, a propósito de um conflito entre membros da cooperativa, utilizou um berbequim para forçar a entrada nas instalações da TSF.

Tempos conturbados, mas uma missão sempre presente:

«Queríamos dar voz às pessoas. Ter gente dentro das nossas notícias. […] Nós introduzimos uma pequena revolução: abríamos jornais com o que fosse importante. Tanto podíamos abrir com uma greve como com desporto».

Era a primeira de muitas revoluções promovidas por Emídio Rangel no jornalismo português.

Os primeiros passos

O comunicador nasceu em Angola, em Sá da Bandeira (atual Lobango), a 21 de setembro de 1947.

Passou pelo Rádio Clube da Huíla e pela Rádio Comercial de Angola.

«Nessa altura, como hoje, a rádio tem um fascínio especial, tem uma linguagem intimista que me agrada imenso. Sobretudo quando se exercita, quando se está ao microfone».

Foi como repórter que viveu o 25 de abril Estava de férias em Lisboa quando se deu a revolução, que cobriu para os microfones angolanos.

«A primeira vez que eu telefonei não queriam pôr o trabalho no ar, mas depois eu continuei a telefonar e a insistir: “Metam no ar.” E apesar da proibição comecei a transmitir notícias e a reportagem detalhada do que estava a acontecer».

Na rádio portuguesa

Emídio Rangel chegou a Portugal em 1975. No início do ano seguinte, ingressou na RDP por concurso público, no qual ficou em 2.º lugar.

Os primeiros tempos na emissora não foram fáceis. «Em Angola, já era conhecido como profissional da rádio. Aqui, era o retornado».

A realidade que encontrou nos estúdios da emissora era bem diferente.

«Em Angola aprendi todas as variáveis do exercício radiofónico, a fazer sonoplastia, a fazer som, a fazer locução. […] Na RDP, isso causou alguma surpresa a colegas jornalistas que sabiam escrever uma notícia, mas depois não sabiam trabalhá-la».

A sua reportagem sobre a Ereira, uma vila perto de Coimbra que ficava isolada no Inverno, foi distinguida com o Prémio Gazeta.

Conquistou reconhecimento internacional ao ganhar o prémio Reis de Espanha, com um trabalho sobre a lixeira da Bobadela.

«Como eu estive lá de dia e de noite, consegui retratar essa realidade. Fiz uma reportagem sobre essas pessoas, consegui criar empatia com elas e perceber os seus valores».

Foi repórter, subchefe de redação e enviado especial; mas o trabalho na RDP deixava de ser suficiente.

«Comecei a pensar que Portugal não podia continuar a viver com uma emissora do Estado e outra da Igreja [Rádio Renascença]. Era necessário libertar a rádio, fazer um combate para que fosse possível criar novas emissoras».

Desse combate nascera a TSF.

A passagem para a televisão

Em 1992, deixou a emissora radiofónica que fundara para ocupar o cargo de diretor de informação da SIC, o primeiro canal privado da televisão portuguesa.

«Eu tinha uma grande experiência na TSF daquilo que devia ser a mudança da informação na televisão. No fundo a lógica era a mesma: acabar com o Portugal sentado, com a informação burocrática e hierarquizada pelo respeitinho cego».

Acabou por acumular também a direção de programas.

A SIC conquistou a liderança absoluta de audiências durante vários anos. «Uma estação que tem 50% de share vende tudo, até o Presidente da República!», chegou a afirmar.

O percurso na SIC trouxe novos desafios à carreira de Rangel.

«Nós queríamos fazer uma televisão que chegasse ao maior número de pessoas, essa era a condição de sobrevivência da SIC», referiu.

O comunicador participou também na fundação da SIC Notícias, em 2001.

Com o virar do milénio, as audiências da SIC começaram um caminho descendente, perdendo espetadores para a TVI.

O sucesso do reality-show Big Brother foi um dos grandes impulsionadores da viragem.

«A SIC podia ter isso em exclusivo, mas eu considerei que aquele formato não era realizável no modelo da SIC. […] Para mim, o “Big Brother” não era exibível na SIC porque afetaria a credibilidade do resto da estação».

Em 2001, Rangel tornou-se diretor-geral da RTP.

No ano seguinte, foi convidado a negociar a sua saída, no âmbito do processo de reestruturação iniciado na empresa pelo Governo de Durão Barroso.

Regressou à TSF para restruturar a estação noticiosa.

O seu currículo inclui ainda a participação em vários projetos de media e comunicação, tanto nacionais como estrangeiros.

Foi colaborador da BBC em Portugal, correspondente da TDM – Teledifusão de Macau, gerente da revista Grande Reportageme da estação de rádio NRJ – Rádio Energia.

Mais recentemente, Emídio Rangel esteve ligado a propostas para a candidatura ao quinto canal em sinal aberto e à criação de um novo grupo de media.

Reconhecido como uma referência do panorama mediático nacional, faleceu a 13 de agosto de 2014.

Um profissional para quem «o maior compromisso do jornalismo é com a verdade».

Eduardo Fernandes (Esculápio)

No final do século XIX, Esculápio é uma estrela em ascensão. Começara o trilho para a fama como jornalista n’A Pátria em 1891, onde ganha o respeito dos republicanos pela sua insolência poética. Após o encerramento desta publicação, o jornal A Vanguarda acolhe o repórter

No final do século XIX, Esculápio é uma estrela em ascensão. Começara o trilho para a fama como jornalista n’A Pátria em 1891, onde ganha o respeito dos republicanos pela sua insolência poética. Após o encerramento desta publicação, o jornal A Vanguarda acolhe o repórter.

Eduardo Fernandes

Assinava os seus textos jornalísticos sob o pseudónimo «Esculápio». Nasceu em 1870 em pleno coração lisboeta, na Bica. Foi pai de vários filhos, entre os quais outro Eduardo Fernandes, que seria advogado e ator de cinema. Dos seus papéis proeminentes fariam parte o vilão Quicas d’A Canção de Lisboa e o protagonista em Maria Papoila.

A revista ABC apresentou-o ao público português, juntamente com nomes como o de Reinaldo Ferreira («O Repórter X»), Guedes de Amorim e tantos outros.

No final do século XIX, Esculápio era uma estrela em ascensão. Começara o trilho para a fama como jornalista n’A Pátria em 1891, onde ganhou o respeito dos republicanos pela sua insolência poética. Após o encerramento desta publicação, o jornal A Vanguarda acolhe o jovem repórter. Neste jornal, Esculápio veria a sua primeira grande vitória jornalística.

O crime de Monsanto

A 1 de fevereiro de 1893, chega a Lisboa a terrível notícia de um assassínio brutal na serra de Monsanto. A vítima é uma mulher desconhecida.

Insaciável aventureiro, Esculápio corre a Monsanto nessa mesma noite, apontando os testemunhos de quem encontrou o corpo mutilado, e reproduz a notícia na edição seguinte do jornal. O resto da madrugada é passado a foliar em Lisboa. Nas primeiras horas da manhã, Esculápio convence o seu colega do Diário de Notícias, Albino Sarmento, a visitar o local do crime.

Intrigado, o repórter dirige-se ao pátio onde tinha visto o avental. Ao fazer perguntas aos moradores, descobre que há quatro dias que ninguém sabe de Maria dos Anjos, a mulher que ali vive com um soldado da guarda municipal.

Esculápio pede então aos interrogados que se dirijam à polícia para identificar o cadáver. A identidade de Maria dos Anjos confirma-se. Thomaz Ribeiro, marido da vítima, acaba por ser preso após uma confissão de culpa.

Por mero acaso, Esculápio desvenda o homicídio de Monsanto, e tudo devido a um avental esvoaçante. O jovem jornalista ganhava, assim, a respeitabilidade dos repórteres numa época difícil para a imprensa republicana.

Um caso sério de violação de correspondência

O jornal A Vanguarda viveria anos prósperos. Contudo, os salários foram reduzidos com a promessa de compensação mais tarde. A reposição salarial não chegou a acontecer, e Esculápio acabou por aceitar uma oferta para integrar a redação d’O Século.

No início do século XX, Silva Graça, diretor d’O Século, era, inquestionavelmente, o barão da imprensa portuguesa. O jornal lucrava imenso com as vendas, tornando-se a publicação de referência da época.

Em agosto de 1902, enquanto Silva Graça passava férias nas termas de Vichy, 12 redatores (entre os quais Esculápio) criticaram veemente a deriva ideológica do periódico. Fez-se a edição do jornal, com a certeza que, no regresso do diretor, os 12 seriam despedidos.

Em três semanas, o grupo instala-se na esquina da Travessa da Queimada com a Rua da Atalaia, e funda O Diário. Na primeira publicação, a recém-formada redação faz pouco de Silva Graça, que protagoniza o cabeçalho da primeira página.

A guerra com Silva Graça não terminaria aqui. Com menos de um mês de vida, Lisboa já respeita e reconhece o grupo de jornalistas que integra esta redação. Quanto ao periódico O Século, restava-lhe jogar com as armas que tinha, ameaçando e pressionando os distribuidores d’O Diário.

Na altura, as  publicações de Lisboa partilhavam uma caixa postal na tabacaria Mónaco. Ali se deixavam sugestões, bilhetes, ofensas e, por vezes, informações úteis. À lei da época, a violação da correspondência era proibida. E Esculápio andava desconfiado. Nas últimas histórias de crimes, o seu rival d’O Século chegou ao mesmo tempo que ele.

Esculápio, com uma vasta rede de informadores, decide fazer uma experiência. Juntamente com a sua fonte mais importante, Gamboa, inventa um acontecimento e escreve uma nota, informando no sobrescrito que se trata de uma informação exclusiva para O Diário.

No dia seguinte, ao lerem a edição de 4 de julho de 1903 d’O Século, o acontecimento por eles inventado estava relatado, com uma avalanche de pormenores sórdidos.

No dia 5, O Diário escreve um desmentido, expondo que todos os detalhes publicados pelo jornal O Século não são verdadeiros.

Silva Graça vê-se, assim, encurralado. Ao atacar O Diário, seria admitir que violou o correio postal do rival. Prepara então uma curta nota a explicar que o jornal recebera aquela informação como sendo verdadeira, o que, afinal, não se confirmara.

No dia 6 de julho, Esculápio prepara a pena e os 12 renegados d’O Século têm a sua vingança. Na edição do dia, era publicado o seguinte texto:

«O Século sofreu o justo castigo dos seus processos inconfessáveis e da deslealdade que usa para com todos os jornais de Lisboa sem excepção. Abriu uma carta que não lhe era dirigida, pois que era individualmente sobrescriptada, com a nota de particular, para um informador d’O Diário».

O diretor d’O Século recebia a lição de uma vida que, inexplicavelmente, acabaria por compensar o grande Esculápio mais tarde.

A reviravolta

Em 1906 O Diário encerra e Esculápio regressa ao jornal O Século, ainda sob a direção de Silva Graça. A sua fama transcende-o, e Esculápio acaba por se especializar como repórter de crime. Sendo escritor nato, Eduardo Fernandes assinaria ainda numerosas peças de teatro.

O seu estilo inconfundivelmente brincalhão e satírico ainda lhe valeu um processo de difamação no verão de 1892. Nas suas gazetilhas, que o tornaram célebre, Esculápio escreveu um verso sobre o conde Burnay (empresário e político português de muito relevo no século XIX). O conde não apreciou a piada, e acabou por processar o repórter.

No seu livro de memórias, o jornalista conta os seus episódios mais caricatos durante a sua carreira. Contudo, as suas memórias não foram o seu único livro publicado. Em 1900, Eduardo Fernandes reuniu algumas das suas gazetilhas e publicou a obra Dois Annos de Troça.

Em conjunto com Cruz Moreira «Caracoles», o famoso tom jocoso de Esculápio faria relançar a revista humorística Os Ridículos, em 1905.

Aproveitando a efervescência política que precedeu a implantação da República, conseguiram  que a publicação se desenvolvesse bastante, através da crítica política e social e pela sátira aos acontecimentos dominantes da época. Caracterizado pela excentricidade, a indumentária de Eduardo Fernandes não passava despercebida: de chapéu largo de feltro preto e lavalièreao pescoço, apresentava-se nas ruas de Lisboa com uma bengala.

O aclamado jornalista do final do século XIX e início do século XX morreria em 1945. Atrás de si deixaria uma vida repleta de episódios hilariantes, preenchida com uma carreira pouco convencional.

Fernando Pessa

Antes da BBC Radio, o locutor deu que falar na Emissora Nacional (EN). Nos primeiros tempos, a EN carecia de ruídos e sons gravados para a recriação de ambientes. Pessa, ao receber um peru em vésperas de Natal, tentou que o animal reproduzisse o seu som característico em plena emissão.

Cobriu os bombardeamentos nazis, foi produtor e locutor e integrou os quadros da RTP já depois da idade da reforma. Fernando Pessa, uma voz que acompanhou gerações e que ficou imortalizado como uma das grandes figuras do Jornalismo português.

Fernando Pessa queria ser militar.

Nascido no dia 15 de abril de 1902, a sua infância foi vivida entre em Aveiro e Coimbra.

Após os estudos secundários, tentou ingressar na carreira militar como oficial de Cavalaria. Dada a abundância de oficiais como resultado da Primeira Guerra Mundial, Pessa não foi aceite.

Começou por trabalhar numa companhia de seguros, trabalho que o levou ao Brasil até 1934.

No mesmo ano, candidata-se aos quadros da recente Emissora Nacional (EN), ficando classificado em segundo lugar. Transformou-se no primeiro locutor da estação de rádio do Estado Novo.

Nos primeiros tempos da EN, a estação carecia de ruídos e sons gravados para a recriação de ambientes, tendo de ser tudo feito em direto.

Pessa, ao receber um peru em vésperas de Natal, tentou que o animal reproduzisse o seu som característico em plena emissão.

O Jornal Rádio Semanal fora fotografar Pessa e o peru no ambiente radiofónico de registo, tendo a foto feito a primeira página da publicação.

O que não se soube foi o insucesso deste estratagema, que forçou o locutor a recorrer a um amigo perito em imitações.

Fernando Pessa manteve-se na Emissora Nacional até 1938, ano em que foi convidado para trabalhar na secção portuguesa da BBC, em Londres.

Jornalista em tempo de guerra

Iniciou o seu percurso na rádio britânica, com sotaque, na secção brasileira, passando para a secção portuguesa em 1940.

Aqui assistiria aos bombardeamentos alemães, profissionalizando-se como correspondente de guerra durante a Segunda Guerra Mundial. A ironia povoada no seu relato das notícias constituiu-se como uma das suas características mais marcantes.

As transmissões em português da BBC foram ganhando popularidade, especialmente devido ao programa Retiro da Blitz, onde Pessa interpretava fados por ele escritos, ridicularizando a figura de Hitler e as suas investidas contra Londres.

Em 1947, no seu regresso a Portugal, casou com Simone Alice Ruffier, que conheceu na BBC em Londres.

Voltando ao país de origem, o jornalista foi impedido de reintegrar a EN. O acesso vedado devia-se a razões de ordem política. Pessa, ao ter apoiado os Aliados durante a guerra, já não se encontrava nas boas graças do regime salazarista.

Sem o jornalismo, valeu-lhe a sua voz radiofónica: dedicou-se à sonorização de documentários, muito exibidos nas salas de cinema, uma vez que a televisão em Portugal ainda era inexistente.

Destacam-se os documentários de Manoel de Oliveira Os Últimos Temporais, Cheias do Tejo (1937) e Portugal Já Faz Automóveis(1938), aos quais Fernando Pessa deu a voz.

Em 1959, Pessa acabou por ser contratado para trabalhar no plano de apoio à Europa após a Segunda Guerra Mundial, o Plano Marshall. Além do seu papel de adjunto, narrava os materiais produzidos pela Missão e pela NATO.

A notoriedade que o jornalista alcançou enquanto repórter de guerra na emissora radiofónica britânica garantiu-lhe a honra na primeira emissão em direto da RTP, a partir da Feira Popular de Lisboa, a 7 de março de 1957.

Em 1976, aos 74 anos, bem depois da normal idade de reforma, integraria os quadros da RTP

A personalidade televisiva

Foi durante as suas reportagens de rua que Fernando Pessa se destacou com a célebre frase «E esta, hein?». Nestas emissões o repórter denunciava as situações mais desagradáveis do quotidiano, enviando mensagens aos responsáveis pelo bem público. Rapidamente tornar-se-ia o jornalista de fait-divers inesquecíveis da televisão portuguesa no século XX.

Em novembro de 1974, por ocasião da Feira da Golegã, Pessa prepara uma reportagem para a RTP, que tinha como esboço a viagem de Lisboa à Golegã a bordo de um helicóptero.

O experiente piloto considerou que a reportagem seria mais espetacular se a aterragem e levantamento do helicóptero fosse feita a partir pátio de acesso ao Estúdio 1 da RTP. Devido a uma fuga de ar do poço constituído pelas paredes dos edifícios circundantes, o aparelho, ao aterrar, caiu num estrondo, tendo ficado completamente destruído. A peça jornalística seria cancelada, enquanto Fernando Pessa acompanhava o piloto ao hospital.

O repórter recebeu ainda vários prémios e condecorações. Em 1959, foi agraciado com a Ordem do Império Britânico, dada pela Rainha Isabel II, pelos seus serviços como correspondente de guerra na BBC.

Em 1981, foi distinguido com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República Ramalho Eanes. Dez anos mais tarde, Mário Soares atribuiu-lhe o título de Grande-Oficial da Ordem do Mérito.

Só em 1995, aos 93 anos, Fernando Pessa se reformou.

A 29 de abril de 2002, Fernando Pessa faleceu no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, duas semanas após ter completado 100 anos de idade.

De uma ambicionada carreira militar que nunca se viria a concretizar, Fernando Pessa tornou-se jornalista sem saber, quando concorreu, por graça, à Emissora Nacional.

A sua incursão no jornalismo acabou por se provar a melhor coisa que aconteceu à televisão portuguesa.

Pessa, sempre conhecido pelo seu porte distinto e elegante, chegou até a ser confundido por um diplomata pelo diretor-geral da BBC. E esta, hein?

Jacinto Baptista

D’A Voz para o Diário Popular, onde desde o início começa a destacar-se. Depois da Revolução de 25 de abril, Jacinto Baptista torna-se diretor desta publicação

Jornalista, autor e historiador, Jacinto Baptista contribuí para desbravar caminho para o ensino do Jornalismo em Portugal

«O jornalista é o historiador de todos os dias», afirmava Jacinto Baptista.

O repórter nasceu em Lisboa em 1926, e licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas.

Aos 20 anos tornou-se profissional da imprensa. O Diário Popularseria o jornal onde se destacaria.

No início da sua carreira, o jornalista passou pelo jornal católico e monárquico A Voz.

Na altura, a redação dispunha apenas de um telefone, e quando uma idosa liga para o jornal à noite para se queixar de um pombo que lhe entrou em casa, a resposta do chefe de redação não se fez tardar: «coma-o com arroz minha santinha mas deixe a linha telefónica livre para os telegramas da Agência Havas!».

Desde cedo, o Diário Popular reuniu nos seus quadros jornalistas que marcariam a história, como Baptista Bastos, Urbano Carrasco e tantos outros.

Com o 25 de Abril em 1975, o jornal passaria a ser propriedade estatal. Assistiu-se, igualmente, a uma nova vaga de mudanças nas direções dos jornais. Jacinto Baptista seria eleito diretor do Diário Popular.

Escritor nas horas vagas, Jacinto Baptista foi ainda autor de vários trabalhos. Destacam-se o ensaio de interpretação histórica O 5 de Outubro e Um Jornal na Revolução: “O Mundo” de 5 de Outubro de 1910.

O 5 de Outubro, um ensaio que evoca a revolução de 1910, foi incluído no número das obras mais importantes publicadas até àquela data pelo The Times Literary Supplement.

Em 1977, o jornalista editava o livro Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora, sobre a história do jornal A Batalha.

Nos seus estudos sobre a imprensa, Jacinto Baptista dedicou-se também ao estudo da obra de Alexandre Herculano, nomeadamente enquanto jornalista.

Contribuição para a profissão

O historiador e jornalista contribuiu ainda para a dignificação dos profissionais de jornalismo através da introdução do Ensino Superior na área.

Em fevereiro de 1970, Jacinto Baptista, integrado numa delegação da direção sindical, apresentou proposta de criação do Ensino Superior de Jornalismo.

O jornalismo era das poucas profissões exercida sem um curso superior.

A introdução da formação universitária obrigaria à dignificação dos profissionais em termos remuneratórios e em termos da sua capacidade de intervenção.

A 1 de outubro de 1979, a Comissão Consultiva, com o objetivo de tratar de questões relacionadas com a criação de um curso de pós-graduação em jornalismo, reuniu-se pela primeira vez na sede do Sindicato dos Jornalistas.

Jacinto Baptista fazia parte do grupo de trabalho.

No artigo «Jornalismo: tarimba e escola», de 19 de outubro de 1979 d’O Jornal, Jacinto Baptista dá conta da alteração na maneira como os jornalistas profissionais viam a questão do ensino do jornalismo.

Mais do que jornalista, Jacinto Baptista consagrar-se-ia como historiador. Já na história da profissão jornalística, deixaria um grande marco, ao ser um dos pioneiros que desbravou caminho para o ensino de jornalismo em Portugal.

Jacinto Baptista morreu em 1993, com 67 anos.

Luís de Sttau Monteiro

Homem de vários ofícios mas que no Jornalismo se destaca pelas suas colaborações na revista Almanaque e no suplemento Mosca do Diário de Lisboa

Homem de vários ofícios mas que no jornalismo se destaca pelas suas colaborações na revista Almanaque e no suplemento Mosca do Diário de Lisboa

Felizmente há jornalista

A peça «Felizmente há Luar!» está indissociavelmente ligada a Luís de Sttau Monteiro. A obra, inspirada no teatro de Brecht, foi de imediato proibida de ser levada a cena. Recuperando os acontecimentos anteriores da história portuguesa, a história procurava fazer uma denúncia da situação contemporânea. Ainda assim, a censura não conseguiu impedir que fossem vendidos 160 mil exemplares da peça. Além do jornalista e cronista, nascia um escritor.

Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro nasceu em Lisboa, a 3 de abril de 1926. Aos 10 anos acompanha o seu pai, Armindo Monteiro, que parte para Londres para exercer funções como embaixador de Portugal.A sua educação na capital inglesa permitiu-lhe um contacto mais próximo com alguns movimentos de vanguarda da literatura anglo-saxónica, que iriam influenciar significativamente a sua obra.

Mas antes existiram as pistas de corrida e os tribunais

Entretanto, em 1943, o pai entra em discordância política com o regime de Salazar, e demite-se da função de embaixador.

A família regressa então a Lisboa, onde Luís de Sttau Monteiro termina os estudos. Apesar do seu interesse pela área da Matemática, acaba por optar por uma licenciatura em Direito, na Universidade de Lisboa. Nos dois anos seguintes, exercia advocacia. No entanto, Lisboa não era suficiente. Luís de Sttau Monteiro voltava para Londres e vive uma curta experiência como condutor de Fórmula 2. Conhece a jovem inglesa June Goodyear, com quem se casa a  27 de setembro de 1951, em Sintra.

Finalmente o jornalista

Regressando a Portugal, Luís de Sttau Monteiro envereda pelo jornalismo.Colaborou em várias publicações, mas destacou-se na revista Almanaque, onde também eram redatores Augusto Abelaira, José Cutileiro, Alexandre O’Neil, Vasco Pulido Valente e José Cardoso Pires.

Trabalhou ainda no suplemento A Mosca, doDiário de Lisboa, tendo colaborado com Joaquim Letria, José Cutileiro, Mário Castrim e João Abel Manta. Foi igualmente nesta publicação que Luís de Sttau Monteiro escreveu as crónicas gastronómicas «A Melga no Prato», e onde criou, entre 1969 e 1970, a secção de crítica intitulada «Redações da Guidinha».

Nas crónicas da «Guidinha», Luís de Sttau Monteiro personificava uma miúda lisboeta de classe média-baixa que, através de uma linguagem deliberadamente infantil e sem pontuação, descrevia a vida quotidiana com o intuito de criticar e satirizar o estado da nação.

Luís de Sttau Monteiro escreveu ainda crónicas gastronómicas sob o pseudónimo de Manuel Pedrosa e colaborou também regularmente nos jornais Se7e,O Jornal eExpresso. Mas Sttau Monteiro não se ficava pelo jornalismo.

Em 1960, lança o seu primeiro romance «Um Homem não Chora», seguido de «Angústia para o Jantar», onde denuncia, com o seu humor cáustico, os comportamentos típicos da burguesia.

Com a publicação de «Felizmente há Luar!», os temas da defesa do Homem, da liberdade, da luta pela justiça social e da denúncia política tornam-se uma constante na escrita de Sttau Monteiro.

A peça é baseada na tentativa de revolta liberal de 1817, supostamente encabeçada por Gomes Freire de Andrade. Através da recriação dos acontecimentos históricos que levaram à prisão e ao enforcamento de Gomes Freire pelo regime de Beresford e com o apoio da Igreja, Sttau Monteiro faz um apelo épico e politicamente empenhado, denunciando a situação de Portugal nos anos 60.

Em 1962, a peça foi distinguida com o Grande Prémio de Teatro da então Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. No entanto, o escritor encontrava-se na prisão por suspeita de ter colaborado na «intentona de Beja».

Devido a esta experiência traumática, Sttau Monteiro voltou para Inglaterra, onde continuou a escrever peças de teatro. Destacam-se Todos os anos pela Primavera; «O Barão» (adaptação do romance de Branquinho da Fonseca); e «Auto da Barca do motor fora da borda» (adaptação do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente).

Em 1967, já de regresso a Portugal, volta a ser detido pela PIDE após a publicação das peças satíricas «A Guerra Santa» e «A estátua», onde teceu duras críticas à ditadura e à guerra colonial.

Contudo, tal vivência não o deita abaixo, e escreve, em 1968, a peça «As mãos de Abraão Zacut», cuja ação se situa num campo de concentração.

Em tempos de liberdade

Com a Revolução dos Cravos, tornou-se possível levar a peça «Felizmente há Luar!» a cena. Foi em 1978, após 16 anos da sua publicação, que a obra foi encenada no Teatro Nacional D. Maria II. A peça seria ainda considerada um dos 100 Livros Portugueses do Século XX na listagem de Fernando Pinto do Amaral, publicada n’O Público de 27 de abril de 2002.

O seu romance «Angústia para o Jantar» foi adaptado para uma série de televisão transmitida na RTP. Foi um dos grandes sucessos da programação em 1975.

Mas o sucesso de Sttau Monteiro não se ficava por aqui. O romance inédito «Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão» foi igualmente adaptado para uma novela televisiva em 1982, intitulada «Chuva na Areia».

Luís de Sttau Monteiro consagrar-se-ia, principalmente, como dramaturgo, com a publicação de inúmeras peças e adaptações. Ainda assim, o seu carisma literário impôs-se no romance, na crónica e no jornalismo.

Escritor multifacetado, Sttau Monteiro é, acima de tudo, uma figura incontornável do século XX.

Jorge Botelho Moniz

Major, apoiante de Franco e impulsionador da Rádio em Portugal. Botelho Moniz é o responsável pela criação do Rádio Clube Português

CT1DY, na Parede, é o nome da primeira estação de Rádio em Portugal. Botelho Moniz o responsável. Estamos em 1928. A estação vai aumentando o seu alcance e em 1930 passa a chamar-se Rádio Clube Português

O nascimento do Rádio Clube Português

A estação mudou o nome à medida que o seu alcance radiofónico aumentava. Assim sendo, a CT1DY, um pequeno posto emissor, chegou a chamar-se Rádio Parede, Rádio Costa do Sol e em 1930 passou a chamar-se Rádio Cube Português (RCP).

O Major Jorge Botelho Moniz durante o I Congresso Nacional de Radiotelefonia, organizado pel’O Século, explicou as origens do RCP:

«A ideia de um clube de senfilistas nos moldes que viemos a realizar com Rádio Clube Português nasceu de um almoço no Restaurante Roma, em que se reuniram alguns amigos do primitivo (CT1DY – Rádio Parede). Foram aí lançadas e aprovadas as bases de uma associação de radiófilos que reunisse boas vontades e competências na criação de uma emissora com seguras possibilidades de desenvolvimento técnico».

«Começámos com um posto muito humilde de meio watt (…). Todos conhecem bem o que foram as nossas primeiras emissões, como as ampliámos infatigavelmente com o apoio de todos os sócios e amigos de Rádio Clube Português».

Em pleno Funcionamento

O Rádio Clube Português entrou em funcionamento em 1931, com cerca de 400 associados, quatro anos antes do aparecimento da Emissora Nacional (EN).

Em 1935, um incêndio destruiu quase totalmente o edifício do RCP, mas das cinzas renasceu um novo edifício, com o apoio dos associados, tal como o Diário de Notícias noticiou : «pôr em pé e manter essa obra de fins altamente patrióticos que é o Rádio Clube Português, à volta de um homem de incontestável prestígio». (falta notícia – DN 8/10/1935 – digitalizar)

O RCP renasceu atualizado, dinâmico e exerceu uma ação decisiva durante a guerra civil de Espanha.

A causa franquista

O Major Jorge Botelho Moniz além de criador do RCP foi um dos militares da revolução de 28 de maio e amigo pessoal de Salazar. Durante a Guerra Civil de Espanha, Botelho Moniz instalou um eficiente serviço de informação e propaganda de apoio à causa Nacionalista  que teve eco em Portugal e Espanha.

A «oficiosa neutralidade» transmitida aos portugueses pela EN contrabalançou a militância do RCP, assumida a coberto do estatuto de «emissora privada». À semelhança do RCP , a EN também emitia em português e espanhol.

Com o desenrolar do conflito, o Major Jorge Botelho Moniz decidiu também levar avante a criação de um corpo de milícias portuguesas – os Viriatos – para intervir ao lado dos Nacionalistas. Mais tarde, foi um dos impulsionadores da criação da Legião Portuguesa.

O RCP foi muito importante como força moralizadora, de que é exemplo o episódio do Alcázar de Toledo, onde o próprio Botelho Moniz se dirigiu exaustivamente aos sitiados do Alcázar, motivando-os e assegurando que as tropas enviadas para os libertar do cerco republicano estavam a chegar.

A afirmação do RCP

O Rádio Clube Português, a par da ideologia política patente à sua origem é de relevar o fator tecnológico. Deste modo, apesar do pendor fascista inerente ao seu período inicial, o RCP foi a primeira estação de radiofusão em Portugal, e responsável por lavrar caminho para o posterior aparecimento e desenvolvimento de outros meios de comunicação de massa.

Com o RCP apareceu uma programação que privilegiou a música popular (portuguesa, espanhola e americana), numa altura em que o mercado fonográfico disponibilizava mais discos.

Também com Botelho Moniz foi definida a estética radiofónica que marcou vastos anos da rádio em Portugal. O RCP tinha um alinhamento diversificado onde se desenvolveram programas infantis, de informação, religiosos e de crítica musical.

«As lições de Gramática do Menino Tonecas», iniciadas em 1934 pela voz de Henrique Soromano e inserido na emissão infantil «O Sr.Doutor», foi uma rúbrica do RCP que ficou perpetuada na História da Rádio em Portugal.

Mais tarde, foi incluído o primeiro número musical, cantado por uma menina de seis anos, de seu nome Maria Manuela Extremadouro, mais conhecida por «Mimi».

A par com o crescimento do RCP, Botelho Moniz travava uma relação conflituosa com Couto dos Santos – administrador-geral dos Correios e Telégrafos (AGCT).

O objetivo da AGCT era tutelar totalmente a radiodifusão portuguesa. As autorizações dadas às pequenas estações particulares eram concedidas com dificuldade, para além do escrutínio permanente sobre as suas atividades. Botelho Moniz e o seu RCP eram «uma pedra no sapato» para a AGCT devido ao protagonismo que esta estação assumia no panorama nacional.

A AGCT tentou ainda abolir a publicidade e limitar a frequência do RCP. Contudo, foram medidas passageiras, uma vez que o Major Botelho Moniz, além de ter sido um fiel amigo de Salazar, adotou uma estratégia de apoio às iniciativas e às políticas do governo. Por conseguinte, o RCP venceu a «guerrilha» e cresceu sem quaisquer entraves.

Após uma longa carreira militar e um papel preponderante na criação e desenvolvimento da rádio em Portugal, o Major Jorge Botelho Moniz morreu a 29 de julho de 1961.

Manuel António Pina

Torna-se jornalista no Jornal de Notícias, onde soma uma carreira de três décadas. É repórter, redator, editor e chefe de Redação

Repórter, redator, editor, chefe de redação e, sobretudo, cronista. Manuel António Pina Manuel António Pina é considerado uma «lufada de ar fresco» no Jornalismo português

«Diz-se que os povos felizes não têm história. Não é fácil (nem bonito) dizê-lo, mas às vezes, a infelicidade de um povo é a felicidade dessa espécie de historiadores do presente que os cronistas (sobretudo aqueles que, como eu, praticam sobretudo a crónica como género jornalístico e não literário) são».

Manuel António Pina, numa entrevista ao Jornal de Notícias, assumia-se como cronista.

Atrás da máscara de jornalista, erguia-se um homem com muitas outras facetas.

António Manuel Pina nasceu no Sabugal, a 18 de novembro de 1943.

Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, mas a verdadeira vocação chamou-o para as paragens da escrita.

Tornou-se jornalista no Jornal de Notícias, onde somou uma carreira de três décadas.

Foi repórter, redator, editor e chefe de Redação. Enquanto cronista, manteve, na última página do jornal, a sua crónica «Por outras palavras», participando ainda na Notícias Magazine, um suplemento do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias.

O jornalista-escritor

Contudo, Manuel António Pina não se ficaria apenas pelo jornalismo.

Desde cedo mostrou um jeito inigualável com as palavras, e em 1974 estreou-se na poesia com o livro Ainda Não É o Fim nem o Princípio do Mundo, Calma, É Apenas Um Pouco Tarde.

A sua obra literária é fundamentalmente constituída por poesia e literatura infantil.

No entanto, Manuel António Pina seria igualmente autor de inúmeras peças de teatro, assim como de livros de ficção e de crónica.

A sua obra está traduzida em França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária.

Os seus dotes de escrita cedo provaram ser únicos e merecedores de vários prémios e distinções.

Manuel António Pina foi agraciado com o Prémio de Poesia da Casa da Imprensa (1978); o Prémio Gulbenkian (1987); o Prémio Nacional de Crónica Press Club/Clube de Jornalistas (1993); o Prémio da Crítica, da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários (2002); o Prémio de poesia Luís Miguel Nava (2003); e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT (2005).

A 9 de junho de 2005 foi feito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Em 2011, o jornalista e escritor era agraciado com o Prémio Camões, o maior prémio literário da Língua Portuguesa.

Esta atribuição do Prémio Camões foi uma das mais consensuais de sempre quer por parte do júri quer por parte da crítica e do público.

Cronista por excelência

Os gatos fizeram a grande imagem de marca de Manuel António Pina.

Mas, para além dos seus oito gatos, o jornalista ultrapassava as barreiras da popularidade como escritor e, principalmente, como cronista.

As suas crónicas diárias publicadas no Jornal de Notícias, entre 1984 e 2012, valeram-lhe uma legião de seguidores. Seis meses após a sua morte, a Assírio e Alvim lança uma antologia com algumas das suas melhores crónicas, numa obra intitulada Crónica, saudade da literatura.

Manuel António Pina faleceu a 19 de outubro de 2012.

Ao longo dos anos, Manuel António Pina foi um farol da crónica pequena (mas nunca pequena crónica). […] As páginas de jornais, o mundo das crónicas, ficam agora com um défice colossal. E uma dívida ao passado que nunca conseguirão pagar». Fernando Sobral

Manuel António Pina seria para sempre recordado pelos seus pares como uma «lufada de ar fresco» no jornal que o imortalizou.

«Ele foi inovador. Quando chegou nos anos 70 [ao Jornal de Notícias] criou um estilo novo. Nós vivíamos ainda espartilhados pela censura, o jornalismo era muito ontem aconteceu, e o Pina […] deu vida às notícias, deu vida à reportagem». Germano Silva

Manuel Pinto de Azevedo Júnior

Com O Primeiro de Janeiro, Manuel Pinto de Azevedo Júnior combate a censura e inova a Imprensa numa altura em que renovar é visto como atrevimento

No n.º 312 da Rua de Santa Catarina, funciona o jornal O Primeiro de Janeiro, alma da cidade do Porto, orgulho dos homens de letras e paixão contínua da vida de Manuel Pinto de Azevedo Júnior

A renovação d’O Primeiro de Janeiro

Pinto de Azevedo Júnior herdou o jornal do pai, Manuel Pinto de Azevedo, que o comprara com outros sócios em 1923.

No entanto ao contrário do pai, que era um empresário de sucesso, o seu coração pulsa sobretudo com as vicissitudes do Primeiro de Janeiro. Os negócios da vinha, as fábricas nunca o motivaram. Era o jornal que o fazia mexer e assim foi até à sua morte.

Manuel Pinto de Azevedo Júnior nasceu em 1905 e tornou-se diretor do jornal em 1937. Foi diretor desta publicação até 1976. Até final desta década, viveu a dois passos da redação, no n.º 326. Toda a sua vida concentrou-se naquele quarteirão.

No Porto, nesta época, as leituras d’O Primeiro de Janeiro eram divididas com jornal O Comércio do Porto, do qual Bento Carqueja – um grande benemérito da época foi diretor e grande impulsionador. Legado que deixou para as direções seguintes.

Ainda assim, O Primeiro de Janeiro alcançou um maior protagonismo quando em 1870, em plena Guerra Franco-Prussiana e bem antes da direção de Manuel Pinto de Azevedo Júnior, aceitou receber telegramas dos alemães ao contrario da concorrência que apenas recebia notícias dos franceses. Em consequência, quando os alemães entraram em Paris, apenas os leitores d’O Primeiro de Janeiro estavam atualizados do desenrolar da guerra.

Com esse prestígio a tiragem passou de 3 mil exemplares, em 1870, para 15 mil no final da mesma década.

De mãos dadas com a inovação que vira na Bélgica, no tempo em que lá viveu, Pinto de Azevedo Júnior decidiu modernizar O Primeiro de Janeiro, tornando-o pioneiro na introdução da máquina de escrever na redação.

Diretor exímio tornou O Primeiro de Janeiro num jornal de referência que, além de lucrativo, de circulação elevada e repleto de publicidade, foi uma escola de jornalismo para muitos gerações de jornalistas. a «escola do Janeiro», como alguns destes lhe chamavam.

Abriu as portas à cultura e a partir de 1945 permitiu que os grandes pintores nacionais da época pudessem expor as suas obras no piso térreo do edifício do jornal. A sua dedicação no desenvolvimento da imprensa portuguesa marcou todos aqueles que com ele convieram.

Em Lisboa, a preocupação com o melhoramento do grafismo nos jornais também era um assunto prioritário. Neste assunto, José Joaquim Silva Graça, diretor d’O Séculoe empresário foi responsável pela renovação das artes tipográficas, da fotogravura e da impressão nas publicações sob a sua alçada. Além d’O Século, criou Suplemento Humorístico e a revista Ilustração Portugueza. Pinto de Azevedo Júnior tinha assim um parceiro e rival na inovação e empreendedorismo.

Nuno Rocha, que teve n’O Primeiro de Janeiro a sua primeira grande experiência jornalística, lembra «o bravo lutador antifascista» nas suas «Memórias de um Ano de Revolução», contando que, quando foi a Paris pela primeira vez, o diretor do jornal despediu-se dele e meteu-lhe no bolso, comovido, dois mil escudos para ajudar às despesas.

Alberto Uva, jornalista e poeta, recordou as raras reprimendas que o faziam «alterar o estilo cavalheiresco» durante alguns instantes antes de a voz amaciar, o coração pedir palavra e surgir a frase de sempre: «Para a próxima vez…».

Durante o Antigo Regime, quando a repressão da polícia política, a PIDE, se abateu sobre alguns trabalhadores do jornal, Manuel Pinto de Azevedo Júnior nunca lhes retirou o vencimento. Ao serem libertados, esses trabalhadores encontravam sempre o seu posto de trabalho.

Durante os tempos da PIDE

Durante este tempo, a PIDE emitiu a seguinte circular «Como Identificar as Actividades Clandestinas do PCP». Neste documento, durante a segunda metade da década de 1940, a polícia lembrava aos agentes que «os membros do Partido Comunista Português (PCP) instalados no Centro e Sul compram sistematicamente O Século e os do Norte, adquirem por norma O Primeiro de Janeiro».

Assim a oposição ao Antigo Regime por parte das publicações noticiosas eram feitas no Norte sob a égide de Manuel Pinto de Azevedo Júnior, n’ O Primeiro de Janeiro e no Sul por Acúrsio Pereira, chefe de redação do jornal O Século.

O jornalismo de combate

Estamos a 15 de maio de 1957, a edição d’O Primeiro de Janeiro estava quase a fechar quando recebeu o anúncio de um filme que a produtora demorou a enviar.

Recebido, foi diretamente enviado para a composição sem passagem pela Censura, como explica pacientemente Manuel Pinto de Azevedo Júnior, num ofício dirigido à direção dos Serviços de Censura.

Parecia inofensivo…mas, não era. Sob o título «Raparigas de Hoje», em exibição no cinema Batalha a partir dessa noite, contava o drama das raparigas do hoje da altura com os seus problemas, sonhos, ilusões, esperanças e aventuras. O que desafiava os «bons costumes» da época era o facto de as raparigas levantarem a saia até à cintura.

O coronel de serviço considerou a publicidade «contrária à moral», sugerindo que o jornal fosse sancionado por publicação de materiais não submetidos ao visto.

Raúl Rego e Vítor Direito são outros dos nomes do jornalismo de combate português. Mais novos e menos discretos que Manuel Pinto de Azevedo Júnior assumiram posições claramente antagonistas ao Antigo Regime.

Raúl Rego foi diretor do República e Vítor Direito fez parte da equipa. Ambos denunciavam os procedimentos inquisitoriais feitos pela Censura aos jornais.

A 9 de fevereiro Raúl Rego é entrevistado por José Pedro Castanheira para o Expresso  e sobre esta questão afirmou: «O República praticamente não dava notícias: tudo o que fosse suscetível de ser cortado não dava. Era uma teoria. Ora não se compra um jornal apenas pelas ideias que ele tem ou defende: um jornal compra-se sobretudo pelas notícias que dá».

A coluna de Raúl Rego chamada «momento», no jornal República, era a mais lida e a que mais influenciou os homens que fizeram mais tarde o 25 de abril de 1974.

Vítor Direto igualmente combativo nesta época, fundou em 1979 o jornal Correio da Manhã.

Quanto ao O Primeiro de Janeiro é justo notar que resistiu admiravelmente às sacudidelas do período revolucionário. Foi dos poucos jornais de então que não registou mudanças na estrutura de administração ou direção.

Manuel Pinto de Azevedo Júnior manteve-se fiel ao projeto e aos seus ideais e honrou a tradição liberal do matutino. Em plena ditadura salazarista, manteve como colunistas figuras da oposição como Abel Salazar ou Norton de Matos.

Em Novembro de 1976, quando, por motivos de saúde, passou finalmente o testemunho da direção do jornal a Alberto Uva, Manuel Pinto de Azevedo Júnior entregou-lhe um legado singular: uma vela e uma caixa de fósforos. «Isto é para o alumiar, se tudo se apagar cá na casa», disse-lhe. «Um diretor do Janeiro nunca pode ficar às escuras!

Manuel Pinto de Azevedo Júnior morreu em 1978, dois anos depois de passar o testemunho d’ O Primeiro de Janeiro.

Mário Castrim

Numa época riscada pelo «Lápis Azul», Manuel Nunes da Fonseca adota o pseudónimo de Mário Castrim para esconder a sua identidade. A carreira jornalística tem início em 1965, no Diário de Lisboa passando posteriormente pelo semanário Tal&Qual

Manuel Nunes da Fonseca, pouco conhecido para alguns; Mário Castrim, deveras célebre para muitos. Numa época riscada pelo «Lápis Azul», Manuel Nunes da Fonseca adota o pseudónimo de Mário Castrim para esconder a sua identidade

Mário Castrim nasceu Manuel Nunes da Fonseca, em Ílhavo, a 31 de julho de 1920.

Casado com a escritora e jornalista Alice Vieira, o casal teve uma filha, Catarina, que mais tarde assinaria os seus livros como Catarina da Fonseca.

A carreira jornalística de Mário Castrim teve início em 1965, no Diário de Lisboa.

Logo começou a criticar a fraca prestação da televisão da altura, facto que o fez inaugurar um novo estilo no jornalismo português: a crítica televisiva.

Mais tarde, após o encerramento do Diário de Lisboa, trabalharia no semanário Tal & Qual, onde iria manter a página «Canal da Crítica» durante vários anos.

Mário Castrim tornava-se o primeiro crítico de televisão em Portugal.

Pioneiro nesta área, Mário Castrim foi o primeiro a reconhecer a qualidade de certos programas, como a história de José Hermano Saraiva ou «Nós, as mulheres», onde o crítico falou de uma «rapariga de olhos rasgados» (Maria de Lurdes Modesto) afirmando: «Finalmente apareceu alguém que sabe como se fala em televisão».

Uma carreira multifacetada

Militante comunista, Mário Castrim colaborou ainda com o jornal Avante!, onde revelou uma outra faceta que ele próprio subvalorizava: a de grande poeta.

Professor, jornalista, escritor, dramaturgo, crítico literário e televisivo, Mário Castrim era um intelectual multifacetado.

Em 1963 criou o Diário de Lisboa – juvenil, um suplemento onde se formaram grandes nomes de intelectuais, escritores ou jornalistas.

O jornalista cedo conquistou o público infantil. Escreveria diversos livros infantis e juvenis, assim como peças de teatro.

Na revista juvenil Audácia, dos Missionários Combonianos, Mário Castrim muitas vezes abordou o papel da televisão no quotidiano dos jovens e crianças.

Mais tarde, estas crónicas foram compiladas e editadas nos livros O Lugar do Televisor.

As suas crónicas, não apenas as dirigidas ao público jovem, eram mordazes, implacáveis e mobilizadoras.

O seu nível de exigência quanto à televisão, no seu papel de crítico televisivo, valeu-lhe a fama de intolerante.

Intolerante ou não, Mário Castrim imortalizou o seu nome no jornalismo.

Morreu a 15 de outubro de 2002.

Numa época em que poucos se atreviam, o jornalista e cronista desbravou caminho e fundou a crítica televisiva, um estilo novo na altura, e tão comum nos dias de hoje.

«Mário Castrim foi o mestre que ensinou milhares de pessoas a olhar para o pequeno ecrã de outra maneira. Ele não só era o mais antigo crítico, como foi o seu mentor. Foi ele que inaugurou este estilo no jornalismo português, porque antes não havia ninguém a fazer crítica de programas televisivos».

Jorge Leitão Ramos

Norberto Lopes

Assina a reportagem sobre a primeira travessia aérea do Atlântico do Sul já estando a trabalhar no Diário de Lisboa e refunda A Capital. Apenas dois pormenores de uma vida repleta de estórias

Depois de dar cartas n’ O Século, onde faz parte do quadro redatorial com apenas 18 anos, Norberto Lopes assina, a 19 de abril de 1922, a reportagem sobre a primeira travessia aérea do Atlântico do Sul já estando a trabalhar no Diário de Lisboa. Estão dados os primeiros passos de uma carreira em pleno.

Sobre esta reportagem, Norberto revelou, aos 83 anos, numa entrevista: «devo dizer que o homem da travessia não foi Gago Coutinho, a quem ouvi, há poucos dias, chamar na televisão o primeiro aviador português. Ele nunca foi aviador, mas sim Sacadura Cabral, que está injustamente esquecido».

Jornalista de têmpera transmontana, Norberto Lopes nasceu no Vimioso, a 30 de setembro de 1900.Trocou o Direito pelo Jornalismo porque, como o próprio sublinhou, «um jornalista digno desse nome está sempre no encalço com a verdade».

O repórter de Guerra

Em 1936, já como Chefe de Redação do Diário de Lisboa, Norberto Lopes tornou-se no primeiro repórter português na Guerra Civil Espanhola. De Espanha para Lisboa chegou o relato que mostrou, desde logo, peripécias na viagem.

«A greve geral ferroviária que nos retém é um sintoma concludente de que a situação não se apresenta inteiramente favorável ao Governo».

Depois da viagem, negociada a ferros com os taxistas Norberto Lopes consegue, finalmente chegar a Madrid. As comunicações estavam interrompidas, com telégrafo, telefone e correio cortados. Assim que consegue, o repórter enviou um telegrama que descrevia as gentes madrilenas:

«A povoação tinha uma fisionomia pitoresca e inédita. Grupos armados percorriam as ruas, defendiam a entrada da vila em trincheiras cavadas à pressa e protegiam o “ayuntamiento”, onde dava ordens o Comité Revolucionário».

Posteriormente, embrenhado nas teias bélicas, Norberto nota a censura que se fazia sentir de ambos os lados das barricadas:

«Se a censura de Madrid é rigorosa e deixa apenas filtrar para o estrangeiro as notícias que lhe convém, a censura dos revoltosos não é menos apertada e opõe-se, sobretudo, a transmissão de notícias que possam prejudicar as operações militares, o que até certo ponto se compreende», escrevia, a 3 de agosto de 1936.

Entre perseguições e ameaças de prisão, Norberto testemunhou um assalto ao “ayuntamiento”, escondido detrás de uma esquina:

«Assisti, à luz dos candeeiros que iluminavam o cenário dramático da luta, a um combate desigual. (…) Metralhadoras e granadas de mão crivavam o edifício de chagas sangrentas e abria na noite um leque de luz (…) Não tardou muito  que os sitiados pedissem a paz. Uma dúzia de comunistas foram saindo lentamente do edifício, de mãos no ar e de olhos espavoridos. A certa altura, um deles destacou-se do grupo e tentou a fuga.  – Alto! Alto! Alto! À terceira vez, partiu um tiro. O pobre rapaz caiu redondo».

Por fim, o tiroteio terminou e o repórter confessou: «Tive a sensação de ter acordado de um terrível pesadelo e de que me encontrara, subitamente, à beira de um abismo».

José Estevão, jornalista d’A Voz e rapaz da Arcada – «jornalista» que recolhia informações juntos dos ministérios – para o Diário de Lisboa, recordou que Norberto Lopes apesar de há época ser o diretor do DL nunca usufruiu do gabinete que essa condição lhe conferia.

«Mesmo depois de ser diretor, nunca deixou de estar na redação do jornal. Nunca ocupou, nem por um dia, o gabinete de Diretor, que era a melhor sala do edifício.»

Estevão acrescenta ainda que Norberto o aliciou mais que uma vez a convencer o Padre Dinis da Luz, da seção internacional d’A Voz, «a vir para o Diário de Lisboa». «Ele admirava-o pelo facto de numa só página condensar a informação religiosa que chegava do estrangeiro».

As queijadas de Sintra

Entre O Século e o Diário de Lisboa, Norberto Lopes passou pelo Domingo Ilustrado, onde as suas crónicas divertiam quem as lia. Uma delas, a 25 de setembro de 1927, foi sobre Sintra, ou melhor, sobre as Queijadas de Sintra.

«Há a água de Sintra, o Paço de Sintra, o Palácio de Sintra, a Serra de Sintra – e as Queijadas de Sintra.

Nem todas as pessoas que vão á vila nobre bebem água da Sabuga ou da Passarinhos, nem todos sobem à Pena, entram no Paço de D.João I e dão a volta ao Parque.

Mas ninguém deixa de comer as queijadas. As queijadas são o símbolo de Sintra mais transparente de verdade. A única cousa mesmo, a única, que se traz para Lisboa, a única que irradia nas cidades e é copiada, plagiada, limitada, especulada.

Em verdade, nós gostamos tanto das queijadas, somos filhos da Matilde. A Matilde é que noz faz gulosos; a Matilde é que nos dá a recordação transitória de Sintra. A Matilde é que, por pouco dinheiro nos defende muitas vezes quando a gente diz que foi a Sintra passar a tarde, que perdeu o último comboio, que teve de lá ficar.

-Toma filho! Aqui estão as queijadas».

N’A Capital

Depois de uma saída atribulada do Diário de Lisboa, Norberto Lopes, juntamente com Mário Neves e outros jornalistas dessa redação, recriou A Capital, cuja primeira série tinha sido extinta aquando da instituição da Ditadura Militar. Esta «Continuidade» foi explicada no editorial.

Segundo o antigo jornalista d’A Capital, Daniel Ricardo, a saída de Norberto Lopes do Diário Lisboa teve que ver com um bilhete na primeira página titulado «Conversa Fiada», numa alusão a uma das «Conversas em Família», do então chefe do Governo, Marcelo Caetano, na RTP.

As espirituosas «Nota do Dia», como alguns chamavam contavam nas entrelinhas aquilo que a Censura ameaçava cortar.

Numa entrevista feita pela jornalista Maria Augusta Silva, em 1984, Norberto confessou o sucesso desta rubrica:

«Limitou-se a ser uma rubrica bem-humorada, mas sempre fácil em tempo de Censura, que me trouxe numerosos leitores. É curioso e lisonjeiro para mim que, ainda hoje, muitas pessoas me falem de uma ou de outra que lhes deu gosto e sei de algumas que as colecionaram».

Na mesma entrevista acrescentou que se escrevesse «agora uma [Nota do Dia] teria de voltar atrás e escrever, outra vez, nas entrelinhas. Os tempos, porém, mudaram e agora não são propícios a dizer aquilo que na realidade pensamos sem uma espécie de autocensura».

Em 1968, Norberto foi premiado pelo Sindicato dos Jornalistas com o «crachá» de ouro, devido à sua persistência na conquista progressiva da independência dos jornalistas.

A sua luta diária com a Censura era conhecida no meio. Aliás, questionado sobre este assunto, admitiu que «os censores não me retiraram anos de vida. Roubaram-me muitas horas de trabalho, embora lutar contra a Censura fosse também trabalho útil» e ainda acrescenta que «a liberdade de imprensa foi a maior conquista da Revolução de Abril».

O primeiro número d’A Capital vendeu cem mil exemplares, correndo tudo bem até 1970. Mais jornalistas e máquinas de escrever para a redação refletiam o bom momento.

Depois, em 1971, deu-se uma profunda alteração, provocada pela quebra de vendas. Marcelo Caetano, então primeiro-ministro, conversava com um seu parente, Manuel Espírito Santo administrador do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa:

«Toda a imprensa da manhã nos apoia; desgraçadamente, os vespertinos são contra nós. A Capital está numa situação de pré-falência. Peço-lhe que a compre e a faça seguir uma linha editorial semelhante à da Época» [jornal afeto ao partido único, que apoiava Caetano].

Em 1971, Norberto Lopes foi substituído na direção d’A Capital por Manuel José Homem de Mello.

Dez anos após ter deixado a direção do jornal Norberto Lopes escreveu: «Fundada por dez profissionais, A Capital podia considerar-se uma sociedade de redatores, uma espécie de cooperativa, como até então nunca existira nenhuma entre nós». Por conseguinte, A Capital ficou conhecida como a primeira publicação a eleger um conselho de redação, tornando-se espaço de debates sobre a ética da profissão.

Após deixar a direção d’A Capital, Norberto Lopes sem deixar de redigir textos, dedicou-se à literatura e publicou alguns livros relacionados com a sua carreira como por exemplo, A Magnífica aventura de Gago Coutinho e Sacadura Cabral (1978) que recorda a sua primeira reportagem no Diário de Lisboa.

Contudo, também escreveu sobre o que interferiu no livre exercício da profissão – «Visado pela Censura: A Imprensa, Figuras, Evocações da Ditadura à Democracia (1975)».

Um ano depois do Incêndio do Chiado, Norberto Lopes dividiu capa com esta efeméride no Diário de Lisboa.

O fundador, diretor mas acima de tudo, o repórter morreu a 25 de agosto de 1989, em Linda-a-Velha.

Para a História fica a recordação da árdua luta que Norberto travou em prol da evolução e sedimentação dos valores da profissão. Martinho Simões, jornalista, chamou-o de «Sacerdote do Jornalismo» e outros nomeavam-no de Doutor Norberto Lopes.