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News Standard

180 – Coreia do Norte

A República Popular Democrática da Coreia (RPDC), um dos regimes mais autoritários do mundo, controla rigidamente as notícias e proíbe estritamente o jornalismo independente.

A República Popular Democrática da Coreia (RPDC), um dos regimes mais autoritários do mundo, controla rigidamente as notícias e proíbe estritamente o jornalismo independente.

A Agência Central de Imprensa da Coreia (KCNA), porta-voz oficial do governo, é a única fonte autorizada de informação para a imprensa na Coreia do Norte. O regime controla rigidamente a produção e distribuição de informações e proíbe estritamente o jornalismo independente. Algumas agências de notícias estrangeiras, como Agence France-Presse (AFP) e Kyodo News, estão oficialmente presentes no país, mas operam sob estreita vigilância, o que prejudica a sua capacidade de reportagem.

Kim Jong-un, filho e neto dos falecidos ditadores Kim Jong-il e Kim Il-sung, é o líder supremo de um regime totalitário que baseia o seu poder na vigilância, na repressão, na censura e na propaganda. Ele garante pessoalmente que a imprensa transmita apenas conteúdo que glorifique o partido, o exército e a si mesmo.

O artigo 67 da constituição norte-coreana prevê a liberdade de imprensa, mas o regime desrespeita sistematicamente este princípio.

A economia da Coreia do Norte é centralizada e planeada, mas, após uma série de problemas de gestão económica ao longo dos últimos anos, o Estado teve de diminuir o seu controlo sobre a economia privada. Mais de 400 mercados privados (jangmadang) desenvolveram-se pelo país, facilitando a transmissão de informações entre os cidadãos. Filmes e séries de TV sul-coreanos, muito populares, são disseminados através de pendrives, apesar das graves sanções que se aplicam a pessoas que sejam apanhadas em flagrante delito de consumo de informações externas.

O regime permitiu o uso generalizado de telemóveis, incluindo smartphones, mas desenvolveu técnicas que permitem o controle quase absoluto das comunicações dentro da intranet nacional. O simples facto de consultar um meio de comunicação baseado no estrangeiro pode levar a uma estadia num campo de concentração.

Devido ao desejo do regime de se isolar completamente do mundo, jornalistas foram presos, deportados, enviados para campos de trabalhos forçados e mortos por se desviarem da narrativa do partido. Em 2017, o governo chegou a condenar jornalistas sul-coreanos à morte à revelia por meros comentários sobre a situação económica e social do país.

A chama do dragão nortenho

Dos rivais em campo aos árbitros, passando pelo poder político e pela seleção nacional. Há mais de 30 anos na presidência do Futebol Clube do Porto, Pinto da Costa coleciona títulos e controvérsias

Os adeptos entoam o seu nome, as suas palavras fazem primeiras páginas, o seu rosto torna-se no símbolo de um clube. Pinto da Costa não marca golos, não joga à baliza nem a número 10, mas é a referência maior do Futebol Clube do Porto. Há mais de três décadas ao leme dos dragões, o líder azul e branco soma títulos… e polémicas.

Do alto da tribuna do estádio do Dragão, de gravata azul e olhos no campo, Pinto da Costa assiste a mais uma partida do «seu» Futebol Clube do Porto. Dentro das quatro linhas estão mais do que 22 jogadores; está um clube cuja mística já se confunde com o seu próprio nome.

Mais de 30 anos de presidência, mais de 30 anos de vitórias – e alguns desaires –, mais de 30 anos de controvérsia. Pinto da Costa é uma figura incontornável do futebol português.

O dragão levanta voo

No início dos anos 70, a secção de hóquei em patins do Futebol Clube do Porto ganhava um novo chefe. Jorge Nuno Pinto da Costa, então com 35 anos, integrava oficialmente a estrutura do seu clube de sempre. Mudou-se para o futebol em 1976 e demorou apenas duas épocas a conquistar o título nacional, que escapava aos dragões desde 1959. Tinha início uma nova era no Futebol Clube do Porto.

Com oito anos, assistiu ao seu primeiro jogo no Campo da Constituição, um FC Porto x Sporting de Braga. Aos 16 anos, em dezembro de 1953, tornou-se sócio do clube azul e branco.

Pinto da Costa foi eleito presidente do Futebol Clube do Porto a 17 de abril de 1982, tornando-se o 33.º líder dos azuis e brancos.

Presidente há mais de três décadas, detém o recorde do mais longo mandato à frente de um clube em Portugal.

Idolatrado pelos adeptos, Pinto da Costa tornou-se o rosto do orgulho portista. Sob a sua alçada, o clube tornou-se numa das grandes referências internacionais do futebol luso.

A sua liderança carismática revolucionou o desporto nacional; uma revolução que não passou despercebida a Lennart Johansson, ex-Presidente da UEFA: «o mapa do futebol português foi virado de pernas para o ar».

Durante a sua presidência, o Futebol Clube do Porto conquistou mais de 50 títulos no futebol, incluindo duas Taças dos Clubes Campeões Europeus/Liga dos Campeões (1987 e 2004), duas Taças UEFA/Liga Europa (2003 e 2011) e uma Supertaça Europeia (1987).

Só Campeonatos Nacionais, já venceu 18, cinco dos quais consecutivos, um feito inédito em Portugal. É o presidente com mais títulos conquistados no futebol mundial.

A A1 do desporto-rei

«Lisboa não pode continuar a colonizar o resto do País. O desejo deles é que o FC Porto desça de divisão». As palavras de Pinto da Costa ilustram a rivalidade – mais antiga e profunda do que o futebol – que divide norte e sul do país, ilustrada num clássico centenário: FC Porto vs. Sport Lisboa e Benfica.

A relação de Pinto da Costa com o presidente dos encarnados, Luís Filipe Vieira, começa até com algo em comum: o cartão de sócio do Futebol Clube do Porto.

«Toda a gente sabe […] que tivemos uma relação de amizade, que ele ia festejar as vitórias do Porto», recorda o líder dos dragões.

O presidente dos encarnados retalia: «Não preciso do Benfica para viver, o engenheiro-chefe […] precisa desse clube para viver e para não ser engavetado».

Relações tensas – sempre tensas –, mas que atingiram um novo pico na época 2010/2011, quando o FC Porto conquistou o campeonato nacional no estádio da Luz. «Foi diferente porque eu nunca tinha festejado um título às escuras», declarou Pinto da Costa.

Luís Filipe Vieira respondeu, acusando o FC Porto de ter uma história feita de «corrupção e compadrio». Pinto da Costa voltou a provocar, manifestando o desejo de manter o estádio da Luz como o salão de festas dos dragões.

Domar o leão, amansar a pantera

Do outro lado da Segunda Circular, Sporting Clube de Portugal completa a trilogia dos grandes do futebol português e é outro dos principais adversários do FC Porto, dentro e fora de campo.

A chegada de Bruno de Carvalho à presidência dos leões, em 2013, trouxe novos contornos a uma relação já de si pouco amigável.

João Moutinho, jogador formado no Sporting e transferido para o Futebol Clube do Porto, esteve no epicentro da polémica.

A venda do médio ao Mónaco por 25 milhões de euros motivou uma troca de galhardetes entre os dois presidentes.

«Considerar que […] o vendemos por mais do dobro, a “maçã podre” transformou-se numa maçã bastante apetecível», considerou Pinto da Costa.

Bruno de Carvalho afirmou que o líder azul e branco estava a perder capacidades. «O Sporting não conhece muito frutas, […] agora há uma coisa que nós temos a certeza absoluta: é que não somos bananas».

A norte, Pinto da Costa também coleciona inimizades, protagonizando uma rivalidade centenária com o Boavista FC. «Há gente que está a mais no futebol e deve cumprir aquilo que faz e deve realmente abandoná-lo», atirou o presidente azul e branco. João Loureira, líder do Boavista, não deixou a coisa por menos. «Penso que será talvez a pessoa em Portugal que mais fala do Boavista; deve ser o senhor Pinto da Costa».

O dragão e as quinas

A relação de Pinto da Costa com a Seleção Nacional também não é pacífica. O caldo entornou quando o então selecionador nacional Luiz Felipe Scolari não convocou o guarda-redes do FC Porto, Vítor Baía, para o Euro 2004, uma decisão muito contestada.

Anos depois, o técnico brasileiro revelou que Pinto da Costa tinha uma palavra a dizer sobre as escolhas para a Seleção Nacional. «Toda a gente sabe que ele tem grande influência. […] Ele pode opinar sobre um ou outro jogador», explicou.

A polémica manteve-se quando Paulo Bento ocupou o cargo de selecionador nacional.

Pinto da Costa comentou a forma física dos jogadores do Futebol Clube do Porto utilizados na equipa das quinas.

«Quem faz o onze na Seleção Nacional sou eu e mais ninguém. […] Quem não quiser, não entende e continuará a debitar as suas postas de pescada», respondeu Paulo Bento, em conferência de imprensa.

A Federação também não escapou à língua aguçada de Pinto da Costa. O presidente acusou o organismo de causar adversidades aos clubes: «A Federação anda atrás de dinheiro […] e depois leva-nos os jogadores em altura crucial».

Farpas, acusações, indiretas e bate-bocas; mesmo fora das quatro linhas, Pinto da Costa tem a tática bem estudada.

Sanitas, rios… e apitos

Uma liderança icónica, uma presença carismática e uma comunicação peculiar. Falar de futebol português é, obrigatoriamente, falar de Pinto da Costa.

E já assim era em 1995. O líder azul e branco esteve envolvido num dos mais polémicos casos de penhoras a clubes de futebol por dívidas ao Fisco. Uma penhora que envolvia, entre outros bens… a retrete da cabina do árbitro.

«Se me disser assim: o Professor Cavaco Silva e este Governo vai governar mais quatro anos, eu digo-lhe: é uma catástrofe», atacou o líder dos azuis e brancos.

Numa conferência de imprensa repleta de adeptos, o dragão cuspiu fogo: «O que se quer atingir é, se calhar, um dos últimos baluartes do norte do país».

Depois da vitória do Futebol Clube do Porto na Taça dos Campeões Europeus, em 1987, o então Primeiro-Ministro Cavaco Silva terá afirmado que «o País devia ser gerido à imagem do FC Porto».

O «centralismo» do futebol português é, aliás, tema recorrente dos ataques de Pinto da Costa. «É no poder local que nós temos de fazer a resistência com um centralismo cada vez mais absurdo», acusou o líder azul e branco.

Mas a sua própria relação com o poder local é tudo menos pacífica. Rui Rio, à época presidente da Câmara Municipal do Porto, não foi convidado para a inauguração do Estádio do Dragão.

«O único rio que nós respeitamos é o rio Douro, os outros não conseguem alagar-nos nem conseguem sequer molhar-nos os pés», afirmou o líder dos azuis e brancos.

Pinto da Costa inspirou uma das mais populares personagens do programa humorístico «Contra Informação», transmitido na RTP1.

Outro dos alvos preferenciais de Pinto da Costa é, como não podia deixar de ser, a arbitragem: «Agora os árbitros podem pôr as leis no bolso e não as aplicar», disparou o presidente do FC Porto.

A arbitragem deixou, aliás, uma nódoa na sua presidência. Pinto da Costa foi constituído arguido no caso Apito Dourado, um processo de investigação sobre a corrupção de árbitros e dirigentes do futebol português. Acabou por ser absolvido.

A Justiça pode ter arquivado o processo, mas o sistema mediático ainda não o esqueceu. O caso adquiriu contornos novelescos com o envolvimento de Carolina Salgado, ex-companheira de Pinto da Costa.  Violência, suborno, sexo, todos os ingredientes que transformaram a trama em estória de primeira página e abertura de noticiário. A obra «Eu, Carolina», tornou-se um sucesso de vendas e virou filme.

O sotaque do norte, a linguagem expressiva, as expressões suis generis e o soundbite na ponta da língua tornam o líder azul e branco numa das principais figuras do desporto em Portugal.

Um dragão cujas garras deixaram a sua marca no sistema mediático nacional.

Super Bowl

É o campeonato da principal liga de futebol americano dos Estados Unidos, que decide o campeão da temporada. Disputada desde 1967, é também um evento que apresenta a publicidade mais cara da televisão devido às audiências que alcança.

114,4 milhões de espetadores televisivos. Mais de 10 mil milhões de dólares em receitas cada época. Mais de 68 mil espetadores por jogo. Cerca de quatro horas de emissão televisiva. Este é o Super Bowl.

«Em poucas palavras: o que é o Super Bowl? Simplesmente a aposta mais segura da indústria da comunicação». O Super Bowl é o evento desportivo de referência nos EUA. Mas o que o fez tornar-se um sucesso ao ponto de virar feriado não oficial?

Ao combinar os media com os desportos de massas e o entretenimento, o Super Bowl tornou-se num verdadeiro império mediático.

O jogo foi criado a partir de um acordo de fusão entre a National Football League (NFL) e a American Football League (AFL). As equipas campeãs de cada liga jogariam uma contra a outra no AFL–NFL World Championship Game até se dar a fusão em 1970.

Após a fusão oficial, cada liga foi renomeada por «conferência», e o jogo tem sido jogado, desde aí, entre as equipas campeãs de cada conferência, para determinar o campeão da liga NFL.

Até agora, a National Football Conference (NFC) lidera a liga com 26 vitórias, enquanto a American Football Conference (AFC) detém 23 vitórias.

O campeão das competições

Nos seus primeiros oito anos, o Super Bowl ultrapassou o Kentucky Derby, um evento com mais de 100 anos, e a World Series, cuja existência remonta a 70 anos. Torna-se, assim no espetáculo de desporto número 1 dos EUA.

Chamado de Super Bowl Sunday, este jogo é o dia de maior consumo alimentar nos EUA. Em primeiro lugar encontra-se o feriado Thanksgiving (Dia de Ação de Graças).

Enquanto grande espetáculo que é, o Super Bowl é o evento mais visto em toda a televisão norte-americana, batendo recordes todos os anos. Só em 2015, o Super Bowl XLIX deteve uma audiência de 114,4 milhões de espetadores. Apesar de a UEFA Champions League obter o maior número de audiências, só ultrapassa o Super Bowl por uma pequena margem.

Devido aos grandes números de telespetadores, o tempo publicitário durante o Super Bowl é o mais caro do ano, chegando a ultrapassar o preço da publicidade na cerimónia dos Óscares da Academia.

Em 2015, um anúncio no intervalo do Super Bowl custava 4.5 milhões de dólares por 30 segundos de exposição. Uma quantia que aumenta todos os anos. Por exemplo, em 1967, no primeiro jogo de sempre, o mesmo espaço de publicidade custava 42 mil dólares.

Todavia, apesar dos números exorbitantes do Super Bowl para os anunciantes, as marcas e as empresas continuam a pagar de bom grado este espaço publicitário.

A verdade é que o Super Bowl não se trata apenas de um evento desportivo. É um espetáculo, que para além de juntar as massas do desporto, já conseguiu apelar multidões pela sua grande aposta no entretenimento. Durante o intervalo que marca a metade do evento – o conhecido halftime show – o Super Bowl convida as maiores celebridades da música para atuarem num espetáculo único.

Destas estrelas incluem-se Michael Jackson, Madonna, Prince, The Rolling Stones, The Who, Whitney Houston, entre muitos outros.

Esta grande cerimónia celebra a ligação do evento à cultura pop, igualmente numa tentativa de atrair uma maior audiência televisiva de espetadores. Tal como no jogo em si, o espetáculo foi visto por cerca de 118,5 milhões de espetadores em 2015.

Um dos espetáculos que ganhou mais atenção mediática foi, sem dúvida, o do Super Bowl XXXVIII, em 2004. Justin Timberlake e Janet Jackson atuavam durante o intervalo do jogo quando o inesperado aconteceu. Numa proeza mal calculada, Timberlake retira parte da roupa de Jackson e muito mais é revelado do que o sutiã da cantora.

Ainda que o incidente tenha sido transmitido pela CBS em menos de um segundo, a controvérsia ficou instalada. A Federal Communications Comission (FCC) multou a CBS em 550 mil dólares, um recorde nunca antes atingido.

Depressa a discussão sobre a indecência na televisão e a censura foi trazida ao de cima. Enquanto uns defendiam a ação da FCC, outros ridicularizavam o incidente e não lhe atribuíam importância. O aparato foi tanto, que o incidente foi denominado de «Nipplegate». O processo foi a tribunal, tendo sido anulado só em 2011.

Estima-se que 70 % dos norte-americanos sejam fãs de futebol americano, e que metade dessa percentagem constitui os verdadeiros fanáticos da modalidade. Em média, estes adeptos dedicam mais de nove horas semanais à NFL, para além de levarem o desporto muito a sério. Trocando por miúdos: o Super Bowl é um produto blockbuster que qualquer marca ou produtora deseja.

Podemos perguntar-nos qual a chave de todo este sucesso e como a NFL tem crescido ao longo dos anos. Imagine a dimensão do evento que é o Super Bowl. Lotação esgotada, multidões em euforia, adultos, crianças, jovens, idosos… Todo este aparato acompanha uma grande logística atrás do evento.

A NFL escolhe antecipadamente qual a cidade que irá receber cada jogo, e uma panóplia de eventos e atividades patrocinadas toma conta do espaço 10 dias antes do domingo de jogo, atraindo turistas, adeptos e locais. Portanto, um evento muito para além do jogo em si.

Nos dias antecedentes ao dia do jogo, as cidades-sede do Super Bowl tornam-se um paraíso para as empresas e marcas, ávidas por promover e vender os seus produtos.

Nesta poderosa dependência entre as marcas e a NFL, a liga norte-americana é tudo menos inocente. Sistematicamente acusada de fazer os pedidos mais extravagantes às cidades-sede, a NFL força o governo a pagar todos os custos envolvidos na logística do evento, para além da construção e reforma dos estádios particulares.

Em troca, a liga de futebol americano promete benefícios económicos superiores a 600 milhões de dólares para a cidade-sede. Talvez a atração mais flagrante de todo o aparato mediático à volta do Super Bowl seja o Media Day.

Dias antes do grande jogo de domingo, a NFL realiza o Media Day, sempre patrocinado por uma marca, destinado para os jornalistas… e não só. Bilhetes são vendidos aos adeptos para assistirem ao evento, ou seja, paga-se uma quantia para se verem os jornalistas a trabalhar.

Neste dia, os órgãos de comunicação social estão todos presentes, onde lhes são concedidas entrevistas com os jogadores. Os adeptos assistem a todo o tumulto, e são-lhes ainda entregues brindes e prémios, alimentando ainda mais o ciclo da poderosa máquina atrás da NFL e do Super Bowl.

Os percalços do branding

No entanto, nem tudo são rosas nesta indústria do desporto, e a NFL já teve a sua dose de crises de branding. Em 2014, a liga viu a sua popularidade baixar devido a uma série de escândalos envolvendo muitos dos seus jogadores.

A 15 de fevereiro de 2014, Ray Rice vê-se envolvido numa discussão com a sua noiva em Atlantic City, que escalou rapidamente para uma agressão. Quatro dias depois, a TMZ revela um vídeo de segurança que captou a cena: o jogador da NFL agride Janay Palmer com um único murro, deixando-a inconsciente no chão. Os media entraram num frenesim. Durante meses o caso foi largamente discutido.

Entretanto, a NFL anuncia que o jogador é suspenso por dois jogos. As pesadas críticas não demoraram a chegar.

Roger Goodell, comissário da liga, foi atacado em todos os ângulos, assim como o papel da NFL durante todo o processo. Nas redes sociais, a organização UltraViolet, que protege os direitos das mulheres e defende a igualdade de géneros, chegou a criar a hashtag #Goodellmustgo.

A 28 de agosto, a NFL divulga uma nova política mais rígida para violência doméstica e outro tipo de conduta violenta.

Apesar de Janay Palmer defender o jogador durante uma conferência de imprensa e de Ray Rice ter emitido um pedido de desculpas, a opinião pública não esqueceria este episódio.

No mesmo ano, apenas meses depois do escândalo de Ray Rice, outro jogador da NFL, Adrian Peterson, é acusado de violência doméstica contra o filho.

O alegado incidente teria ocorrido em maio, mas o jogador só se entregou às autoridades a 13 de setembro. Supostamente, a NFL já teria sabido do sucedido há algum tempo, o que voltou a levantar ondas contra as ações da liga e do seu comissionário, Roger Goodell.

Apesar de Janay Palmer defender o jogador durante uma conferência de imprensa e de Ray Rice ter emitido um pedido de desculpas, a opinião pública não esqueceria este episódio.

No mesmo ano, apenas meses depois do escândalo de Ray Rice, outro jogador da NFL, Adrian Peterson, é acusado de violência doméstica contra o filho.

O alegado incidente teria ocorrido em maio, mas o jogador só se entregou às autoridades a 13 de setembro. Supostamente, a NFL já teria sabido do sucedido há algum tempo, o que voltou a levantar ondas contra as ações da liga e do seu comissionário, Roger Goodell.

Em média, quase 30 jogadores são presos por temporada, por crimes que variam entre a condução sob o efeito de álcool ou drogas, agressão, assassínio e até falsa ameaça de bomba.

Ray Rice e Adrian Peterson foram apenas dois exemplos que levaram ao cancelamento de contratos milionários de patrocínio.

Sejam bons ou maus motivos, a NFL faz sempre capa nos jornais norte-americanos. E apesar de todos os escândalos e algumas campanhas de ódio contra certos atletas polémicos, a NFL acaba sempre por ganhar uma enorme visibilidade no contexto mediático. Consensual ou controversa, a liga americana manter-se-á na ribalta.

A NFL ganhou o seu lugar de destaque na cena mediática com o grande jogo que finaliza as temporadas do futebol americano. Este sucesso deve-se, em parte, à imensa popularidade da modalidade nos EUA, e às multidões que esta arrasta consigo. Contudo, a aposta da NFL no entretenimento e nos media, englobando um verdadeiro recinto de atividades apelativas que constrói uma efervescente antecipação ao jogo de domingo, fez deste evento um dos mais rentáveis de sempre.

Atraindo uma nação inteira e criando uma capacidade muito própria de fusão entre media, empresas, marcas, fãs, adeptos e celebridades, o Super Bowl tornou-se um autêntico fenómeno.

Os Influenciadores Anónimos

São os protagonistas de uma das indústrias mais influentes do nosso Mundo e, no entanto, a sua notoriedade é muito baixa. Descubra os principais especialistas das Public Relations. Conheça os seus pensamentos e analise as contribuições para o Conselho em Comunicação

James E. Grunig

James E. Grunig é Professor Emérito do Departamento de Comunicação da University of Maryland. Ao longo da sua carreira, publicou mais de 250 artigos, livros, capítulos e relatórios e foi galardoado pela Public Relations Society of America e pelo Institute for Public Relations Research.

Entre as suas contribuições para a área encontram-se o modelo das Relações Públicas em quatro etapas.

Scott M. Cutlip

Scott Cutlip foi pioneiro na área do ensino das Relações Públicas. É autor de diversas obras de destaque, nomeadamente Effective Public Relations (com Allen H. Center), The Unseen Power e Public Relations History.

A University of Wisconsin–Madison, onde ensinou durante mais de 20 anos, criou uma bolsa de estudo em seu nome.

Al Ries

Al Ries é considerado  um dos mais influentes nomes das RP do século XX. O seu conceito de «posicionamento» revolucionou o mundo do marketing e da publicidade.

As suas obras, incluindo Positioning, Marketing Warfare, Focus, The 22 Immutable Laws of Branding, The Fall of Advertising & the Rise of PR e War in the Boardroom, já venderam mais de três milhões de cópias em todo o mundo. Foi galardoado pela Sales & Marketing Executives International e pela PRWeek.

Laura Ries

Laura Ries destaca-se nas áreas de estratégia de marketing e consultoria. Em 1994, fundou, juntamente com o seu pai, Al Ries, a agência Ries & Ries. Juntos, escreveram cinco bestsellers e realizaram trabalhos de consultoria em mais de 60 países.

Laura Ries participa, enquanto analista de marketing, em diversos programas televisivos e é autora do blogue RiesPieces.com.

W. Timothy Coombs

W. Timothy Coombs leciona na Nicholson School of Communication na University of Central Florida. Ao longo da sua carreira, já publicou diversos livros e mais de 40 artigos de pesquisa, a maioria dos quais focada na comunicação de crise.

A situational crisis communication theory é um dos seus contributos mais importantes para a área das Relações Públicas.

Allen H. Center

Allen H. Center foi um dos pioneiros do estudo das Relações Públicas. Escreveu, com Scott M. Cutlip, a obra Effective Public Relations, considerada o primeiro livro de estudo na área das RP.

Trabalhou, durante mais de 30 anos, na Motorola e lecionou na San Diego State University.

Glen M. Broom

Glen M. Broom já lecionou em várias instituições, entre as quais a San Diego State University (Estados Unidos) e a Queensland University of Technology (Austrália).

A sua contribuição para a área das Relações Públicas, em particular na obra Cutlip and Center’s Effective Public Relations, já lhe valeu várias distinções, nomeadamente do Institute for Public Relations Research and Education e da Public Relations Society of America.

Carl Botan

Carl Botan é Professor de Comunicação e Diretor do programa de Doutoramento em Saúde e Comunicação Estratégica da George Mason University. É coautor de cinco livros, dois dos quais foram galardoados.

Botan já escreveu diversos artigos para publicações de renome e participou em mais de 50 conferências internacionais por todo o mundo.

Michael Jay Polonsky

Michael Jay Polonsky lecionou em universidades de vários países, nomeadamente Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e Estados Unidos.

Em reconhecimento pela sua carreira de mais de 20 anos ao serviço do marketing ambiental, recebeu, em 2010, uma distinção da Society for Marketing Advances. Autor de mais de 140 artigos em publicações académicas, Polonsky coeditou diversos livros sobre a área e é presença assídua em conferências internacionais.

David Phillips

David Phillips é um profissional e autor reconhecido na área das Relações Públicas, sendo coautor da obra Online Public Relations.

Lecionou em instituições de referência no Reino Unido como a University of the West of England, a Gloucester University e a Bournemouth University.

Krishnamurthy Sriramesh

Krishnamurthy Sriramesh destaca-se pela sua contribuição para reduzir o etnocentrismo no campo das Relações Públicas, tendo lecionado em 10 universidades de quatro continentes.

É responsável por diversos artigos e obras, entre as quais Relations in Asia: An anthology. Em 2004, foi galardoado pelo Institute for Public Relations.

Michael L. Kent

Michael Kent leciona há mais de 20 anos no campo das Relações Públicas, sendo, atualmente, Professor na University of Tennessee Knoxville. Publicou dezenas de artigos e obras, bem como vários e-books.

Entre as suas áreas de investigação encontram-se as novas tecnologias, a comunicação mediada, o diálogo, a comunicação internacional e a comunicação na web.

Viegas Soares

José Viegas Soares ingressou na área de Relações Pública em 1975, quando integrou o Gabinete de Relações Públicas da CP. Foi ainda docente no INP- Instituto de Novas Profissões, entre outros cargos.

Em 1989 começou a lecionar na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), onde fundou o curso de Relações Públicas da escola. Em 2000, foi eleito Presidente do Conselho Científico da ESCS, tendo sido ainda responsável pela criação do curso de Audiovisual e Multimédia em 2002, pela adaptação das licenciaturas ao Processo de Bolonha e pela criação dos mestrados em 2007. Faz ainda parte do Board of Directors da EUPRERA.

Críquete – Índia vs. Paquistão

Um espetáculo desportivo que reúne mais de milhar de milhão de espetadores, Índia vs. Paquistão é uma rivalidade antiga, na qual desporto e diplomacia entram ambas em campo.

Um fenómeno de audiências, uma ferramenta de diplomacia, um espetáculo mediático. A rivalidade entre Índia e Paquistão no críquete é um dos acontecimentos desportivos de maior audiência em todo o mundo.

A 15 de fevereiro de 2015, mais de um milhar de milhão de pessoas assistiu ao confronto entre a Índia e o Paquistão no Campeonato do Mundo de Críquete.

A história não jogava a favor do Paquistão: as duas nações tinham-se defrontado por cinco vezes na prova e a Índia somava cinco vitórias.

A rivalidade entre os países era aguerrida, duradoura e alargava-se para fora da arena desportiva.

O conflito remontava a 1947. Com a independência da Índia britânica, foram criadas duas nações: a Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, de maioria muçulmana.

Apesar das diferenças entre os países, ambos continuam a ter algo em comum: do Reino Unido, Índia e Paquistão herdaram a paixão pelo críquete.

Nasce a rivalidade

Por altura da independência, Fazal Mahmood era um jogador muçulmano, que não queria deixar as difíceis relações entre as nações prejudicarem a sua carreira.

Nesse turbulento ano de 1947, viajou para a cidade indiana de Poona, para se juntar à equipa de críquete que preparava a sua digressão na Austrália.

As condições meteorológicas e o caos político ditaram o seu regresso a casa.

Por influência da sua religião e das divisões entre as nações, Mahmood foi pressionado pela família a retirar-se da equipa indiana.

O críquete do Paquistão encontrava, assim, uma das suas maiores estrelas.

Em 1952, Mahmood desempenhava um papel fundamental nos primeiros Tests disputados pela equipa nacional do Paquistão.

Um dos adversários era a formação indiana.

Apesar do esforço da equipa paquistanesa, os indianos acabaram por sagrar-se vencedores.

Tinha início uma rivalidade desportiva que se mantém até à atualidade.

A competição no campo funciona como uma parte pequena, mas profundamente simbólica, de uma rivalidade bem mais complexa, da qual nem os jogadores, nem os adeptos conseguem escapar.

A diplomacia entra em campo

Entre 1961 e 1978, não se registou qualquer partida entre os dois países. O confronto travava-se no campo de batalha, com a disputa de territórios de Caxemira.

O críquete ocupou um papel fundamental no pós-guerra. De símbolo da rivalidade, o desporto passou a ferramenta política.

Em 1987, o termo «diplomacia de críquete» ganhou popularidade.

O líder do Paquistão, Muhammad Zia ul-Haq, visitou a Índia para assitir a uma partida com o Primeiro-Ministro indiano, Rajiv Gandhi.

«O críquete para a paz é a minha missão», afirmou Zia ul-Hag, à chegada ao aeroporto. «O meu único objetivo é vir e ver bom críquete e, enquanto isso, encontrar-me com o Primeiro-Ministro e ver como podemos resolver os nossos problemas».

Se, na política, as rivalidades pareciam afastadas, no campo estas continuavam bem acesas.

Mohammad Azharuddin foi uma das figuras do encontro, que terminou com a vitória da Índia.

O jovem jogador fazia parte da minoria muçulmana que permanecera no país após a independência britânica.

Mas o líder militar paquistanês deixou a religião de lado, ao comentar, diplomaticamente, a sua performance: «É um bom jogador indiano, na Índia».

Em 2005, críquete e diplomacia voltaram a jogar-se no mesmo campeonato.

O Presidente Pervez Musharraf, do Paquistão, assistiu à partida entre as duas nações com o Primeiro-Ministro indiano, Manmohan Singh.

As tacadas diplomáticas não foram suficientes para garantir a vitória da paz.

Em novembro de 2008, uma ofensiva terrorista devastou, durante quatro dias, a cidade indiana de Mumbai.

O ataque foi alegadamente perpetrado por uma organização islâmica, que operava a partir do Paquistão.

A resposta diplomática do Governo indiano foi cancelar a digressão da equipa de críquete ao país vizinho.

O regresso às provas

As duas equipas defrontaram-se novamente em 2011, nas semifinais do Campeonato do Mundo.

O Primeiro-Ministro paquistanês, Yousuf Raza Gilani, assistiu à partida com o seu homólogo indiano, Manmohan Singh.

«Cricket has been a uniting factor, it has brought two Prime Ministers together and I dare say that’s a very good beginning» [«O críquete tem sido um fator de união, uniu dois Primeiros-Ministros e atrevo-me a dizer que esse é um bom começo»], afirmou Singh.

A partida foi esfuziante.

A Índia conquistou a vitória, mantendo o seu recorde de invencibilidade perante o Paquistão, em Campeonatos do Mundo.

Quatro anos depois, Índia e Paquistão voltavam a defrontar-se nesta prova.

A competição passou do campo… para a publicidade.

Nas semanas que antecederam o Campeonato do Mundo de 2015, o canal indiano Star Sports promoveu um anúncio sobre a partida.

Não se ficando, o paquistanês Samaa News, respondeu na mesma moeda.

A rivalidade também já invadiu a dimensão cómica da internet, com a rivalidade a dar origem amemes e cartoons.

A partida, a contar pra o Campeonato de Mundo de Críquete de 2015, conquistou uma audiência histórica, com ambos os países a pararem para assistir ao duelo de titãs.

A Índia manteve o seu recorde vitorioso, derrotando o Paquistão.

A rivalidade, essa permanece, tornando uma partida entre as duas nações num dos mais antecipados e seguidos confrontos desportivos em todo o mundo.

Índia e Paquistão, uma relação feita de altos e baixos.

Uma rivalidade onde o desporto anda de mão dada com a diplomacia.

Sangue. Suor. Sentença.

Marcaram golos, celebraram ensaios, quebraram recordes, encheram estádios. E estiveram no banco dos réus. Os desportistas que passaram a ser notícia pelo crime.

Os atletas que passaram a arguidos. Moveram multidões, pisaram as maiores arenas do mundo, conquistaram troféus e tornaram-se ídolos do mundo do desporto. Mas a sua carreira ficou manchada pelo crime.

O. J. Simpson

Estrela de Futebol Americano nos Bufalo Bulls

Acusação: Duplo homicídio

Veredicto: Absolvido

«An American Tragedy» [«Uma Tragédia Americana»].

A 27 de junho de 1994, O. J. Simpson fez capa da revista Time.

Duas semanas antes, o jogador de futebol americano tornara-se o principal suspeito do assassínio da sua ex-mulher e do alegado namorado desta.

Um crime que ficou, desde logo, marcado pela questão racial: as vítimas eram brancas e o suspeito um homem negro.

Um debate para o qual a Time contribuiu, ao escurecer a foto de Simpson utilizada na sua capa.

O contraste tornava-se ainda mais visível pelo facto da rival Newsweek ter publicado a imagem original.

A Time desculpou-se publicamente, mas tal não evitou as acusações de racismo.

A cisão racial gerada com este episódio marca a sociedade norte-americana até aos dias de hoje e integra a cultura popular do país.

Nova dose de controvérsia para um caso que já era considerado o “trial of the century”, reunindo uma atenção mediática sem precedentes.

A  17 de junho de 1994, 95 milhões de norte-americanos estavam colados à televisão.

Um Ford Bronco branco acelerava pelas estradas de Los Angeles. No banco de trás seguia O. J. Simpson, apontando uma arma à própria cabeça.

Considerado suspeito, o antigo jogador tornava-se protagonista de um dos mais icónicos momentos televisivos da história da televisão.

As principais emissoras nacionais interromperam a emissão para transmitirem em direto a perseguição.

Tal era o número de câmaras a acompanhar o carro que os sinais de diferentes televisões foram confundidos e transmitidos nas emissoras erradas.

A perseguição culminou com a chegada de Simpson à sua mansão, onde se rendeu e foi levado pelas autoridades.

Em conferência de imprensa, Robert Kardashian, um dos advogados de Defesa, leu uma carta na qual Simpson negava o seu envolvimento no caso e revelava tendências suicidas.

“First, everyone understand I had nothing to do with Nicole’s morder” [«Em primeiro lugar, percebam todos que não tive nada a ver com o assassinato da Nicole»].

Os americanos assistiram à sua participação no caso, ignorando que, 20 anos depois, a prole de Kardashian viria a reunir ainda mais atenção mediática que o próprio O. J. Simpson, tornando-se num verdadeiro fenómeno da cultura popular.

Antiga estrela do futebol americano no Bufallo Bulls, Simpson – apelidado “The Juice” – convertera-se em ator e comentador e era uma figura admirada pelos americanos.

Mas o público estava prestes a conhecer uma nova faceta da antiga estrela do desporto.

Em Tribunal, foi-lhe colocada a questão que toda a América tinha em mente.

Simpson foi perentório: “Absolutely, 100 percent not guilty” [«Absolutamente, 100 por cento inocente»].

Longe do campo de futebol, Simpson lutava agora pela mais importante vitória da sua vida: a liberdade.

Com o início do julgamento, as câmaras chegavam à sala do tribunal.

Fama, sangue, poder, violência… ingredientes irresistíveis para o público e, em consequência, para os meios de comunicação.

O “trial of the century” [«julgamento do século»] invadia os media norte-americanos.

A CNN terá dedicado um total de 900 horas de emissão ao caso.

Em junho de 1995, os olhos da América estavam em Simpson, quando o antigo atleta experimentou a luva alegadamente usada durante o crime.

“It makes no sense. It doesn’t fit. If it doesn’t fit, you must acquit” [«Não faz sentido. Não serve. Se não serve, devem absolver»], declarou o advogado de Defesa.

A acrescentar à polémica, foram levantadas dúvidas sobre a influência que a presença das câmaras no tribunal e atenção mediática tinham sobre os intervenientes no julgamento, em especial os jurados.

16 meses depois do início dos procedimentos legais, a América parava para escutar o veredicto.

A 3 de outubro de 1995, mais de 150 milhões de espetadores – 57% da população do país – viram Simpson levantar-se e virar-se na direção do júri, para escutar a sua decisão.

“We, the jury in the above entitled action, find the defendant, Orenthal James Simpson, not guilty of the crime of murder” [«Nós, o júri na ação acima intitulada, consideramos o réu, Orenthal James Simpson, inocente do crime de assassinato»] .

Do júbilo ao desespero, as reações por toda a nação refletiram a confiança na inocência – ou na falta dela – de O. J. Simpson.

474 dias depois, o antigo atleta voltava a ser um homem livre.

O veredicto – e as reações que este despoletou pela América fora – tornou ainda mais evidentes as divisões raciais do país.

“At least there was one moment of visible black-and-white unity last week. […] They were united, briefly, in an anxious silence of the heart. As soon as the verdict was read, however, they split apart; they could watch themselves do it on the split screens. On one side jubilation, on the other dismay” [“Pelo menos houve um momento de união visível entre broncos e negros, na semana passada. […] Estavam unidos, brevemente, num silêncio ansioso do coração. Contudo, assim que o veredicto foi lido, dividiram-se; podiam ver-se a si próprios a fazê-los nos split screens. De um lado júbilo, do outro desânimo»], escreveu a Time.

No dia seguinte à sua libertação, Simpson falou com Larry King, da CNN. “I’m doing fine” [«Estou bem»], revelou o antigo atleta.

A entrevista aprofundada só chegaria em janeiro de 1996. O encontro com o jornalista Ross Becker não foi transmitido na televisão, mas sim vendido em cassete.

“I realize now that the story, the ratings are more important than the truth and that is something that has become abundantly clear to me through this ordeal” [«Apercebo-me agora que a estória, as audiências são mais importantes do que a verdade e isso é algo que se tornou bastante claro para mim durante esta situação»], afirmou Simpson.

A verdade – ou uma versão desta – foi publicada no polémico livro «If I did it: Confessions of the Killer», em que O. J. Simpson apresenta uma «hipotética» descrição de como teria cometido os crimes.

O Tribunal deu o seu veredicto, mas, para milhões de americanos, as dúvidas subsistem, mais de duas décadas depois do “trial of the century”.

Rubin “Hurricane” Carter

Pugilista

Acusação: Homicídio triplo

Veredicto:  Pena perpétua

A 15 de janeiro de 1976, a Rolling Stone publicava uma reportagem sobre a “Night of the Hurricane”, que juntara grandes nomes da música, a convite de Bob Dylan.

“It was a special night – one marked by a cast that spanned two decades of political dissent and music – when Bob Dylan brought the Rolling Thunder Revue to Madison Square Garden” [«Foi uma noite especial – marcada por um cartaz que atravessava duas décadas de dissidência política e musica – quando Bob Dylan levou o Rolling Thunder Revue a Madison Square Garden»] .

Um ambiente muito diferente do sítio onde o artista atuara, semanas antes: a prisão onde, há quase uma década, estava encarcerado Rubin “Hurricane” Carter, o homem que inspirara a mais recente música de Dylan e a atuação no Madison Square Garden.

Carter fora acusado de um homicídio triplo, que decorrera em junho de 1966. As vítimas eram brancas.

Um dos feridos referiu que o crime tinha sido cometido por dois homens negros, transformando o ataque numa questão racial, um assunto que dividia a América.

Os depoimentos de duas testemunhas – que tentavam executar um roubo num edifício próximo – colocaram Rubin Carter e o seu amigo no local do crime.

Um júri, constituído por 12 membros, todos brancos, considerou os arguidos culpados. A sentença? Prisão perpétua.

A condenação interrompia prematuramente a carreira desportiva de Rubin ”Hurricane” Carter.

O jornalista Fred Cranwell presenciara um dos seus primeiros combates enquanto profissional.

“I like to use metaphores and I did that night. I called him the hurricane from Paterson” [«Gosto de usar metáforas e fi-lo naquela noite»], revelou o repórter do Jersey Journal.

Ao longo do ano de 1963, Carter tornou-se um nome regular em Madison Square Garden.

A sua chance de conquistar o título chegou no final de 1964, quando defrontou o campeão, Joey Giardello.

O confronto tinha sido antecedido por um artigo no The Saturday Evening Post intitulado «A Match Made in the Jungle» [“Um Encontro Feito na Selva»], onde Carter fazia declarações polémicas.

“Let’s get guns and go up there and get us some of those police. I know I can get four or five before they get me” [«Vamos arranjar armas e ir lá e apanhar alguns daqueles políticas. Sei que consigo apanhar quatro ou cinco antes que me apanhem»].

Os episódios de violência que marcaram a vida de Carter não eram desconhecidos das autoridades… nem dos media.

Determinado a limpar o seu nome, o antigo pugilista escreveu, a partir da prisão, a autobiografia The Sixteenth Round, publicada em 1974.

A obra chegou às mãos de George Lois.

Um dos maiores publicitários da época, ficou convencido da inocência de Carter e decidiu levar a cabo uma campanha para a sua libertação, começando por criar anúncios.

“I went to the New York Times, the ads, and told them I wanted to run them in their newspaper. It took a couple of days of them arguing but they finally gave in. When they did, I said, ‘OK can you run it on page two?’” [«Fui ao New York Times, aos anúncios, e disse-lhes que queria publicá-los no jornal. Demorou alguns dias, com eles a discutir, mas finalmente cederam. Quando aceitaram, disse, ‘OK, podemos publicá-los na página dois?”»].

O movimento, batizado de Hurricane Fund, ganhou proeminência.

Uma marcha de apoio, liderada pelo também pugilista Muhammad Ali, reuniu mais de 10 mil pessoas.

«We got Johnny Cash, Harry Belafonte, Don King, Gay Talese, Hank Aaron, George Plimpton, Burt Reynolds, Ed Koch, Barry White, and Don King. I can’t believe some of the people who gave us support» [«Tínhamos Johnny Cash, Harry Belafonte, Don King, Gay Talese, Hank Aaron, George Plimpton, Burt Reynolds, Ed Koch, Barry White, e Don King. Não consigo acreditar nalgumas das pessoas que nos apoiaram»], referiu Lois.

O momento mais mediático da prisão de Carter chegaria com o lançamento da música «Hurricane», interpretada por Bob Dylan.

O concerto organizado pelo artista no Madison Square Garden foi um marco da campanha pela inocência de Carter.

“I’m not in jail for committing murder.  I’m in jail partly because I’m a black man in America, where the powers that be will only allow a black man to be an entertainer or a criminal” [«Não estou na prisão por assassinato. Estou na prisão parcialmente por ser um homem negro na América, onde os poderes apenas permitem a um homem negro trabalhar em entretenimento ou um criminoso»], afirmou Carter, em 1975, em entrevista à Penthouse.

O apoio mediático tinha deixado a sua marca: Carter foi libertado por alguns meses e foi-lhe permitido submeter-se novamente a julgamento.

Mas o impensável aconteceu.

“He lost control of himself and slapped a female friend – a terrible thing. So the state figured they could publicize it and not only retry him, but also reframe him” [«Ele perdeu o controlo e esbofeteou uma amiga – uma coisa terrível. Então o Estado apercebeu-se que podiam publicitá-lo e não apenas voltar a julgá-lo, mas voltar a culpá-lo»], conta George Lois.

O segundo julgamento enviou Carter de novo para a prisão no final de 1976.

Nos anos 80, a equipa de defesa Carter reuniu novos apoiantes e, em 1985, foi liberto.

O Juiz H. Lee Sarokin considerou que as acusações tinham sido baseadas “an appeal to racism rather than reason, concealment rather than disclosure” [«um apelo ao racismo em vez de à razão, à ocultação em vez de à divulgação»].

O ex-pugilista acabou por ser ilibado de todas as acusações.

Mesmo em liberdade, não pendurou as luvas e tornou-se um ativista.

“No matter that they sentenced me to three life terms in prison. I wouldn’t give up. Just because a jury of 12 misinformed people […] found me guilty did not make me guilty. And because I was not guilty, I refused to act like a guilty person” [«Não interessava que me tivessem sentenciado a três prisões perpétuas. Não ia desistir. Só porque um júri de 12 pessoas desinformadas […] me considerou culpado isso não me tornou culpado. E porque não era culpado, recusei-me a agir como tal»].

A sua história foi retratada no filme The Hurricane, de 1999, que valeu a Denzel Washington um Globo de Ouro.

”He’s all love. He lost about 7,300 days of his life, and he’s love. He’s all love”, afirmou o ator, ao receber o prémio [«Ele é todo amor. Perdeu cerca de 7.300 dias da sua vida, e é amor. É todo amor»].

Carter continuou a dedicar-se à luta pelos direitos daqueles que acreditava terem sido condenados injustamente.

Em fevereiro de 2014, publicou um artigo no New York Daily News no qual defendia a inocência de David McCallum, preso há quase três décadas.

«McCallum was incarcerated two weeks after I was released, reborn into the miracle of this world. Now I’m looking death straight in the eye; he’s got me on the ropes, but I won’t back down» [«McCallum foi preso duas semanas depois de eu ter sido libertado, renascido no milagre deste mundo. Agora estou a olhar a morte nos olhos; ela tem-me nas cordas, mas não desistirei»].

McCallum foi libertado em outubro desse ano. Carter morrera seis meses antes, a 20 de abril de 2014.

Carlos Monzón

Campeão Mundial de Boxe

Acusação: Homicídio

Veredicto: 11 anos de prisão

“Monzón casí casado” [“Monzón quase casado”]; “Otra vez juntos” [‘Novamente juntos»] ; “Monzón: otra vez papá” [«Monzón: outra vez pai»]; “La nueva vida de Monzón” [«A nova vida de Monzón»].

Nos anos 80, Carlos Monzón era um nome recorrente nas páginas da imprensa argentina.

As conquistas amorosas do antigo atleta tornado ator reuniam tanta ou mais atenção que os seus feitos desportivos, anos antes.

Mas se a sua carreira desportiva o levara à glória e ao título de campeão do mundo, a sua vida amorosa iria, pelo contrário, terminar em tragédia.

«Yo estoy seguro que yo no maté Alicia» [«Tenho a certeza que não matei a Alicia»].

Em 1993, Carlos Monzón recebeu as câmaras do Canal 9 nas suas instalações, na cadeia. O antigo campeão mundial de boxe estava preso há quatro anos.

O crime? O seu envolvimento na morte da sua esposa.

Na madrugada de 14 de fevereiro de 1988, Alicia Muñiz caiu de uma varanda, acabando por morrer.

Com um historial de violência doméstica e depois de uma noite que culminara com uma acesa discussão entre o casal, Monzón foi desde logo considerado o principal suspeito.

O caso agitou a Argentina naquele domingo de Verão.

«Todos estavam a falar sobre como o Monzón tinha matado a Alicia. Não se falava de ter sido um acidente», afirma Carlos Irusta, jornalista especializado em boxe. 

Com a morte de Alicia, a opinião pública assistia, incrédula, à queda de um dos maiores heróis nacionais.

Em julho de 1989, Carlos Monzón foi condenado a 11 anos de cadeia.

Asesino, asesino” [«Assassino, assassino»], gritava a multidão ao antigo pugilista.

A 22 de março, Monzón dá a sua primeira entrevista atrás das grades.

Escolhe um meio italiano, afirmando que a imprensa argentina “lo maltrata” [«o maltrata»]. “Me dolió que me gritaran asesino” [«Magoou-me que me gritassem assassino»],afirmou.

Em entrevista à Cablevisión Los Toldos, continuou a alegar inocência. «Lo mío no fue un asesinato como dicen todos, así me juzgó el periodismo, fue un accidente» [«O meu caso não foi um assassinato como todos dizem, assim me julgou o Jornalismo, foi um acidente»].

Faleceu a 8 de janeiro de 1995, num acidente de automóvel, durante uma das suas saídas autorizadas da prisão.

A Argentina emocionava-se com a sua morte.

No seu funeral, milhares de pessoas cantaram «Dale campeón, dale campeón» [«Dá-lhe campeão, dá-lhe campeão»].

De «asesino» [«assassino»], Monzón passava novamente a «campeón» [«campeão»].

«Un día fue campeón, conoció la fama, filmó películas, alternó con los grandes personajes del mundo y terminó en la cárcel…» [«Um dia foi campeão, conheceu a fama, filmou metragens, relacionou-se com as grandes figuras do mundo e terminou na prisão…»], resumiu a revista El Gráfico.

A sua vida inspirou o filme Carlos Monzón, el segundo juicio (1996), uma metragem marcada pelo crime.

Bruno Fernandes de Souza

Guarda-redes do Flamengo

Acusação: Envolvimento em homicídio

Veredicto: 22 anos de prisão

«Estou torcendo muito para que ela apareça».

A 1 de julho de 2010, Bruno Souza falou pela primeira vez à imprensa, numa comunicação que faz lembrar o discurso da personagem de Ben Affleck no filme de 2014, Gone Girl.

Três semanas antes, desaparecera Eliza Samudio mãe do filho recém-nascido do jogador.

Uma semana depois, Bruno Souza estava atrás das grades.

Não era a primeira vez que a relação tempestuosa entre os dois fazia manchetes.

A 13 de outubro de 2009, Eliza Samudio, grávida de cinco meses, deu uma entrevista ao jornal EXTRA onde denunciava ter sido alvo de violência e ameaças por parte do jogador.

«Ele [Bruno] falou assim: “Se você for na delegacia ou em qualquer lugar, eu vou atrás de você, mato você, mato a sua família, mato as suas amigas”».

No auge da sua carreira, o guarda-redes negou as acusações numa nota para a imprensa.

«Não é a primeira vez que ela inventa esse monte de mentiras para tentar me prejudicar. Da outra vez não provou nada e não vai provar novamente, porque inventou essa história toda».

O filho de ambos nasceu em fevereiro de 2010 e Eliza levou Bruno a Tribunal para que este reconhecesse a paternidade.

A confirmação dos testes de ADN só chegou em outubro, já depois do desaparecimento de Eliza.

No Brasil, o julgamento foi acompanhado ao segundo.

À época da sua prisão, o «Goleiro Bruno» era um dos grandes nomes do Flamengo, desejado por clubes europeus.

Os contornos sórdidos do caso fizeram manchetes por todo o mundo. Osca já tinham dado o seu veredicto.

«Indefensável», lia-se, na capa da Época.

A 8 de março de 2012, o Brasil escutava a sentença do antigo dono da baliza do Flamengo: 22 anos de cadeia.

Em 2013, na sua primeira entrevista concedida a partir da prisão, Bruno Souza foi perentório: «A verdade é que eu não mandei matar a Eliza».

A sua história continuou a conquistar atenção mediática, mesmo depois de lida a sentença.

«Me deixem jogar», lia-se, na capa da revista Placar, em março de 2014.

Dois meses antes, o guarda-redes assinara com o Montes Claros FC, mas a Justiça não o autorizou a entrar em campo.

O contrato é de 5 anos. A sua condenação é de 22.

Oscar Pistorius

Estrela Olímpica e Paralímpica

Acusação: Homicídio

Veredicto: 5 anos de prisão

186 616 publicações por dia, 7776 por hora e 130 por minuto.  Em fevereiro de 2013, Oscar Pistorius foi o assunto mais falado das redes sociais.

O atleta olímpico e paralímpico fora detido por alvejar a sua namorada. Reeva Steenkamp acabara por morrer.

Estima-se que apenas 4 por cento do debate sobre o caso tenha decorrido em meios tradicionais, com 85% a centrar-se no Twitter.

Numa semana, foram feitas 1 306 313 publicações sobre o caso nas redes sociais.

A sua cobertura valeu a Barry Bateman, correspondente da Eyewitness News, mais de 100 mil novos seguidores.

No Twitter, a hashtag #Pistorians reuniu os apoiantes do ex-atleta, que não tinham dúvidas sobre a sua inocência.

Mas nem todos estavam tão certos.

Um terrível acidente ou um crime pérfido? A cobertura mediática era marcada pela incerteza.

Na manhã seguinte ao tiroteio, a Polícia dava uma conferência de imprensa improvisada.

“We have also taken cognizance of the media reports during the morning of an alleged break in or that the young lady was mistaken to be a burglar […] We’re not sure where this report came from” [«Fomos informados de que os media reportaram durante a manhã que houve um assalto ou que a jovem foi confundida com um assaltante. […] Não sabemos de onde veio esta informação»].

O ângulo tinha mudado. A suspeita de crime em vez de acidente tornava-se mais forte. Nos media, o julgamento já começara.

“World shock at Oscar arrest” [«Choque mundial com a detenção de Oscar»], escrevia o sul-americano Cape Times.

Mas esta não era a primeira vez que Pistorius se via a braços com a Justiça.

Em 2009, durante uma festa, tinha sido acusado de causar indiretamente lesões a uma convidada.

A sua detenção levou-o a perder patrocínios desportivos.

Agora, a parada estava ainda mais elevada: era a sua liberdade que estava em jogo.

“PR spin isn’t going to keep Oscar Pistorius out of prison», afirmou Suarts Higgins, da equipa de Relações Públicas do ex-atleta, «but the truth might” [«As RP não vão manter Oscar Pistorius fora da cadeia, mas a verdade pode fazê-lo»].

Pistorius fizera história ao tornar-se, em 2012, o primeiro atleta portador de deficiência física a competir nos Jogos Olímpicos.

O feito catapultara-o para um nível sem precedentes de fama internacional, tornando-o num verdadeiro herói na África do Sul.

Nem só os seus feitos desportivos faziam capas: a sua vida pessoal também estava nas manchetes.

Uma semana antes da sua morte, Reeva tinha concedido à revista Heat a sua última entrevista.

«We haven’t been talking to the media because I don’t want to get it tainted […] You know what they do, they make things up» [«Não temos falado com os media porque não quero que se estrague […] Sabem o que eles fazem, inventam coisas»].

Durante o julgamento de Pistorius, a atenção mediática chegou a atingir mais de metade da cobertura total feita pelos meios sul-africanos, ultrapassando eventos como o Mundial de Futebol.

«The country is watching the court case unfold on television like it is a reality show. Only this is for real» [«O país está a assistir ao caso de tribunal a desenrolar-se na televisão como se se tratasse de um reality-show»], considerou Alex Crawford, da Sky TV.

A atenção dedicada ao caso era tanta que a emissora sul-africana DStv criou um canal dedicado exclusivamente ao “The Oscar Pistorius Trial” [«Julgamento de Oscar Pistorius»].

O mediatismo começou a incomodar a Justiça.

“It would appear there is somewhat a trial by the media houses of Mr. Pistorius” [«Parece que se trata de um julgamento do Sr. Pistorius pelos órgãos de comunicação»], avisou o magistrado do caso, Daniel Thulare.

À data da leitura do veredito, eram conduzidas pesquisas sobre como a opinião dos utilizadores do Twitter se ia alterando ao longo do dia e de acordo com os países.

Em 2014, foi absolvido da acusação de homicídio premeditado, mas condenado a cinco anos de prisão.

No final de 2015, Pistorius foi libertado sob fiança após ser acusado por assassínio.

O caso continuou a quebrar recordes no Twitter: numa hora, foram enviados 21 mil tuítes com ahashtag #oscarpistorius.

Dos mitos aos factos que marcaram a cobertura noticiosa, uma certeza: os triunfos de Pistorius na pista foram eclipsados, na esfera mediática, pelo crime.

Oscar Pistorius. «Man. Superman. Gunman.» [Homem. Super-homem. Homem armado»]

Ray Rice

Estrela de Futebol Americano nos Baltimore Ravens

Acusação: Violência doméstica

Veredicto: Programa de recuperação

“ELEVATOR KNOCKOUT” [«KNOCKOUT NO ELEVADOR»]

A 8 de setembro de 2014, o TMZ divulgava imagens chocantes de violência entre o jogador de futebol americano Ray Rice e a sua noiva.

Horas depois, os Baltimores Ravens tornavam público o despedimento de Rice e a NFL anunciava a sua suspensão indeterminada.

Depois de seis épocas na NFL e da conquista do campeonato, a carreira de Rice estava em risco de terminar.

O episódio de violência remontava a fevereiro desse ano.

A polícia tinha sido chamada a intervir e o casal tinha sido detido.

Poucos dias depois, a 19 de fevereiro, o TMZ divulgava as primeiras imagens, que mostravam Rice a arrastar a sua noiva, aparentemente inconsciente, para fora do elevador.

O treinador dos Baltimore Ravens reagiu com uma declaração à imprensa, dois dias depois: «There are a lot of question marks. But Ray’s character, you guys know his character. So you start with that» [«Há muitos pontos de interrogação. Mas o caráter do Ray, vocês conhecem-no. Então começa-se por aí»].

A equipa continuou a manifestar o seu apoio quando, no final de março, a acusação de Rice foi considerada pelos jurados um crime de terceiro grau: «We know there is more to Ray Rice than this one incident» [«Sabemos que o Ray Rice é mais do que este incidente»].

No dia seguinte, Ray Rice e Janay Palmer casaram-se.

O atleta alegou inocência e foi colocado num programa de intervenção durante um ano.

O casal falou aos media, numa conferência de imprensa conjunta.

“Failure is not getting knocked down, it’s not getting up”, foi uma das frases polémicas proferidas pelo jogador [«Falhanço não é ser derrubado, é não se levantar»].

A conta oficial dos Ravens no Twitter decidiu destacar as declarações de Janay Palmer, em que esta assumia parte da culpa pelo episódio.

O tuíte acabou por ser apagado em setembro, quando o segundo vídeo emergiu, mostrando as imagens captadas dentro do elevador.

Imagens que também contradisseram a «hipotética» versão dos factos levantada pelo advogado de Rice, Michael Diamondstein, em maio.

“Hypothetically […] the video comes out and the video shows — hypothetically speaking now, hypothetically speaking — shows that Ray wasn’t the first person that hit and Ray was getting repeatedly hit but just Ray hit harder, fired one back and hit harder” [«Hipoteticamente (…) o video é divulgado e o vídeo mostra – hipoteticamente falando, hipoteticamente falando – mostra que Ray não foi a primeira pessoa a agredir e que Ray estava a ser agredido repetidamente mas que agrediu com mais força, retaliou e agrediu com mais força»], afirmou, numa entrevista radiofónica.

Em julho, Rice foi multado e suspenso por dois jogos pela NFL.

“I stand behind Ray, he’s a heck of a guy” [«Eu apoio o Ray, é um grande homem»], afirmou o técnico dos Ravens, John Harbaugh.

Os adeptos pareciam concordar.

Rice foi recebido com uma ovação durante o treino dos Ravens.

A equipa organizou uma nova conferência de imprensa, onde o jogador se desculpou.

“The one thing that I wanna do today is apologize to my wife […] My actions were inexcusable” [«Aquilo que quero fazer hoje é pedir desculpa à minha mulher […] As minhas ações não têm desculpa»].

Nas suas primeiras declarações aos media sobre o caso. Roger Goodell, presidente da NFL, defendeu a sua decisão.

“I take into account all of the information before I make a decision on what the discipline will be” [«Tenho em consideração toda a informação antes de tomar a decisão sobre a medida disciplinar»].

No final de agosto, a NFL anunciava uma nova e mais dura política sobre violência doméstica e conduta violenta.

Goodell escreveu uma carta pública em que admitia, indiretamente, não ter agido da melhor forma relativamente ao caso de Rice.

“I take responsibility both for the decision and for ensuring that our actions in the future properly reflect our values. I didn’t get it right. Simply put, we have to do better. And we will” [«Assumo a responsabilidade pela decisão e por garantir que as nossas ações no futuro refletem verdadeiramente os nosso valores. Não acertei. De forma simples, temos de fazer melhor. E vamos fazê-lo»].

A nova política seria testada no mês seguinte.

O TMZ divulgou as imagens do interior do elevador, que mostravam as agressões de Rice à sua parceira.

O vídeo conduziria ao seu despedimento e afastamento da NFL.

“It’s something we saw for the first time today, all of us” [«É algo que vimos pela primeira vez hoje, todos nós»] afirmou o técnico dos Ravens, John Harbaugh. “It changed things of course. It made things a little bit different” [«Mudou as coisas é claro. Tornou as coisas um bocado diferentes»].

Também a NFL se mostrou surpreendida com as imagens.

“Did anyone in the NFL see the second videotape before Monday?” [«Alguém na NFL viu o segundo vídeo antes de segunda-feira?»] foi a questão. “No” [«Não»], garantiu Goodell.

História diferente noticiou a Associated Press.

A agência reportou que um oficial de justiça garante ter entregue as imagens à NFL em abril, recebendo um voicemail a confirmar a receção do vídeo.

A NFL respondeu com um comunicado.

“We have no knowledge of this. We are not aware of anyone in our office who possessed or saw the video before it was made public on Monday. We will look into it” [«Não temos conhecimento disto. Não sabemos de ninguém no nosso escritório que possua ou tenha visto o vídeo antes de ter sido tornado público na segunda-feira. Vamos investigar»].

O caso foi altamente reportado pelos media, mas a sua cobertura foi alvo de críticas, nomeadamente no que respeita à dificuldade de contextualização para além das consequências imediatas revelada por alguns órgãos.

“Re-posting a video of a woman being assaulted isn’t journalism. Seeking her story, or information that can put it in context, is” [«Republicar um video de uma mulher a ser agredida não é jornalismo. Procurar a sua história ou informação que possa contextualizar, isso já é»], tuítou Meredith Clark, professora da Mayborn School of Journalism

A ESPN suspendeu o comentador Stephen A. Smith devido aos seus comentários sobre violência doméstica, afirmando que as mulheres não deviam “provoke wrong actions” [«provocar ações erradas»].

Nas redes sociais, a hashtag #GoodellMustGo reuniu centenas de adeptos insatisfeitos, que exigiam a demissão do presidente da NFL.

O descontentamento alastrou-se aos patrocinadores da NFL, como a marca CoverGirl, alvo da campanha #CoverGirlCott.

As hashtags #WhyILeft e #WhyIStayed foram utilizadas por vítimas de violência doméstica para partilhar as suas histórias.

Janay Palmer, a mulher que o mundo viu ser agredida pelo seu companheiro, reagiu através do instagram.

 “No one knows the pain that the media & unwanted options [sic] from the public has caused my family. […] THIS IS OUR LIFE!” [«Ninguém sabe a dor que os media e as opções [sic] do público têm causado à minha família. […] ESTA É A NOSSA VIDA!»]

Uma vida privada manchada por um crime público, que as imagens do TMZ revelaram ao mundo.

O Maquiavel Mourinho

São os célebres “Mind Games” de José Mourinho. Onde vai ele buscar a inspiração? Suspeitamos que um dos treinadores mais vitoriosos do mundo anda a estudar a obra do politólogo florentino Nicolau Maquiavel e que se julga “O Príncipe

São os célebres “Mind Games” de José Mourinho. Onde vai ele buscar a inspiração? Suspeitamos que um dos treinadores mais vitoriosos do mundo anda a estudar a obra do politólogo florentino Nicolau Maquiavel e que se julga “O Príncipe”.

«Devemos levar mais em consideração os resultados obtidos do que os meios utilizados para chegar a eles.» Maquiavel, carta a Piero Soderini (sem data)

MOURINHO: Eu dizia sempre aos jogadores: Eles não gostam de nós, porque nós ganhamos. Há um, dois anos atrás, eles adoravam a vossa equipa, mas vocês não ganhavam nada. Agora odeiam-nos, mas nós ganhamos jogos, por isso estamos bem.

«Onde existe uma vontade forte, as dificuldades não podem ser grandes.» Maquiavel, O Príncipe

MOURINHO: Eu não posso dizer a verdade. Porque não sinto liberdade.

«Nunca digo aquilo em que acredito, nem acredito nunca naquilo que digo, e se alguma verdade me escapa de vez em quando, escondo-a entre tantas mentiras que é difícil reconhecê-la.» Maquiavel, carta a Francesco Guicciardini (Maio de 1521)

MOURINHO: A única coisa que eu quero dizer é que nós somos os melhores. Em condições normais, somos muito melhores. E em condições normais, vamos ser campeões. Em condições anormais… também vamos ser campeões.

«Um Príncipe não deve preocupar-se de que o acusem de ser cruel, sempre e quando essa crueldade se destine a reforçar a coesão e a lealdade dos seus súbditos.» Maquiavel, O Príncipe

MOURINHO: Vocês falam de Pedro Leon parece que estão a falar de Zidane ou Maradona. Pedro Leon é um ótimo jogador, mas é um jogador que há dois dias atrás jogava no Getafe.

«Os homens, quando não são forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição.» Maquiavel, Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio

MOURINHO: “Há uns dias alguém chamou-me treinador de títulos. E não treinador de futebol. Obrigado. Gosto de ser um treinador de títulos.

«É necessário ser raposa para descobrir as ciladas e ser leão para aterrorizar os lobos.» Maquiavel, O Príncipe

MOURINHO: A mim não me agrada a prostituição intelectual. Não me agrada…

«Antes de tomares uma decisão, aconselha-te com muitos; quando souberes o que vais fazer, partilha a decisão com poucos.» Maquiavel, A Arte da Guerra

MOURINHO: As vitórias têm muitos pais. As derrotas só têm um, que sou eu.

«Chegamos assim à questão de saber se é melhor ser amado do que temido. A resposta é que seria desejável ser ao mesmo tempo amado e temido, mas que, como tal combinação é difícil, é muito mais seguro ser temido.» Maquiavel, O Príncipe

MOURINHO: O único que ganhou as três ligas mais importantes do mundo fui eu. Portanto, gostem de mim, não gostem de mim, dêem-me valor, não me dêem valor… o único. Portanto, se calhar, em vez do “Especial”, devia ser começado a chamar “O único” até que algum consiga ganhar as três ligas como eu ganhei.»

«O primeiro método para avaliar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.» Maquiavel, O Príncipe

MOURINHO: Temer pelo meu posto? Nem pensar. Futebol é futebol, como temer pelo meu posto? Em nenhum momento temo pelo posto.»

«Empreendedores são todos aqueles que entendem existir uma pequena diferença entre obstáculos e oportunidades, sendo capazes de transformar ambos em vantagem.» Maquiavel, O Príncipe

MOURINHO: A disciplina de vida, a disciplina de trabalho, todos os aspetos que são fundamentais para que eles tenham uma carreira de alto nível, têm a ver com a liderança que nós temos. E para liderar gente como essa, nós temos de estar muito bem preparados.»

«É preferível cometer erros de que nos arrependamos do que arrepender-nos por nada ter feito.» Maquiavel, O Príncipe

MOURINHO: «Gostava de jogar já amanhã e não no sábado. Não queria esperar tanto tempo, porque penso que gente com carácter, como são os profissionais de futebol, depois de um jogo tão mau e de um resultado tão negativo, têm de voltar a treinar, têm de voltar a jogar e têm de voltar a ganhar.

«Quem deseja ser obedecido tem de saber comandar.» Maquiavel, O Príncipe

MOURINHO: «Honestamente, acha que os jogadores não estão comigo? Acha que os jogadores não deram tudo para ganhar o jogo? Isso é muito triste. Não é triste para mim, eu acho que é triste para os jogadores. Acho que é uma falta de respeito para os jogadores.

Retratar a emoção do Desporto

Era atividade de élites no Séc. XIX. Hoje é o espetáculo de todos. O Desporto – em particular o desporto-espetáculo – fez nascer, crescer e evoluir o Jornalismo e os Media 

O Jornalismo Desportivo do passado e o de hoje têm, em comum, a dedicação a uma mesma missão: retratar a emoção dos grandes acontecimentos desportivos

«Uma quantidade enorme de pessoas foi hoje ao Campo Pequeno assistir ao desafio, entre ingleses e portugueses, de futebol. […] O resultado do jogo foi muito lisonjeiro para os nossos compatriotas que conseguiram ganhar. […] Quase toda a gente, findo o futebol, foi passear ao Jardim Zoológico, onde se exibia a persa Mirra, a mulher peluda». 

Em janeiro de 1889, o Jornal do Comércio publicava um artigo intitulado «O Match do Campo Pequeno – A Mulher Peluda no Jardim Zoológico».

Um relato de futebol chegava, pela primeira vez, às páginas da imprensa portuguesa.

A inexistência de uma prática desportiva regular e diversificada levava a que as primeiras publicações se centrassem em atividades tradicionais, como a tauromaquia, a ginástica, a caça e o ciclismo.

À época, o termo «desporto» ainda não existia, optando-se pela palavra inglesa “sport”.

No resto da Europa, a incursão do jornalismo pelo mundo do desporto teve início na década de 1850.

Nos Estados Unidos, embora já se tivessem escrito artigos sobre eventos desportivos, o primeiro jornal a contratar um editor para esta secção foi o New York World de Joseph Pulitzer, em 1883.

A «causa desportiva»

Em Portugal, O Sport, publicado em 1894, é considerado o primeiro periódico com um título genérico, sem ligação a uma modalidade específica, e dedicado a conteúdos desportivos diversificados.

A publicação do jornal foi interrompida poucos meses depois.

O caso não era único; a longevidade das publicações desportistas generalistas era geralmente curta, devido à falta de leitores – em 1911, a taxa de analfabetismo em Portugal era de 75 por cento – e à escassa publicidade.

O jornalismo desportivo não existia enquanto profissão e muitas publicações eram criadas por membros da elite nacional, com o objetivo de promover as modalidades desportivas que praticavam.

As publicações da época estavam unidas pelo desejo de trabalhar em prol da «causa desportiva».

A publicação Os Sports Illustrados organizou eventos como os Jogos Olímpicos Nacionais e a Grande Parada Ciclista de 1910, tendo em vista a democratização do desporto.

Alheia aos organizadores não seria a experiência do jornal francês L’Auto, que promovera, em 1903, a Tour de France.

A prova tivera um sucesso estrondoso, que se refletiu nas vendas do periódico e no espírito da nação, para a qual os ciclistas em verdadeiros heróis.

A pioneira imprensa desportiva e os seus agentes desempenhavam, assim, um papel essencial na implantação, organização, institucionalização e popularização da prática desportiva e de educação física.

Um esforço que, em Portugal, uniu os grandes nomes da imprensa desportiva e generalista na Associação dos Jornalistas Sportivos, criada em 1911.

No início de 1912, perante a impossibilidade de o Governo financiar uma equipa nacional para participar nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, o Comité Olímpico Português e a Associação de Jornalistas Sportivos encetou uma campanha de angariação de fundos, que permitiu enviar seis atletas nacionais para a Suécia.

Os anos 20 assistiram a uma consolidação do jornalismo desportivo e a uma expansão da imprensa especializada nesta área.

O futebol obtinha cada vez mais destaque na imprensa nacional e as rivalidades entre a imprensa do Norte e do Sul do país tornavam-se evidentes.

Contudo, os jornais desportivos tinham dificuldade em fazer face às despesas de produção e impressão, o que se refletia em sucessivos aumentos do preço de capa.

Os jornais desportivos enfrentavam ainda a forte concorrência das secções desportivas da imprensa diária, que não só tinham maiores recursos, como recorriam a uma extensa rede de correspondentes.

Sob o olhar da censura

O final dos anos 20 viu nascer as primeiras retransmissões radiofónicas de eventos desportivos em direto, um pouco por toda a Europa.

Nos anos 30, a rádio popularizava-se em Portugal e os jornais mostravam interesse neste novo meio de comunicação.

Em junho de 1930, a secção desportiva do Diário de Notícias utilizou a emissora lisboeta CT1DE para a realização de um serviço de reportagem radiofónica, transmitindo um jogo de futebol.

A imprensa desportiva não era alheia à situação política do país.

No final dos anos 30, devido à Guerra Civil espanhola, a censura deu indicação à imprensa para não utilizarem o termo «vermelhos» para se referirem ao Benfica, evitando conotações com os comunistas («rojos») que combatiam em Espanha.

Mas a intervenção da censura na imprensa portuguesa não se ficava por aí.

No início de 1938, três internacionais portugueses recusaram-se a fazer a saudação fascista antes de um jogo entre Portugal e Espanha.

Incentivada pela censura, a revista Stadium editou a foto, de forma a que os jogadores parecessem estar de mão estendida.

De entre os nomes do desporto que não vergavam perante o Estado Novo estava Cândido de Oliveira.

Antiga estrela do futebol português e jornalista consagrado, regressara há poucos meses da prisão do Tarrafal.

Com Vicente de Melo e Artur Rebelo fundou o jornal A Bola, com o subtítulo «Jornal de Todos os Desportos».

Quatro anos depois nasceu, outra publicação que fez história na imprensa desportiva portuguesa: o Record.

Manuel Dias, vendedor de jornais e antigo atleta olímpico, foi o principal impulsionador do projeto, a que se juntaram Fernando Ferreira e Monteiro Poças.

 

 

Destaque ainda para a criação do jornal O Jogo, que viria a surgir quase quatro décadas depois, a 22 de fevereiro de 1985.

No panorama internacional, a concorrência entre periódicos desportivos também se intensificava.

A 16 de agosto, 1954, era fundada nos Estados Unidos a Sports Illustrated, que pretendia ser “not a sports magazine, but the sports magazine” [«não uma revistade desporto, mas a revista de desporto»].

A revista tornou-se num dos casos de maior sucesso e longevidade da imprensa desportiva.

A caixinha mágica

As Olimpíadas de Berlim, em 1936, marcaram a primeira emissão de televisão e a primeira cobertura em direto de um evento desportivo.

 

 

Nos Estados Unidos, as décadas de 50 e 60 assistiram a um rápido aumento da cobertura desportiva nos meios de radiodifusão.

O futebol americano e o basebol, em particular, tornaram-se verdadeiros espetáculos desportivos.

Foram ainda criadas agências de notícias e fotografia dedicadas ao desporto, como a agência fotográfica AllSport, fundada por Tony Duff.

O desporto também começava a dar cartas no meio audiovisual português.

Durante a primeira emissão regular da RTP, a 7 de março de 1957, Domingos Lança Moreira fez um comentário sobre futebol, na rubrica «Miradoiro».

Entre o final dos anos 60 e o início da década de 70, a percentagem de tempo de antena na RTP dedicada ao desporto subiu significativamente.

Em 1972, os programas desportivos da RTP ocuparam 409 horas de emissão (em comparação com as 380 horas do Telejornal), sobretudo devido às transmissões diretas dos Jogos Olímpicos de Munique.

O desporto-espetáculo

O início da televisão privada em Portugal levou a que o desporto se tornasse um conteúdo estratégico utlizado na luta pelas audiências.

Em 1998, a Sport TV, o primeiro canal de acesso condicionado dedicado ao mundo do desporto, revolucionou o panorama do audiovisual no desporto português

Transitou-se para a era do desporto-espetáculo; a atividade desportiva – em particular o futebol – como um acontecimento que move multidões.

O desenvolvimento das redes sociais abriu novas plataformas para o debate desportivo.

Durante a primeira semana do Campeonato Mundial de Futebol de 2014, foram registadas mais de 459 milhões de publicações, «gostos» e comentários no Facebook.

Estima-se que 81 por cento do público prefere a Internet para se informar  sobre notícias desportivas.

Nos últimos 150 anos, o desporto mudou e a imprensa desportiva mudou com ele.

A função tripartida dos primeiros percursores do jornalismo desportivo (praticante, fazedor de notícias e patrocinador do periódico) foi totalmente transformada com a profissionalização das redações.

De uma atividade de elite do final do século XIX ao desporto-espetáculo do século XXI, a atividade desportiva tornou-se um fenómeno de massas, que reúne atenção mediática por todo o mundo.

 

«Em toda a luta de desporto, mesmo quando o não parece, há sempre uma alma. O jornalista desportivo é aquele que a sabe descobrir e descrever».

Os Sports, 25 de fevereiro de 1942

Guerra del fútbol

El Salvador e Honduras, rivais em campo… e fora dele. Em 1969, as nações competiram por um lugar no Mundial do México, um confronto que se prolongou para além das quatro linhas.

2 equipas9 golos, 270 minutos1 guerra, 100 horas2 a 6 mil mortos. Em junho de 1969, dois países unidos pela sua geografia e história defrontaram-se em campo pela qualificação para o Mundial do México de 1970. Três jogos de futebol que terão contribuído para dar origem a uma guerra fora das quatro linhas.

O primeiro tiro da guerra futebolística

«Guerra Futbolística: El Salvador y Honduras Buscan su Calificación». Em junho de 1969, as primeiras páginas da imprensa de El Salvador e das Honduras eram dedicadas ao mesmo acontecimento: o apuramento para o Mundial do México de 1970.

A equipa salvadorenha chegou às Honduras para disputar a primeira partida. A receção não foi calorosa.

«La noche anterior al juego no nos dejaron dormir, llevaron música, llevaron cohetes y todo para que no durmiésemos bien y obviamente en el partido estuviésemos desvelados» [«Na noite anterior ao jogo não nos deixaram dormir, levaram música, levaram foguetes e tudo para não dormíssemos bem e, obviamente, que, no jogo, estivéssemos cansados»], recorda o avançado Mauricio «Pipo» Rodriguez.

 

 

A imprensa nacional publicou relatos do clima de tensão vivido pelos adeptos. «Hostiles en Honduras com los salvadoreños» [«Hostis em Honduras com os salvadorenhos»], escreveram as publicações.

A equipa da casa acabou por vencer. «La Selección de Honduras solo pudo ganar 1-0 a El Salvador» [«A Seleção das Honduras só conseguiu ganhar por 1-0 a El Salvador»], escreveu o jornal salvadorenho El Mundo, tentando minimizar a derrota.

Amelia Bolanios assistia à partida pela televisão, em San Salvador. Quando as Honduras marcaram o golo da vitória, no último minuto de jogo, a jovem de 18 anos levantou-se, correu até à escrivaninha onde estava o revólver do seu pai, e disparou sobre o seu coração.

«Una joven que no pudo soportar la humillación a la que fue sometida su patria» [ «Uma jovem que não pôde suportar a humilhação a que foi sujeita a sua pátria»], escreveu, no dia seguinte, o El Nacional, um jornal de San Salvador.

Tinha sido disparado o primeiro tiro da guerra futebolística.

Para os salvadorenhos, tratava-se de uma questão de honra. Para o resto do mundo, nem por isso.

«Nadie en el mundo prestó atención» [«Ninguém no mundo prestou atenção»], escreveu Ryszard Kapuscinski. O jornalista polaco estava destacado no México e era o único repórter de uma nação comunista no país.

Em El Salvador, o funeral de Amelia Bolanios foi transmitido na televisão e contou com honras de Estado; a jovem tornava-se uma mártir nacional. As manifestações de nacionalismo faziam crescer a espectativa para a partida da segunda mão.

A retaliação salvadorenha

«Hondureños llegaron hoy» [«Hondurenhos chegaram hoje»], lia-se na capa do Diario Latino a 13 de junho. A chegada dos adversários foi acompanhada pela imprensa salvadorenha com detalhe… e patriotismo.

«Un diario, El Mundo de El Salvador, nos tomó una foto en el aeropuerto y luego nos pusieron un huesito en la nariz, como a los caníbales» [«Um diário, El Mundo de El Salvador, tirou-nos uma foto no aeroporto e logo puseram-nos um osso no nariz, como aos canibais»], refere o jogador Rigoberto la Shula Gómez

Os salvadorenhos retribuíram a receção hostil que tinham tido nas Honduras.

«Esta vez el equipo hondureño pasó una noche sin dormir. La muchedumbre rompió todas las ventanas del hotel y lanzó adentro huevos podridos, ratas muertas y trapos que apestaban» [«Desta vez, a equipa hondurenha passou uma noite sem dormir. A multidão partiu as janelas do hotel e atirou para dentro ovos podres, ratazanas mortas e trapos que cheiravam mal»], escreveu Kapuscinski.

O Exército rodeava o estádio, com cordões policiais a separarem a multidão. «En vehículos de la fuerza Armada hizo su entrada al estadio de Flor Blanca la Selección de Honduras» [«Em veículos da Força Armada, entrou no estádio de Flor Blanca a Seleção das Honduras»], escreveu uma publicação salvadorenha.

Os adeptos vaiaram o hino hondurenho. A bandeira do país foi queimada diante dos espetadores; em vez dela, foi hasteado um trapo em farrapos. O público delirava e o apito inicial ainda nem tinha soado.

A seleção da casa venceu por três bolas a zero, mas a prioridade dos hondurenhos era regressar a casa em segurança. «Fuimos terriblemente afortunados al perder» [«Tivemos muita sorte em perder»], afirmou Mario Griffin, treinador da equipa visitante.

Apesar do resultado favorável aos salvadorenhos, a violência alastrou-se às ruas. Dezenas de adeptos hondurenhos foram agredidos e chegaram a registar-se duas mortes.

Com uma vitória para cada lado, o jogo decisivo iria ser disputado em campo neutro: o estádio Azteca, no México.

À data da partida, o conflito azedava: El Salvador rompia as relações diplomáticas com as Honduras e fechava as fronteiras.

A recente expulsão levada a cabo pelo Governo das Honduras de 300 mil camponeses salvadorenhos dera início a uma crise diplomática.

El Salvador acusava os hondurenhos de genocídio.

Os dois países começavam a mobilizar as suas tropas. Através dos media, os Governos de ambos os países incitavam o nacionalismo e convenciam as populações da necessidade de travar a guerra.

«Llegó al genocidio la guerra del fútbol» [«Chegou o genocidio à guerra de futebol»]; «Fútbol aquí: guerrita, allá» [«Futebol aquí, guerrita lá»]. Desporto e guerra partilhavam as páginas dos periódicos mexicanos.

A 27 de junho de 1969, as equipas entravam em campo para o duelo decisivo. Terminados os 90 minutos regulamentares, registava-se um empate a dois golos.

Durante o prolongamento, Mauricio «Pipo» Rodriguez bateu o guarda-redes hondurenho e atirou para a baliza, marcando «el gol que dio el triunfo a El Salvador» [«o golo que deu o triunfo a El Salvador»], como descreveu o jornal El Sol de México.

El Salvador ultrapassava as Honduras no apuramento para o Campeonato do Mundo de 1970.

 

 

Das quatro linhas para o campo de batalha

Duas semanas depois do jogo, a tensão atingia o seu auge. A 14 de julho de 1969, El Salvador atacou as Honduras.

«Al anochecer un avión voló sobre Tegucigalpa y arrojó una bomba. […] El pánico barrió la ciudad. […] Luego hubo silencio y todo quedó quieto. Era como si la ciudad hubiera muerto» [«Ao anoitecer um avião voou sobre Tegucigalpa e atirou uma bomba. […] O pânico varreu a cidade. […] Depois fez-se silêncio e tudo ficou quieto. Era como se a cidade tivesse morrido»] reportou Ryszard Kapuściński.

O jornalista polaco escreveu a sua reportagem às escuras, ansioso por enviar notícias no único telex da cidade. «En ese momento era el único corresponsal extranjero allí y que podría ser el primero en informar al mundo sobre el inicio de la guerra en América Central» [«Naquele momento, era o único correspondente estrangeiro ali e podia ser o primeiro a informar o mundo sobre o início da guerra na América Central»].

As Honduras retaliaram. «Guerra no declarada en Centroamérica» [«Guerra não declarada na América Central»], escrevia El Comercio, a 16 de julho.  

«Los dos gobiernos estaban satisfechos de la guerra, porque durante varios días Honduras y El Salvador habían ocupado las primeras planas de la prensa mundial y habían atraído el interés de la opinión pública internacional» [«Os dois Governos estavam satisfeitos com a guerra, porque durante varios días Honduras e El Salvador tinham ocupado as primeiras páginas da Imprensa mundial e tinham atraído o interesse da opinião pública internacional»], escreveu o jornalista Ryszard Kapuscinski.

As hostilidades duraram 100 horas.

«Logran Cese de Fuego; Tregua se Inició Hoy» [«Conseguem cessar-fogo; trégua tem início hoje»], anunciava o jornal Prensa Libre. A Organização dos Estados Americanos (OEA) negociara o cessar-fogo, que entrou em vigor em 20 de julho de 1969.

«La guerra del fútbol duró cien horas. El balance: seis mil muertos, veinte mil heridos. Alrededor de cincuenta mil personas perdieron sus casas y sus tierras. Muchas aldeas fueron arrasadas” [«A guerra do futebol durou cem horas. O balanço: seis mil mortos, vinte mil feridos. Cerca de cinquenta mil pessoas perderam as suas casas e as terras. Muitas aldeias foram arrasadas»], descreveu  Kapuscinski.

O conflito nas bancas

O conflito ficou imortalizado na imprensa – em especial na cobertura de Ryszard Kapuściński – como Guerra del Fútbol. Um nome enganador.

«Mucha gente todavía cree, erróneamente, que eso fue una causa que incidió para la guerra» [«Muita gente continua a acreditar, de forma errada, que isso foi uma causa para dar origem à guerra»], acredita Mauricio «Pipo» Rodriguez, autor do golo da vitória salvadorenha.

 

 

Mesmo antes do confronto futebolístico, a relação entre as nações era tensa. A crise diplomática tinha sido causada por temas de migração, economia e territórios. O futebol agudizou as disputas antigas e serviu de instrumento para motivar a população para uma guerra há muito anunciada.

Apesar do conflito, a bola continuou a rolar. El Salvador estreou-se no Campeonato do Mundo de 1970, no México. A Seleção não conquistou nenhum ponto, sofrendo 9 golos em três jogos e ficando-se pela fase de grupos.

As feridas entre os dois países tardaram em sarar; o tratado de paz só foi assinado em 1980.

«Con la firma de un tratado de paz que redefine sus fronteras, El Salvador y Honduras dieron término ayer oficialmente a la guerra declarada hace once años entre ambos países» [«Com a assinatura de um tratado de paz que redefine as suas fronteiras, El Salvador e Honduras deram ontem oficialmente por terminada a guerra declarada há onze anos entre ambos os países»], escreveu El Pais.

Uma reconciliação irónica, para Tonín Mendoza, capitão da equipa hondurenha em 1969.

«Honduras rompió relaciones con El Salvador por 10 años. Para iniciarlas se organizó un partido. Lo que son las cosas, ¿no?» [«Honduras cortou relações com El Salvador durante 10 anos. Para as iniciar, organizou-se um jogo. O que são as coisas, não?»]

Ripanarapaqueca

É o regresso à experiência do transistor. Encostamos o telemóvel ao ouvido, que nos traz as vozes da Rádio e TV que conhecemos dos relatos e dos comentários do Futebol. São momentos de grande emoção.

Ripa na rapaqueca. A expressão do jornalista Jorge Perestrelo remete para o ritmo frenético e a emoção sem igual do relato futebolístico. Para a arte de traduzir em palavras os caprichos do esférico dentro das quatro linhas

Em Portugal

A expressão «Ripa na Rapaqueca» foi cunhada por Jorge Perestrelo e tornou-se uma das mais célebres da rádio portuguesa. O «grito de guerra» surgiu quando o jornalista e radialista trabalhava na Rádio Comercial e significa nem mais nem menos do que… «chuta na bola». «Agarrei na rapaqueca, na bola. E nós como tínhamos o hábito, em Angola, de dizer, quando queria dizer “chuta”, diz “ripa”, então “chuta na rapaqueca, ripa na rapaqueca”», explicou. A expressão pegou.

O SL Benfica voltou a conquistar a Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1961/1962, depois de ter vencido o troféu na época anterior. Artur Agostinho fez o relato da partida, que os encarnados venceram por 5 a 3, com golos de José Águas, Cavém, Mário Coluna e um bis de Eusébio.

Artur Agostinho relatou, ao microfone da Emissora Nacional, o jogo que opôs Portugal e Coreia do Norte, a contar para os quartos-de-final do Mundial de 1966. Aos 25 minutos, os Magriços já perdiam por 3 a 0. A reviravolta foi assinada por Eusébio. O Pantera Negra marcou 4 dos 5 golos da vitória portuguesa, carimbando a passagem para as meias-finais.

Rui Tovar integrou os quadros da RTP no final dos anos 70, depois de ter passado por publicações como o Diário de Notícias e O Dia. Na estação pública, celebrizou-se como comentador de eventos de desporto e por apresentar espaços de informação nesta área, nomeadamente o popular programa «Domingo Desportivo».

Jorge Perestrelo deu voz a uma das mais emocionantes partidas do Euro 2004: o jogo entre Portugal e Inglaterra, nos quartos-de-final da prova. A partida, que terminou com um empate a 2-2, só se resolveu através de grandes penalidades. Depois de defender, sem luvas, o remate inglês, coube ao guarda-redes Ricardo converter o penalti decisivo.

Depois da vitória em Alvalade, o Sporting CP foi a Alkmaar disputar a passagem à final da Taça UEFA 2004/2005. No final do prolongamento, os leões perdiam por 3-1. Bastava um golo para manter vivo o sonho, golo esse que chegou nos últimos segundos da partida, pela cabeça de Miguel Garcia. Foi o último relato de Jorge Perestrelo. O jornalista faleceu no dia seguinte, a 6 de maio de 2005, vítima de enfarte.

A popular canção «A minha casinha», dos Xutos e Pontapés, foi adaptada pelo radialista da TSF, João Ricardo Pateiro, no relato do golo marcado por João Moutinho frente ao Paços de Ferreira, a 28 de outubro de 2011. O seu relato do golo foi considerado o melhor do ano de 2011 pela ESPN Brasil. Os dragões venceram a partida por 3-0.

O relato de Nuno Matos do play-off entre Portugal e Suécia, que terminou com a vitória portuguesa por 3-2, é um dos mais memoráveis da história recente do jornalismo desportivo. A emoção do locutor da Antena 1 com o hat-trick de Ronaldo ultrapassou fronteiras e fez furor nos meios internacionais e nas redes sociais.

No estrangeiro

Luiz Mendes deu voz à incredulidade dos brasileiros perante o golo de Ghiggia, que carimbou a surpreendente vitória dos uruguaios na final do Mundial de 1950. A partida, conhecida como Maracanaço, é uma das páginas mais negras da história do futebol brasileiro.

«Aus, aus, aus! Aus! Das Spiel ist aus! Deutschland ist Weltmeister!» [«Terminado, terminado, terminado! O jogo está terminado! A Alemanha é campeã do mundo!»]. Herbert Zimmermann é a voz por detrás de um dos mais famosos relatos desportivos da história alemã. O jornalista não conseguiu conter o seu entusiasmo depois da Alemanha ter batido a Hungria e conquistado o título mundial, num jogo conhecido como «o milagre de Bern».

«They think it’s all over… it is now!» [«Eles pensam que tudo está terminado… agora está!»]. O relato de Kenneth Wolstenholme para a BBC é um dos soundbites desportivos mais populares do mundo. Nos derradeiros segundos da final do Mundial de 1966, os adeptos começaram a invadir o cmapo, o que não impediu os Three Lions de marcar mais um golo, vencendo a Alemanha Ocidental por 4-2 e conquistando o título mundial.

«Maggie Thatcher… your boys took a hell of a beating! Your boys took a hell of a beating!» [«Maggie Thatcher… os seus rapazes foram derrotados à grande! Os seus rapazes foram derrotados à grande!»]. A vitória da Noruega frente a Inglaterra no apuramento para o Campeonato do Mundo imortalizou Bjørge Lillelien na história do Jornalismo desportivo. O seu relato tornou-se tão popular que foi escolhido para representar a Noruega no «Memory of the World» da UNESCO.

O comentador Jack van Gelder deu voz à emoção dos fãs holandeses depois de Dennis Bergkamp ter marcado frente à Argentina nos quartos-de-final do Campeonato do MUndo de 1998. A Oranje venceu o jogo por 2-1.

O golo de Robbie Keane nos últimos momentos da partida entusiasmou os adeptos. O surpreendente empate da República da Irlanda frente à Alemanha no Mundial de 2002 levou ao famoso comentário de John Motson: «Look at these scenes! Just look at these scenes!» [«Vejam estas imagens! Vejam só estas imagens!»].

O relato de Fabio Caressa fez história no Jornalismo desportivo italiano. O comentador da Sky Italia deixou-se levar pelas emoções quando Fabio Grosso marcou o golo decisivo nos derradeiros segundos da partida frente à Alemanha, no Mundial de 2006.

O locutor da Rádio Globo RJ, Luiz Penido, fez o relato da maior derrota de sempre da Seleção canarinha, popularizando a expressão «Rala, rala Brasilzão, que o barato bom é alemão». O Brasil perdeu por 7 a 1 frente à Alemanha e ficou pelo caminho no Campeonato do Mundo de 2014. A expressão «rala, rala» é uma das frases mais populares dos relatos de Penido, sendo utilizada para se referir à equipa que sofreu um golo.

António Paulouro

O fundador do Jornal do Fundão, o periódico «mais lido das beiras», vive o período do Estado Novo. Contudo, a sua publicação mantém-se fiel ao seu estatuto independente.

«Dizem que eu fiz um jornal, eu digo que foi o jornal que me fez a mim». O fundador do Jornal do Fundão nasce em 1915 e, apesar de ter vivido no período do Estado Novo, mantém a publicação politicamente independente

O Fundador

Nascido a 3 de maio de 1915 no Fundão, António Paulouro ficou órfão de mãe aos cinco anos. Filho de mestre-sapateiro, aos 11 anos já angariava o seu próprio dinheiro como paquete da secretaria judicial.

A sua infância e adolescência foram vividas em clima de instabilidade do país. Do golpe militar de 28 de maio de 1926 à implantação do Estado Novo, Paulouro tornava-se, aos 14 anos, um grande ativista do salazarismo.

Tudo levava a crer que a carreira política de Paulouro estava lançada. José Hermano Saraiva, também em ascensão na altura, escolheu-o como seu aliado local, aquando da fundação do Jornal do Fundão, a 26 de janeiro de 1946.

Na sua primeira edição, lia-se no editorial «Rumo» do jornal: «No nosso posto estaremos ao lado dos que trabalham e dos que sofrem, em fraterna compreensão que não é de hoje, mas de sempre». A nova publicação prometia ser um projeto de intervenção cívica baseado na fraternidade.

Curiosamente, Paulouro, apesar de salazarista, nunca deixou que os interesses políticos se sobrepusessem à verdade jornalística. A decisão de manter o Jornal do Fundão politicamente independente custar-lhe-ia caro.

  

Por censurar

Em 1963, o ex-Presidente brasileiro Juscelino Kubitschek desembarca em Lisboa, a convite de António Paulouro, para conhecer o Fundão. Esta visita iria enfurecer Salazar, que fez tudo para a silenciar.

O reverso da moeda que o regime não estava à espera foi o facto de a pequena vila do Fundão ser palco da maior manifestação coletiva contra a censura e a favor de Kubitschek  de que há memória.

Paulouro faz o Estado Novo estremecer

A 23 de maio de 1965, o Jornal do Fundão fazia, mais uma vez, as muralhas do regime estremecerem. No lançamento do suplemento literário «Argumentos», a publicação de Paulouro relatava a atribuição do Grande Prémio da Novela, pela Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE), à obra Luuanda, de Luandino Vieira.

O inconveniente para o Antigo Regime? Luandino Vieira era um preso político detido no Tarrafal, acusado de conspiração contra o Estado Novo.

O Jornal do Fundão acabaria por ser suspenso pela Direção dos Serviços de Censura no dia 26 de maio, sob a acusação de ter publicado páginas não visadas pelos serviços. No entanto, o delegado distrital da censura admitiu que todo o jornal tinha sido verificado antes da sua publicação.

O Jornal do Fundão saiu das bancas e das casas dos assinantes, mas com a vontade de Paulouro e de abaixo-assinados, o semanário regressou às bancas no dia 28 de novembro de 1965.

Esta não era a primeira desavença de Paulouro com o Estado Novo. Em 1950, o jornalista foi convidado para a Vice-Presidência da Câmara Municipal do Fundão, mas, em 1958, desistia do cargo, por divergências profundas com o regime.

O que é certo é que, após o caso Luuanda, o semanário passou a ser alvo de uma apertada vigilância por parte do «Lápis Azul» até 1974.

Depois da revolução, uma lufada de ar fresco

Após o 25 de Abril, o jornalista participaria como deputado nas listas do PRD pelo círculo de Castelo Branco, e candidato por diversas vezes na lista do PS. Em 1985, o Presidente da República condecorou-o com a Ordem da Liberdade.

Onze anos mais tarde, o Sindicato dos Jornalistas fez de António Paulouro seu membro honorário, imortalizando o seu legado e o seu notável contributo para o jornalismo.

Paulouro morreu em 2002.A cidade do Fundão, através da Câmara Municipal, homenageou o jornalista, erguendo um monumento em granito, em sua honra, em 2010.

Atualmente, o Jornal do Fundão permanece como o «mais lido semanário das Beiras». Além disso, a sua projeção nacional e a sua penetração junto das comunidades portuguesas no estrangeiro é inegável.

O jornalista tornou-se numa ilustre figura de resistência à opressão política do Estado Novo. De palavras aguçadas e ousadas, os seus textos desafiavam constantemente a censura.Tudo devido à intervenção política assinalável de António Paulouro.

Artur Agostinho

Com 25 anos, ingressa na Emissora Nacional através de concurso público. Aqui estreia-se nos relatos de jogos de futebol e hóquei em patins. Também como ator fa furor nos filmes O Leão da Estrela, Capas Negras e Cantiga da Rua e, mais tarde, em séries televisivas

Radialista, jornalista, ator, apresentador… a sua carreira é multifacetada e a sua voz inconfundível. Artur Agostinho marca a Comunicação e o Jornalismo em Portugal

Artur Agostinho foi uma cara muito conhecida da televisão. Para além de protagonizar tantas séries televisivas, destacou-se como ator nos filmes O Leão da Estrela (1947), Capas Negras (1947) e Cantiga da Rua.

Não seria, no entanto, apenas na televisão que Artur Agostinho faria História.

A chegada à rádio

Artur Fernandes Agostinho nasceu a 25 de dezembro de 1920, em Lisboa. Em 1938, iniciou-se como locutor de rádio amador na Rádio Luso, em Lisboa. Mais tarde, passa ainda pelas Rádio Voz de Lisboa, Clube Radiofónico de Portugal, Rádio Peninsular e Rádio Clube Português.

Em 1945, com 25 anos, o locutor ingressava na Emissora Nacional através de concurso público. Aqui estreou-se nos relatos de jogos de futebol e hóquei em patins, quando o jornalismo desportivo radiofónico se encontrava ainda nos seus primórdios.

Na estação oficial, Artur Agostinho acompanhou a seleção nacional de hóquei em patins nas grandes vitórias nos campeonatos da Europa e do Mundo, e ainda no Torneio de Montreux.

Destacou-se também na cobertura radiofónica de várias Voltas a Portugal em Bicicleta, e testemunhou as grandes vitórias do futebol português da década de 60, para além de cobrir os Jogos Olímpicos de Helsínquia, Roma e Tóquio.

O seu grito «É gooooooloooooooo» persiste na memória da História da Rádio em Portugal.

A sua dicção e timbre inconfundíveis garantiram-lhe funções de jornalista, repórter, locutor e apresentador. Até o teatro o recrutou como ator.

O programa onde mais se destacou foi os Serões para Trabalhadores, patrocinado e incentivado pelo regime. Seria também destacado para acompanhar visitas presidenciais e ministeriais, protagonizadas por Craveiro Lopes e Américo Thomaz, a África, Brasil e outros locais.

Algumas das reportagens mais relevantes que fez passaram pelas cerimónias do Santuário de Fátima, assim como a visita da Rainha de Inglaterra a Portugal.

Após a Revolução dos Cravos, o locutor foi detido pelo COPCON, acusado de pertencer ao golpe de 28 de setembro de 1974, a favor do General Spínola. Histórias circularam que Artur Agostinho tinha sido preso disfarçado de padre, dentro de um carro funerário e que o caixão, em vez de um morto, levava armas.

Artur Agostinho esteve preso durante três meses, até 24 de dezembro de 1974. Após a sua saída, o jornalista partiu para o Brasil, onde esteve seis anos. Aí trabalhou na Rádio Continental do Rio de Janeiro e na Rádio Globo, sendo responsável por dois programas semanais dedicados ao futebol português.

De volta a Portugal

Em 1981, volta a Portugal. Na bagagem teria a experiência de dois anos na Rádio Globo em desporto, que transportou para a Rádio Renascença. Surge, então, o programa «Bola Branca» – que ainda perdura. Do seu saber adquirido no estrangeiro, foi ainda introduzido o popular anúncio dos nomes dos jogadores, cantados pelos comentadores.

Artur Agostinho revolucionava a informação desportiva em Portugal. A Renascença passou a ser a rádio mais ouvida no país, dando novo ritmo e uma maior independência ao jornalismo desportivo.

Conquistava a liderança do jornalismo desportivo e chegaria a colaborar no departamento desportivo da Antena 1, até 1996.

Dirigiu também o diário desportivo Record, entre 1963 e 1974. Conhecido adepto sportinguista, esteve igualmente à frente do jornal do Sporting.

Mais tarde, em 2005, o jornal Record criava um prémio em sua homenagem, destinado a protagonistas do desporto que se tenham também distinguido nesse ano. Artur Agostinho entregou o galardão, pessoalmente, a Pauleta (2005), Scolari (2006), Rui Costa (2007), Cristiano Ronaldo (2008), Luís Figo (2009) e José Mourinho (2010).

Estrela no pequeno ecrã

O percurso de Artur Agostinho não se ficava pela rádio, nem tampouco pelo jornalismo.

Passava para o pequeno ecrã, na RTP, onde apresentou variados concursos de muito sucesso, como “Quem Sabe Sabe”, “Ou Sim Ou Não”, “Quem tudo Quer Tudo Perde”.

O programa “Curto-Circuito”, realizado no Teatro Monumental em Lisboa, faria igualmente grande sucesso.

Como ator, participou em vários filmes, novelas e séries, que o dariam a conhecer às gerações mais novas.

Em 2010, era atribuído ao jornalista o Prémio Globo de Ouro SIC/Caras de Mérito e Excelência.

Em dezembro de 2010, Artur Agostinho foi agraciado por Cavaco Silva com a Comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, numa cerimónia que decorreu no Palácio de Belém. O comunicador confessaria mais tarde:

«Realmente foi um dos dias mais felizes da minha vida».

Pouco antes de morrer, em março de 2011, o jornalista lançava um novo livro: Flashback – Uma história da vida real. Numa outra faceta sua, Artur Agostinho mostrou os seus dotes de escritor, ao registar em livro vários episódios da sua vida.

O nome de Artur Agostinho ficaria gravado para sempre na História da Comunicação em Portugal. Mais do que locutor de rádio ou ator, Artur Agostinho foi um grande comunicador.

A sua voz a relatar os dois golos «dos 5 violinos», numa vitória do clube leonino, fará eco para sempre no Museu Mundo Sporting.

«Não tenho dúvidas em dizer que com ele morre uma parte importante da história da rádio. A uma certa altura o Artur Agostinho foi a rádio. Desenvolveu as mais variadas atividades, dos relatos à informação, passando pelo teatro radiofónico, sempre competente em todas as áreas. Ele era a rádio». Ribeiro Cristovão, jornalista