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News Standard

A estagiária entornou o café

O Presidente e a estagiária. É a ainda incipiente internet quem primeiro revela ao mundo o caso que choca a América e que quase dita o afastamento de Bill Clinton da Casa Branca

Um vestido azul, uma faísca, gravações secretas. Um segredo bem guardado, não a fosse a imberbe internet. No final dos anos 90, a vida íntima do homem mais poderoso da América chega à barra do tribunal.

“I did not have sexual relations with that woman” [«Não tive relações sexuais com aquela mulher»]. De punho erguido e voz tremida, Bill Clinton enfrentava o país. A 26 de janeiro de 1998, os norte-americanos viam o seu Presidente assegurar, em direto, a sua inocência. Na semana anterior, rebentara o escândalo.

A 17 de janeiro de 1998, o site Drudge Report publicou informações sobre um alegado caso amoroso entre Clinton e uma antiga estagiária na Casa Branca, Monica Lewinsky. Segundo a página online, a revista Newsweek obtivera gravações que comprovavam a relação ilícita.

O escândalo chegou à imprensa quatro dias depois, a 21 de janeiro. “Clinton Accused of Urging Aide to Lie” [«Clinton Acusado de Encorajar Funcionária a Mentir»], publicou o The Washington Post. O Presidente negou vagamente o caso, mas não foi suficiente. Era necessária uma declaração pública que não deixasse espaço para dúvidas.

A conferência de imprensa de 26 de janeiro viu o Presidente, lado a lado com a Primeira-Dama, Hillary Clinton, enfrentar as câmaras e negar as acusações de que era alvo. “I never told anybody to lie, not a single time; never. These allegations are false” [«Nunca disse a ninguém para mentir, nem uma vez; nunca. Essas alegações são falsas»].

No dia seguinte, Hillary abandonava o papel de mera figurante. “The great story here […] is this vast right-wing conspiracy that has been conspiring against my husband since the day he announced for President” [«A grande estória aqui […] é esta vasta conspiração de direita que tem estado a conspirar contra o meu marido desde o dia em que ele foi anunciado como Presidente»], afirmava a Primeira-Dama, em entrevista ao programa «Today», da NBC.

Os norte-americanos pareciam convencidos. Durante o caso Lewinsky, os índices de aprovação do Presidente perante a opinião pública chegaram mesmo a subir.

Do Arkansas para a Casa Branca

A 26 de janeiro de 1992, Bill Clinton e a sua mulher Hillary eram entrevistados para o programa «60 Minutes». Tratava-se de um dos primeiros grandes eventos mediáticos do então Governador do estado do Arkansas, que anunciara no ano anterior a sua candidatura à Casa Branca.

Uma candidatura marcada por… acusações de adultério. “Are you prepared tonight to say that you never had an extramarital affair?” [«Está preparado para afirmar, esta noite, que nunca teve um caso extraconjugal?»], perguntou o jornalista Steve Kroft.

Clinton não se comprometeu. “I’m not prepared tonight to say that any married couple should ever discuss that with anyone but themselves. […] I have acknowledged wrongdoing. I have acknowledged causing pain in my marriage” [«Não estou preparado para dizer esta noite que qualquer casal deva alguma vez discutir isso com alguém que não eles próprios […] Admiti que tive atitudes erradas. Admiti ter causado dor no meu casamento»].

A 3 de novembro de 1992, Bill Clinton tornava-se o 42.º Presidente dos Estados Unidos, sendo reeleito para o seu segundo mandato em 1996. Mas a sua vida amorosa não mais deixaria de cruzar-se com a sua carreira política.

A saga do vestido azul

A comunicação pública de Clinton, em janeiro de 1998, talvez tivesse convencido a nação, mas, na Justiça, o caso estava longe de terminar. A investigação sobre Clinton – que incluía o escândalo político-financeiro Whitewater, as controvérsias dos despedimentos ilícitos na Casa Branca e o uso indevido de ficheiros confidenciais do FBI – debruçava-se agora sobre se o Presidente teria ou não mentido perante o Tribunal sobre a natureza do seu relacionamento com Monica Lewinsky. Faltava, contudo, uma peça essencial do puzzle: o depoimento da antiga estagiária.

No final de julho, os investigadores conseguiram um acordo: em troca de um testemunho honesto, é garantida a Lewinsky a imunidade. O interrogatório dura seis horas. Para a cultura popular, fica imortalizado numa peça de vestuário: o vestido azul manchado de sémen, prova irrefutável da relação ilícita entre a estagiária e o Presidente.

Clinton não tem alternativa. A 17 de agosto, é ouvido perante um grande júri e admite ter tido relações sexuais com Monica Lewinsky. Foi a primeira vez que um Presidente em mandato falou perante um grande júri, sendo o próprio o alvo da investigação. Nessa mesma noite, Clinton decide enfrentar o país. Desta vez, Hillary não aparecia a seu lado.

“Indeed I did have a relationship with Ms. Lewinsky that was not appropriate. In fact, it was wrong” [«É verdade que tive realmente uma relação com a Senhora Lewinsky que não era apropriada. De facto, era errada»], confessou. O contraste com a sua comunicação, sete meses antes, não podia ser maior. O caso assombrou a presidência de Clinton.

O público, a imprensa e, claro, o Congresso continuaram a acompanhar avidamente o desenrolar do escândalo. “I’m having to become quite an expert in this business of asking for forgiveness” [«Fui obrigado a tornar-me um especialista nesta coisa de pedir perdão»], referiu Clinton, nesse verão de 1998.

As desculpas – e só públicas foram pelo menos uma dúzia – não foram suficientes. Em setembro, foi tornado público o relatório da investigação. A Casa Branca tremeu. A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos reuniu-se para decidir a impugnação do mandato de Clinton. As acusações? Perjúrio e obstrução à Justiça.

Clinton foi o segundo Presidente dos Estados Unidos cuja destituição foi a votos na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. O único outro líder norte-americano acusado foi Andrew Johnson, em 1868.

O país parou para escutar o veredicto. A 12 de fevereiro de 1999, Clinton foi absolvido. “I want to say again to the American people how profoundly sorry I am for what I said and did to trigger these events” [«Quero desculpar-me novamente perante os Americanos pelo que disse e fiz para despoletar estes acontecimentos»], declarou. O Presidente continuava no cargo. A América tentava seguir em frente.

O comediante norte-americano Jay Leno fez, ao longo de mais de vinte anos do programa «The Tonight Show», 4.607 piadas sobre Bill Clinton. Monica Lewinsky foi alvo de 454. O mundo da música também se inspirou no escândalo: Beyoncé faz referência a Lewinsky em “Partition”, tal como o rapper Eminem em “Rap God”, Snoop Dogg em “Bitch I Knew” e G-Ezay na música “Monica Lewinsky”.

Depois da Casa Branca

Um mês depois de Clinton ter sido absolvido, Monica Lewinsky quebrou o silêncio. A Barbara Walters, do programa «20/20», contou, pela primeira vez, a sua versão dos factos. “Sometimes I have warm feelings, sometimes I’m proud of him still and sometimes I hate his guts” [«Por vezes tenho sentimentos bons, por vezes  ainda tenho orgulho nele e por vezes odeio-o»].

Os seus quinze minutos no estrelato prolongaram-se. Lewinsky deu nome a uma linha de malas, apareceu no «Saturday Night Live» e apresentou um reality-show. Depois de uma década de silêncio, voltou a aparecer no radar mediático com uma peça para a revista Vanity Fair.

“Thanks to the Drudge Report, I was also possibly the first person whose global humiliation was driven by the Internet” [«Graças ao [website] Druge Report, também fui, possivelmente, a primeira pessoa cuja humilhação global foi conduzida pela Internet»], escreveu.

Para o casal Clinton, abandonar a vida pública não foi uma opção. Hillary Clinton deu início a uma carreira política em nome próprio, tornando-se senadora de Nova Iorque, secretária de Estado e candidata presidencial às eleições norte-americanas de 2008 e 2016.

Hillary Clinton referiu-se ao escândalo na sua autobiografia Living History. “As a wife, I wanted to wring Bill’s neck” [«Como mulher dele, queria torcer-lhe o pescoço»]. O casal celebrou em 2015 o seu 40.º aniversário de casamento.

Bill Clinton levou o seu mandato até ao fim e, desde então, continua a apoiar causas políticas e a desenvolver trabalho humanitário. À data da sua saída da Casa Branca, em 2001, contava com um índice de aprovação de 65 por cento, o mais elevado de qualquer presidente dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial.

O escândalo Lewinsky, esse, manchou para sempre o seu segundo mandato. No discurso em que admitiu a sua culpa perante o país, o então Presidente defendeu que “even Presidents have private lives” [«até os Presidentes têm vidas privadas”]. A de Clinton por pouco não o afastou da Presidência.

O escândalo está representado no retrato oficial de Bill Clinton, da autoria do artista Nelson Shanks.

Do lado esquerdo da pintura pode ver-se uma sombra, metáfora que remete para o impacto do caso Lewinsky na sua presidência.

Storytelling: contar estórias que vendem

Os territórios de imagem das marcas, empresas e organizações são definidos por narrativas. O “Storytelling” é uma ferramenta clássica das Public Relations que tem aumentado de notoriedade e valor com o crescimento do fator “Entretenimento” no processo de Comunicação

Do Capuchinho Vermelho ao Water Project. A disciplina de contar estórias que vendem nas ferramentas da Comunicação.

Era uma vez…

Nos anos 50, uma estudante universitária entrega o seu filho a um casal da classe trabalhadora.

O jovem entra numa universidade privada que não consegue pagar e acaba por desistir dos estudos.

Integra uma incipiente empresa tecnológica, de onde é despedido.

Regressa, anos depois, e transforma-a numa potência mundial.

A narrativa parece pertencer a um herói de contos de fadas. Não falta nenhum ingrediente: coragem, sofrimento, amor e dedicação.

Trata-se, na verdade, da estória bem real de Steve Jobs, cofundador da Apple.

Uma narrativa que se confunde com a própria marca e integra a sua estratégia de comunicação.

O caso da Apple ilustra a importância das estórias para as Relações Públicas.

O storytelling enquanto estratégia comunicacional nasce a partir de um desejo básico e comum a todos os seres humanos: a vontade de serem conquistados.

Do Neolítico à propagação do @

“Scratch the surface in a typical boardroom and we’re all just cavemen with briefcases, hungry for a wise person to tell us stories.”

[«Debaixo da superfície, numa típica sala de reuniões, somos todos homens das cavernas com pastas, desejosos que uma pessoa sábia nos conte estórias».]

– Alan Kay, Vice-Presidente da Walt Disney

A arte de contar estórias é tão antiga quanto a Humanidade.

Mesmo antes do desenvolvimento da escrita, o ser humano descobria o poder da narrativa para reter e consolidar o seu conhecimento.

As estórias permitiam aos nossos antepassados transmitir informação e fortalecer os laços comunitários.

Em pleno século XXI, as estórias continuam a ser parte central da Comunicação.

As estórias das RP

“People do not buy goods and services. They buy relations, stories and magic.”

[«As pessoas não compram bens e serviços. Compram relações, estórias e magia».]

– Seth Godin, especialista de Marketing

Uma marca é uma questão de perceção: como esta se vê e como esta pretende ser vista pelos seus públicos são questões-chave para a constituição da sua identidade.

Trabalhar estrategicamente uma marca deve passar por criar uma experiência que tenha impacto nos públicos.

Uma criação feita, direta ou indiretamente, a partir de estórias.

As narrativas conferem personalidade à marca e permitem-lhe chegar de forma mais eficaz e duradoura aos públicos.

O segredo? Conferir um contexto e desenvolver uma estória, de forma que o público atribua significados emocionais à marca.

Mais do que uma campanha ocasional, o storytellingdeve orientar a estratégia da empresa de forma consistente e adaptar-se de acordo com a resposta do público.

Uma lição que a Dove estudou bem.

A marca tem vindo a investir fortemente na sua comunicação, desenvolvendo uma estratégia baseada no conceito de “Real Beauty”.

Esta ideia é transmitida através de vários meios, desde vídeos a billboards, de ações nas redes sociais a anúncios virais.

Em comum, as peças divulgadas através das plataformas de comunicação têm o facto de não procurarem vender um produto ou serviço específico, mas sim divulgar um conceito: “Real Beauty”.

Em busca de uma narrativa

“Stories give color to black and white information.”

[«As estórias dão cor à informação a preto e branco».]

 – Todd Stocker, autor

Ao dar à marca uma identidade, capturando e partilhando estórias, é possível proporcionar aos consumidores uma experiência que estes desejam vivenciar.

De forma a que o público desenvolva uma ligação pessoal com a marca, as estórias devem ser autênticas, criativas e inspiradoras.

Dos conteúdos aos eventos e às campanhas, toda a estratégia deve estar inserida numa grande narrativa, que fundamente e apoie a identidade da marca.

Tal como um conto de fadas, estas estórias devem ter um início, criar um conflito e chegar a uma resolução.

No entanto, as narrativas empresarias são únicas porque requerem um quarto elemento: um call to action, ainda que, muitas vezes, indireto.

Em Relações Públicas, um final feliz não passa pela compra de produtos ou serviços, mas pela forma como a narrativa consegue inspirar, motivar a mudança e aumentar o engagement: criar a identidade e formar a perceção sobre determinada organização, entidade, empresa, marca ou produto.

Veja-se o exemplo da campanha “Stay Together”, desenvolvida pelo Skype.

A marca convidou os utilizadores a partilhar as suas estórias reais, criando uma nativa apelativa e pungente, que recorre à estrutura básica dos contos de fadas, deixando os espetadores a torcer pelo sucesso do herói.

A história do “retrato impossível”, que junta um homem que fugiu da guerra e a família que deixou para trás, conquistou os internautas.

Escutar o público é, aliás, uma das lições fundamentais para ser um bom contador de estórias, pois só dessa forma é possível entender verdadeiramente os seus desejos e preocupações, as suas crenças e atitudes.

Um trabalho contínuo, que se prolonga ao longo da campanha, de forma a avaliar as reações dos consumidores.

À medida que os objetivos se alteram, devem ser planeadas novas iniciativas que deem continuidade à estória e inspirem novos calls of action.

A Coca-Cola é um exemplo de longevidade na utilização de técnicas de storytelling.

O recurso a narrativas para a construção da identidade da marca faz parte do ADN da multinacional.

Entre os seus maiores feitos comunicacionais encontra-se, aliás, a criação da figura do Pai Natal que hoje conhecemos e que já integra a cultura popular.

É este um dos top goalsde qualquer organização: uma estória criada por uma marca ficou gravada de forma tão profunda que se tornou parte do imaginário comum da sociedade.

No seu plano estratégico, a marca propõe-se a alcançar um “disproportinate share of popular culture” [«sharedesproporcional da cultura popular»], criando conteúdos virais, cuja disseminação não pode ser controlada.

Grande parte dos seus conteúdos surge a partir do conceito “Coke Side of Life”, associado à ideia de felicidade.

Além das suas campanhas globais, a marca procura chegar mais perto dos consumidores, desenvolvendo iniciativas de comunicação adaptadas aos diferentes mercados.

A iniciativa “Small World Machines” uniu Índia e Paquistão, nações separadas por disputas territoriais e por décadas de conflitos, numa campanha que trouxe o público para o centro da estória; mais do que a própria marca, foram os paquistaneses e os indianos os protagonistas.

Protagonista: o público

“Content builds trust. Trust builds relationships.”

[“Conteúdos constroem confiança. Confiança constrói relações”.]

– Andrew Davis, autor

Tal como os contos de fadas, o storytelling é, por definição, uma técnica centrada na pessoa.

Embora seja importante para as marcas contar a sua própria estória, são as narrativas criadas pelos consumidores que têm um impacto maior.

Os consumidores devem ser o protagonista, com a empresa a servir como personagem secundária, que disponibiliza ferramentas para decisões informadas.

O sucesso reside na criação de estórias atrativas que têm o poder de mobilizar o público.

Por este motivo, é um dos pilares comunicativos das organizaçoes não-governamentais, que utilizam narrativas com o objetivo de conquistar awarenesspara a sua causa.

O que acontece quando a crise da falta de água em África chega a um cinema em Hollywood?

O The Water Project procurou dar resposta a esta questão, desenvolvendo uma campanha que torna o público num dos protagonistas ativos.

Em vez de anunciar factos e números, o projeto procurou levar os espetadores a integrar as estatísticas, pelo menos durante uns minutos.

O público foi convidado a embarcar numa jornada com o The Water Project, inspirando o sentido de missão e levando-os na jornada da organização, com o objetivo de alargar o acesso a água potável e saneamento básico.

Uma Aldeia Global povoada de estórias

“Social media is about the people. Not about your business.”

[“As redes sociais são dedicadas às pessoas. Não ao seu negócio”.]

– Matt Goulart , fundador da WebStar Content

A utilização de técnicas de storytelling não nasceu com as redes sociais, mas habita nelas.

Devido ao crescimento explosivo destas plataformas e do marketing de conteúdo, contar estórias tornou-se uma prioridade estratégica.

No online, o storytelling assume diferentes especificidades: as redes sociais são vistas como mais do que uma plataforma de distribuição, tornando-se um espaço de conversa entre as marcas e os internautas.

Dos 140 caracteres do Twitter às transmissões em direto no Periscope, cada meio tem a sua característica distintiva, que deverá ser levada em consideração na elaboração da estratégia de marketing.

Da narrativa criada pelo Presidente Obama no Twitter às estórias visuais da Starbucks no Instagram, passando pelos vídeos inspiradores da UNICEF no Vine, pelos casos da vida real apresentados pela Make a Wish no Pinterest e pelas publicações narrativas da Nike no Facebook, as redes sociais tornaram-se num palco priveligiado para o storytelling.

Uma técnica que atravessa formatos e que tem como principal propulsor a criatividade.

E viveram felizes para sempre

“Stories are not indicators, they ARE the organization.”

[“As estórias não são indicadores, SÃO a organização”.]

– David M. Boje, especialista em Storytelling

Dos livros infantis aos discursos de líderes mundiais, o stortytelling enquanto ferramenta comunicacional está por todo o lado.

O público pode esquecer nomes e estatísticas, mas não a experiência que a marca lhes proporcionou: as estórias são aquilo que as pessoas recordam.

Estórias que ajudam a interpretar o passado e a construir o futuro de uma marca.

«O Marketing vende produtos. A Publicidade vende imagens. O planeamento vende visualizações. Os eventos vendem momentos. As pessoas compram estórias».

George Plimpton

Do jornal literário da Paris Review à Sports Illustrated, Plimpton protagoniza notícias e torna Hemingway e Truman Capote notícia. Não se ficando pelo jornalismo, destaca-se também como escritor e ator

Com o berço colocado no seio de uma família letrada

George Ames Plimpton nasceu a 18 de março de 1927, em Nova Iorque (EUA). O seu pai, Francis Taylor Pearsons Plimpton, era um advogado de sucesso e sócio da firma Debevoise and Plimpton e chegou a ser vice-embaixador dos EUA nas Nações Unidas, entre 1961 e 1965. O seu avô, George Arthur Plimpton era o fundador da editora Ginn. Já a sua mãe, Pauline Ames, provinha de uma família igualmente à cena política.

Em julho de 1944 entrou na Universidade de Harvard, onde escreveu para o Harvard Lampoon, uma publicação humorística, e onde foi membro do Hasty Pudding Club e do Porcellian Club.

Os seus estudos foram interrompidos para cumprir o serviço militar obrigatório, entre 1945 e 1948, onde foi condutor de tanques em Itália, pelo exército norte-americano. Depois de se ter graduado em Harvard, Plimpton frequentou o King’s College na Universidade de Cambridge entre 1950 e 1952.

Durante os seus tempos de universidade em Harvard, Plimpton foi colega e amigo de Robert Kennedy. Quando Robert se candidatou à Presidência dos EUA, Plimpton participou na campanha, desenvolvendo outras atividades para além do jornalismo. A 5 de junho de 1968, George Plimpton encontrava-se entre a multidão que viu Robert Kennedy ser alvejado, tendo ajudado a deter Sirhan Sirhan, o assassino.

Plimpton e as entrevistas para o Paris Review

Em 1953, Plimpton tornou-se o primeiro editor do influente jornal literário Paris Review, publicação com a qual colaboraria até ao fim dos seus dias. Uma das descobertas mais notáveis do jornal foi o autor Terry Southern, que desenvolveu uma grande amizade com Plimpton. Uma das grandes entrevistas que Plimpton dirigiu para o Paris Reviewfoi com Ernest Hemingway. George Plimpton foi também o primeiro a publicar nomes como Jack Kerouac, Jay McInerney and Jonathan Franzen, entre outros.

Outro trabalho que ganhou grande notoriedade foi a sua entrevista ao Truman Capote, acerca do seu livro In Cold Blood. Plimpton chegou ainda a contar a história do escritor no livro Truman Capote: In Which Various Friends, Enemies, Acquaintences and Detractors Recall His Turbulent Career.

Os seus artigos desportivos deram também que falar, especialmente aqueles que faziam jus ao «jornalismo participativo». Este tipo de jornalismo consistia na participação em eventos desportivos profissionais, cuja experiência era depois relatada do ponto de vista de um amador. Plimpton estabeleceria o género de jornalismo participativo na década de 60, ao jogar para os Detroit Lions, ao participar num combate de boxe contra o profissional Archie Moore, ao ser trapezista num circo e até ao tocar ferrinhos na Filarmónica de Nova Iorque.

O jornalismo desportivo

À medida que participava em vários eventos desportivos, Plimpton desenvolvia um interesse pelo jornalismo desportivo nas páginas da Sports Illustrated. Entretanto, o estilo divertido e espirituoso das peças de Plimpton ganhava mais espaço em revistas como Harper’s, The New Yorker, Vogue e New York Times Magazine.

A 1 de abril de 1985, a Sports Illustratedpublica o artigo «The Curious Case of Sidd Finch», escrito por Plimpton, que daria muito que falar. A peça relatava que o jogador de baseball Hayden Siddhartha «Sidd» Finch conseguia atirar uma bola a 168 mph, era praticante de ioga e adotado por um arqueologista.

A resposta ao artigo de Plimpton superou todas as expetativas. Os fãs dos Mets ficaram eufóricos por saber que tinham um jogador assim, e encheram o correio da revista com pedidos de mais informação sobre Finch. Além disso, as cadeias televisivas ABC, NBC e CBS e os jornais locais de St. Petersburg, na Florida, enviaram repórteres para uma conferência de imprensa sobre Finch no estádio Al Lang.

Contudo, a 15 de abril, a revista Sports Illustratedanuncia que Sidd Finch era ficcional e que a história foi apenas uma brincadeira de 1 de abril. O artigo de Plimpton ficaria em segundo lugar no top 100 de embustes do Museum of Hoaxes [Museu dos Embustes], e daria origem a um romance escrito pelo próprio Plimpton intitulado de The Curious Case of Sidd Finch [O Curioso Caso de Sidd Finch].

Autor de várias obras, Plimpton viu publicados muitos livros sobre a sua passagem pelos desportos profissionais como o golfe, o futebol americano e o boxe.

Para lá do Jornalismo

Mas George Plimton ficou conhecido muito para além do jornalismo. Também no cinema e na televisão, Plimpton fez furor como ator. Um dos seus papéis mais famosos no cinema foi ao lado do ator John Wayne, no filme western Rio Lobo. O seu incurso na sétima arte marcaria os filmes Reds (1981), The Bonfire of the Vanities (1990), Nixon (1995) e Good Will Hunting (1997).

Na televisão, uma das mais célebres aparições foi no documentário Plimpton! The Man on the Flying Trapeze, transmitido pela ABC.

O escritor e jornalista faria ainda de si próprio num episódio da série The Simpsons.

A herança para o mundo jornalístico e literário

Na sua vida pessoal, George Plimpton esteve casado duas vezes. Em 1968, casou-se com Freddy Medora Espy, uma assistente de fotógrafo. Tiveram dois filhos: Medora Ames Plimpton e Taylor Ames Plimpton. No entanto, o casamento não duraria e, em 1988, o casal divorciou-se. Em 1992, Plimpton acabaria por casar com  Sarah Whitehead Dudley, uma escritora freelancer, de quem teria duas filhas gémeas: Laura Dudley Plimpton e Olivia Hartley Plimpton.

A 25 de setembro de 2003, George Plimpton foi encontrado morto em sua casa, vítima de um aparente ataque cardíaco. A sua vida e carreira seriam relembradas em várias publicações, incluindo o testemunho do seu filho, Taylor Plimpton, na revista The New Yorker.

Em 2008, Nelson W. Aldrich Jr. publica uma biografia oral sobre a vida de George Plimpton, intitulada George, Being George e em 2013, Tom Bean and Luke Poling realizaram o documentário Plimpton! Starring George Plimpton as Himself. Plimpton foi uma estrela do seu tempo, não só no jornalismo, mas também em tantas outras áreas.

Execução na rua

Prémio Pulitzer de 1969. As fotografias são as armas mais poderosas. Diz Eddie Adams, o autor desta foto que testemunha a execução, numa rua de Saigão, de um combatente vietcong às mãos de um general aliados dos EUA

Autor: Eddie Adams
Nacionalidade: Norte-Americana
Ano: 1968
Publicação: Associated Press

 

 

 

 

Mário Neves

O repórter que conta ao mundo «a matança de Badajoz», em plena Guerra Civil de Espanha. Jornalista d’O Século, do Diário de Lisboa e cofundador d’A Capital, Mário Neves junta à carreira de jornalista a de diplomata e embaixador

Repórter na Guerra Civil de Espanha, cofundador d’A Capital, embaixador e diplomata. A sua carreira atravessa várias áreas e torna Mário Neves num dos nomes de maior destaque do Jornalismo português.

«Sou o primeiro jornalista português da entrar em Badajoz depois da queda da cidade em poder dos revoltosos. Acabo de presenciar um espetáculo de desolação e de pavor que não se apagará tão cedo dos meus olhos».

A 15 de agosto de 1936, Mário Neves revelava ao mundo a «matança de Badajoz». A cidade fora tomada pelos nacionalistas no dia anterior.

O repórter do Diário de Lisboa conseguira chegar a Badajoz através da fronteira portuguesa do Caia, deparando-se com «cenas de horror e desolação».

Mário Neves, à época um jovem estudante de Direito de 24 anos, testemunhava a chacina perpetrada pelas forças rebeldes de Franco.

Na edição do dia seguinte, a dimensão da tragédia tornava-se ainda mais clara:

«Passámos depois pelo fosso da cidade, que está ainda amontoado de cadáveres. São os fuzilados desta manhã».

A 17 de agosto, o seu despacho telefónico apresentava um tom determinado.

«Vou partir. Quero deixar Badajoz, custe o que custar, o mais depressa possível e com a firme promessa à minha própria consciência de que não mais voltarei aqui».

As palavras nunca chegaram às páginas do Diário de Lisboa. A crónica foi integralmente cortada pela censura.

O texto só viu a luz do dia em 1963. No livro El Mito de la cruzada de Franco, de Herbert Southworth, foram tornadas públicas as palavras que o regime português queria calar.

Portugal teria de esperar até 1985, ano em que Mário Neves publicou as suas memórias em livro.

A obra A Chacina de Badajoz «é um desabafo e constituiu um alívio para cerca de meio século de opressão da minha consciência», revelou o repórter.

A polémica de Badajoz

Nos anos que se seguiram, o jornalista viu-se envolvido em polémicas sobre a veracidade dos acontecimentos de Badajoz, um debate que se mantém até hoje.

Em 1937, os textos do repórter português foram utilizados tendenciosamente numa obra de Geoffrey McNeill-Moss, tendo em vista descredibilizar o próprio massacre.

Mário Neves respondeu através de uma carta ao diretor do Diário de Lisboa, publicada a 6 de dezembro.

«As minhas crónicas, a que me esforcei por dar objetividade, servem afinal para erradas interpretações do major McNeill-Moss», escreveu.

A verdade histórica acabava por subsistir.

A sua promessa de não regressar a Badajoz manteve-se durante mais de 45 anos.

Mário Neves voltou à cidade a pedido de uma equipa de televisão britânica, a propósito de um documentário sobre a Guerra Civil Espanhola.

A cobertura do massacre de Badajoz foi o seu primeiro grande trabalho jornalístico e imortalizou o seu nome na história da reportagem em Portugal.

O início no Jornalismo

Mário Neves, nascido a 18 de Janeiro de 1912, iniciara o seu percurso pelo Jornalismo num matutino.

Com a morte do seu pai, o também jornalista Hermano Neves, começou a trabalhar no jornal O Século.

Chegou ao Diário de Lisboa em 1931, mantendo-se na redação até 1967. Em 1958, assumiu o cargo de diretor-adjunto.

O nome de Mário Neves aparece frequentemente ligado a um outro episódio marcante da História nacional.

A 10 de maio de 1958, o jornalista terá participado na cobertura das eleições presidenciais, às quais concorria o candidato independente Humberto Delgado.

Em conferência de imprensa, o General foi questionado sobre que postura adotaria relativamente ao Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, caso fosse eleito.

«Obviamente, demito-o», respondeu. Um soundbite que fez História.

A autoria da pergunta é muitas vezes atribuída a Mário Neves, mas outras fontes avançam que terá sido Lindorfe Pinto Basto, correspondente em Lisboa da agência noticiosa France Presse, a questionar o candidato independente.

Novos títulos

De repórter a dirigente, Mário Neves também colaborou na criação de diversas publicações.

Em maio de 1945, fundou com José Ribeiro dos Santos a revista Ver e Crer.

A publicação era inspirada pelo modelo das Selecções do Reader’s Digest, embora de cariz abertamente progressista.

Mais de duas décadas depois, a 21 de fevereiro de 1968, chegava às bancas o primeiro número d’ A Capital (2.ª série).

O vespertino, cuja publicação tinha sido interrompida em 1938, voltava à vida sob alçada de Norberto Lopes, no papel de diretor, e de Mário Neves, como diretor-adjunto.

Antes da edição inicial, o jornal já era questionado pelo regime; a equipa viu-se obrigada  provar que se tratava de uma publicação de informação geral e não com uma determinada inclinação política.

«Nós não somos comunistas, há gente da Voz, há gente do Novidades, há gente do Diário de Lisboa, há gente de outros jornais…», argumentava Mário Neves.

Marcello Caetano cedeu e A Capital saiu para as bancas. A primeira batalha tinha sido vencida.

Mário Neves assinou o artigo de fundo da primeira edição. Um trabalho, como à época era inevitável, condicionado pelo lápis azul da censura.

O número inaugural vendeu cerca de cem mil exemplares. O efeito novidade e a qualidade dos colaboradores do periódico tornaram-no num sucesso junto do público.

Os aumentos de vendas permitiram contratar mais jornalistas e modernizar os equipamentos.

«Queremos fazer de A Capital uma escola de jornalismo», afirmava Mário Neves.

Na viragem para a nova década, o jornal começava a perder leitores e publicidade. As mudanças faziam baixas.

«Desiludido com o rumo que as coisas estavam a tomar», Mário Neves deixa A Capital em 1971 e abandona a profissão.

A carreira de diplomata

Já depois do 25 de Abril, o antigo repórter tornou-se o primeiro embaixador de Portugal na União Soviética, onde permaneceu até 1977.

De regresso a Portugal, foi Secretário de Estado da Emigração, em 1979, no V Governo Constitucional, de Maria de Lourdes Pintasilgo.

A uma carreira profícua no Jornalismo juntavam-se diversos cargos e atividades noutras áreas, incluindo Política, Economia e Diplomacia.

Destacou-se ainda pelo seu trabalho no Instituto Português de Oncologia e na Associação Industrial Portuguesa.

Embaixador, diplomata, fundador, diretor e repórter. Mário Neves faleceu a 1 de janeiro de 1999.

Está fora de jogo!

A esfera futebolística é ultrapassada quando estes dois ex-jogadores decidem trocar comentários. A relação mediática é marcada por críticas familiares e ataques pessoais

Dois dos maiores nomes do futebol brasileiro, Romário e Pelé, são conhecidos pela troca de comentários e insultos que vão para além da esfera futebolística. Críticas familiares e ataques pessoais marcam a relação mediática entre os dois craques.

As primeiras farpas

O primeiro atrito entre duas das glórias do futebol brasileiro remonta a 2005. Romário, então perto dos 39 anos, representava os brasileiros do Vasco da Gama. Pelé aconselhou o atacante a «começar a pensar em retirar-se». A resposta de Romário correu mundo: «Pelé calado é um poeta».

Pelé afirmou que as suas declarações tinham sido mal interpretadas e «que tal como Jesus Cristo, perdoaria os ignorantes».

Pelé – 0 «Rei»

Pelé começou a sua carreira futebolística em 1956, com apenas 16 anos, e logo neste ano foi convocado para a Seleção de futebol brasileira. Apesar da sua carreira ter ficado marcada pelo seu percurso no Santos, Pelé terminou-a no clube norte-americano New York Cosmos. Quando se reformou, em 1977, o «Rei» – como foi nomeado pelos fãs – tornou-se símbolo mundial de futebol. No álbum das glórias futebolísticas ficam registados os 1281 golos marcados durante o seu percurso nos relvados de futebol.

Em 2011, surge uma nova polémica

Em 2011, uma nova polémica entre o «Rei» e Romário – então deputado federal – ganha destaque nos media. Pelé acusou Romário de atacar a Confederação Brasileira de Futebol devido à mágoa sentida por ter ficado de fora do Mundial de 1998. Este rebateu, insinuando que Pelé estaria a receber dinheiro da entidade máxima do futebol brasileiro.

Enquanto deputado federal, Romário pôs em causa a aptidão do Brasil no para organizar o Mundial de Futebol de 2014. Pelé não concordou com o ex-jogador: «Admiro ele, foi um excelente jogador, mas é mal informado. Depois a gente se encontra e conversa e, às vezes, ele até me pede desculpas». Rapidamente uma nova frase de Pelé catapultou para o espaço mediático. Durante a polémica construção dos estádios de futebol, o ex-jogador afirmou «a morte de um operário não passou de um acidente normal». A antiga estrela da seleção brasileira mostrou-se bem mais preocupada com a entrada e saída de turistas dos aeroportos durante o campeonato do mundo.

O eterno camisola 11 voltou a confrontar Pelé, criticando as suas opiniões sobre a seleção brasileira e questionando as suas relações com a religião e família. Através do Twitter, Romário denunciou a relação de Pelé com a filha Sandra, reconhecida pelo pai após decisão judicial em 1996 e que morreu em 2006 vítima de cancro: «Ele disse que é muito católico. Acho que não é tão católico quanto afirma, porque se fosse, teria assumido a filha e ido ao enterro dela. Além de poeta, também é um boçal».

O percurso de Romário

Antes das suas atuais funções políticas, Romário foi uma das grandes estrelas do futebol brasileiro. A sua carreira está associada ao clube brasileiro Vasco da Gama. Não obstante, na Europa, Romário traçou de igual modo um caminho de sucesso tendo jogado PSV Eindhoven (Holanda) e no FC Barcelona. O jornal El Mundo Deportivo declarou, em 2007, Romário como uns dos jogadores mais importantes que alguma vez jogaram no clube catalão.

Pelé e Romário, apesar de admitirem o talento um do outro, trocam continuamente farpas e as suas personalidades entram frequentemente em fricção. Não foram adversários em campo mas são adversários fora dele, através dos media. Uma rivalidade fora de jogo.

Earvin “Magic” Johnson e o vírus do HIV

De basquetebolista de excelência a campeão dos pavilhões do quotidiano. Magic Johnson vive desde 1991 com HIV. Mantém-se saudável e construiu um império empresarial.

A 7 de novembro de 1991, o basquetebolista Magic Johnson anunciou, após 12 épocas de retumbante sucesso desportivo nos Los Angeles Lakers, que iria abandonar a competição. A razão? Era portador do vírus HIV/SIDA.

O anúncio

«Vou combater esta doença mortal», disse o norte-americano. «Não é como se a minha vida tivesse terminado, porque não terminou. Vou sobreviver. Só tenho de tomar medicação e começar a partir daí». Em direto, através da CNN e do ESPN todos assistiram à confissão de Magic Johnson.

O anúncio surgiu numa altura em que a SIDA ainda era tabu: estava associada à homossexualidade e ao consumo de drogas.

«O sexo seguro é o caminho a seguir. Pensamos que só as pessoas gays podem contrair, que não me vai acontecer a mim. E aqui estou eu a dizer que pode acontecer a qualquer um, até a mim, Magic Johnson».

O atleta não revelou como foi contaminado mas admitiu, mais tarde, que apesar de ser casado, o contágio havia sido feito através das relações com múltiplas de parceiras.

«I’m gonna beat it», compromisso que o atleta assumiu consigo e com todos os que o admiravam, contou o Daily News.

Durante o mês de novembro de 1991, mês do anúncio de Magic Johnson, o exame de despiste do vírus do HIV/SIDA aumentou cerca de 60% na cidade de Nova Iorque. Rapidamente, a urgência na feitura deste exame alastrou-se por todo o país. Tal foi a azáfama, que os centros de teste e aconselhamento que, até à data, faziam consultas sem marcação, passaram a exigir agendamento prévio. A revelação do atleta marca uma nova era em prol da desmistificação da doença.

A batalha contra o estigma do HIV

Ainda em 1991, Magic, agora porta-voz da prevenção contra o HIV, criou a Fundação Magic Johnson, que atualmente já auxiliou milhões de pessoas.

Embora fora das competições, Magic jogou no All-Star de 1992, apesar de algumas vozes contrárias à sua participação. Fez também parte do célebre Dream Team, a melhor equipa de basquetebol alguma vez reunida, que conquistou a medalha de ouro para os EUA nos Jogos Olímpicos de Barcelona.

Em excelente forma física, o famoso n.º 32 planeou o regresso aos LA Lakers para a época de 1992/93, menos de um ano após ter anunciado a sua saída, mas a controvérsia subiria de tom.

A Controvérsia dos Jogos Olímpicos

Nos Jogos Olímpicos, dentro e fora da equipa foram expressas reservas em relação ao regresso de Magic Johnson. Apesar de vários médicos assegurarem que a possibilidade de infeção era igual a zero, muitos foram aqueles que temeram partilhar o campo com Johnson.

O mais famoso receio veio de um antigo colega de equipa, Karl Malone, que chegou a sugerir que a infeção poderia acontecer por contacto com o suor de Magic.

“The controversy over Magic Johnson’s participation in the Summer Olympic Games is another example of panic and prejudice toward H.I.V.-infected people. Time and time again, it has been shown that transmission of H.I.V. is overwhelmingly through sexual contact and sharing needles. The risk of H.I.V. infection by individuals engaging in a basketball game is so low that it cannot be statistically measured”, assegurou M. Roy Schwartz, vice-presidente da American Medical Association (AMA). [A controvérsia que se formou devido à participação de Magic Johnson nos Jogos Olímpicos de Verão é outro exemplo de pânico e preconceito face às pessoas infetadas com HIV. Uma e outra vez, tem sido mostrado que a transmissão do HIV é na esmagadora amioria das vezes através de contacto sexual ou partilha de agulhas. O risco de transmissão de HIV entre pessoas a jogar basquetebol é tão reduzido que nem é possível calcular.]

O assunto tornou-se internacional e o atleta desistiu da competição. «A controvérsia está a prejudicar o basquetebol. Desisto por uma razão apenas: não quero arruinar o jogo que Larry [Bird], Michael [Jordan] e eu ajudámos a revitalizar», disse o jogador quando colocou de parte o regresso.

Eavrin «Magic» Johnson

Em 1974, altura em Johnson fazia os sues primeiros dribles de destaque, Lansing Everett, um jornalista do Lansing State Journal apelidou-o de «Magic», uma vez que já aí Johnson destacou-se entre os companheiros e adversários de equipa.

Já nos LA Lakers, Magic foi um dos responsáveis por revitalizar a NBA, que durante a década de 80 se encontrava pouco lucrativa e em decadência. Com Magic Johnson, os Lakers venceram 5 campeonatos e o atleta foi premiado com troféu «NBA Most Valuable Player» nas temporadas 1986-87; 1988-89 e 1989-1990.

Quando Magic entrava em ação, o público vibrava e os comentadores anunciavam «It’s time for showtime», referindo-se à prestação do atleta que contava sempre com truques que ofuscavam e baralhavam os adversários.

Nos anos seguintes à descoberta de que era portador do vírus, Magic dedicou-se a provar que uma pessoa com VIH «pode continuar a levar uma vida ativa».

Em 1996, com o público mais informado acerca desta doença, Johnson percebeu que a resistência ao seu regresso não seria tão forte como anteriormente e, decidiu que estava na altura de voltar a vestir o uniforme dos Lakers.

Karl Malone, o antigo colega que o descriminara estava agora mais esclarecido: «As coisas hoje são diferentes. Já não tenho nenhum problema em relação a isso». O regresso, antes da reforma definitiva, durou 36 jogos e muitas vitórias.

Sem dar sinais de abrandamento, fora dos pavilhões de basquetebol, Magic Johnson tornou-se um empresário notavelmente bem-sucedido, com interesses em vários ramos: é dono de cinemas, restaurantes, de uma empresa de organização de eventos e concertos, seguradoras – que lhe valem vários milhões de dólares por ano.

Contudo, o seu maior triunfo continua a ser a sua saúde, após 20 anos, continua livre de SIDA.

Al Gore

Nobel da Paz em 2007, ecologista e vice-presidente dos EUA durante a administração de Bill Clinton. Contudo, antes da carreira política, Al Gore trabalha como jornalista de investigação em The Tennessean

De jornalista a vice-presidente dos Estados Unidos para voltar à indústria do Jornalismo. Pelo caminho desta maratona ganha um Nobel da Paz e dois Óscares

Os primeiros passos

Albert Arnold Gore Jr. nasceu a 31 de março de 1948, em Washington. O pai, Al Gore Sr., foi deputado na Câmara dos Representantes e Senador.  Os primeiros anos da sua vida foram passados no Estado do Tennessee, onde frequentou a escola St. Albans, entre 1956 e 1965.

Terminado o liceu, ingressou na prestigiada Universidade de Harvard. A intenção era seguir Letras, mas acabou por estudar Política. Terá sido durante o último ano em Harvard que começou a interessar-se pelos problemas do ambiente.

O soldado jornalista

Apesar de ser contra a guerra, Al Gore alistou-se no exército depois de se licenciar em Harvard, em 1969. Após receber formação militar, foi destacado como jornalista em Fort Rucker, Alabama. Em abril de 1970, foi considerado «Soldado do Mês».

Foi enviado para o Vietname a 2 de janeiro de 1971, depois de o pai ter perdido o lugar no Senado durante as eleições de 1970. Juntou-se à 20th Engineer Brigade em Bien Hoa e foi jornalista para o Castle Courier, uma publicação do exército norte-americano.

Quando regressa do Vietname, começa a trabalhar como jornalista de investigação no The Tennessean, principal diário daquele estado norte-americano. Os seus trabalhos sobre corrupção resultaram na detenção e condenação de dois políticos de Nashville.

Posteriormente, decidiu pedir uma licença do jornal para frequentar o curso de direito na Vanderbilt University Law School, em 1974. Contudo, Al Gore não terminou a licenciatura, tendo decidido abruptamente candidatar-se à Câmara dos Representantes quando o lugar que tinha sido ocupado pelo pai ficou vago.

Do jornalismo para a política

Começou a serviu o Congresso norte-americano aos 28 anos, onde se manteve nos 16 anos seguintes. Integrou a Câmara (1977–85) e o Senado (1985–93).

Al Gore era conhecido como um dos «Democratas Atari». Nos anos 80 e 90 a expressão designava os políticos democratas em funções legislativas que defendiam que o desenvolvimento da alta tecnologia e empresas associadas poderia estimular a economia e criar emprego. O termo vem da marca Atari, que nos anos 80 fazia furor com os seus videojogos e consolas.

A sua carreira política ganhou um impulso diferente no final da década de 80. Al Gore participou na corrida para candidato democrata às eleições presidenciais de 1988, contra Joe Biden, Dick Gephardt, Paul Simon, Jesse Jackson e Michael Dukakis – que ganhou a nomeação democrata. Apesar da derrota, Gore destacou-se tornando-se mais tarde, durante a administração de Bill Clinton, Vice-Presidente dos Estados Unidos da América.

Al Gore acabaria por se candidatar à Presidência em 2000, naquele que é um dos mais polémicos episódios da vida política do país. Foi a quarta eleição em que o vencedor do voto no Colégio Eleitoral não recebeu também a pluralidade do voto popular.

George W. Bush acabaria por ganhar as eleições por uma margem estreita, com 271 votos no Colégio Eleitoral contra os 266 de Gore (com um eleitor a abster-se na contagem oficial). A eleição ficou conhecida devido à controvérsia sobre a concessão dos 25 votos no Colégio Eleitoral da Flórida e o subsequente processo de recontagem nesse estado.

De volta ao jornalismo

Após a controversa derrota, dedicou-se ao ensino de Jornalismo na Universidade de Columbia, em 2001. Enquanto professor, Al Gore transmitia a sua opinião a partir do ponto de vista dos políticos e jornalistas, fruto da sua própria experiência.

Concentrou-se também na luta contra o aquecimento global e as alterações climáticas, assunto para o qual tem vindo a alertar desde a década de 70.

Em agosto de 2005, fundou a Current TV, um canal de televisão por cabo e satélite dirigido a jovens que foi vencedor de um Emmy nesse ano.

«Estamos a tentar abrir o meio da televisão para que os espetadores ajudem a fazer televisão… e reclamem mais democracia», explicou Al Gore quando recebeu o Emmy.

O canal acabaria por ser comprado pelo canal árabe Al Jazeera em 2013.

O Prémio Nobel e os Óscares

Em 2006, Al Gore protagonizou o documentário An Inconvenient Truth[Uma Verdade Inconveniente], no qual o espetador acompanha o esforço e luta de Al Gore para travar o aquecimento global, sensibilizando a comunidade mundial e evitando tratar a questão como um assunto político, apresentando-a, antes, como um desafio para a Humanidade.

Em 2007, Al Gore, então com 49 anos, recebeu o Prémio Nobel da Paz, pelo seu contributo para a reflexão e ação global contra as alterações climáticas.

Nesse mesmo ano o documentário venceu dois Óscares e Al Gore foi agraciado com o  Prémio Príncipe de Astúrias.

Hermano Neves

Considerado pai do Jornalismo moderno em Portugal, Hermano Neves escreve para periódicos como o Diário de NotíciasO Século e A Capital. Durante a Primeira Guerra Mundial, torna-se no primeiro enviado especial português com a missão de cobrir uma guerra

Introdutor da grande reportagem na imprensa nacional, é considerado por muitos o pai do Jornalismo moderno no país. Hermano Neves foi o primeiro enviado especial português a cobrir uma guerra.

Em 1914, o jornal A Capital tomou a decisão histórica de enviar um repórter especial para França, com a missão de cobrir a Primeira Guerra Mundial a partir da frente de batalha.

«Hermano Neves dar-nos-ha da guerra a visão portugueza; dará movimento e vida aos seus factos, tornando-nos familiares os seus aspectos. As suas aspirações são as nossas. São as do paiz inteiro. São as da alma do nosso povo».

O jovem repórter chegou a Bordéus a 6 de setembro, mas pouco se passava na cidade.

Impedido pelas autoridades de chegar à capital francesa, tinha de se contentar com informações em segunda mão, relatados nas suas crónicas diárias.

Depois de quase dois meses sem se conseguir aproximar da frente de batalha, o enviado especial regressou a Lisboa.

Da Medicina ao Jornalismo

A carreira jornalística de Hermano Neves começara cerca de uma década antes, em Berlim.

O repórter – nascido em Alvares, a 12 de dezembro de 1884 – partira para a Alemanha para estudar Medicina, atraído pelo cosmopolitismo e pela qualidade da cultura e da educação do país.

A partir da capital germânica, Hermano Neves colaborou com o Diário de Notícias.

Já formado, regressou a Portugal, tornando-se assistente de Anatomia na Faculdade de Medicina de Lisboa.

A máquina de escrever acabou por impor-se ao estetoscópio. Hermano Neves integrou a redação de diversos periódicos, incluindo O Dia, O Século e O Mundo.

Jornalismo em tempo de República

Em 1910, o país mudou.

O repórter seguiu de perto os acontecimentos de 4 e 5 de outubro, que culminaram na implantação do regime republicano.

A sua cobertura jornalística acabou por dar origem à obra Como triumphou a Republica, publicada pouco depois da revolução.

Mas a sua consagração jornalística viria a ser conquistada na redação d’A Capital.

No periódico moderno e de pendor republicano, Hermano Neves amadureceu enquanto jornalista e tornou-se um dos mais dinâmicos e requisitados repórteres da publicação.

Foi pioneiro no desenvolvimento do género moderno de reportagem, incluindo trabalhos sobre as incursões monárquicas, durante as quais chegou a ser confundido com um espião.

A experiência foi retratada no livro Guerra Civil.

A 29 de abril de 1915, publicou o primeiro número do panfleto republicano Fora da Lei, em colaboração com o também jornalista Herculano Nunes.

«Entendemos que n’este grave momento da vida nacional é indispensável proclamar-se sem rodeios e sem hesitações tudo o que supomos a verdade».

A dupla de jornalistas fundou ainda, já no final da década, o periódico Vitória – título que remete para a vitória dos Aliados e dos Republicanos –, uma publicação que Neves transformou numa escola de jornalismo.

O repórter também colaborou, pontualmente, com outros meios de comunicação, como a revista Atlântida.

Detentor de uma vasta cultura literária e humanística, trabalhou ainda como tradutor de diversas peças de teatro.

A guerra na imprensa

Após a sua experiência em França, que o tornou no primeiro repórter português enviado exclusivamente para cobrir um conflito, voltou a escrever sobre a Primeira Guerra Mundial.

Acompanhou de perto a preparação das tropas portuguesas, em Tancos, antes da partida para a frente da batalha.

Três anos depois da viagem inicial, regressou a França para acompanhar a visita do Presidente Bernardino Machado, ao serviço d’A Capital e do Diário de Notícias.

«O sector portuguez tem-se mantido sempre na defensiva […] permanecemos alli, por emquanto, apenas com este simples objetivo: não deixar passar os allemães».

Hermano Neves via-se, assim, do lado oposto à nação germânica, país onde tinha vivido e estudado, reportando a partir da frente de batalha portuguesa.

No exercício da sua atividade jornalística, viajou pela Europa, Brasil e África – onde adoeceu e foi salvo por mezinhas locais – e reportou a partir das antigas colónias portuguesas.

Percorreu durante meses regiões inóspitas, fazendo ele próprio observações meteorológicas e enviando reportagens a narrar as suas aventuras.

Trabalho pioneiro

Destemido e sedento de novas experiências, foi o primeiro jornalista português a embarcar num submarino e a voar numa avioneta e num balão.

Também viajou por território nacional, publicando o livro Três Dias em Olivença.

Conhecedor das questões ultramarinas, Hermano Neves acompanhou o General Norton de Matos na sua ida para Angola, onde este assumiu funções de Alto-Comissário.

Após o seu regresso, manteve-se ativo na imprensa clandestina, manifestando-se contra a ditadura implantada em 1926.

Já não veria o seu sonho político a ser cumprido. Faleceu em Lisboa, a 2 de março de 1929.

Republicano convicto (Maçónico ou não, os relatos divergem) o médico que virou correspondente de guerra encontrou no jornalismo a sua verdadeira vocação.

O seu contributo para a profissão foi analisado por Norberto Lopes na obra Hermano Neves: a Grande Reportagem.

O seu filho, Mário Neves, herdou do pai a paixão pelo jornalismo.

Foi redator dos jornais O Séculoe Diário de Lisboa, bem como cofundador d’A Capital.

Considerado o pai do jornalismo moderno, Hermano Neves ficou imortalizado como um dos mais célebres repórteres do seu tempo, destacando-se na crítica, no comentário, na crónica e, especialmente, enquanto introdutor da grande reportagem na imprensa portuguesa.

Rumble in the Jungle

A 30 de outubro de 1974, as atenções de todo o mundo viravam-se para o Zaire, para assistir ao maior evento desportivo a alguma vez ter lugar no continente africano. De um lado do ringue, o campeão de pesos-pesados George Foreman, de 25 anos, invicto há 40 confrontos. Do outro, Muhammad Ali, de 32 anos, à procura do título.

“Under an African moon in the darkness before dawn today, a bee battered a lion” [Sob a lua africana, na escuridão que antecedeu a madrugada de hoje, uma abelha golpeou um leão»]. Em 1974, o New York Times noticiava o combate entre Muhammad Ali e George Foreman, um confronto que se tornou histórico.

60 mil espetadores, mais de 100 países sintonizados, 15 rounds, 2 pugilistas e 1 título em disputa.

A 30 de outubro de 1974, as atenções de todo o mundo viravam-se para o Zaire, para assistir ao maior evento desportivo a alguma vez ter lugar no continente africano.

De um lado do ringue, o campeão de pesos-pesados George Foreman, de 25 anos, invicto há 40 confrontos.

Do outro, Muhammad Ali, de 32 anos, à procura do título que lhe fora retirado sete anos antes.

Eram 4 da manhã e o estádio de Kinshasa vibrava com o «Rumble in the Jungle».

Um combate sem precedentes

A expetativa para o duelo de titãs crescia há meses.

A iniciativa tinha partido do promotor Don King, que prometera o chorudo pagamento de cinco milhões a cada um dos pugilistas.

O ditador Mobutu Sese Seko mostrara-se disponível para receber o combate, com o objetivo de promover internacionalmente o Zaire.

«A fight between two blacks, in a black nation, organized by blacks and seen by the whole world; that is a victory for Mobutism» [«Um combate entre dois negros, numa nação negra, organizada por negros e vista por todo o mundo; é uma vitória para o Mobutismo»], lia-se, no exterior do estádio.

Mas o ditador não estava satisfeito com o soundbite criado por Don King, «From the Slave Ship to the Championship» [«Do navio de escravos para o campeonato»], provavelmente devido ao racismo inerente.

O promotor sugeriu «Rumble in the Jungle». O nome pegou.

Dois pesos-pesados

Meses antes do confronto, ainda em Nova Iorque, Don King promovia conferências de imprensa para publicitar o combate.

«So, what we’re gonna do here today is to talk about Ali, here, going to meet George Foreman and regain his crown as the heavyweight champion of the world» [«Então, o que vamos fazer aqui hoje é falar sobre Ali, aqui presente, que vai enfrentar George Foreman e reconquistar o seu título de campeão do mundo de pesos pesados»], explicou o promotor.

Ali não se ficou. «Regain? Defend my crown» [Reconquistar? Defender o meu título»].

Sete anos antes, fora-lhe retirado o título de campeão mundial de pesos-pesados e a licença para combater.

A 28 de abril de 1967, Muhammad Ali recusava-se a integrar as Forças Armadas norte-americanas, citando razões religiosas

«My conscience won’t let me go shoot my brother, or some darker people, or some poor, hungry people in the mud for big, powerful America». [«A minha consciência não me permite disparar contra o meu irmão ou pessoas mais escuras, ou pessoas pobres e famintas na lama, em nome da grande e poderosa América»].

 

 

O pugilista, nascido Cassius Clay, tinha-se convertido recentemente à Nation Of Islam e adotado o nome islâmico.

A sua recusa em participar na Guerra do Vietname resultou na sua prisão e exclusão da competição.

Por altura da sua expulsão, Muhammad Ali era um nome reconhecido no mundo do boxe.

O pugilista conquistara o Ouro nos Jogos Olímpicos de 1960 e, desde então, já derrotara alguns dos maiores nomes da modalidade a nível mundial.

Um percurso de sucesso, coroado pela conquista do título de campeão, em 1964. A sua carreira era interrompida no seu auge.

Em abril de 1968, fez capa da revista Esquire, uma imagem que lembrava a figura do mártir S. Sebastião e que se tornou num ícone do movimento antiguerra.

O seu caso foi julgado no Supremo Tribunal e, só nos anos 70, Ali foi autorizado a regressar à competição.

Por essa altura, um outro nome destacava-se na modalidade: George Foreman.

Depois de conquistar o Ouro nos Jogos Olímpicos de 1968, «Big George», como era conhecido, tinha dado início a uma jornada invicta que se prolongava há 40 combates consecutivos, com 37 knock-outs.

Em 1973, num confronto icónico com Joe Frazier, tornou-se campeão do mundo de pesos-pesados.

Um título que defenderia, no ano seguinte, no duelo com Muhammad Ali.

Depois do seu afastamento forçado, Ali queria recuperar a distinção que conquistara dez anos antes e que nunca chegara a perder em combate.

O mundo do desporto virava as suas atenções para o Zaire.

Zaire, capital do desporto

George Foreman chegava ao aeroporto africano perante uma multidão de seis mil adeptos.

Muhammad Ali chegara 24 horas antes e já conquistara a admiração do Zaire.

O pugilista passeava pelas ruas do país e convivia com a população, destacando o caráter simbólico do combate para a «emancipation of black people» [«emancipação dos negros»].

Foreman, por sua vez, permanecia no centro de treinos com o seu inseparável pastor alemão, a raça preferida das autoridades belgas, que tinham espalhado o terror pelas ruas do Zaire antes da independência do país.

Para o mundo do desporto, Foreman – campeão em título, mais jovem, mais forte – era o claro favorito.

Para a população do Zaire, Muhammad Ali já era o grande vencedor.

O combate já tinha começado mesmo antes de os pugilistas pisarem solo africano.

No seu estilo peculiar, Ali mostrava-se convicto na sua vitória.

«I’m so bad I make medicine sick, I’m so fast, man, I can run through a hurricane and don’t get wet. When George Foreman meets me, he will pay his debt. I can drown a drink of water and kill a dead tree, wait till you see Muhammad Ali» [«Sou tão mau que faço com que os medicamentos fiquem doentes, são tão rápido que posso correr num furacão sem me molhar. Quando George Foreman me enfrentar, ele vai pagar a sua dívida. Posso afogar um copo de água e matar uma árvore morta, esperem até ver Muhammad Ali»].

 

 

Foreman, há muito tido como favorito à vitória, acreditava num combate fácil frente ao antigo campeão.

«I had no doubts whatsoever that I was gonna defeat Muhammad Ali. I was not afraid […] I’m just gonna waste Muhammad Ali in two or three rounds» [«Não tinha quaisquer dúvidas de que ia derrotar o Muhammad Ali. Não tinha medo […] vou desgastar o Muhammad Ali em dois ou três rounds»] .

Mas os pugilistas ainda teriam de aguardar para provarem o seu valor no ringue.

O combate foi adiado, devido a uma lesão sofrida por Foreman durante os treinos.

A nova data: 30 de outubro, às 4 da manhã locais, para ser conveniente ao público norte-americano.

O evento seria transmitido num circuito fechado de televisão em cerca de 450 locais dos Estados Unidos e no Canadá, além de uma centena de outros países.

Alguns meios de comunicação decidiram ficar e acompanhar os preparativos para o combate.

A Sports Illustrated, sozinha, enviou sete repórteres, incluindo George Plimpton.

A acompanhar o evento desportivo, foi organizada uma iniciativa musical, que juntou nomes como James Brown, Bill Withers, and B.B. King.

O palco mediático estava montado. Faltavam os protagonistas.

 

 

A hora do combate

À hora marcada, Ali encaminhou-se para o ringue sob o olhar de 60 mil pessoas e cânticos de «Ali bome ye!». [«Ali, mata-o!»]

Do lado oposto do ringue, a equipa de Foreman lutava para fazer o robe do campeão passar pelos seus braços musculados.

A campainha soou. Ali deu o primeiro murro. Oito rounds depois, havia novo campeão.

 

 

Muhammad Ali, ciente da força e poderio físico do seu adversário, adotara a estratégia «rope-a-dope», inclinando-se sobre as cordas e protegendo-se das investidas de Foreman, fazendo com que este se cansasse.

«I hit him hard on the side, I mean, I got a good shot. And he said: ‘Is that all you got, George?’ And I remember thinking: ‘Yup, that’s about it’» [«Atingi-o com força de lado, foi um bom golpe. E ele disse: “É só isso que consegues, George? E eu lembro-me de pensar: “Sim, é basicamente isso”»], recordou George Foreman, anos mais tarde.

O vitorioso Ali foi cercado pelos jornalistas e mostrou-se crítico da imprensa que não acreditava na sua vitória.

«I told you I’m the champion of the world. All of you bow. All of my critics crawl. All of you suckers who write The Ring magazine, Boxing Illustrated … all of you suckers bow» [Eu disse-vos que sou o campeão do mundo. Todos vocês curvem-se. Todos os meus críticos rastejem. Todos os otários que escrevem para a revista The Ring, a Boxing Illustrated… todos vocês curvem-se»].

 

 

A imprensa não ficava indiferente à sua vitória.

«How Ali fooled them all» [«Como Ali os enganou a todos»], escreveu a Sports Illustrated, sobre o triunfo inesperado do underdog.

10 anos depois, Muhammad Ali voltava a levantar o título que nunca chegara a perder no ringue.

Fora do ringue

Depois da vitória no Zaire, Ali continuou a defrontar alguns dos maiores pugilistas do mundo, protagonizando, com Joe Frazier, o famoso combate «Thrilla in Manila».

A sua carreira começou a entrar em declínio no final dos anos 70 e, em 1981, anunciou a sua retirada.

«I just have to face it: nothing lasts forever, not even Muhammad Ali» [«Tenho que admitir: nada dura para sempre, nem mesmo Muhammad Ali»].

 

 

Em 1984, foi diagnosticado com a doença de Parkinson. Uma condição debilitante, mas que não significou o seu completo afastamento da vida pública.

Foreman demorou anos a sarar as cicatrizes do «Rumble of the Jungle». Retirou-se em 1977, tornando-se ministro religioso.

Dez anos depois, voltou aos ringues.

Em 1994, com 45 anos, recuperou o título, tornando-se o campeão mundial mais velho da história do boxe.

«I exorcised the ghost, once and forever» [«Exorcizei o fantasma, de uma vez por todas»], afirmou.

O pugilista começou a dar cartas enquanto empresário, criando um império na área dos grelhadores, que o levou à capa da revista Forbes.

Os antigos rivais encontraram-se em 1997… na cerimónia dos Óscares.

A estatueta de Melhor Documentário foi atribuída a When We Were Kings, uma metragem que divulga um lado nunca antes visto do «Rumble in the Jungle».

Um combate de campeões, que colocou África nas bocas do mundo e que coroou Ali e Foreman como lendas do boxe.

 

 

António Mega Ferreira

Do Direito para a Comunicação Social, Mega Ferreira estreia-se no Jornalismo em 1968, como redator do Comércio do Funchal, passando depois pelo Jornal Novo, Expresso e O Jornal. Ocupa o cargo de chefe de redação do Jornal de Letras e da RTP2

As leis e os tribunais foram o primeiro amor de António Mega Ferreira. Contudo, assim que experienciou a vida de uma redação jornalística, nunca mais pensou em réus e arguidos

Do Direito para a Comunicação

António Mega Ferreira nasceu a 25 de março de 1949, em Lisboa. Depois de estudar Direito na Universidade de Lisboa, partiu para Manchester, em Inglaterra, para estudar Comunicação Social.

«O curso foi um curso experimental, promovido pela Universidade de Manchester, em 1972. Chamava-se Mass Comunication, isto é, Comunicação de Massas. Era um curso que tinha a ver com jornalismo, de imprensa escrita, de televisão, de rádio, e de cinema também».

Iniciara-se no jornalismo quatro anos antes, em 1968, escrevendo para o Comércio do Funchal.

«Colaborava com a delegação em Lisboa […] e acho que aí tinha alguma arte para passar entre as malhas da censura», afirma.

Em 1970, começou a trabalhar como tradutor de imprensa estrangeira na Secretaria de Estado da Informação.

«Digamos que, nessa altura, a minha relação com o jornalismo era uma relação muito intensa. Uma relação intensa, mas numa base semiprofissional».

A profissionalização

A profissionalização enquanto jornalista foi conquistada em 1975, no Jornal Novo. Durante a sua carreira enquanto jornalista profissional, que se prolongou até 1986, passou ainda pelo Expresso, pela ANOP – Agência Noticiosa Portuguesa e pel’O Jornal. Foi chefe de redação do Jornal de Letras e da RTP2. Ao serviço da estação pública, entrevistou a então Primeira-Ministra Maria de Lourdes Pintassilgo… duas vezes.

«Da parte da manhã tínhamos filmado nos jardins da residência oficial mas não tinha ficado nada gravado, coisa que só verificámos quando chegámos ao Lumiar».

Ao longo da sua carreira, Mega Ferreira assistiu a várias mudanças no jornalismo português, embora certas características subsistissem.

«Há verdades eternas no jornalismo: o jornalismo será sempre, mas sempre, regido pela pressão da máquina — seja a máquina convencional, seja a máquina de hoje, seja a urgência de chegar, seja a urgência de concorrer ou ganhar ao concorrente».

Colaborou ainda, enquanto cronista, com o Expresso, o Diário Económico, o Diário de Notícias, o Independente, o Público e com as revistas Visãoe Egoísta. Em 1986, foi convidado para a direção editorial do Círculo de Leitores, onde foi responsável pela criação da revista LER. Nos anos 80, iniciou a sua carreira literária, publicando dezenas de obras, da ficção à poesia, passando pelo ensaio. A sua produção literária foi distinguida com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2001.

Membro da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos, fundou a revista Oceanos e chefiou a candidatura de Lisboa à EXPO 98, iniciativa que viria a comissariar. Foi administrador da Parque Expo, do Oceanário de Lisboa e do Pavilhão Atlântico. Ocupou o cargo de Presidente do Conselho de Administração da Fundação Centro Cultural de Belém (2006-2012). A 9 de junho de 1998, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.

Carlos Pinhão

Um dos impulsionadores do jornalismo desportivo que conhecemos hoje em Portugal. Carlos Pinhão escreve nas redações do Mundo Desportivo, Diário Popular, Século Ilustrado, Público e, essencialmente, A Bola.

Apesar dos três anos que frequenta no curso de Direito da Universidade de Lisboa, Carlos Pinhão decide-se a enveredar pelos Media. Enquanto jornalista passa pelas redações do Mundo Desportivo, Diário Popular, Século Ilustrado, Público e, sobretudo, A Bola

A Febre do Futebol

A 22 de abril de 1962, Carlos Pinhão testemunhou o primeiro golo de Eusébio ao FCP Porto, numa partida que antecedeu o jogo da final da Taça dos Campeões Europeus entre o Benfica e o Real Madrid.

Carlos Pinhão antecipando o que mais tarde veio a verificar-se escreveu, no dia seguinte, n’A Bola acerca do golo de Eusébio: «(…) como se se tratasse já de um golo… ao Real Madrid».

Sobre este mesmo derby Pinhão, que conduz palavras, acrescentou: «Exibição já em nível aproximado ao dos seus melhores jogos do princípio da época, faltando-lhe apenas felicidade no remate. Tanto procurou o golo, sem complexos de qualquer espécie, perante os sucessivos malogros, que viria a alcançá-lo.»

Carlos Pinhão jornalista e homem das letras nasceu a 4 de maio de 1924 em Lisboa. A par do Desporto, a cidade de Lisboa e a literatura eram outras das suas paixões.

A par do jornalismo, o humor, a poesia e a literatura infantil foram áreas por onde Pinhão também espraiou o seu génio criador.

Enquanto jornalista passou, em Portugal, pelas redações do Mundo Desportivo, do Diário Popular, do Século Ilustrado, do Público e d’A Bola. Em Espanha marcou presença na redação do Marca,  em França colaborou com o France Soir e na Bélgica com o Les Sports.

Por cá, escreveu também, ainda que pontualmente, para o Diário de Lisboa e Jornal do Fundão. De mão dada com a literatura foi responsável pela introdução do conto e da crónica no jornalismo desportivo.

A despesona!

Antes de chegar à A Bola, Carlos Pinhão passou pelo Mundo Desportivo onde viveu episódios de tensão com o então diretor, Dr. José Gonçalves.

Um desses momentos teve que ver com despesas de deslocação e representação de Carlos Pinhão numa competição desportiva europeia.

Pinhão, deslocou-se para um determinado país europeu e ficou alojado num humilde hotel. Quando o campeonato terminou,  ligou para a redação e transmitiu o resultado dos participantes, do primeiro até ao sexto lugar, para sair na edição do dia seguinte.

Tendo em conta que as comunicações internacionais nas décadas de 50 e 60 eram caras e morosas e, até, consideradas um luxo Carlos Pinhão foi chamado ao gabinete do Dr. José Gonçalves para explicar os «gastos».

Dr. José Gonçalves, furibundo pregou-lhe uma valente descompostura afirmando «que parecia impossível», que ele tinha andado a «desbaratar o dinheiro do jornal«, que tinha «gasto um dinheirão em comboios, hotéis, comes e bebes, mais a linha telefónica» – e, depois desta “despesona” enorme, apenas tinha «comunicado os resultados… até ao sexto classificado! Um escândalo!»

Carlos Pinhão observou, baixinho: «Ó senhor doutor, desculpe, mas eu não podia indicar mais do que os seis primeiros… porque eram apenas seis a concorrer…».

O diretor ficou envergonhado, sem resposta e, de imediato, mandou Pinhão sair do gabinete.

«A Tarde Vermelha»

De volta à Bola, no dia 20 de novembro de 1978 pôde ler-se na capa «A Tarde Vermelha» assinalando a vitória do Benfica sob o Sporting por 5-0, no dia anterior.

Na verdade, o título  de Carlos Pinhão dizia mais que isso e se lêssemos as entrelinhas uma nova tese podia ser descoberta.

O título completo era «Tarde Vermelha com Eanes a assistir». Nesta data vivia-se o período do PREC (Período Revolucionário em Curso) e no mesmo dia do jogo, o Partido Comunista Português (PCP) tinha ganho mais um ponto, ou melhor dizendo, a Câmara Municipal de Évora. Pinhão, militante do PCP, celebrou assim, com aquele título, duas vitórias – uma desportiva e outra política.

Benfica-5 Sporting-0 de 1978 por MemoriaGloriosa

Carlos Pinhão foi também responsável pela introdução do humor, da crónica, e do conto no jornalismo desportivo, tendo o convidado, semanalmente, um escritor de Língua Portuguesa para escrever n’A Bola. Além de uma vocação cultural, houve igualmente uma vocação comercial, credibilizando A Bola e tornando-a numa das publicações mais desejadas do mercado. Consequentemente, esta publicação passou a ser chamada de Bíblia do desporto.

Um dos textos de humor de Carlos Pinhão tinha o título de «Ataíde, Procura-se» e contava um episódio caricato entre um cliente e um ex-cliente da Companhia dos Telefones.

A história era a seguinte:

Carlos Pinhão, responsável também pela «Hoje Jogo Eu», uma das rubricas mais antigas d’A Bola, escreveu em jeito de crónica de viagem os acontecimentos desportivos dos vários cantos do mundo. Após a queda do Antigo Regime, os jornalistas à semelhança de Carlos Pinhão tiveram a missão de reaprender a escrever livremente, longe das entrelinhas. Num dia, na década de 80, podia ler-se nesta rúbrica:

«Repórter teve entrada no Jardim Botânico de Glasgow (digamos JBG), porque a entrada só é proibida a cães e a crianças com menos de dez anos, de onde se conclui que só aos dez anos uma criança fica acima de cão, é proverbial o carinho que os ingleses dedicam aos cães. (…) Evidentemente, na minha qualidade de lisboeta bairrista, não me conformei e perguntei ao guarda do JBG: (…) – “Mangericous alfacinatus?” – Não entendo! – disse ele em inglês. (…) Não insisti, já tinha percebido que manjericos não havia, não nos ligam nenhuma.»

Carlos Pinhão morreu a 15 de janeiro de 1993 e  foi um dos mais notáveis jornalistas desportivos portugueses, aliando uma qualidade literária e um sentido pedagógico nas suas crónicas.

Paralelamente ao jornalismo Carlos Pinhão publicou várias obras literárias dedicadas ao público infantil-juvenil.