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News Standard

Ode à Alegria, Hino da Europa

Dois séculos depois de ter sido composta, a “Nona Sinfonia” de Beethoven inspira o Hino da Europa. “Ode à Alegria” é adotada pelo Conselho Europeu em 1972. Acaba por tornar-se no hino oficial da União Europeia – então Comunidade Europeia – em 1985.

Dois séculos depois de ter sido composta, a “Nona Sinfonia” de Beethoven inspira o Hino da Europa. “Ode à Alegria” é adotada pelo Conselho Europeu em 1972. Acaba por tornar-se no hino oficial da União Europeia – então Comunidade Europeia – em 1985.

 

 

 

O gatekeeper de Saddam

De ministro da Informação de Saddam Hussein a fenómeno da cultura pop. As declarações de Mohammed Saeed al-Sahhaf celebrizam-no como Baghdad Bob e fazem dele uma estrela no mundo ocidental

De ministro da Informação de Saddam Hussein a fenómeno da cultura pop. Mohammed Saeed al-Sahhaf recusa-se a aceitar, nas suas declarações aos Media, a tomada de Bagdade pelas Forças Armadas dos EUA. São essas declarações que o celebrizam como Baghdad Bob e que fazem dele uma estrela de culto no mundo ocidental.

“The Americans are going to surrender or be burned in their tanks. They will surrender, it is they who will surrender.” [«Os americanos vão render-se ou ser queimados nos seus tanques. Eles vão render-se, são eles quem se vai render»].

A 8 de abril de 2003Mohammed Saeed al-Sahhaf encarava os repórteres, determinado. No topo do Palestine Hotel, em Bagdade, o ministro da informação de Saddam negava o inegável. Por trás de si, o fumo enchia o céu e podiam escutar-se sirenes em ruído de fundo. Os soldados dos Estados Unidos invadiam a cidade. Mas Sahhaf mantinha a sua convicção: “There are no American troops in Baghdad!” [«Não há tropas americanas em Bagdade!»]. Seria a sua última comunicação pública enquanto ministro da informação de Saddam Hussein. No dia seguinte, Bagdade caía.

Do Iraque para o mundo

A cara e a voz da resistência. Sem nunca ter pisado o campo de batalha, Mohammed Saeed al-Sahhaf era uma das figuras da Guerra do Iraque.

Ministro do estrangeiro do regime de Saddam Hussein durante quase uma década, foi nomeado ministro da informação em abril de 2001. Um cargo que o projetou para o estrelato.

O carisma agigantou-se ao cargo e a fama de Sahhaf atravessou fronteiras; a veracidade dos factos tornava-se praticamente irrelevante, eclipsada por um discurso inflamado e moralizador das tropas; o poder emocional das suas declarações sobrepunha-se à obrigação informativa. Para o Iraque – com ecos no restante mundo árabe – já não se tratava apenas um ministro; era um herói nacional e um bravo defensor da honra iraquiana.

Para o Iraque – com ecos no restante mundo árabe – já não se tratava apenas um ministro; era um herói nacional e um bravo defensor da honra iraquiana.

Em todas as comunicações – mais ou menos verídicas, muito ou pouco aguerridas, mas sempre entusiásticas –, uma ideia comum: a de que o regime estava a lutar bravamente e a vencer por larga margem o inimigo ocidental.

Uma estratégia tudo menos ingénua. Sahhaf sabia que, de outro lado, o escutava também o inimigo. As suas palavras eram um dos trunfos do regime iraquiano no jogo psicológico da guerra.

Em março de 2003, a coligação britânica-americana deu início à intervenção militar no Iraque com um bombardeamento sobre Bagdade.

Durante a guerra no Iraque foram mortas cerca de 500 mil pessoas.

De ministro a meme

Os seus boletins diários, pontuados por uma comunicação expressiva e eternamente otimista, atravessaram fronteiras e fizeram as delícias dos ocidentais. Além de quebrar a seriedade dos ciclos noticiosos, Sahhaf representava um fenómeno nunca visto nos media internacionais e tornava-se uma figura de culto.

O carisma do ministro iraquiano conquistou até o Presidente norte-americano, George W. Bush. “Someone accused us of hiring him and putting him there. He was a classic” [«Alguém nos acusou de o contratar e de o colocar lá. Era um clássico»], afirmou o líder republicano, revelando que chegava a interromper reuniões para acompanhar as declarações do ministro iraquiano.

No início de abril de 2003, o ministro ganhou a alcunha de “Baghdad Bob” junto dos órgãos de comunicação norte-americanos, atentos às suas exageradas – e questionáveis – intervenções. Os meios britânicos preferiam chamá-lo “Comical Ali”, um trocadilho com “Chemical Ali”, a alcunha do ministro do interior iraquiano durante a Guerra do Golfo Pérsico.

Mohammed Saeed al-Sahhaf tornou-se um fenómeno da Internet, inspirando centenas de memes, páginas de fãs e até merchandise, como t-shirts, canecas e bonecos de plástico.

A 3 de abril de 2003, foi registado o domínio BaghdadBob.com, uma compilação humorística dos comentários do ministro. Em menos de dois meses, recebeu mais de 140 mil visitas.

O ministro iraquiano não escapava – pelo contrário, ansiava – pela atenção mediática, debitando uma cornucópia infindável de soundbites que os jornalistas reproduziam com fulgor.

Ao referir-se aos líderes norte-americanos e britânicos, foi eloquente: “an international gang of criminal bastards,” “blood-sucking bastards,” ignorant imperialists, losers and fools” [«um gangue internacional de sacanas criminosos», «sacanas sugadores de sangue», «imperialistas ignorantes, perdedores e idiotas»]. O Presidente dos Estados Unidos? “I speak better English than this villain Bush” [«Falo melhor inglês que este vilão do Bush»]. E quanto às tropas norte-americanas? “The infidels are committing suicide by the hundreds on the gates of Baghdad” [«Os infiéis estão a cometer suicídio às centenas nos portões de Bagdade»].

As melhores frases de Saeed al-Sahhaf estão compiladas no DVD “Comical Ali”.

A sua retórica podia ser impressionante, mas palavras nenhumas tinham a capacidade de impedir a invasão de Bagdade. As forças americanas apertavam cada vez mais a corda em volta do pescoço do regime iraquiano.

O fim de uma era

Em abril de 2003, os ecrãs de televisão transmitiam duas imagens em split screen. De um lado, Sahhaf, afirmando que não existiam forças da coligação em Bagdade; do outro, tanques americanos a percorrer as ruas. Um momento simbólico, de acordo com o Capitão Frank Thorp, do U.S. Central Command no Qatar. “At that point, I knew the war of words was over” [«Nessa altura, sabia que a guerra das palavras estava terminada»].

Do lado iraquiano, havia quem não estivesse tão convencido. As intervenções de Sahhaf terão enganado até as próprias tropas nacionais, levando-as a crer que as forças iraquianas tinham reconquistado o aeroporto de Bagdade.

Um oficial foi enviado para confirmar os rumores. “Are you out of your minds? The whole damn American Army is at the airport!” [«Estão malucos? Todo o raio da Armada Americana está no aeroporto!»]

A estátua de Saddam tinha sido derrubada e o regime dava o último suspiro, mas Sahhaf não arredava pé. Na madrugada de 10 de abril, a realidade bateu à porta, ao ritmo constante dos tanques que se aproximavam dos estúdios de transmissão.

“Sahhaf slowly removed his black beret” [«Sahhfa tirou lentamente a sua boina preta»], conta Raibah Hassan, gerente do estúdio. “He told us to keep on re-broadcasting until 3 am. He said goodbye, and then disappeared out of the back door” [«Ele disse-nos para continuarmos a retransmitir até às três da manhã. Despediu-se e depois desapareceu pela porta das traseiras»]. Com a sua partida, o regime moribundo de Saddam ficava sem voz.

Em 2015, o Presidente norte-americano Barack Obama foi comparado a Baghdad Bob por afirmar que “ISIS is contained”. As declarações do líder sobre a segurança nacional dos Estados Unidos foram consideradas por alguns meios tão desfasadas da realidade como as comunicações do antigo ministro iraquiano.

Depois de ser detido pelas forças norte-americanas para interrogatório, em junho de 2003, Sahhaf voltou à ribalta em entrevistas com a Al-Arabiya e Abu Dhabi TV. O antigo ministro recusou retirar os seus comentários sobre a tomada de Bagdade, afirmando que as informações eram de “authentic sources – many authentic sources” [«fontes autênticas – muitas fontes autênticas»]. Quanto à sua atuação enquanto ministro, Sahhaf foi perentório: “The information was correct, but the interpretations were not” [«A informação estava correta, mas as interpretações não»].

Mohammed Saeed al-Sahhaf afastou-se do palco mediático e a sua localização atual é incerta, embora existam rumores de que se encontra no Qatar.

Mais de uma década depois da câmara de se ter apagado e do seu microfone se ter desligado, continua imortalizado no sistema mediático como uma das principais figuras da Guerra do Iraque. Sem recorrer a armas ou a patentes, sem derramar sangue ou fugir às balas; apenas com o poder das imagens e das palavras.

O primeiro comunicado de imprensa

A 28 de outubro de 1906, um comboio da Pennsylvania Railroad sofre um trágico acidente. A acompanhar de perto o caso está o especialista em Relações Públicas, Ivy Lee. Em vez de procurar ocultar os factos mais trágicos e esperar para ver a cobertura jornalística do acidente, Lee decide antecipar-se. Entrega aos jornalistas um documento, relatando o acontecimento da perspetiva da Pennsylvania Railroad. Nasce, assim, o primeiro comunicado de imprensa.

Em 1906, nascia o primeiro comunicado de imprensa e tinha início uma nova era no mundo da Comunicação. De Júlio César aos Lucky Strike, a História das Relações Públicas.

A 28 de outubro de 1906, um comboio da Pennsylvania Railroad sofreu um trágico acidente, que resultou na morte de mais de 50 passageiros.

A Pennsylvania Railroad enfrentava um dos momentos mais mediáticos e delicados da sua história.

A acompanhar de perto o caso estava o especialista em Relações Públicas, Ivy Lee.

Em vez de procurar ocultar os factos mais trágicos e esperar para ver a cobertura jornalística do acidente, Lee decidiu antecipar-se.

Entregou aos jornalistas um documento, relatando o acontecimento na perspetiva da Pennsylvania Railroad.

Nascia, assim, o primeiro Comunicado de Imprensa.

A 30 de outubro de 1906, o The New York Times publicou a notícia, sem qualquer alteração ao texto de Ivy Lee.

Além de distribuir o comunicado de imprensa aos jornalistas, Lee também aconselhou a Pennsylvania Railroad a disponibilizar comboios especiais para transportar os repórteres até ao local do acidente.

Nas semanas que se seguiram, a imprensa e os oficiais públicos elogiaram a empresa pela sua abertura e honestidade.

A estratégia utilizada por Ivy Lee é considerada o primeiro exemplo de comunicação de crise moderna.

Contrariamente às abordagens anteriores, Ivy Lee acreditava que uma empresa devia tentar conquistar confiança pública e “good will” [«boa-vontade»]  ao apresentar a sua posição de forma honesta e precisa.

Em 1904, cofundou a agência de Relações Públicas Parker and Lee. O seu slogan era: “Accuracy, Authenticity and Interest” [«Exatidão, Autenticidade e Interesse»].

No entanto, a sua abordagem nem sempre era consensual.

Ivy Lee foi contratado por empresas detentoras de minas de carvão para as representar durante uma greve de trabalhadores.

Os operários já tinham falado com a imprensa e os proprietários também queriam ter uma palavra a dizer relativamente ao que saía nos jornais.

Desta vez, a receção ao comunicado enviado à imprensa não foi tão calorosa.

Os jornalistas mostraram-se hostis, considerando o documento um «artigo disfarçado», enviado para manipular a cobertura noticiosa.

Em resposta às críticas, Lee divulgou uma “Declaration of Principles” [«Declaração de Princípios»], onde se podia ler:

“In brief, our plan is, frankly and openly, on behalf of business concerns and public institutions, to supply to the press and public of the United States prompt and accurate informationconcerning subjects which it is of value and interest to the publicto know about”. [«Em suma, o nosso plano é, de forma franca e aberta, em nome de negócios e instituições públicas, fornecer à imprensa e ao público dos Estados Unidos informação célere e precisa sobre assuntos que têm valor e interesse para o público»].

As Relações Públicas tinham agora um novo paradigma de comunicação: “The public be informed” [«Que o público seja informado»].

Nasce uma profissão

A evolução das Relações Públicas surge associada ao desenvolvimento económico e social dos Estados Unidos.

Foi precisamente em Boston que, em 1900, foi fundada a primeira agência, o Publicity Bureau, ilustrando os esforços de profissionalização.

As Relações Públicas modernas, na verdadeira assunção do termo, nasceram depois de séculos de evolução na área da Comunicação. A sua história atravessa diversas esferas da sociedade.

Para alguns especialistas, já em 50 a. C. Júlio César utilizava técnicas rudimentares de Relações Públicas, ao divulgar as suas conquistas militares através de uma publicação.

No século XVII, a Igreja Católica cunhou o termo «propaganda», que viria, no século XX, a adquirir uma conotação negativa.

Na política, o primeiro Presidente a utilizar o termo «Relações Públicas» foi Thomas Jefferson.

O terceiro Presidente dos Estados Unidos (1801-1809), e o principal autor da declaração de independência (1776) daquele país utilizou o termo numa comunicação ao Congresso, em 1807.

As “Fireside chats” de Roosevelt, já em 1933, também são consideradas uma forma de inovação na comunicação política.

O Presidente dirigia-se aos norte-americanos através da rádio, num tom informal e tranquilizador, que contrastava com as abordagens mais distantes e institucionalizadas de outros líderes.

Mas nem só de sucessos se fez a história das Relações Públicas.

A desconfiança sobre as técnicas empregues na comunicação mediática é antiga e, em alguns casos, justificada.

“The Greatest Show on Earth” [«O Maior Espetáculo do Planeta»]. Era assim que P. T. Barnum anunciava o seu circo ambulante, o mais popular do século XIX.

E foi na arena do Barnum & Bailey Circus que começaram a ser empregues algumas das técnicas que escreveram o nome de Barnum na história das Relações Públicas, não pelos melhores motivos.

Barnum escolhia nomes curtos para as suas atrações, de forma a que coubessem nas manchetes; organizava eventos mediáticos – como o casamento entre «o homem mais alto» e «a mulher mais gorda» do mundo – e escrevia cartas falsas para os editores, tudo de forma a gerar atenção mediática.

O objetivo?

Criar publicidade para o Barnum & Bailey Circus.

Por detrás das suas técnicas, uma filosofia de comunicação: “The public be fooled” [«Que o público seja enganado»].

Mas Barnum não era o único a subestimar o valor da informação e o discernimento do público.

No outono de 1882, William Henry Vanderbilt, um dos homens mais ricos do mundo, viajava de comboio para Chicago quando foi questionado pela imprensa sobre um dos seus serviços ferroviários, que estava a dar prejuízo.

“It doesn’t pay expenses. We would abandon it if it was not for our competitor keeping its train on” [Não paga as despesas. Iríamos abandoná-lo se o nosso concorrente não mantivesse o seu comboio»].

«But don’t you run it for the public benefit?”, perguntou o jornalista. [«Mas não o mantêm devido ao benefício público?»]

“The public be damned” [«Que o público se dane»].

As críticas não se fizeram tardar.

Uma área em crescimento

A importância da comunicação tornava-se, cada vez mais, fundamental para as empresas e indivíduos.

O seu valor viria, uma vez mais, a demonstrar-se essencial durante a chamada «Batalha das Correntes».

A empresa de Thomas Edison, defensora da utilização da corrente elétrica contínua, usou “scare techniques” para desacreditar a corrente alternada, desenvolvida por Nikola Tesla e promovida pela Westinghouse Electric Company.  

Ao eletrocutar publicamente animais e fazer lobby contra a corrente alternada, pretendiam provar que este era um método perigoso.

A campanha acabou por se revelar infrutífera e a corrente alternada tornou-se a opção mais popular.

A informação – ou, no caso, a desinformação – esteve, uma vez mais, no centro do debate.

Uma lição que a família Rockefeller também acabaria por aprender.

Em 1914, os trabalhadores das minas dos Rockefeller, no Colorado, que se encontravam em greve, envolveram-se em confrontos com os guardas, causando dezenas de mortos. O episódio ficou conhecido como o massacre de Ludlow.

A tragédia chocou o país e manchou o nome da família na opinião pública.

Ivy Lee foi contratado com uma missão: atenuar o impacto da imprensa negativa e melhorar a imagem pública da família Rockefeller.

O especialista começou por enviar, com regularidade, boletins para os jornais do Colorado, onde apontava a «mass of misinformation and misrepresentation contained in recent issues of the public press» [«quantidade de informação e representação falsas divulgadas em edições recentes da imprensa pública»] e divulgava nova informação.

A imagem pública de John D. Rockefeller Jr. também mudou.

O magnata prometeu deslocar-se pessoalmente a Ludlow e falar com os mineiros e as famílias.

A visita foi um sucesso.

Ivy Lee continuou a acompanhar os Rockefeller e os seus interesses corporativos ao longo dos anos que se seguiram.

Através da criação de fundações filantrópicas e da aposta na informação e transparência, Ivy Lee contribuiu para criar uma imagem favorável da família Rockefeller junto da opinião pública.

Os pioneiros

Embora a sua influência seja incontestável, Ivy Lee não foi o único pioneiro da área.

Edward Bernays também contribuiu de forma notória para o desenvolvimento da teoria das Relações Públicas.

Aplicando diversos conceitos do seu tio, Sigmund Freud, Bernays escreveu vários livros sobre Relações Públicas, os mais conhecidos dos quais são  Crystallizing Public Opinion, Propaganda e The Engineering of Consent.

Bernays também se destacou pelo seu trabalho no terreno.

A sua campanha mais famosa foi desenvolvida para a Lucky Strike.

De forma a expandir o mercado da marca de cigarros, Bernays decidiu direcionar os seus esforços para o público feminino.

O seu primeiro problema: as mulheres não gostavam do pacote verde de Lucky Strike, que não combinava com as cores das suas roupas.

Devido aos elevados custos envolvidos na alteração do pacote de Lucky Strike, Bernays decidiu mudar… o mundo da moda.

O especialista de Relações Públicas convenceu designers e decoradores a incorporarem o verde escuro da Lucky Strike nas suas coleções.

Organizou ainda o Green Ball, no Waldorf-Astoria, em Nova Iorque, com algumas das mais famosas socialites da época.

De forma a contornar o tabu da mulher fumadora, Bernays associou, em 1929, os cigarros ao movimento feminista.

Convocou debutantes norte-americanas para, em pleno domingo de Páscoa, marcharem pela Quinta Avenida a fumar aquilo a que chamava “torches of freedom” [«tochas de liberdade»].

A imprensa não resistiu a reportar o evento.

«A Group of Girls Puff at Cigarettes as a Gesture of ‘Freedom‘» [«Um Grupo de Raparigas Fuma Cigarros como Gesto de ‘Liberdade’»], escreveu o The New York Times a 1 de abril.

A campanha teve repercussões nos jornais de norte a sul do país e contribuiu para a mudança de mentalidades.

Por esta altura, os avanços no exercício de Relações Públicas já tinham chegado às salas de aula.

Em 1923, Bernays lecionou, na New York University, o primeiro curso universitário vocacionado para esta área.

As Relações Públicas davam início ao seu caminho para se tornarem num setor com regras e princípios, onde o respeito pelo público e a exatidão da informação são valores centrais.

François Truffaut

170 artigos em pouco mais de 6 anos. Enquanto crítico cinematográfico da revista Les Cahiers du cinema, François Truffaut destaca-se pelo estilo direto e abrasador. Troca a caneta pela câmara e torna-se realizador, sendo um dos principais nomes do movimento Nouvelle Vague

Espetador assíduo, crítico de cinema mordaz, realizador conceituado. François Truffaut, figura de proa da Nouvelle Vague, escreveu sobre a Sétima Arte antes de passar para trás da câmara

O jornalista da Nouvelle Vague

«Não existem bons e maus filmes, apenas bons e maus realizadores». O início da carreira de François Truffaut enquanto crítico cinematográfico foi mediático… e polémico.

 «Escrevi uma peça incendiária na Cahiers sobre os filmes franceses tipificados pelos argumentistas Jean Aurenche e Pierre Bost, os fósseis do cinema francês», recorda Truffaut. O jovem cinéfilo colaborava com a LesCahiers du cinéma, uma revista cofundada pelo teórico e crítico de cinema André Bazin.

O artigo “Une certaine tendance du cinéma français”, publicado em 1954, abriu caminho para a revolução do cinema francês levada a cabo pela Nouvelle Vague, um movimento que colocava em destaque o papel do realizador enquanto «auteur».

A paixão de Truffaut pelo cinema começara na sua juventude. O cineasta, nascido a 6 de fevereiro de 1932, em Paris, encontrou na Sétima Arte uma forma de escape da sua infância problemática.

Ávido espetador, faltava às aulas para frequentar clubes e salas de cinema, onde entrava sorrateiramente por não ter dinheiro para o bilhete. Apaixonado pela 7.ª Arte, colecionava artigos de jornais e revistas sobre os seus realizadores preferidos. Fundou, em 1948, o cineclube Cercle Cinémane, mas o projeto não teve sucesso.

Ativo na vida cultural parisiense, Truffaut integrou a sociedade cinematográfica Objectif 49 e era assíduo no Club du Faubourg. Foi precisamente no prestigiado clube que, em 1950, o editor literário da revista Elle lhe ofereceu emprego, depois de ficar impressionado com a sua eloquência.

Truffaut começou a escrever para outras publicações, como a Ciné-Digest, a Lettres du Monde e a France-Dimanche, assumindo até, em alguns trabalhos, o papel de fotógrafo. Após alguns meses, acabou por se fartar desse tipo de jornalismo, que considerava «supérfluo».

A sua primeira marca no mundo do cinema foi deixada através do jornalismo, enquanto crítico.

Realizador in the making

O controverso artigo divulgou o seu nome e despertou a atenção de outras publicações, entre as quais o semanário Arts-Lettres-Spectacles, onde Truffaut se tornou responsável pela coluna cinematográfica.

O seu estilo era feroz, direto e opinativo, sugerindo uma nova visão para o cinema. O impacto das suas palavras era tal que ficou conhecido como «Le Fossoyeur» [«O Coveiro»] do cinema francês.

Na redação da Les Cahiers du cinéma, Truffaut integrava um grupo de jovens críticos, batizados por Bazin como os «Hitchcocko-Hawksians», uma referência aos seus realizadores favoritos.

Do grupo também faziam parte Jacques Rivette, Eric Rohmer, Claude Chabrol, and Jean-Luc Godard , que viriam a estar no centro da Nouvelle Vague.

Entre março de 1953 e novembro de 1959, Truffaut publicou 170 artigos na LesCahiers du cinéma, na sua maioria críticas cinematográficas ou entrevistas com realizadores.  A sua escrita inteligente e provocadora agitou o mundo do cinema francês.

«Em retrospetiva, as minhas críticas parecem mais negativas do que o contrário, pois considero mais estimulante condenar do que elogiar; era melhor a condenar do que a defender. E arrependo-me disso».

O seu estilo muito próprio não foi unanimemente aceite. Em 1958, a organização do Festival de Cannes recusou-se a acreditá-lo como jornalista.

A justificação? Um artigo publicado no ano anterior, em que acusava a indústria cinematográfica francesa de produzir «demasiados filmes medíocres» e descrevia Cannes como «um falhanço dominado por acordos, esquemas e faux pas».

Truffaut foi o único crítico francês sem convite.

A caneta e a câmara

Apesar do sucesso enquanto crítico, Truffaut almejava estar atrás das câmaras.

«No início, não sabia se seria um crítico ou um cineasta, mas sabia que seria algo assim. Tinha pensado em escrever, na verdade, e que mais tarde seria escritor. Depois decidi que seria crítico cinematográfico. Então comecei a pensar, gradualmente, que devia fazer filmes».

A sua primeira experiência atrás da câmara foi a curta-metragem de oito minutos, Une visite, que terá sido gravada por volta de 1954/1955, seguindo-se Les Mistons, de 1957.

Em 1959, foi lançado Les quatre cents coups, um sucesso imediato que lhe valeu o prémio de melhor realizador em Cannes. A obra ajudou a estabelecer o movimento Nouvelle Vague e a divulgar a sua visão inovadora sobre o cinema.

Dois anos depois, estreou Jules et Jim, aclamado como um dos clássicos do cinema francês, confirmando o seu talento e marcando o início de uma carreira profícua.

A consagração na Sétima Arte

A sua produção cinematográfica diminuiu de ritmo em meados dos anos 60, enquanto se debatia com a produção de Farenheit 451 (1966) e trabalhava num livro sobre Alfred Hitchcock, um dos seus ídolos. A obra era baseada em mais de 25 horas de entrevistas feitas por Truffaut ao cineasta britânico.

No final da década e no início dos anos 70, lançou vários títulos de sucesso, nomeadamente Baisers volés (1968) e Les deux anglaises et le continent (1971). Le Dernier Metro (1980) tornou-se um dos seus filmes mais galardoados, conquistando 10 Prémios César.

Em 1974, o trabalho de Truffaut foi reconhecido em Hollywood. La nuit américaine (1973) venceu o Óscar de melhor filme estrangeiro.

A crítica como exercício

Truffaut reconheceu, em entrevista, que o seu trabalho enquanto realizador foi influenciado pela sua carreira de crítico cinematográfico e pela sua incessante «obsessão» em ver filmes.

«Penso que ser crítico me ajudou, porque adorar filmes ou ver imensos não é suficiente. Ter de escrever sobre filmes ajuda-te a compreendê-los melhor. […] A crítica é um bom exercício, mas não deves fazê-lo demasiado tempo».

Publicou dois livros, que ajudam a conhecer melhor o homem por detrás da câmara: Les Films de Ma Vie e Truffaut par Truffaut.

Truffaut apareceu, enquanto ator, em vários dos seus filmes, com destaque para L’enfant sauvage (1970). O cineasta participou, também como ator, em Close Encounters of the Third Kind (1977), de Steven Spielberg.

Pouco tempo depois de terminar o seu último filme, Vivement dimanche! (1983), Truffaut foi diagnosticado com um cancro cerebral. O cineasta morreu a 21 de outubro de 1984, em Neuilly-sur-Seine, em França.

A 6 de fevereiro de 2012, naquele que seria o seu 80.º aniversário, foi homenageado pela Google através de um doodle que revisita as suas principais obras.

François Truffaut e a Nouvelle Vague francesa revolucionaram o cinema da época e deixaram o seu nome na história da cultura. O seu contributo ficou imortalizado nas suas metragens e a sua influência ainda hoje se faz sentir mundo da 7.ª Arte.

Napalm Girl

8 de junho de 1972. «Temos que fugir daqui, eles vão bombardear-nos, vamos morrer». Kim Phuc, a menina da foto, foge das bombas. É atingida pelo napalm e gravemente ferida

Autor: Nick Ut
Nacionalidade: Vietnamita/Norte-Americana
Ano: 1972
Publicação: Associated Press

 

 

 

 

Vera Lagoa

Um dos primeiros sorrisos da RTP; cronista social do Diário Popular; fundadora d’O Diabo. A carreira de Vera Lagoa atravessa várias áreas da Comunicação. Em comum o espírito crítico e irreverente, que a transforma numa das grandes figuras da crónica portuguesa

De Maria Armanda Falcão a Vera Lagoa; das câmaras da RTP às «bisbilhotices» do Diário Popular e aos editoriais d’O Diabo. Uma carreira abrangente e diversificada, alicerçada numa voz crítica e num estilo irreverente

Um «Diabo de saias»

«Não gosto de si. O senhor é muito feio!». Assim terminava o editorial «O senhor Gomes de Chaves», publicado n’O Diabo, em fevereiro de 1976. O texto era assinado pela diretora da publicação, Vera Lagoa.

Menos de duas semanas depois, o semanário era suspenso. A ordem chegava do Conselho da Revolução, incomodado pelo tom rebelde do jornal e pela irreverência da sua diretora. Depois de dois números, O Diabo via a sua atividade interrompida.

O semanário, fundado originalmente em 1895, tinha renascido sob a orientação de Vera Lagoa. A primeira edição chegara às bancas a 10 de fevereiro de 1976.

«Muita água correu sob as pontes até que fosse permitido a uma mulher como eu, sem passado literário (apenas com um passado de luta), dirigir um jornal de combate e de cultura. Para o combate, aqui estou eu. Para a cultura (além do combate, também, evidentemente) aqui está quem neste jornal escreve».

Na mesma edição, a escritora e poetisa Natália Correia assinava o artigo «Um Diabo de saias».

«Ei-lo [O Diabo] agora ressurgido à luz da liberdade, com saias na direção. E que saias! Vera Lagoa, que encabeça o novo avatar de O Diaboé, sem dúvida, uma personalidade controversa. São-no os homens que se arremessam para a linha de fogo. Quanto mais uma mulher!».

Vera Lagoa já sabia como era estar na linha de fogo. A suspensão d’O Diabonão era a primeira advertência do Conselho da Revolução feita à jornalista.

Em setembro de 1975, o órgão aprovara por unanimidade a sua detenção por «ação ofensiva e contrarrevolucionária na pessoa do Presidente da República».Em causa estava o artigo de opinião «Sr. Presidente, perdi-lhe o respeito», publicado no semanário Tempo, em que a jornalista chamava «rolha» ao general Costa Gomes.

Vera Lagoa tornou-se a primeira jornalista a ser processada por um Presidente da República. A intervenção de Otelo Saraiva de Carvalho evitou que a decisão do Conselho da Revolução fosse avante.

As altercações com o regime não silenciavam a voz crítica da jornalista.

Inconformada, com a suspensão d’O Diabo, Vera Lagoa e a sua equipa fundaram um novo semanário: O Sol. Após a publicação do primeiro número, foi colocada uma bomba à porta do gabinete da diretora.

«O Sol não se apaga com petardos», escreveu a jornalista, no editorial da segunda edição.

A publicação foi fugaz; ODiabo regressou no início de 1977, praticamente um ano depois da suspensão.

A jornalista também fundou o semanário O Crime.

Uma mulher de causas

Voz interventiva da sociedade portuguesa, Vera Lagoa encabeçou as primeiras reações públicas contra os comunistas, já após o 25 de abril e a sua separação de José Manuel Tengarrinha, fundador do MDP/CDE.

Um fulgor que, embora em lados diferentes do espetro político, já tinha demonstrado antes da revolução, ao combater os fascistas.

Mulher de causas, participou, em 1958, na candidatura à Presidência da República do «General Sem Medo», Humberto Delgado.

As suas memórias e trabalhos jornalísticos deram origem a diversas obras.

O escritor e cartoonista José Vilhena, que confessava ter em Vera Lagoa um dos seus alvos preferenciais, chegou a compilar um livro com respostas dos visados às revelações bombásticas da jornalista.

De Maria Armanda a Vera

Antes de surgir Vera Lagoa, já existia Maria Armanda Pires Falcão. Nascida em Moçambique, a 25 de dezembro de 1917, Maria Armanda Falcão tornou-se a primeira locutora da televisão portuguesa, na RTP.

Durante os anos 50, trabalhava como secretária na empresa e acabou por conquistar lugar à frente das câmaras. Apenas lhe foi imposta uma condição: teria de pintar o cabelo.

Já loura, tornou-se «o primeiro sorriso da RTP». É também da sua responsabilidade a criação do concurso Miss Portugal.

O seu contrato não foi renovado por ter «demasiada personalidade».

Vera Lagoa nasceu durante um almoço com Luís de Sttau Monteiro: Vera, por querer ser verdadeira; Lagoa, inspirada pelo vinho branco que bebiam à refeição. Maria Armanda era Vera, Vera era Maria Armanda; de formas diferentes, ambas marcaram o jornalismo português.

«Bisbilhotices» e crónicas da vida social

Nos anos 60, Vera Lagoa tornou-se cronista do Diário Popular. A sua irreverente coluna «Bisbilhotices» causou sensação e tornou-a numa das badaladas repórteres portuguesas do século XX.

Considerada pioneira da área, Vera Lagoa ficou reconhecida pela sua crónica de costumes, desenvolvida num estilo único e irreverente.

«Ainda lá estaria, ainda estaria naquele salão, a ver cerca de cem pessoas dançarem e cantarem sem que o dono da casa parecesse incomodado com isso, se não tivesse de telefonar esta crónica. E isto é o melhor que, às 7 da manhã, sou capaz de escrever».

Num tempo em que o jornalismo era asfixiado pela censura, a cronista disfarçava de banalidades a sua crítica social: ia além de um mero relato dos eventos sociais, das intrigas, da moda e da etiqueta e ousava apontar o dedo à sociedade da época.

Vera Lagoa – ou Maria Armanda Falcão – faleceu a 19 de agosto de 1996.

Uma dupla identidade que intrigou a própria jornalista. «A Maria Armanda era uma pessoa com muito mais valor do que a Vera Lagoa. Tinha mais energias, mais coisas porque lutar. A Vera Lagoa afasta muita gente que a Maria Armanda gostaria de ver junto de si».

Uma pioneira televisiva e uma voz crítica do seu tempo, Vera Lagoa foi uma uma figura incontornável da crónica portuguesa.

Day After

Os golos e os recordes; as grandes vitórias e as pesadas derrotas. Como são noticiados pelos media os grandes eventos desportivos, depois do final da competição? O dia seguinte do espetáculo do desporto.

Os golos e os recordes; as grandes vitórias e as pesadas derrotas. Como são noticiados pelos media os grandes eventos desportivos, depois do final da competição? O dia seguinte do espetáculo do desporto.

Mundial de 1966: As lágrimas que Inglaterra noticiou

«England in Final of World Cup», anunciava a manchete do The Daily Telegraph, a 27 de julho de 1966.

Inglaterra exultava; o país organizador do Campeonato do Mundo de 1966 tinha derrotado a Seleção portuguesa e carimbava o passaporte para a final da competição.

A acompanhar o artigo, o periódico publicava a imagem de um… jogador adversário?

«Eusébio in tears after 8 goals in 5 games», lia-se.

Oito golos em cinco jogos, que haviam tornado Eusébio na grande figura do Campeonato do Mundo.

De tal forma que, na hora da vitória, era a sua fotografia que o The Daily Telegraph decidia publicar.

Não uma imagem dos golos da vitória, não da equipa vencedora; de Eusébio, o Pantera Negra que se mostrara ao mundo no Mundial de 1966.

No dia após a semifinal, a imprensa portuguesa acordava com um espírito completamente diferente do vivido em Inglaterra: o da desilusão.

A imagem de capa, essa, era exatamente igual.

As lágrimas do herói nacional refletiam a tristeza dos adeptos portugueses.

«A classe e o brio da Seleção Nacional comprovados em Wembley», publicava o Diário de Notícias.

A vitoriosa caminhada dos portugueses na sua primeira participação num Campeonato do Mundo só foi travada pelo ímpeto da equipa anfitriã.

Um feito que os periódicos não deixaram de assinalar.

«Perder com brilho», clamava O Século, elogiando o «fôlego» e a «rapidez» de pernas da formação inglesa.

O Jornal de Notícias apontava os culpados da derrota. «Faltou sorte e força ao sonho mais lindo do futebol português», escrevia o periódico.

Destaque bem diferente dava o Diário de Lisboa.

Numa primeira página dedicada maioritariamente a notícias internacionais, a Seleção era referenciada na «Nota do Dia», um texto com uma agenda clara.

«É justo, portanto, que [os jogadores da Seleção] tenham o prémio desse esforço e que, ao regressar a Lisboa, a população lhes dispense o acolhimento entusiástico a que têm direito. Mas não devem ficar por aqui a expressão e o montante da recompensa».

Quando o jornal A Bola saiu, as feridas da derrota já tinham começado a sarar.

O periódico desportivo era publicado apenas às segundas, quintas e sábados, pelo que a primeira edição após a semifinal só saiu para as bancas dois dias depois do jogo com Inglaterra.

«Portugal salvou o Campeonato do Mundo», foi a manchete escolhida, elogiando os feitos dos «Magriços» em terras de sua Majestade.

A reportagem do enviado especial Carlos Pinhão sublinhava que «o nosso jogo com a Inglaterra restaurou o prestígio da prova».

Prova essa que se aproximava do final.

A 28 de julho, Portugal defrontou e venceu a U.R.S.S., conquistando o terceiro lugar do Mundial.

Foi esse o acontecimento que o Record preferiu destacar, na primeira edição a ser publicada depois da derrota com os ingleses.

O jornal saía às terças-feiras e aos sábados, pelo que só quatro dias depois da semifinal os portugueses puderam ler a cobertura do Record.

A derrota passou praticamente desapercebida entre os bem mais lisonjeiros elogios à conquista da terceira posição, «um lugar com que não se sonhava», escreveu Amadeu José de Freitas. 

Um espírito de elogio e surpresa comum à cobertura noticiosa portuguesa de um dos dias mais negros da história desportiva portuguesa, imortalizado no sistema mediático pelas lágrimas de Eusébio.

Euro 2004: A final europeia e o treinador encarnado

«Trapattoni assina hoje», lia-se na manchete do jornal A Bola, a 5 de julho de 2004.

No fundo da primeira página, quase desapercebido, podia ver-se um cabisbaixo Luís Figo, afastando-se da taça europeia que escapara à equipa das Quinas.

O Campeonato Europeu de futebol, organizado em Portugal, terminara com uma derrota por 1-0 frente à Grécia.

Um resultado que deixara os adeptos nacionais de rastos.

A competição envolvera os portugueses numa campanha sem precedentes de apoio à Seleção Nacional.

E os «meninos» de Scolari tinham correspondido, chegando à final da prova.

Tratava-se da primeira presença da equipa na final de uma competição internacional, e os portugueses acreditavam.

Mas um golo do avançado grego Charisteas silenciou o estádio da Luz e ditou o fim das aspirações nacionais.

«Faltou estofo», acusava O Jogo.

Na capa do periódico, a derrota portuguesa também dividia atenções com a contratação do novo treinador encarnado.

«A Grécia é campeã da Europa e Portugal tem de contentar-se com o facto de ter sido o último a perder. Mas como já tinha sido o primeiro… há mais culpas do que desculpas», criticou o periódico.

Uma abordagem oposta à do rival Record. «Portugal orgulha-se de vocês», declarava o diário desportivo.

Cristiano Ronaldo, então com 19 anos, e as suas lágrimas, faziam capa no Record, acompanhados pelas expressões apreensivas de Pauleta e Miguel.

«Chega agora o momento em que a festa dá lugar à tristeza, num desfecho inesperado em que poucos apostariam», escreveu o jornal.

Também o Público era elogioso da prestação portuguesa.

«Valeu a pena», era a expressiva manchete, que encimava a foto de um desconsolado Rui Costa.

O número 10 português também era figura central nas capas do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias.

De costas, cabisbaixo, e rodeado pelos símbolos da festa grega, Rui Costa era reconfortado pela equipa técnica.

O «maestro» representara a equipa das Quinas pela última vez e deixara fugir por entre os dedos o título europeu.

A capa do Correio da Manhã deu destaque a outro protagonista da equipa portuguesa.

Luís Figo, levando as mãos à cabeça, numa imagem que exprimia o fim do sonho português.

«Foi pena que a Seleção não tivesse jogado a final sempre com a vontade e a determinação da última meia hora, período em que criou algumas oportunidades e obrigou a Grécia a recuar», lamentou-se o diário.

O descontentamento luso contrastava com a festa grega.

A imprensa helénica pintava-se de azul e branco para comemorar a conquista do Euro 2004.

Imagens das celebrações enchiam as capas dos jornais, festejando uma vitória que se tornava ainda mais doce por ser tão inesperada.

A Seleção Nacional da Grécia nunca antes tinha vencido um Campeonato Europeu.

Lado a lado com os jogadores que tinham disputado a partida, surgiam outros protagonistas; os portugueses que, em todo o mundo, tinham acreditado e sofrido até ao fim com a Seleção das Quinas.

Rostos e vozes anónimos que chegavam às páginas da imprensa portuguesa, representando a esperança nacional no primeiro título português em competições internacionais.

Em campo estava mais do que uma equipa; estava a crença de um país.

Um país que continua sem esquecer a mais mediática das derrotas futebolísticas portuguesas.

Jogos Olímpicos de 2008: Triplo salto para a primeira página

Quem chegasse às bancas portuguesas a 22 de agosto de 2008 iria deparar-se com uma visão rara.

Dois dos principais diários desportivos publicavam capas onde o futebol tinha deixado, temporariamente, de ser o desporto-rei.

O autor do feito tinha um nome… e uma marca.

Nelson Évora, 17,67 metros.

No dia anterior, o atleta português conquistara a medalha de ouro em triplo-salto nos Jogos Olímpicos de Pequim.

O hino português tinha voltado a soar na arena olímpica; 12 anos depois, Portugal conquistava novamente uma medalha de ouro.

Uma vitória que projetou, mais do que nunca, Nelson Évora na arena mediática.

A exceção foi o jornal Record.

O periódico optou por dar destaque a Reyes, novo reforço benfiquista, relegando a vitória de Nelson Évora para o topo da página

A hegemonia futebolística não tinha sido eclipsada pela vitória olímpica.

Nos diários generalistas, a medalha do atleta foi assunto de primeira página.

Nelson Évora e os seus «17.67 de ouro» dividiram a capa do Jornal de Notícias com chamadas de capa para temas de política, sociedade e… futebol.

No Diário de Notícias, mais uma imagem vitoriosa de Nelson Évora.

O jornal destacava o «Salto de ouro sobre o pessimismo» do desportista olímpico.

O Correio da Manhã publicava imagens da prova que valera o ouro ao atleta português e puxava para capa declarações na primeira pessoa: «É um orgulho imenso dar esta alegria a Portugal».

As palavras do campeão olímpico eram reproduzidas pelos periódicos; dos desportivos aos generalistas, os jornais faziam uma cobertura detalhada da prova e compilavam as reações à vitória.

O percurso do jovem de 24 anos, que se tornara o quarto campeão olímpico português, era analisado ao detalhe pelos media nacionais.

Uma atenção mediática que se alargou à sua família. Vários meios reportaram a forma como os familiares de Nelson Évora acompanharam a vitória do atleta.

Uma conquista que o tornou num dos rostos mediáticos do sucesso olímpico português.

Uma conquista que o tornou num dos rostos mediáticos do sucesso olímpico português.

Mundial 2014: Quando falta a manchete

«Não vai ter capa».

Caso irónico, talvez inédito, com certeza raro: um jornal que se recusa a dar notícias. A 9 de julho de 2014, o Meia Horanão tinha palavras para os seus leitores.

Não era caso único: a imprensa brasileira estava de luto.

No dia anterior, a Seleção Nacional sofrera a mais pesada derrota da sua história.

A Alemanha atropelara os canarinhos por 7 a 1 no Mineirão, uma partida a contar para as semifinais da Copa do Mundo. Uma competição – a agravar a ofensa – organizada pelo Brasil.

A nação que alimentava o sonho do «hexa» caía de joelhos perante a formação germânica.

A imprensa solidarizava-se com os adeptos.

O luto, a vergonha, o vexame a humilhação. O léxico era variado, mas o sentimento era o mesmo.

A desolação atravessava tipos de publicação e géneros jornalísticos; era tema nacional e inevitável.

As técnicas utilizadas eram variadas, das capas negras ao apelo à memória coletiva – não ao passado vitorioso da equipa nacional, mas às grandes derrotas.

«Parabéns aos vice-campeões de 1950, que sempre foram acusados de dar o maior vexame do futebol brasileiro», publicava o jornal Extra.

«Ontem, conhecemos o que é vexame de verdade».

No país dos adversários, as capas contavam outra história.

“Ohne Worte!” [«Sem Palavras!»], anunciava o jornal Bild.

As imagens dos jogadores invadiam as primeiras páginas. O resultado dilatado reforçava a confiança dos germânicos, que partiam em alta para a final da prova.

Mas nem todos os jornais davam destaque à partida.

Um facto para o qual não foi indiferente a diferença horária entre os países: quando o jogo terminou, era final de tarde no Brasil. Na Alemanha, era noite cerrada.

Horários muito diferentes, condicionando o ritmo de produção jornalística e de impressão dos jornais.

Com a vantagem do tempo do seu lado, a imprensa brasileira preparou-se para noticiar uma das mais sofridas derrotas da história da Seleção.

Poucos eram os jornais que colocavam outros temas na primeira página; de forma mais ou menos notória, a imprensa parecia sofrer com os brasileiros.

Fotografias expressivas, manchetes apelativas, capas que correram mundo.

O dia depois da derrota; o dia no qual a imprensa brasileira foi obrigada a publicar a notícia que ninguém no país queria ler.

“Propaganda”, a obra maior

Em 1928, Edward Bernays lança a obra que o cunhará como o «Pai das Public Relations». Em «Propaganda», adapta conceitos psicológicos à esfera da Comunicação e explora o papel desta ferramenta para a formação da opinião pública.

Quase um século depois de ter sido publicada, em 1928, “Propaganda”, de Edward Bernays, continua a ser considerada uma das contribuições mais emblemáticas para a indústria da Comunicação.

Estamos em 1928.

Depois do sucesso dos livros Crystallizing Public Opinion (1923) e A Public Relations Counsel (1927), Edward Bernays lança a obra de referência que lhe valerá o batismo de «The Father of Spin».

Com a passagem do tempo, Propaganda torna-se na obra de referência para os profissionais da Comunicação.

Por que caleidoscópio espreitava o olhar de Bernays sobre propaganda?

A inovação do seu contributo consistia na adaptação de conceitos psicológicos à esfera da Comunicação, uma visão ainda pouco explorada.

O pai das RP explicava a psicologia por detrás da manipulação de massas através do uso da propaganda. Além disso, examinava como esta forma de comunicar influenciava a política, a mudança social e a prática de lobbying.

“The conscious and intelligent manipulation of the organized habits and opinions of the masses is an important element in democratic society. Those who manipulate this unseen mechanism of society constitute an invisible government which is the true ruling power of our country. We are governed, our minds are molded, our tastes formed, our ideas suggested, largely by men we have never heard of. ”

[«A manipulação inteligente e consciente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo dissimulado da sociedade constituem-se como um governo invisível que é o verdadeiro poder que dirige o nosso país. Somos governados, as nossas mentes são moldadas, os nossos gostos formados, as nossas ideias sugeridas, largamente por homens de que nunca ouvimos falar»].

Nunca uma afirmação continuaria tão atual como esta.

A construção do consenso

Na sua análise, Bernays começa a dar forma ao seu popular conceito de “engineering consent” [«construção do consenso»].  O grande teórico considera que o consenso é vital para a sobrevivência das democracias, e aqueles que o ajudam a construir são quem verdadeiramente detém o poder sobre as pessoas, incluindo as suas ideias e opiniões.

“Some of the phenomena of this process [propaganda] are criticized – the manipulation of news, the inflation of personality, and the general ballyhoo by which politicians and commercial products and social ideas are brought to the consciousness of the masses. The instruments by which public opinion is organized and focused may be misused. But such organization and focusing are necessary to orderly life.”

[«Alguns dos fenómenos deste processo (propaganda) são criticados – a manipulação das notícias, a inflação da personalidade e o tumulto geral pelo qual os políticos, os produtos comerciais e as ideias sociais são trazidos à consciência das massas. Os instrumentos através dos quais a opinião pública é organizada e focada podem ser mal utilizados. Mas tal organização e foco são necessários para a vida ordeira»].

O ângulo escolhido foca-se na defesa da propaganda enquanto instrumento necessário e fundamental para a formação da opinião pública e para o funcionamento normal da vida em sociedade.

Aliás, Bernays vai ainda mais longe e diz que a propaganda é uma ferramenta para ganhar a aprovação das massas, e que aqueles que detêm o poder precisam desta aprovação para poderem atuar.

Assim…

“Propaganda is here to stay.” [«A propaganda veio para ficar»]

A propaganda em mudança

No entanto, a sociedade moderna dos anos 20/30 encontrava-se perante uma nova propaganda.

“Modern propaganda is a consistent, enduring effort to create or shape events to influence the relations of the public to an enterprise, idea or group.”

[«A propaganda moderna é um esforço consistente e permanente para criar ou moldar eventos para influenciar as relações do público com uma empresa, ideia ou grupo»].

Novas técnicas, significavam igualmente o surgimento de um novo profissional que as punha em prática:

“The propagandist who specializes in interpreting enterprises and ideas to the public, and in interpreting the public to promulgators of new enterprises and ideas, has come to be known by the name of ‘public relations counsel.’”

[«O novo propagandista que se especializa na interpretação de empresas e ideias para o público, e em interpretar o público para os promulgadores de novas empresas e ideias, tem vindo a ser conhecido pelo nome de “consultor de relações públicas”»].

O surgimento de escândalos financeiros no século XX fez crescer a consciência da importância das Relações Públicas.

A esta nova perceção juntava-se, porém, uma desconfiança: a dificuldade da sociedade em distinguir um propagandista de um profissional de relações públicas.

“If we accept public relations as a profession, we must also expect it to have both ideals and ethics.”

[«Se aceitarmos as relações públicas enquanto profissão, também devemos esperar que esta tenha igualmente ideais e ética»].

Propaganda e capitalismo

O teórico não se fica por aqui. O argumento da propaganda como instrumento fundamental para o funcionamento da sociedade democrática é expandido e abrangido ao campo económico. De acordo com o autor, a propaganda tem um impacto positivo no capitalismo.

“A single factory, potentially capable of supplying a whole continent with its particular product, cannot afford to wait until the public asks for its product; it must maintain constant touch, through advertising and propaganda, with the vast public in order to assure itself the continuous demand which alone will make its costly plant profitable.”

[«Uma única fábrica, potencialmente capaz de fornecer um continente inteiro com o seu produto, não pode esperar até que o público peça o seu produto; tem de se manter em constante contacto, através da publicidade e da propaganda, com o vasto público, de forma a assegurar a contínua procura que, por si só, vai transformar a sua dispendiosa fábrica numa unidade rentável»].

Com a utilização massiva de propaganda durante a Primeira Guerra Mundial, esta forma de comunicar já adquirira uma conotação algo negativa.

Eis que Bernays apresenta uma nova visão sobre esta forma de comunicar, estudando os seus efeitos e defendendo o seu uso.

“I am aware that the word ‘propaganda’ carries to many minds an unpleasant connotation. Yet whether, in any instance, propaganda is good or bad depends upon the merit of the cause urged, and the correctness of the information published.”

[«Estou ciente de que a palavra “propaganda” carrega em si uma conotação negativa a muitas mentes. Contudo, se, em circunstância alguma, a propaganda é boa ou má, depende do mérito da causa estimulada e da veracidade da informação publicada»].

Bernays vai mais longe na sua conceção sobre este processo.

“Man’s thoughts and actions are compensatory substitutes for desires which he has been obliged to suppress. A thing may be desired not for its intrinsic worth or usefulness, but because he has unconsciously come to see in it a symbol of something else, the desire for which he is ashamed to admit to himself.”

[«Os pensamentos e ações do homem são substitutos compensatórios de desejos que ele tem sido obrigado a suprimir. Uma coisa pode ser desejada não pelo seu valor intrínseco ou utilidade, mas porque ele tem vindo a vê-la inconscientemente como um símbolo de outra coisa, o desejo pelo qual ele se envergonha de admitir»].

Esta perspetiva psicológica dos indivíduos e das massas veio contribuir para uma nova visão da propaganda. O trabalho do propagandista passava a ser muito mais do que disseminar uma ideia ou um produto. Passava, antes, a dedicar-se à descoberta dos motivos e desejos mais escondidos da sua audiência.

Assim, a propaganda despertava, no público-alvo, uma reação preenchida por uma dualidade: agir ou não agir? Correto ou incorreto? Bom ou mau? As escolhas dos indivíduos tornavam-se limitadas.

E qual o resultado? Respostas mais rápidas e mais fervorosas.

De 1928 para o presente

No prefácio da primeira edição portuguesa, o Consultor de Comunicação e Relações Públicas Luís Paixão Martins transporta-nos numa viagem pela vida de Edward Bernays.

Muito mais do que um pioneiro, este norte-americano de origem austríaca destacou-se dos demais e criou raízes para várias práticas e costumes que ainda hoje fazem parte do nosso quotidiano.

Desde a introdução do bacon nos pequenos-almoços norte-americanos, à desculpabilização do fumar em público associada à emancipação feminina na iniciativa «Torches of Freedom»; passando pela criação do conceito atualmente aceite de «a cerveja é a bebida da moderação», Bernays ganhou o título de «pai das Relações Públicas» de forma justa.

Quando Bernays se identificou em tribunal como «Consultor em Relações Públicas», constituiu-se como um marco inédito na História.

O ponto de viragem para as Relações Públicas enquanto profissão estava traçado.

Contudo, o mais surpreendente acerca desta figura foi sempre a sua capacidade de pensar «fora da caixa».

Defendendo que é mais fácil mudar as atitudes de milhões de pessoas do que as atitudes de um só indivíduo, Bernays mostrou desde cedo compreender melhor que ninguém a importância e o funcionamento da opinião pública.

Com uma reputação algo controversa devido ao seu protagonismo – que rompia com o resguardo convencional dos homens de Relações Públicas, que se limitavam aos bastidores – Bernays quebrava barreiras tal e qual um atleta olímpico.

Criou a teoria original sobre a reação a boatos e rumores, concebeu o conceito de «segmental approach», formulou o modelo dos projetos de RP, elaborou a célebre técnica de marketing «engineering consent», foi pioneiro no «product placement» e desenvolveu as primeiras técnicas para o lobbying político.

Mais do que o «pai das RP» ou o «pai do spin», Edward Bernays deixaria um legado único que fundaria uma das profissões mais influentes de sempre.

Numa época repleta de preconceitos e convenções sociais estritas, o teórico pisaria o risco e arriscaria tudo para seguir as suas ideias. Mesmo que estas colidissem com as normas estabelecidas.

Fernando Ulrich

Antes de se tornar presidente do BPI (Banco Português de Investimento), Fernando Ulrich integra a equipa fundadora do Expresso. Entre 1973 e 1974, é responsável pela secção de Mercados Financeiros, assinando textos com o pseudónimo de Vicente Marques

De jornalista a banqueiro, Fernando Ulrich deu que falar com os seus artigos de análise à bolsa n’ Expresso

A herança Ulrich

Fernando Maria Costa Duarte Ulrich nasceu em Lisboa, Santa Isabel, a 26 de abril de 1952. É filho de João Jorge Maria de Melo Ulrich, que foi diretor da Tabaqueira, e de Maria Isabel Buzaglo Costa Duarte. Os Ulrich provêm de uma família do Norte de Hamburgo ligada ao comércio bancário e à arquitetura, que se estabeleceram em Portugal em meados do século XVIII.

Após o terramoto de 1755, a família cooperou ativamente na reconstrução de Lisboa, a convite do Marquês de Pombal, prosseguindo os seus negócios no ramo financeiro.

A ligação à banca vem de família. O avô paterno, Fernando Enes Ulrich, foi administrador do Banco de Portugal, enquanto o avô materno, Mário de Sousa Costa Duarte, estava ligado às áreas de corretagem e dos seguros. O bisavô foi vice-governador da Companhia do Crédito Predial.

Fernando Ulrich estudou no Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa, de 1969 a 1974, onde foi colega de Eduardo Ferro Rodrigues, António Peres Metelo e Félix Ribeiro…

… mas não chegou a terminar a licenciatura em Gestão de Empresas.

A passagem pelo Expresso

Ainda estudante integrou a redação fundadora do Expresso, lançado por Francisco Pinto Balsemão, e que contava com dez jornalistas. Entre 1973 e 1974 foi responsável pela secção de Mercados Financeiros, assinando textos com o pseudónimo de Vicente Marques.

No primeiro sábado de 1973, a opinião pública encontrou nas bancas um semanário diferente de todos os outros. O modelo era o dos «jornais ingleses de domingo de qualidade». Para isso, Augusto de Carvalho (chefe de redação) faz um estágio no Reino Unido, acompanhado do diretor de publicidade e de Fernando Ulrich.

O grupo trabalha nos londrinos The Sunday Timese The Observer. Atenta, a Direção-Geral de Segurança (DGS, sucessora da PIDE), interceta e fotocopia a correspondência trocada entre Balsemão e os seus homólogos ingleses, fazendo-a chegar às mãos de Marcello Caetano.

Os artigos de Fernando Ulrich de análise da bolsa tinham grande densidade, refletindo (já então) um notável domínio das matérias económicas, dando-lhe fama e glória.

No início dos anos 70 havia uma febre bolsista e Fernando Ulrich juntou-se com os amigos para criar um cabaz de capital para investir na bolsa. Ulrich, então com pouco mais de 20 anos, era o grande dinamizador deste «fundo de investimento amador». Mas esse «El-Dorado» acabou no dia que Fernando Ulrich se tornou jornalista, revelando a sua conduta deontológica. «Desde o dia em que entrou no Expresso, nunca mais nos deu dicas de investimento, com muita pena nossa. Isto demonstra quanto o Fernando é estruturalmente sério», disse um dos amigos do CEO do BPI.

Em janeiro de 1980, quando Balsemão passa a ministro-adjunto do Primeiro-Ministro, no Governo de Sá Carneiro, nomeia Marcelo Rebelo de Sousa para diretor interino. Mesmo em São Bento, o dono não deixa de velar pelo jornal. Não confiando em Marcelo, chega a convidar Fernando Ulrich para o seu lugar. «Em 1980/81 passei por um susto horrível: o Dr. Balsemão quis que eu fosse diretor do jornal (…) Fiquei completamente dividido, mas acabei por não aceitar».

Fernando Ulrich, o banqueiro

Em 1983, a convite de Artur Santos Silva, entra na Sociedade Portuguesa de Investimentos (SPI), que vem dar origem ao Banco Português de Investimento  (BPI). Antes, havia sido técnico do Secretariado para a Cooperação Económica e, posteriormente, assessor do Embaixador de Portugal junto da OCDE, em Paris. Desempenhou ainda as funções de chefe de gabinete dos ministros das Finanças e do Plano dos governos Balsemão, Morais Leitão e João Salgueiro. Em 1980 trabalhou no departamento internacional do Banco Pinto & Sotto Mayor.

Em abril de 2004, e já no cargo de vice-presidente, Fernando Ulrich torna-se presidente do BPI. Identificado publicamente com o PSD, é um dos fundadores da iniciativa Compromisso Portugal. Opinativo e irreverente, tem proferido algumas declarações polémicas, como a célebre frase, a propósito das políticas de austeridade em Portugal, «ai aguenta, aguenta».

Em entrevista ao Expresso afirmou que «Gosto de participar na vida da sociedade» e por isso «um dia gostava de ser deputado».

Tal como Fernando Ulrich, a sua mulher Diana Melo e Castro fez carreira como jornalista n’A Capital, até entrar para o PSD, onde passou a responsável pelo gabinete de comunicação a partir de 1979. Integrou o gabinete de apoio à Presidência da República desde abril de 2006.

Che Guevara, o guerrilheiro

A imagem mais reproduzida na história da fotografia. Havana, 5 de março de 1960. A foto é captada por Alberto Korda, durante um memorial dedicado às vítimas da explosão de La Coubre, e  publicada internacionalmente apenas 7 anos depois de ter sido tirada

Autor: Alberto Korda
Nacionalidade: Cubana
Ano: 1960
Publicação: Paris Match

 

 

 

 

Augusto Abelaira

Homem de Letras e das letras que no Jornalismo se destaca pelas suas crónicas e críticas literárias. Homem de luta, nunca se detém até conquistar a liberdade de pensamento e expressão

Homem de Letras e das letras que no Jornalismo se destaca pelas suas crónicas. N’ O Século assina, a partir de 1974, as «Entrelinhas», n’O Jornal, de 1978 a 1992, a crónica tem o título de «Escrever na Água» e no Jornal de Letras, os seus textos são publicados em «Ao pé das letras», até 1996

Abelaira dos mil e um talentos

Augusto Abelaira, nasceu a 18 de março de 1926, em Ançã no concelho de Cantanhede e licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Exerceu igualmente os cargos de diretor das revistas Vida Mundial (1974-75) e Seara Nova (1968-69). Foi ainda diretor de programas da RTP (1977-78) e presidente da Associação Portuguesa de Escritores (1978-79),

Nas décadas de 50, 60 e 70, época áurea dos grupos de tertúlias e serões dos cafés de Lisboa tais como; o Café Chiado, o Martinho do Rossio, o Portugal, o Café Bocage ou o Monte Carlo, Augusto Abelaira era presença comum em muitas destes encontros.

Baptista-Bastos dizia mesmo: «Invulgarmente culto, nunca impôs os formidáveis conhecimentos que possuía, desde a literatura à física, da pintura à música, da filosofia ao cinema e ao teatro. Era, além disso, um melómano distintíssimo, de apurado ouvido, fino gosto e extraordinário sentido crítico. Ouvi-lo era um prazer sem igual, tanto mais que ele não fazia alarde da sua imensa cultura, pelo contrário: ocultava-se numa modéstia impressionante».

O jornalista escritor

Tais conhecimentos e vivências, que se espraiavam pelas mais diversas áreas eram indubitavelmente visíveis nas suas crónicas observando-se até, a confluência da arte, com a literatura e com a filosofia.

Exemplo disso foi a «Escrever na água», crónica semanal n’ Jornal de Letras, dedicada a Carlos Oliveira, escritor e amigo, a 3 de Julho de 1981: «Carlos de Oliveira era uma das três pessoas com quem eu me habituara a conversar na própria ausência delas. O interlocutor de certos momentos quando eu estava sozinho.Quando escrevia um livro (que pensará o Carlos de Oliveira?). Quando via um bom filme (ele que não ia ao cinema). Quando lia um bom livro. Até quando amava. Sim, que pensará o Carlos de Oliveira? E apesar de vê-lo todos os dias conversava mais com ele quando não estava com ele. Com quem vou agora conversar quando estiver sozinho, agora que das três pessoas com quem conversava em silêncio já outra morreu alguns tempos antes? E penso nas tantas coisas que lhe disse em silêncio, mas que não me atrevi a dizer-lhe na realidade».

Ainda sobre literatura e a importância do leitor Augusto Abelaira, escreveu no mesmo espaço: «Um romance é não somente o que lá pôs o escritor mas é também aquilo que lá puseram os leitores, esse leitor imaginário é um leitor muito especial: é um leitor que sente a falta de um certo livro ainda por escrever. E o escritor procura corresponder a esse desejo, oferecendo-lhe o desejado livro.»

Abelaira quis transmitir aos leitores do jornal, que um escritor escreve para um leitor e que este se assume como seu cúmplice e até coautor.

«Sinceridade e falta de convicções na Obra de Fernando Pessoa», era o título que Augusto Abelaira, com apenas 21 anos, escreveu para a revista Mundo Literário.

O título e o tema manifestavam precocemente os interesses e crítica deste jornalista e escritor. A necessidade de uma leitura atenta, crítica e esclarecida era um assunto patente a quase todas os textos e obras de Abelaira.

No período de 1981 a 1996, Augusto Abelaira publicou crónicas na secção «Ao pé das letras» do Jornal de Letras nas quais, mais uma vez, se confirmou o interesse pela interpretação do mundo literário e dos seus intervenientes.

Em dezembro de 1992, publicou um texto intitulado «A propósito do diário de Samuel Pepys», aqui afirmou não ser um leitor de diários, mas que, com a leitura da obra deste escritor inglês, descobriu uma série de curiosidades sobre a relação do escritor com a literatura: a razão da escrita, os motivos da publicação, o perfil do leitor.

Num outro artigo editado no Jornal de Letras, intitulado de «Saber Ler», Augusto Abelaira colocou as seguintes questões:

«Será que os Portugueses (a maioria dos portugueses) não gostam de ler porque, embora alfabetizados, não sabem ler? Será que a escola os ensinou a soletrar, mas não a compreender, para além de cada frase, uma a uma considerada, a sequência de frases que constituem um todo? (…) Dizem-me alguns professores liceais: muitos alunos chegam aos últimos anos sem compreender o que leem, sem saber resumir um texto, se ele não for uma simples notícia de jornal. Logo: que estiveram os alunos a fazer durante os primeiros anos? Ou: que estiveram os professores a fazer? Ou: que espécie de ensino é o nosso? Quero dizer: como classificar um ensino que não ensinou aos alunos o prazer da leitura, pouco importa se leitura de romances ou de livros de Física? Sem ensinar o prazer da leitura não haverá leitura, e sem leitura nunca ultrapassaremos a Grécia».

A alfabetização e a degradação da relação das demais gerações com a Literatura eram outras temáticas que Augusto Abelaira abordava nas suas crónicas.

A luta pela liberdade

Abelaira esteve também envolvido na luta contra o Antigo Regime. Distribuiu panfletos, assinou documentos a favor da liberdade.

Corajoso e convicto e de uma lealdade a toda a prova, Augusto Abelaira foi preso pela PIDE, por ter atribuído, como membro de júri, o Prémio de Novelística da então Sociedade Portuguesa de Escritores, a «Luuanda», de Luandino Vieira, na altura preso no campo de concentração do Tarrafal.

Augusto Abelaira morreu a 4 de julho de 2003, vítima de doença perlongada. Além das crónicas dispersas pelos vários jornais por onde passou, Augusto Abelaira deixou também um número vasto de obras literárias tais como «A Cidade das Flores»; «Sem Tecto entre Ruínas» e «Outrora Agora».

Os Beatles no Ed Sullivan Show

A 9 de fevereiro de 1964, a Beatlemania invade os Estados Unidos. 73 milhões de norte-americanos assistem à primeira atuação dos “quatro rapazes de Liverpool” no The Ed Sullivan Show.

“Ladies and gentlemen… the Beatles!” [«Senhoras e senhoras… os Beatles!»]. Os gritos e aplausos da audiência abafaram as palavras de Ed Sullivan. No estúdio, estavam 728 pessoas; em casa, eram 73 milhões, um recorde de audiência. A 9 de fevereiro de 1964, a América estava colada ao pequeno ecrã para assistir à estreia dos The Beatles na televisão nacional.

A sua chegada à terra do Tio Sam era antecipada há semanas. Dois dias antes da sua atuação televisiva, os noticiários da CBS e da ABC transmitiram a chegada do quarteto de Liverpool ao aeroporto, ilustrando o poder da Beatlemania que, por esses dias, contaminava os norte-americanos.

Os primeiros acordes de “All My Loving” levaram a audiência ao rubro. Seguiram-se “Till There Was You” e “She Loves You”. As câmaras demoravam-se em cada um dos membros, com o respetivo nome a surgir no ecrã. No caso de John Lennon, uma informação adicional, para as fãs menos conhecedoras: “Sorry Girls, He’s Married” [«Desculpem meninas, ele é casado!»].

A banda fechou a sua participação no The Ed Sullivan Show com “I Saw Her Standing There” e “I Want To Hold Your Hand”. Apesar de os The Beatles terem aparecido em mais três emissões do popular programa de variedades, a sua primeira performance ficou imortalizada como um marco da cultura popular norte-americana, que continua a impressionar os espetadores, mais de cinquenta anos depois.