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News Standard

Ernest Hemingway

O tempestuoso jornalista passa pelas guerras mais importantes da História para reportar o que lá se vive. Entre as milícias e as suas gentes, Hemingway escreve, nos entremeios dos conflitos, narrativas que lhe valem o Nobel da Literatura, em 1954

Dá as mãos ao Jornalismo e à Literatura. Hemingway celebriza-se por ser um mestre da palavra. Entre guerras, espionagem e quatro casamentos teve tempo para alcançar um Pulitzer do Jornalismo e um Nobel da Literatura

O berço de um aventureiro

Ernest Miller Hemingway nasceu em Oak Park, Illinois, nos Estados Unidos, a 21 de julho de 1899. O pai era médico e a mãe era professora de canto e ópera. Uma família educada e respeitada na comunidade.

Entre 1913 e 1917, Hemingway frequentou a Oak Park and River Forest High School, onde praticou boxe, atletismo, polo aquático e futebol. Destacou-se nas aulas de inglês e fez parte da orquestra da escola, com irmã Marcelline, durante dois anos.

Uma das grandes influências na juventude acabaria por ser Fannie Biggs, a professora de jornalismo. As aulas faziam lembrar a redação de um jornal. Os melhores alunos viam publicadas as suas peças no The Trapeze, o jornal da escola. A primeira peça de Hemingway, sobre o concerto da Orquestra Sinfónica de Chicago,  seria publicada nesse jornal em janeiro de 1916.

Iniciação ao jornalismo

Depois de deixar a escola foi trabalhar como jornalista estagiário no The Kansas City Star. Trabalhou nesta publicação durante seis meses, tempo suficiente para que Hemingway se tivesse influenciado com o modo de escrita do jornal: “Use short sentences. Use short first paragraphs. Use vigorous English. Be positive, not negative.” [Use frases curtas. Use primeiros parágrafos curtos. Use inglês vigoroso. Escreva pela positiva, não negativa]

O Adeus às Armas

Durante o período da Primeira Guerra Mundial  tentou alistar-se no exército, mas foi rejeitado por ter um problema de visão. Decidido a combater, conseguiu uma vaga como motorista de ambulância na Cruz Vermelha.

Em Itália, apaixonou-se pela enfermeira Agnes Von Kurowsky. Pediu-a em casamento, esta aceita, mas o deixou-o, mais tarde, por outro homem. O episódio arrasou o jovem escritor, mas inspirou-o, mais tarde, na criação do famoso livro A Farewell to Arms (1929) [O Adeus às Armas]

Regressou aos Estados Unidos após ter sido ferido, com alguma gravidade, por uma bomba. Pouco depois, partiu para o Canadá, porque um amigo de família tinha-lhe oferecido um trabalho em Toronto. Posteriormente trabalhou como freelancer e correspondente do Toronto Star Weekly.

Mudou-se para Chicago em setembro de 1920, onde conheceu o escritor Sherwood Anderson e trabalhou também como editor associado no jornal mensal Cooperative Commonwealth. Apaixonou-se, pouco tempo depois, por Elizabeth Hadley Richardson, com quem casou e teve um filho. Regressou a Paris em 1921, como correspondente para o Toronto Star Weekly.

O mundo inteiro à sua espera

Em Paris integrou no famoso grupo a que Gertrude Stein (escritora, poeta e colecionadora de arte) chamou de «Geração Perdida». Sendo Stein a sua mentora, permitiu-lhe conhecer grandes escritores e artistas da sua geração. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Pablo Picasso, James Joyce, Guillaume Apolinaire e Henry Matisse são exemplos destas personalidades.

Durante os primeiros dois anos em Paris, Hemingway publicou ointenta e oito artigos no Toronto Star.  Cobriu a Guerra Grego-Turca e reportou as suas viagens.

A vida e a obra de Hemingway têm uma intensa relação com Espanha, país onde viveu por quatro anos. Em Pamplona fascinou-se pelas touradas, transportando posteriormente essa experiência para o livro The Sun Also Rises (1926) [O Sol também se levanta].

Em 1927 casou-se com a jornalista de moda Pauline Pfeiffer, com quem teve dois filhos. Em 1928, o casal decidiu morar em Key West, na Flórida.

Não obstante, Hemingway sentia falta da vida que levava enquanto jornalista e o casamento com Pauline tornou-se instável. Nessa época, o escritor conheceu Joe Russell, dono do Sloppy Joe’s Bar, que passa a ser o seu companheiro de divertimento.

A pesca era outra paixão de Ernest Hemingway. Durante a década de 30 fez longas viagens em busca do marlim. Muitas delas terminavam em Havana, Cuba, onde, mais tarde, conheceu Fidel Castro. Numa destas viagens conheceu e apaixonou-se por Jane Mason, que era casada. Inevitavelmente, tornaram-se amantes.

Um amor por cada livro

Voltou a apaixonar-se em 1936 pela destemida jornalista Martha Gellhorn, motivo do segundo divórcio, confirmando o que previra o seu amigo, Scott Fitzgerald, quando se conheceram em Paris: «Vais precisar de uma mulher a cada livro».

Hemingway e Martha viveram o seu romance em pleno clima de guerra. Ambos estavam em Espanha a cobrir a Guerra Civil. Hemingway era correspondente North American Newspaper Alliance.Contudo, depressa se deixou contagiar pela causa e aliou-se às forças republicanas contra o fascismo. Este cenário foi mais tarde retratado no livroFor Whom the Bell Tolls[Por Quem os Sinos Dobram].

Os tempos de Cuba

Acabada a Guerra Civil Espanhola, mudou-se para Cuba onde viveu até 1959. Como correspondente de guerra da Marinha norte-americana, participou no desembarque dos Aliados na Normandia e na libertação de Paris, em 1945. Em Cuba, durante a Segunda Guerra Mundial, Hemingway montou uma rede de informadores com a finalidade de fornecer, ao governo dos Estados Unidos, informações sobre os espanhóis simpatizantes do fascismo na ilha.

Em 1946, casou-se pela quarta e última vez com Mary Welsh, também jornalista mas tímida e disposta a viver ao lado de um Hemingway cada vez mais instável emocionalmente. Em 1952, publicou o famoso The Old Man and The Sea [O Velho e o Mar].

Alfred Eisenstaedt, fotógrafo da revista LIFE, que captou os retratos de algumas das personalidades mais carismáticas do século XX, inclusive Joseph Goebbels – o ministro da propaganda nazi – confessa que Ernest Hemingway “was the most difficult man I ever photographed” [foi o homem mais difícil que fotografei].

O Nobel e o Kilimanjaro

Em 1953, o escritor venceu o prémio Pulitzer e no ano seguinte foi distinguido com Nobel de Literatura.

No mesmo ano em que a sua obra foi consagrada a nível internacional, sofreu com a mulher dois acidentes de avião, em África, que talvez tenham precipitado a sua deterioração física.

Das diversas viagens que fez pelo continente africano, narrou as suas vivências em Green Hills of Africa (1935) [As Verdes Colinas de África],  As Neves do Kilimanjaro The Short Happy Life of Francis Macomber(1938) [A Curta e Feliz Existência de Francis Macomber].

Aos 61 anos, enfrentando problemas de hipertensão, diabetes, depressão e perda de memória, Hemingway suicidou-se.

A Guerra Fria da Computação

Entre os códigos, o marketing e a imaginação estão dois homens que criam a fórmula mágica do ritmo a que hoje vivemos

Os primeiros passos da computação

Steve Jobs acusa Bill Gates de «falta de imaginação» e de «descaradamente arrancar as ideias dos outros» Fonte. A rivalidade marcou a carreira destes dois pioneiros mundiais da tecnologia.

A Microsoft, de Gates, nasceu em abril de 1975 e começou a desbravar sozinha as teias da computação. No ano seguinte, Jobs, juntamente com Steve Wozniak e Ronald Wayne, fundou a Apple. Lado a lado, a Microsoft e a Apple, numa espécie de Guerra Fria, foram apresentando novas tecnologias e inovações nos seus produtos basilares.

Com apenas 13 anos, Gates fundou, na escola, o Lakeside Programmers’ Club e escreveu o seu primeiro código — um programa para correr um jogo do galo. Sempre determinado a não permitir que a sua inexperiência o refreasse, Gates, era o membro mais novo do clube mas também um dos mais promissores.

Por seu turno, Jobs – que tinha sido adotado ainda em bebé – nunca se mostrou entusiasmado com a escola, terminando o secundário com uma média baixa.

Aos 15 anos, Gates já estava muito para além dos jogos do galo. Uniu forças com um membro do clube, Paul Allen, que era alguns anos mais velho do que ele, dando início a um projeto profissional que levaria os dois homens ao topo da lista dos mais ricos do mundo: a Microsoft, que numa primeira fase esteve para ser batizada de Unlimited Limited.

Foi durante os seus tempos universitários que Jobs frequentou aulas de caligrafia que mais tarde viriam a ser cruciais no desenvolvimento da fonte e tipografia da Apple. Protagonista de uma juventude bastante conturbada, trabalhou alguns anos na Atari (uma empresa norte-amaricana de videojogos) para depois ingressar numa viagem de sete anos pela Índia, onde se converteu ao budismo e experimentou drogas psicadélicas.

“Taking LSD was a profound experience, one of the most important experiences in my life. LSD shows you that there’s another side to the coin. It reinforced my sense of what was important—creating great things instead of making money.” [Tomar LSD foi uma experiência profunda, uma das mais importantes na minha vida. O LSD permitiu-me ver o outro lado da moeda. Reforçou o meu sentido para perceber aquilo que realmente é importante – criar coisas importantes em vez de fazer dinheiro]

Apple aposta no hardware e a Microsoft investe no software

O primeiro grande sucesso da recém-fundada Apple foi o desenvolvimento do Apple II, apresentado, em 1977. Esta nova tecnologia destacava-se por ser um computador para uso doméstico, com um teclado mais ágil e pronto a ser usado mal se retirasse da caixa. Já não era necessária uma sala com uma temperatura específica à semelhança dos «primeiros computadores».

Ao contrário da Apple, que investiu e investe na produção de software e hardware desde a sua origem, a Microsoft especializou-se na produção de software tendo apresentado o seu primeiro modelo de hardware em 2012 – o Surface. Deste modo, ao mesmo tempo que Jobs apresentava o Apple II, Gates apresentava o Microsoft Frontran.

A Guerra Fria

A década de 90 encetou uma nova fase desta Guerra Fria. Em 1995, ano do aparecimento da Internet, é apresentado o Windows 95, um sistema operacional da Microsoft completo e complexo para computadores pessoais.

Do outro lado da barricada, Jobs que abandonara a Apple após um período de cisão interna para fundar a NeXT, regressa em 1997 e encontra a empresa em decadência. A sua missão era agora recolocar a Apple na vanguarda da inovação. Para tal, criou em 1998 o iMac um computador com design sem precedente pelo material utilizado – plástico translúcido e colorido – e decretou a morte da cor padrão para PCs (o bege).

A estética aliada ao Marketing era a fórmula que Steve Jobs não dispensava para o sucesso de qualquer produto Apple.

Como a ambição nunca descansa, Gates apresentou também durante esta década uma série de atualizações ao Windows 95 como o Windows 98 e o Windows XP, já em 2001.

Pouco antes da viragem do século a Apple, depois do sucesso de vendas dos iMac, preparou uma nova revolução, lançando em 2000 o Mac OS X. O novo Mac OS X permitiu renovar e, até, aumentar as vendas dos produtos da Apple.

Outra das grandes vitórias do novo posicionamento da Apple foi a ramificação do seu mercado, passando a atuar na área das telecomunicações móveis (iPhone), e músicas digitais (iPod) com a integração de uma loja de venda de música e filmes pela Internet (iTunes).

Jobs apresentou o iPhone a 9 de janeiro de 2007. O iPhone foi colocado à venda nos Estados Unidos a 29 de junho de 2007 onde, desde madrugada, centenas de clientes faziam fila por todo país, ansiosos por adquirir a mais recente tecnologia da Apple.

Em 2001, a Microsoft também diversificou a sua oferta e entrou no mercado dos videojogos e torna-se a principal concorrente da Sony. A Xbox foi o grande sucesso da Microsoft no mundo dos videojogos.

A Xbox foi apresentada pela primeira vez, por Bill Gates, a 15 de novembro de 2001, nos Estados Unidos.

Em 2008, Bill Gates deixou a Microsoft para se dedicar exclusivamente, com a sua mulher Melinda, à fundação por eles criada em 2000. A Fundação Bill & Melinda Gates dedica-se ao combate da pobreza e ao investimento na investigação associada ao combate de doenças epidémicas.

Já Steve Jobs, que nunca se dedicou a projetos de solidariedade social, abandonou a presidência da Apple em 2011 devido ao agravamento da sua doença que se revelou fatal, ainda nesse ano. Pouco antes de morrer, Jobs recebeu uma visita de Gates onde falaram sobre as suas aprendizagens, empresas e família.

Depois da morte de Steve Jobs, a 5 de outubro de 2011, Gates afirmou: «Não estávamos em guerra. Fizemos grandes produtos e a competição sempre foi algo positivo». A Guerra Fria da Computação nunca causou danos ou feridos. Foi uma rivalidade saudável que trouxe ao mundo um novo ritmo vivencial.

Parem as Máquinas!

Glórias, peripécias e embustes do Jornalismo e dos Media portugueses encontram-se relatados pelo investigador Gonçalo Pereira Rosa, o qual recupera proezas de Ferreira de Castro, Acúrcio Pereira, Reinaldo Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Eduardo Gageiro, Norberto Lopes e muitos outros

«Parem as Máquinas!», de Gonçalo Pereira Rosa, passa em revista algumas das mais extraordinárias, insólitas e rocambolescas aventuras da história do Jornalismo português.

Obra única, «Parem as Máquinas!» é uma homenagem viva e divertida aos jornais e jornalistas portugueses. Através dos episódios narrados por Gonçalo Pereira Rosa são recordados repórteres como Ferreira de Castro, Acúrcio Pereira, Reinaldo Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Eduardo Gageiro, Norberto Lopes e Urbano Carrasco. Este último, grande repórter do Diário Popular protagoniza, em 1957, um dos casos mais singulares casos do nosso Jornalismo.

O vulcão, a bandeira e o repórter

O vermelho e o verde contrastam com as nuvens; a bandeira portuguesa ondeia nos céus. O mastro está nas mãos de um homem: Urbano Carrasco.

«O enviado-especial do Diário Popular foi a primeira pessoa a desembarcar na ilha do vulcão onde implantou a bandeira portuguesa».

O desenho de Stuart Carvalhais, publicado a 13 de outubro de 1957 na capa do vespertino de Lisboa, ilustra um dos episódios mais peculiares do Jornalismo português.

Em setembro de 1957, um vulcão mostrou atividade perto do Capelo, na ilha do Faial, Açores.

À medida que a população saía… a imprensa chegava.

Os habitantes eram evacuados do cenário de destruição; o mesmo cenário que atraía repórteres nacionais e estrangeiros em peso.

Urbano Carrasco, grande repórter do Diário Popular, foi um dos jornalistas destacados.

Nasce uma ideia

No início do mês de outubro, a cobertura de Urbano Carrasco fazia manchetes no vespertino lisboeta.

A partir da Horta, o repórter fazia telefonemas diários para a redação com informações sobre a situação nos Açores, a tempo do fecho da edição diária.

«Tudo está agora negro como se tivesse sido pintado à pistola com o mais negro alcatrão. […] Sinto-me incapaz de explicar em toda a sua trágica grandeza esta súbita mutação», escreveu.

O jornalista batizava a nova formação vulcânica como «Ilha do Desespero».

A informação variava: se, no dia 9, o registo era otimista, a 10 de outubro referia-se que as explosões estavam a aumentar de intensidade.

A missão científica organizou uma visita à ilha.

Os jornalistas não queriam faltar, apesar de perigos como «os vapores de água expelidos a mais de cem graus que seriam capazes de cozer um ser humano, os jatos laterais do vulcão e a emissão de gases».

Enquanto esperava por condições de navegabilidade, Carrasco tomou conhecimento da história do ilhéu Sabrina, também ele formado a partir de uma erupção vulcânica, em 1811.

A atividade vulcânica captara a atenção dos tripulantes de um navio da frota imperial, que se aproximaram da ilha e fincaram no solo a Union Jack, reivindicando o território.

Apesar do ilhéu ter submergido menos de um ano depois, o episódio deixou uma profunda ferida no orgulho nacional.

Uma ideia começava a ganhar forma na mente de Urbano Carrasco.

Rumo à «Ilha do Desespero»

O projeto teve ainda mais fulgor depois de o repórter ter navegado com os colegas perto da ilha recém-formada e de se ter deparado com um cenário impressionante.

O jornalista sentia-se na obrigação de documentar aquilo que testemunhara.

O objetivo era claro: pisar a «Ilha do Desespero».

 «Constituía para mim uma verdadeira obsessão e fiz, desde a primeira hora, tudo quanto era possível para conseguir um barco».

 A sua busca por voluntários revelou-se infrutífera. Só Carlos Tudela, operador de câmara da RTP, alinhou na aventura.

O barco Quo Vadis partiu, com os dois jornalistas a bordo, enfrentando uma «terrível chuva de cinzas e de lama», que estragou a máquina de Carrasco e danificou o motor do barco.

«Roguei a Deus e praguejei. Remávamos lentamente quando o outro barco – também já com o motor avariado – passou por nós. Mas naquele barco iam quatro pessoas, uma das quais foi pescador durante dez anos. Sabiam remar…».

A bordo ia o faialense Carlos Peixoto, que acreditava que o enviado da revista Paris-Matchseguia no Quo Vadis.

Receando nova humilhação às mãos dos estrangeiros, à semelhança do sucedera com o ilhéu Sabrina, pusera-se a caminho, com José Ilharco, do Diário de Notícias, e dois habitantes locais.

O Quo Vadis chegou primeiro.

As ondas atiraram os dois aventureiros para a ilha. Na mão levavam uma bandeira.

Urbano Carrasco correu para um ponto alto, onde as águas não chegavam, e ali fincou o símbolo português.

«Chamem-me ridículo, se quiserem, mas, embora sabendo que não cometi heroísmo algum, confesso a minha emoção quando me esforçava por enterrar na areia negra do vulcão a bandeira de Portugal», relatou.

A aventura não tinha terminado. A embarcação dos repórteres estava encalhada.

Manuel Duarte, um dos açorianos que viajara no barco rival, auxiliou os jornalistas.

«Foi graças a ele que conseguimos abandonar a ilha, onde a nossa audácia – e o desconhecimento total das coisas de marinharia – nos lançara», escreveu Carrasco.

Outros jornalistas tinham seguido as suas pisadas, mas haviam ficado presos na lama a várias centenas de metros do vulcão, sem visibilidade para captar imagens.

«Por capricho do destino, talvez só o repórter francês do Paris-Match, instalado no farol, tenha obtido boas imagens desta aventura que encerra para mim as reportagens sobre o vulcão dos Açores», concluiu Carrasco.

De aventura a lenda

A notícia da sua proeza já chegara a terra.

«A ilha já não é só negra. A ilha recebeu as suas primeiras cores: verde e vermelho», anunciou o jornalista João Afonso, ao microfone do Rádio Clube de Angra.

O Diário Popular atribuiu um caráter lendário ao feito do seu repórter.

Sem imagens, coube a Stuart Carvalhais recriar – com alguma liberdade criativa – a aventura.

A primeira página tornou-se uma das mais célebres da história da publicação.

Mas «a contemplação do impressionante espetáculo tornou-se banal», escreveu Carrasco.

Aos poucos, o vulcão deixava de ser notícia.

No dia 18 de outubro, o repórter abandonou a cobertura jornalística do caso.

Para trás ficava o símbolo da sua aventura.

«Talvez a ilha tenha duração efémera, mas se morrer, durante a sua vida junto à terra portuguesa, terá sobre ela a nossa gloriosa bandeira», declarou o jornalista.

A lenda sobreviveu ao objeto.

Na noite de 29 para 30 de outubro, a «Ilha do Desespero» foi engolida pelo mar.

Com ela levou as cores nacionais que, por alguns dias, haviam transformado o repórter em notícia.

Reinaldo Ferreira (Repórter X)

Com drama, tragédia, graça e terror adapta e adultera factos e acontecimentos reais para que as suas reportagens sejam as mais interessantes tendo, por isso, merecido os cognomes «livre atirador do jornalismo» ou «criador de factos»

«O maior repórter da imprensa portuguesa», como foi classificado. Com drama, tragédia, graça e terror Reinaldo Ferreira adapta e adultera factos e acontecimentos reais para que as suas reportagens sejam as mais interessantes tendo, por isso, merecido os cognomes «livre atirador do jornalismo» ou «criador de factos».

O contador de estórias

«O menino já fez incêndios?». Na redação d’A Capital, Garibaldi Falcão, jornalista da velha guarda, interpelava um jovem aprendiz de 16 ou 17 anos.

Interpretando mal a pergunta, e julgando que o tomavam por pirómano, Reinaldo Ferreira retorquiu com um indignado «Não, senhor!». Foi a primeira reportagem do futuro Repórter X: um fogo posto na rua lisboeta da Estefânia.

Reinaldo Ferreira, que viria a ser conhecido como Repórter X, nasceu a 10 de agosto de 1897, em Lisboa. Foi um repórter, jornalista, dramaturgo e realizador de cinema português. A sua carreira jornalística começou aos doze anos de idade.

Anabela Natário, jornalista do Expresso escreveu a 3 de outubro de 2015:

«Conspirações, assassínios, roubos, fraudes, insólitos, intimidades e…audiências. Um homem dominou este universo como ninguém. Fosse ele vivo e teria descoberto a fraude eleitoral, antes que fosse tarde. Inventar muitos o fizeram, muitos o fazem, mas o Repórter X tinha uma técnica especial, até com a verdade nos faz pensar haver mentira».

Durante a sua adolescência era constante a leitura de folhetins policiais e de espionagem, por isso, entediava-se com a rotina dos «casos do dia». E como a realidade lhe negava assuntos palpitantes, só lhe restava inventar. Ainda hoje será difícil determinar todas as suas «reinaldices», para usar a expressão posta a correr pelos que lhe iam desmascarando as farsas.

Ele, porventura consciente de que essa pulsão para confundir factos e ficções era, afinal, o sinal distintivo do seu génio peculiar, retorquia com um neologismo da sua própria lavra: «reporterxizar».

O começo das «reinaldices»

Em 1917, com 19 anos, arrepia os lisboetas com o crime, tão tenebroso quanto inexistente, da Rua Saraiva de Carvalho, que metia malfeitores embuçados, um presumível cadáver e um vilão, apropriadamente designado como «o homem dos olhos tortos».

A história veio a lume n’O Século, em forma de cartas enviadas «por um desconhecido» que assinava como Gil Goes. A história atingiu tais proporções que o jornal achou prudente revelar o embuste.

Escassos meses após ter encerrado as aventuras de Gil Goes, Reinaldo Ferreira publica em A Manhã, em março de 1918, um «Inquérito à Mendicidade». Fez-se fotografar mal barbeado e esfarrapado, de mão estendida, e o público convenceu-se que o repórter fizera vida de mendigo. Mas, salvo o retrato, era tudo inventado, incluindo os 47 centavos que lhe teria rendido esta incursão na indigência.

Neste mesmo ano, volta a carga n’O Séculocom o suposto assassinato de uma estrangeira, perpetrado pelo respetivo marido numa pensão de Lisboa. Desta vez, auxiliado por Stuart de Carvalhais, vai ao ponto de pôr um quarto da dita pensão de pantanas e de espalhar sangue de galinha pelo aposento.

Para encerrar o ano de 1918, «recolhe» as últimas palavras do presidente Sidónio Pais, assassinado na Estação do Rossio: «Morro eu, mas salva-se a Pátria». A verdade é que não presenciou o sucedido e, ao que parece, o estadista tombou sem ter tido tempo de dizer seja o que for.

Reinaldo «reporterxiza» no estrangeiro

Em 1920, Reinaldo Ferreira vai para Paris, ao serviço da filial francesa da Agência Americana (agência de notícias), mas por pouco tempo. No fim de 1921, já casado e com dois filhos, muda-se para Barcelona.

Com a subida ao poder de Primo de Rivera, em Espanha, o jornalista regressa a Portugal, mas não sem antes enviar uma crónica à imprensa de Lisboa, atacando o ditador.

Assina o artigo com o seu próprio nome, mas um amigo faz-lhe ver que poderia sofrer represálias e, prudente, Reinaldo escreve por cima «Repórter». Todavia, por um desses acasos do destino, o tipógrafo que recebe a peça vê um «X» no que não era mais do que o rabisco final da mal escondida assinatura. Nascia, assim, o Repórter X.

Já empregado na revista ABC, é enviado à Rússia, em 1925, para acompanhar a luta desencadeada após a morte de Lenine. De Paris, onde terá experimentado pela primeira vez morfina, Reinaldo informa que está a ser difícil conseguir um visto, mas vai mandando trabalho, designadamente uma entrevista forjada a Conan Doyle, escritor das histórias de Sherlock Holmes.

Finalmente começam a chegar as crónicas de Moscovo, onde o jornalista passa a vida a tropeçar em portugueses, desde o porteiro do Kremlin ao homem que embalsamou Lenine. Acredita-se que o repórter nunca pôs os pés na Rússia e que se limitou a ficar em Paris, aguardando os artigos de Henri Béraud, que para lá fora destacado pelo Le Journal.

Em 1926 está de novo em Portugal, fixando-se no Porto e escrevendo simultaneamente para a revista ABC e para O Primeiro de Janeiro. É em março desse ano que se dá em Lisboa o célebre assassínio da atriz Maria Alves, estrangulada num táxi e lançada morta para a sarjeta. Baseando-se em anteriores crimes congéneres e na intriga de um romance espanhol, Reinaldo aventa nos jornais que o culpado é o ex-empresário da vítima, Augusto Gomes. Desta vez acerta.

O Repórter X na morte de Maria Alves

Perto da serração da fábrica Portugal, o corpo está deitado de barriga para baixo. Um dos pés está descalço. Raimundo José dos Santos, eletricista no Salão Foz, regressa a casa pelas 2h20 da madrugada e, na Rua Francisco Foreiro, paralela à Almirante Reis, encontra primeiro o sapato e depois, avista o corpo.

Há qualquer coisa na posição dos braços, grotescamente dobrados, e nas roupas em desalinho, que forçam «este homem alto e de bom porte» a aproximar-se. Olha em volta. O movimento da rua cessou. O coração gela-se-lhe quando vê uma poça de sangue escuro que empapa o cabelo cortado à garçonne. Sem o identificar, Raimundo encontrou o corpo sem vida de Maria Alves, atriz do Parque Mayer. E agora?

Precipita-se rua fora. Não quer que o julguem culpado, mas não pode deixar ali a vítima. Leva consigo o sapato sem saber bem porquê. Encontra por fim o agente 2035 da esquadra de Arroios. É ele que dá o alerta.

A notícia corre rápido. Em esforço sobre-humano, os jornais matutinos inserem nas edições de 31 de março notícias curtas, com os pormenores disponíveis. Só na manhã seguinte se descobre a identidade da vítima.

Reinaldo, o célebre Repórter X, funciona de maneira diferente. Conjetura, deduz e, incrivelmente, pelo menos neste caso acerta na mouche, logo na sua crónica inicial, publicada n’ O Primeiro de Janeirode 1 de abril.

Enquanto a polícia de Lisboa lança a tese de um assalto de ocasião e de um estrangulamento, Reinaldo interpreta a sua observação em primeira mão. Pesa o que conhece de Maria Alves, a menina que fez furor no Águia de Ouro(café e mais tarde cinema do Porto).

Revela os factos aos leitores do diário portuense. Na noite do crime, Maria Alves jantou com o seu empresário e amante, Augusto Gomes, no Parque Mayer. Zangaram-se por causa de uma dívida de um colega de Gomes. Este, para apaziguar a fera em que a atriz se transformava quando discutiam honorários, saldou a dívida do amigo. Despediu-se dela à entrada do carro elétrico, o último da noite, que seguia para Arroios. Não a voltou a ver.

Reinaldo terminava a crónica teatralmente: «É tarde. Não tive tempo de apurar o resto. Mas existe uma suspeita no meu espírito. É tão grave… tão grave que não a revelo. Peço só uma coisa: leiam El Mistério del Kursall, de José Francés. É o romance dum crime – dum crime em que a vítima era uma estrela. E lendo esse livro, e vendo quem é o criminoso, saberão sobre quem caem as minhas suspeitas…».

Com duas semanas de antecedência, Reinaldo deixava pistas sobre a identidade do culpado. Em El Mistério del Kursall, é o amante e empresário da estrela quem a mata. No drama de Maria Alves, essa seria também a sua sina.

O duelo entre os matutinos de Lisboa tinha começado. O Século teve o mérito de não aceitar a explicação simplista do chefe da polícia. No dia 1 de abril propõe, com uma sugestiva fotografia captada no local do crime, que a «infeliz não foi morta no sítio onde apareceu o cadáver».

Os depoimentos recolhidos pelo jornal permitem-lhe avançar que a posição invulgar do corpo de Maria Alves e o afastamento do sapato e do chapéu resultaram não de um ataque no local, mas de um empurrão a partir da portinhola de um automóvel.

O Diário de Notícias ataca os «jornais que não têm o direito de menoscabar os préstimos da polícia» e conclui, no dia 5 de abril, a «inutilização da hipótese de Maria ter sido sufocada ou estrangulada». Por sua vez, o Diário de Lisboa queixa-se do «feitio de bisbilhotice ingénita» de repórteres e jornais.

Reinaldo Ferreira envia para a revista ABC, semanário publicado às 5.ª feiras, uma fotografia noturna de um qualquer homem fechando rapidamente a portinhola de um táxi, abandonando um vulto na estrada.

Augusto Gomes confessa…O mote foi dado pelo Repórter X

«Este homem sabe tudo! Este homem esteve a espreitar-me!», terão sido as palavras de Augusto Gomes após ter lido o que Reinaldo Ferreira escrevera na revista ABC.

Reinaldo passou um mês a conjeturar sobre a culpa de Augusto Gomes e imputando-lhe responsabilidades na morte da atriz Maria Alves. Considerado suspeito, Augusto Gomes é detido na cadeia do Limoeiro.

No início de maio de 1926, Augusto escreveu-lhe. Pediu-lhe que o fosse ver ao Limoeiro. «Até aos condenados à morte lhe é dada assistência». Durante cinco horas, Reinaldo entrevistou Augusto. Notou-lhe as «mãos sapudas, com os polegares curtos, largos na cabeça – mãos de estrangulador».

Anotou-lhe a confissão: «Não me arrependo de a ter morto. Ela enganou-me. Eu tinha o direito de a matar… Cem vidas ela tivesse, cem vidas eu lhe tirava. Só me arrependo de a ter abandonado na via pública».

No fim, o palco é de Reinaldo Ferreira, o Repórter X

Em reflexão publicada n’ O Primeiro de Janeiro de 15 de abril de 1926, Reinaldo escreveu uma crónica naturalmente orgulhosa pela sua «descoberta», mas crítica da facilidade com que polícias e jornalistas em Lisboa acreditaram na tese extravagante dos «gravateiros desconhecidos».

«A policia riu-se de mim. Colegas meus acusaram-me de caluniador. Eles conheciam Augusto Gomes. Eu, não».

Estávamos em 1935 quando Reinaldo Ferreira morreu precocemente aos 38 anos, após um período de dependência de morfina.

Para a posteridade ficaram as suas estórias que fizeram história. Também no cinema, Reinaldo construiu paralelamente uma carreira. Repórter X Film, era o nome da empresa que fundou, graças ao financiamento do comerciante Joaquim Alves Barbosa. Produziu filmes e documentários dos quais se destacam os filmes Táxi Nº 9297, inspirado na morte de Maria Alves, e Rita ou Rito?.

Música para os ouvidos de Putin

Num país onde Putin é omnipresente e omnipotente, as Pussy Riot têm no Facebook e no Twitter os únicos meios para se expressarem de forma livre

Num país onde Putin é omnipresente e omnipotente, apenas as redes sociais são meios de comunicação livres e isentos de influência do Kremlin. Expulsas dos media tradicionais, as Pussy Riot têm no Facebook e no Twitter os únicos meios para se expressarem de forma livre.

Em 2011, o Índice de Democracia, do Economist Intelligence Unit, considerava que a Rússia estava «num longo processo de regressão graças à mudança de um governo híbrido para um regime autoritário».

Se dúvidas existissem, março de 2012 chegou rapidamente para pôr a democracia russa em cheque: durante um concerto improvisado e não autorizado na Catedral de Cristo Salvador de Moscovo, que serviu de protesto contra a candidatura presidencial de Vladimir Putin, três membros da banda Pussy Riot foram presas e acusadas de vandalismo motivado por intolerância religiosa.

A filmagem do protesto foi posteriormente usada para criar um videoclipe. Na música cantada na Catedral, o grupo pede à Virgem Maria para retirar Putin do poder e descreve o patriarca russo, Cirilo I, como alguém que é devoto de Putin, ao invés de ser um homem de Deus.

São vários os episódios de protesto e reprovação das Pussy Riot em relação a Putin e à sua hegemonia. Contudo, foi este o momento que deu a conhecer as Pussy Riot à comunidade internacional. Na sequência deste protesto Maria Alyokhina e Nadezhda Tolokonnikova, foram presas pelas autoridades russas sob a acusação de vandalismo.

No início, ambas negaram fazer parte do grupo e iniciaram uma greve de fome por terem sido detidas e separadas de seus filhos até o início do julgamento, em abril. No entanto, antes do julgamento, Ekaterina Samoutsevitch, outro alegado membro dos Pussy Riot, foi presa e indiciada. A 17 de agosto de 2012, as três foram condenadas por vandalismo motivado por ódio religioso e receberam penas de dois anos de prisão.

«Em última análise, penso que o nosso julgamento foi importante porque mostrou a verdadeira face do sistema de Putin», adiantou Tolokonnikova. «Este sistema proferiu uma sentença contra si mesmo, ao condenar-nos a dois anos de prisão sem que tivéssemos cometido crime algum. Isto certamente me alegra», frisou.

Outros elementos do grupo, procurados pela polícia Russa, fugiram do país para evitarem as perseguições e possíveis atos de vingança. 

Mas quem são as Pussy Riot? São um grupo russo de punk rock feminista que se pauta pelas suas intervenções polémicas. A grande maioria dos seus trabalhos são de provocação política e incidem sobre temas como o estatuto das mulheres ou os direitos dos homossexuais na Rússia. Mais recentemente, a campanha do primeiro-ministro Vladimir Putin para a presidência da Rússia foi um dos alvos deste grupo ativista. Um grupo extravagante e de contrapoder que se destaca pelas cores das suas roupas e pelo uso de balaclavas – gorro que esconde a cara – em todas as suas atuações. O anonimato é reforçado com o recurso a pseudónimos durante as entrevistas.

Sobre este caso Vladimir Putin disse à NTV (HTB – canal de televisão russo), num documentário por ocasião do seu 60.º aniversário, que as Pussy Riot «tiveram o que mereceram» e classificou o protesto como «um ato de um grupo sexista para ferir sentimentos religiosos».

Vladimir Putin disse à NTV (HTB – canal de televisão russo), num documentário por ocasião do seu 60.º aniversário, que as Pussy Riot «tiveram o que mereceram» e classificou o protesto como «um ato de um grupo sexista para ferir sentimentos religiosos».

A lei de amnistia assinada pelo Presidente da Rússia Vladimir Putin para comemorar o 20.º aniversário da Constituição, que levou à libertação das duas ativistas da banda punk Pussy Riot, foi denunciada pelas próprias como uma «profanidade», como uma «operação de relações públicas, para limpar a imagem» destinada a acalmar a opinião pública internacional antes da realização dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi (Rússia). Por isso «se tivesse tido escolha, e pudesse recusar a amnistia, era o que tinha feito», declarou Maria Alyokhina.

Após a libertação, as Pussy Riot afirmaram que «no que diz respeito ao Presidente Vladimir Putin, não mudámos de posição: a nossa intenção é continuar a protestar até ele cair do poder. Se não nos tivessem metido na cadeia, não teríamos deixado de fazer o que fazemos». Numa entrevista dada ao canal britânico Channel 4, as ativistas defendem que tudo está controlado pelo Kremlin, inclusive os meios de comunicação social. Deste modo, ambas usam o Facebook e o Twitter para se exprimirem livremente, pois consideram que é o único espaço livre na Rússia.

À semelhança do relatório da Freedom House de 2015 que declara a Rússia como um país sem liberdade de imprensa, o ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras, a Rússia aparece em 148° lugar, de um total de 179. Segundo o diretor desta organização, Christian Mihr, a tensão causada pelas leis de restrição e monotorização dos meios de comunicação leva os jornalistas a autocensurarem-se. Desde 2012, início do terceiro mandato de Putin, assiste-se a um agravamento destas leis sendo que agora o maior alvo de censura seja a internet.

Não obstante, existe ainda outro sinal de alerta na Rússia, no que toca à liberdade da imprensa. Têm-se registado muitos ataques a jornalistas e repórteres que tentam, de algum modo, contornar ou contrariar as regras impostas. Desde 2000, foram registadas cerca de 30 mortes de repórteres devido ataques, direta ou indiretamente, ligados ao Kremlin.

A Duma – câmara baixa do Parlamento russo – aprovou, em 2012, uma lei sobre traição da pátria e espionagem. Por traição entende-se tudo aquilo que possa pôr em causa a segurança do país. Para os jornalistas isso significa mais restrições no momento em que abordarem temas mais sensíveis. Contudo as restrições foram mais longe: foi proibido o uso de palavrões na imprensa, um impedimento que visa jornalistas, mas que também abrange entrevistados e comentários de leitores.

Além disso, existe a proibição de «propaganda a favor de relações sexuais não tradicionais na presença de menores de idade». Muito embora possa parecer uma norma sensata, na prática, esta regra é contra material jornalístico que fale sobre homossexuais. As multas atingem até 1 milhão de rublos, cerca de 23 mil euros, e os meios de comunicação podem ser fechados durante 90 dias.

As Pussy Riot, entre outras causas, principalmente depois de terem sido libertadas, dedicaram-se a combater as restrições de liberdade de expressão pelo mundo, afirmando que “what we do is political art”.

Das celas das prisões para a passadeira vermelha as ativistas têm visto a exposição pública como uma oportunidade para promover a campanha anti-Putin.

Talvez num dos seus momentos mais mediáticos, chegaram mesmo a aparecer num episódio da série televisa House of Cards onde mais uma vez mostram a sua indignação contra o Kremlin.

Apesar dos esforços, todos estes acontecimentos parecem inócuos aos olhos, e ouvidos, de Putin que continua a sedimentar a sua hegemonia na mente e nos corações dos russos.

Jesse Owens no pódio

Jogos Olímpicos de 1936. Berlim. O regime Nazi projeta mostrar a supremacia da raça ariana. A fotografia imortaliza a derrota desse objetivo de Hitler. Jesse Owens, atleta afro-americano que compete pelos Estados Unidos, ganha 4 medalhas de ouro

Autor: Anthony Camerano
Nacionalidade: Norte-americana
Ano: 1936
Publicação: Associated Press

 

 

 

 

O 1º Gabinete de Imprensa

Serviço do Estado, a Informação da Arcada começa no final do reinado de D. Luís I, em plena Monarquia Constitucional, e dura até ao Segundo Governo Provisório (presidido pelo primeiro-ministro Vasco Gonçalves), em 1974. Pesquisa de Vasco Ribeiro (Universidade do Porto)

«O País está todo entre a Arcada e São Bento», conta Eça de Queiroz, em Os Maias. Entre a Arcada e São Bento movimentam-se as fontes do serviço Informação da Arcada criado pelo Estado durante a Monarquia Constitucional e que perdura até 1974. Pesquisa de Vasco Ribeiro (Universidade do Porto)

De boatos a informação fidedigna

A Arcada, durante a Monarquia Constitucional, representa o centro governativo e administrativo do país. É o topónimo usado para identificar os arcos adjacentes aos ministérios no Terreiro do Paço. A concentração geográfica de quase todos os ministérios nesta praça transforma-a no epicentro da atividade política e consequentemente, da atividade jornalística.

Palco privilegiado de lutas políticas despoleta a criação de várias fontes de informação que são vorazmente consumidas pelos repórteres. O Café Martinho da Arcada assume um papel preponderante no intercâmbio de informações mas também de muito ruído – boatos e intrigas são igualmente propagados neste local.

 

 

O ambiente de intriga foi, aliás, registado em livros de memórias e diários de políticos e outras figuras que frequentavam este local. Por exemplo, um político e pensador da época, António Sérgio, em Ensaios, recordou o boato da perseguição a Oliveira Martins – Ministro da fazenda – em 1983, durante o reinado de D.Luís I. «O enredo que havia de o derrubar ia-se tecendo pela Arcada, nos jornais, no Parlamento». «O primeiro gabinete de imprensa», em Portugal, estava criado mas de forma volátil e não profissional.

António Teixeira de Sousa, Ministro em vários governos da Monarquia Constitucional, em 1911, comentou na obra Para a História da Revolução, os boatos e informações que indicavam a possibilidade de uma revolução política iminente. «Durante o mês de janeiro de 1908 muito se falava de revolução. Eu tinha somente a informação da Arcada,que é muito fértil em boatos fantasistas».

 

 

Apesar destes indubitáveis registos, «não há qualquer documento oficial, notícia ou relato que demostrasse a existência de um serviço, uma sala ou gabinete destinados a acolher os muitos repórteres que povoavam diariamente a Arcada, com o objetivo de recolher informações dos ministérios» antes do 5 de outubro de 1910.

 

 

Contudo, há um episódio narrado por Jorge de Abreu, jornalista d’O Século,em que é revelada a rotina governamental de distribuição de informação pelos repórteres, que chamavam «noticiário da Arcada»: «Um governo da monarquia indispôs-se com o diário de Silva Graça [O Século] e proibiu as repartições oficiais de lhe facultarem quaisquer informações de caráter noticioso. O Séculoensaiou tornear a dificuldade (…) Subornou-se um empregado do órgão ministerial, empregado que, todas as noites, metia disfarçadamente no barril do lixo, colocado à porta da rua, as provas tipográficas com o noticiário da Arcada».

«Ontem, pelas 3 horas da tarde constou no Gabinete dos Repórteres, no Governo Civil, que pouco antes tinham sido desembarcadas na ponte dos vapores do Cais do Sodré duas macas conduzindo dois homens feridos». A existência de serviços governamentais de distribuição de informação para imprensa não eram exclusivo da Arcada. Havia também o Gabinete dos Repórteres, em frente ao Governo Civil de Lisboa, entre a Rua Serpa Pinto e a Rua Anchieta, que, no final do século XIX fornecia informações da responsabilidade deste organismo governamental (crimes, detenções, óbitos).

No alvoroço dos primeiros dias da 1º República, e segundo as Memórias de Raul Brandão, «eram dadas informações aos repórteres neste gabinete». «[O Sr. Paulo Cancela de Abreu] Vem publicado no Dia, mas foi transcrito dum jornal, que não é monárquico e teve informação oficial do Gabinete dos Repórteres».

 

 

No raiar da 1ª República, o Diário de Notícias publicou uma pequena notícia onde se lia que os repórteres dos jornais diários de Lisboa haviam sido «amavelmente recebidos» por altos representantes da recém-ativada Polícia de Segurança. Nas instalações do Ministério do Interior, no Terreiro do Paço, as autoridades republicanas prometeram «fornecer aos representantes dos referidos jornais todas as informações públicas».

 

A «institucionalização» d' Arcada

A 19 de novembro de 1920, foi mandada publicar uma portaria que institucionalizou a existência de um Gabinete de Imprensa da Arcada. Agora sim, de forma oficial, estava registada a existência do «primeiro gabinete de imprensa», em Portugal.

«Portaria nº 2514 – Manda o Governo da República Portuguesa, Presidência do Ministro, instalar definitivamente os serviços de informação da imprensa, junto dos ministérios, no gabinete existente no Ministério do Interior, cedido há meses, para esse efeito, aos representantes dos jornais diários de Lisboa. Paços do Governo da República, 19 de novembro de 1920. O Presidente do Ministério, António Joaquim Granjo, O Ministro do Interior, Felisberto Alves Pedrosa».

 

Em tempo de Ditadura

Mas, tudo voltou a retroceder quando, em 1926, foi instaurada uma Ditadura Militar, após o Golpe Militar liderado pelo General Gomes da Costa. Tal retrocesso ficou mais evidente, quando se leu a 18 de fevereiro de 1928, um ofício que contém um «apelo do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboapara a manutenção de um gabinete para os jornalistas no ministério».

A 13 de outubro de 1930 foi realizada «uma cerimónia de inauguração (…) do novo gabinete de imprensa do Ministério do Interior». Portugal estava em plena Ditadura Militar e Nacional. A criação deste gabinete foi noticiado pelos grandes diários da cidade. No evento da sua inauguração, Martinho Simões, o novo Ministro do Interior e o jornalista, Júlio de Almeida, do Diário de Notícias discursaram.

O governante sublinhou que o «gabinete condigno, da sua alta e patriótica função junto dos governos, se deve à ação desenvolvida até este tempo [pelos jornalistas]».

 

 

Já o Júlio Moreira, falou em nome de todos os jornalistas e mostrou-se «conhecedor das diferentes fases dos Gabinete de Imprensa [da Arcada]». A censura foi uma ferramenta de consolidação da Ditadura Militar e Nacional, ao mesmo tempo que esta investia nos serviços de imprensa das instâncias governamentais.

«O chefe do distrito capitão Luiz de Moura depois de uma conferência que hoje de tarde teve com os seus representantes de vários jornais que fazem serviço no Governo Civil, resolveu que o novo gabinete dos repórteres fique instalado no antigo gabinete da autarquia administrativa. Este gabinete que vai sofrer grandes transformações, terá também um telefone privativo».

«Politicamente só existe o que o Estado sabe», era o que António de Oliveira Salazar defendia. Com o Estado Novo, a Arcada profissionalizou-se. O Gabinete de Imprensaalém da importância política que representava, o governante via este serviço como uma pedra basilar na promoção da sua ação governativa. Para além deste mecanismo, a censura era outro meio de sedimentação da ideologia do Estado Novo. Deste modo, o Regime incrementou e redinamizou a assessoria de imprensa como controlo a informação pública.

 

A Organização da Informação

Com a criação do SPN – Secretariado Nacional da Propaganda – em 1933, é estabelecido que, entre muitas outras atribuições, esta estrutura governamental devia «servir permanentemente como elemento auxiliar de informação dos respetivos Ministérios». Em 1945 passa a chamar-se de SNI – Secretariado Nacional de Informação mas as diretrizes mantêm-se inalteradas. A Informação da Arcadafuncionou, então, sob alçada do SPN/SNI e tinha a sua atividade minuciosamente reportada no Boletim quinzenal produzido por estes organismos, nomeadamente pela secção de Informação e Imprensa. 

Nos minuciosos relatórios também se confirma a existência de «dois redatores do Ministério do Interior». Os recortes de imprensa eram igualmente elaborados e distribuídos com a maior organização. Os recortes de imprensa, um serviço de análise e recolha dos destaques noticiosos, assemelhavam-se ao que hoje se designa por clipping.

Posteriormente os recortes diários e semanais eram distribuídos pelos seguintes Boletins: «Nacional», «Imprensa do Porto», «Província», «Arquipélago dos Açores», «Insular da Angra do Heroísmo», «Insular da Horta», «Madeira», «Colonial Portuguesa: Angola», «Colonial Portuguesa: Moçambique», «Colonial Portuguesa no Estrangeiro: Brasil» e «Colonial Portuguesa no Estrangeiro: América do Norte e Argentina».

O SPN/SNI promoveu ainda a criação de outros gabinetes de imprensa, nomeadamente, na Câmara Municipal de Lisboa, em 1935. Mais tarde, em 1957 é criada a Sala de Imprensa, no Palácio da Foz – sede deste organismo – para acolher, principalmente, jornalistas estrangeiros. 

 

 

Foi precisamente durante o Estado Novo que mais se produziram textos de redação com informações distribuídas pela Arcada. A instrumentalização da imprensa foi além da censura ou da propaganda. Havia um grupo de jornalistas portugueses e estrangeiros que eram pagos para escreverem artigos de acordo com as instruções recebidas pelo SPN/SNI. Neste contexto, o antigo jornalista do Diário de Lisboa,José Estevão Santos Jorge, entrevistado por Adelino Gomes, em 2009, assume o papel preponderante da Informação da Arcadadurante o Estado Novo.

 

Naquele tempo as notícias oficiais chegavam através do SPN. Os jornais ficaram danados. E então inventaram esse sistema: um Gabinete de Imprensa (…) no Ministério do Interior, onde havia um chefe. No meu tempo era Júlio de Almeida, redator do Diário de Notícias e alto funcionário público. Coligia-se lá a informação de todos os ministérios e mandava-se para os jornais. Estes pagavam uma avencazinha. Era preciso uma certa habilidade para a gente se acercar dos funcionários – não falávamos nem com os ministros nem com os secretários de Estado».

O funcionamento desta repartição assemelhava-se a um dos muitos serviços que são atualmente oferecidos por uma agência de comunicação ou disponibilizados por um gabinete de comunicação de uma qualquer instituição, isto é, ser um intermediário entre as instituições e os órgãos de comunicação.

As rotinas profissionais dos jornalistas encarregues de recolher as informações da Arcadaforam também descritas por José Estevão Santos Jorge.

«No Diário de Lisboa esse serviço [Informação da Arcada] até chegou a ser feito, no princípio, pelo Dr. Mário Neves. Havia um rapazinho da Casa da Imprensa ou do Sindicato, não me lembro ao certo, que ia lá buscar as cópias dos textos e distribuí-as pelos jornais, ganhando também uns tostõezinhos. Morreu um colega que fazia a Informação da Arcadapara o Diário de Lisboae o Dr. Norberto Lopes perguntou ao meu pai se eu não queria substituí-lo. Na altura ninguém queria fazer uma coisa daquelas: tinha que se dar a volta toa pelos ministérios, Presidência da República e Presidência do Conselho, logo de manhã».

«Havia uma figura, nem sempre era um jornalista, que recolhia a informação dos ministérios. Como estavam todos no Terreiro do Paço – a exceção, que me lembre, era o Ministério da Educação -, era conhecido como o “informador da Arcada”», acrescentou ainda o antigo jornalista do Diário de Lisboa.

 

 

Afonso Serra, antigo jornalista d’A Capital,na obra Memórias Vivas do Jornalismotambém confessa a existência da Informação da Arcada, em particular o seu funcionamento: «Da política eram geralmente o que enviavam do SNI, mandavam as notícias… E havia um informador permanente na Arcada que funcionava no Ministério do Interior. (…) Estava lá um repórter permanente. Fornecia para o jornal dele e para os outros jornais. Era o Almeida, o Almeidinha. Primeiro foi o Almeida pai, depois o Almeida filho…Eram jornalistas efetivos do Diário de Notícias. (…) E ganhavam, isso era remunerado. O teor das notícias eram sempre assuntos relacionados com a ação organizativa do regime.

«Era o que calhava. E o que interessava aos Ministérios. E depois também passou o SNI a fornecer informações. Mas a Arcada continuou sempre a funcionar. Havia muitos pormenores do dia…».

 

 

Voltando a Júlio de Almeida, epíteto da Arcada durante o Estado Novo, este mereceu elogios dos colegas de profissão aquando da inauguração do Gabinete, em plena Ditadura Nacional, tendo ele sido funcionário e «chefe» da Informação da Arcada. Além da atividade jornalística, assumia um serviço de «assessoria de imprensa» na Informação da Arcada.

«Esta situação configurava, na verdade, o exercício de três funções-tipo na imprensa: Informador, repórter e jornalista».

Durante os governos de Salazar e Marcelo Caetano, a Informação da Arcadaintensificou a sua atividade e profissionalizou os seus serviços. A Assembleia Nacional chegou mesmo a destacar a eficiência deste serviço: «Talvez fosse de desejar que o Diário das Sessões seguisse para os Ministérios, via Arcada.Complementar-se-ia assim maravilhosamente a ação daquele prestimoso serviço».

O próprio Salazar, numa troca de correspondência com o matutino A Voz, elogiava a disponibilidade dos jornais para publicarem as notas de imprensa oficiais:

«Devo porém dizer que não tem sido preciso obrigar nenhum periódico a publicar as notas do governo, mesmo as mais extensas: todos têm prestado esse serviço voluntariamente».

Na «primavera marcelista», a atividade do gabinete foi reforçada pelo novo Estatuto da Imprensa. Neste documento, emitido pelo SNI/SEIT (Secretariado de Estado de Informação e Propaganda), pôde ler-se que, para que «os serviços centrais de informação prestem os esclarecimentos solicitados pelos jornalistas, previu-se a designação de informadores oficiais dos ministérios e dos restantes organismos e entidades públicas».

As mudanças da Revolução

Apesar da Informação da Arcada ter sido uma estrutura de apoio à propaganda do Estado Novo, esta não acabou subitamente com a revolução de abril de 1974.

A partir deste marco histórico, a Informação da Arcada, assim como outras divisões do SNI/SEIT, passam para a responsabilidade do MFA – Movimento de Forças Armadas.

O fim do Gabinete de Imprensa da Arcada nada teve que ver com a estabilização da democracia. A fragmentação da atividade política e a descentralização do poder executivo por várias instâncias do poder estiveram no epicentro do desaparecimento da Informação da Arcada.

Os testemunhos e fontes usados no corpus deste documento demostram que a Informação da Arcada teve um papel relevante e dinâmico enquanto serviço governamental no período histórico compreendido entre o reinado de D.Luís I e o II Governo Provisório do PREC (Processo Revolucionário em Curso).

A guerra que Portugal quis esquecer

Nasce da série de reportagens homónima com que o autor, Manuel Carvalho, venceu o Prémio Gazeta de Imprensa em 2015, este livro relata as memórias dos soldados, as denúncias de incapacidade das chefias e a vergonha pelas derrotas, fazendo justiça a uma parte da História que o Estado Novo tentou apagar

«O desastre do exército português em Moçambique na Primeira Guerra Mundial» é a obra de Manuel Carvalho que recorda episódios entretanto esquecidos.

Um manuscrito perdido dentro de uma arca inspira Manuel Carvalho à investigação da campanha portuguesa em Moçambique durante a Primeira Guerra Mundial. As reportagens que escreveu para o Público foram distinguidas com o Prémio Gazeta.

A investigação dá origem à obra «A Guerra que Portugal quis esquecer», dedicada à «guerra sem rosto» travada pelos portugueses em Moçambique, recordando um episódio da nossa história que permanecia na obscuridade.

Entre os episódios relatados, destaque para a efémera conquista do mais valioso troféu daquela campanha africana: o forte de Nevala.

Partem as tropas

«Partida das expedições à África», anuncia a manchete do Diário de Notícias de 12 de setembro de 1914. «O entusiasmo popular atinge o delírio – Sucedem-se as aclamações aos expedicionários – A caminho do dever».

Em setembro de 1914, partiam para África as primeiras tropas portuguesas, com o objetivo de defender as colónias nacionais.

Entre 1914 e 1918, foram enviados para Moçambique mais de 20 mil soldados.

Em África, o exército português sofreria a mais pesada derrota desde Alcácer Quibir.

Contudo, durante, um mês, os portugueses foram senhores do forte de Nevala, a mais valiosa conquista da campanha nacional no continente africano.

É montado o cerco

«A coluna de operações do flanco esquerdo, depois de ter […] batido o inimigo e ocupado pontos da defesa avançada do Nowala, tomou esta posição».

A 30 de outubro de 1916, «as vitórias portuguesas em África» estavam em destaque na capa d’A Capital.

Os soldados portugueses tinham atravessado o rio Rovuma, batido a resistência alemã no seu próprio território e subido à Serra de Nevala.

O forte era conquistado às forças germânicas e tornava-se o maior troféu das tropas nacionais em território africano.

Um mês. Um mês foi quanto durou a posse da fortificação.

Os alemães queriam recuperar o forte que os portugueses haviam conquistado.

As tropas germânicas aproximavam-se cada vez mais; a 22 de novembro, estavam nas imediações da fortificação de Nevala.

«O círculo fechou-se num anel de fogo, crepitante, raivoso, feroz. Enfim, estávamos cercados», afirmou o Alferes António de Cértima.

Os alemães repetiam a estratégia usada pelos portugueses e atacavam a ribeira de Nevala, o ponto onde era possível aceder a água potável.

O combate durou 12 horas.

Os portugueses viram-se obrigados a recuar, por falta de munições.

O certo estava montado; os germânicos não arredavam pé.

O oficial Ferreira Gil avisou o Governo de que «os alemães têm concentrado forças contra Nevala tendo cortado comunicações» e pediu a divulgação da data do embarque da expedição de 1917, «com o fim de reanimar tropas». De Lisboa não chegou resposta.

A ambição nacional de conquistar território germânico começava a cair por terra.

Em Palma, o general Ferreira Gil pedia voluntários para uma «Coluna de Socorro a Nevala», mas a missão era travada pelos alemães.

Dentro do perímetro cercado, as tropas portuguesas tentavam resistir.

«A infantaria dormia, comia, vivia todas as suas horas alapada nas trincheiras, sem poder quase deitar a cabeça, um braço, de fora», recordou o Alferes Carlos Selvagem.

A 27 de novembro, era tomada a decisão: os sobreviventes iam partir no dia seguinte.

A fuga

Feridos, esfomeados e sedentos, os portugueses desceram a escarpa sinuosa e avançaram pela selva, escondidos pela escuridão.

As armas e os mantimentos que não podiam ser carregados foram destruídos.

«Saltando à escarpa da vertente a coluna de retirada por aí se esgueirou, na treva da noite, esfarrapando-se nos galhos agudos do mato, rasgando as carnes, as mãos e as faces, caminhando agachada, sem norte, sem bússola, ao acaso, em demanda das areias claras do rio», escreveu o Alferes.

A fuga de Nevala, uma medida tão desesperada quanto iluminada, foi considerada uma façanha do exército português.

A operação, decidida apenas no dia anterior e levada a cabo por tropas exaustas, acabou por ficar na história como uma das mais bem preparadas e executadas missões nacionais na Primeira Guerra Mundial.

Na manhã seguinte, os alemães bombardeiam o forte e são surpreendidos pela ausência de reação.

Quando se apercebem da fuga, lançam-se em perseguição às tropas portuguesas.

Com algumas horas de vantagem sobre o inimigo, os sobreviventes da fuga ao cerco de Nevala começavam a chegar a Nangade, com os alemães no seu encalço.

A partir da outra margem do rio Rovuma, os germânicos dispararam com tal precisão que o oficial Azambuja Martins começou a suspeitar que «o adversário estava perto» e que «o combate iria ser travado em desfavoráveis circunstâncias para nós, pelo esgotamento das nossas forças e pela ação de surpresa que sofríamos».

O pânico instalava-se; muitos portugueses tentavam fugir para a base de Alto da Serra.

Perante os ataques, os sobreviventes da coluna de Nevala encetavam nova fuga, desta vez para Matchemba.

Aí permaneceram cinco dias, até que novos rumores da aproximação germânica levaram os portugueses a partir, uns para Pundanhar, a única base que restava antes de Palma, outros para Mocímboa da Praia.

Um exército esgotado

A ameaça alemã continuava a pairar sobre os portugueses.

«Na lividez da manhã, Palma acorda mais lívida na ansiedade do que acontecerá esse dia, de como findará esse dia», registou o Alferes Carlos Selvagem.

O que as tropas nacionais ignoravam era que, do lado alemão, o desgaste da guerra também já se tornava evidente.

Depois de destruírem Nangade e lançarem o pânico nos postos portugueses, os alemães espalharam-se em pequenos destacamentos pelo território luso, com a intenção de restabelecer, de forma simbólica, a soberania alemã no triângulo ocupado em abril.

«Perseguir o inimigo em território português era impossível naquela circunstância», dado o «estado de cansaço das tropas que estavam em operações desde há 14 dias», escreveu o oficial germânico Max Loof.

Em Lisboa, as operações de Moçambique eram acompanhadas com otimismo.

Um sentimento visível na nota da Presidência do Ministério, publicada no Diário do Governoa 17 de janeiro de 1917.

«Em breve, as nossas tropas recuperarão todo o terreno que tiveram de abandonar por um incidente de campanha, e farão novos avanços, batendo completamente os alemães no seu próprio território, e hasteando ali, definitivamente vitoriosa, a bandeira de Portugal».

Da imprensa de referência ficavam afastadas as dificuldades encontradas em África: o tom era patriótico e a censura militar excluía da cobertura qualquer dado estratégico ou que pudesse abalar a moral das tropas.

Em Moçambique, a imagem era bem diferente.

«Frangalhos de sete a oito mil homens, mil contos de material de guerra abandonado ao inimigo, a certeza melancólica de decisivos reveses», descreveu o Alferes Carlos Selvagem.

Durante a Primeira Guerra Mundial, morreram mais combatentes portugueses na colónia portuguesa do que na Flandres.

Nevala seria a prova da distância entre as aspirações coloniais do Governo e a realidade do campo de batalha; uma distância superior aos quilómetros que separavam Lisboa e Moçambique.

Mr. Gorbachev, tear down this wall!

Num desafio ao então Presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, Ronald Reagan propõe o derrube do Muro de Berlim. O discurso é proferido a 12 de junho de 1987, na Porta de Brandemburgo, em Berlim.

A 12 de junho de 1987, o Ronald Reagan fazia um dos mais famosos discursos da sua presidência. O líder norte-americano chegara a Berlim nesse mesmo dia e encontrara uma cidade há mais de 25 anos dividida por muito mais do que apenas betão e arame farpado.

O muro delimitava dois lados opostos da capital, tornando-se um símbolo do clima de Guerra Fria vivo em todo o mundo e polarizado pelos Estados Unidos da América e pela U.R.S.S..

A partir de meados dos anos 80, as políticas como glasnot e perestroika deixavam antever uma maior abertura de Mikhail Gorbachev face aos seus antecessores. O líder soviético mantinha uma relação cordial com Reagan, que não se esquivou de lhe apelar diretamente, numa frase tão famosa quanto controversa: “Mr. Gorbachev, tear down this wall” [«Sr. Gorbachev, derrube este muro»].

Reagan – e o resto do mundo – teriam de esperar mais dois anos para ver o muro cair. A 9 de novembro de 1989, a Alemanha voltava a ser uma só.

 

 

 

Lance Armstrong

Habituado às luzes da ribalta, Lance Armstrong era visto pelos media como o campeão imbatível do ciclismo. No entanto, os media tornaram-se ainda mais presentes quando este foi acusado de doping.

O heptacampeão do Tour de France caiu do pedestal após encerrar a carreira com feitos inéditos. Outrora mito deixou de o ser quando foi descoberto, que em todas as competições tinha usado substâncias ilícitas ou transfusões sanguíneas para melhorar a sua performance durante as provas. O caso foi seguido atentamente pelos media.

De herói a vilão

O atleta passou de exemplo exímio a marginal do desporto. Perdeu todos os seus títulos, patrocínios e reconhecimentos. Em novembro de 2012, a revista Sports Illustrateddivulgou uma lista de atletas mais antidesportivos do ano. Lance Armstrong ficou em primeiro lugar. Dez anos antes o ciclista tinha sido premiado com o troféu Fair Playe considerado pela mesma publicação o desportista do ano.

A ascensão

Lance nasceu em Plano, no Texas, em 1977 e começou a praticar desporto desde criança. A sua situação familiar era frágil, o pai abandonou-o e a mãe, Linda Mooneyham, teve que acumular vários empregos para conseguir sustentar o filho. Por tudo isto, Lance que passou muito tempo sozinho viu no desporto o seu escape.

Começou pela natação: levantava-se todos os dias às 4h45 para ir treinar, moldando desde logo o seu espírito lutador e competitivo. Mais tarde, quando completou treze anos, descobriu o triatlo e venceu o concurso “Iron kids Triathlon”. Aos 21 anos, já no ciclismo, venceu o Campeonato Mundial de Ciclismo de Estrada.

Armstrong iniciou a sua carreira como profissional pela equipa Motorola, em 1992, na competição de San Sebastián e terminou em último lugar. Em 1995 ganhou esta prova e começou aqui o seu percurso de vitórias sucessivas.

Em 1996 e já depois de 2 conquistas em etapas do Tour de France, Lance Armstrong é diagnosticado com Cancro Testicular já com metáteses no cérebro e pulmões. Contra as probabilidades de sobrevivência, cerca de 40%, Lance não desistiu e, apesar dos violentos tratamentos a que foi sujeito, conseguiu vencer o cancro. No meio desta batalha, a equipa pela qual competia, a Cofidis, rescindiu-lhe o contrato e o desportista sentiu-se desamparado.

No final deste ano, Lance Armstrong soube que o cancro entrou em remissão e rapidamente começou a pedalar para que a sua vida pessoal e profissional entrasse nos eixos.

Em 1997, criou uma fundação de apoio às pessoas com cancro chamada LIVESTRONG. Neste ano, conhece Kristin Richard com quem casou e teve 3 filhos.

Regressou às corridas em 1998 com uma nova equipa, a U.S. Postal Service da qual se tornou líder. Com esta camisola venceu o Tour de Francesete vezes consecutivas, a primeira foi em 1999 e a última em 2005.

Durante este período de tempo foram constantes as acusações de uso de doping por parte do atleta. As suspeitas alegavam que Lance Armstrong usava várias drogas e realizava transfusões sanguíneas para melhorar a sua performance durante as provas de ciclismo.

Logo em 1999, David Walsh, um jornalista do The Sunday Times, suspeitoudos feitos de Lance Armstrong. Numa entrevista dada ao The Guardianem 2014 diz : “it was all a drug-addled circus and journalists who also knew that were part of the fraud, reporting on the cyclists as if they were heroes when they knew they were not.” [foi tudo um circo de viciados em drogas e os jornalistas que também sabiam disto faziam parte desta fraude, ao reportarem os ciclistas como heróis quando sabiam que não eram]

Um crescendo de suspeitas

Também em 1999, durante a etapa inaugural do Tour de Franceo pânico instalou-se na equipa. Lance Armstrong acusou uso de corticoides, uma substância proibida à exceção prescrição médica. Perante isto a equipa decidiu forjar uma receita médica. Em 2004 esta informação veio a público através de um depoimento de Emma O’Reilly, massagista da equipa que Lance Armstrong liderava – U.S. Postal Service – a David Walsh.

Emma O’Reilly evitava fazer perguntas quando via os quadros dos quartos dos hotéis retirados das paredes. Segundo ela, só precisavam de um prego para pendurar os sacos de sangue purificado para injetarem no corpo. Quem não aderia ao «Doping Program» do médico Michele Ferrari era marginalizado da equipa por Lance Armstrong. Ainda assim, a popularidade de Lance era forte o suficiente para fazer cair esta acusação no esquecimento.

Sobre as suspeitas de uso de substâncias ilícitas como EPO ou corticoides durante o Tour de Francede 1999, Lance Armstrong escreveu no seu site oficial: “I will simply restate what I have said many times: I have never taken performance-enhancing drugs.” [ Vou apenas repetir aquilo que já disse muitas vezes: Eu nunca tomei substãncias para melhorar o meu desempenho]

As suspeitas sobre Lance Armstrong foram crescendo ao longo dos anos, Emma O’Reiley e Betsy Andreu foram peças-chave entre os 26 depoimentos à USADA (U.S. Anti-Doping Agency) que provaram, em 2012, que Lance Armstrong usou substâncias ilícitas durante toda a sua carreira.

Os jornais não perdoaram e esta notícia que abalou o mundo do desporto e fez capa em jornais e revistas por todo o Mundo. Betsy Andreu era esposa de Frankie Andreu – um dos melhores amigos e ex-colegas de Lance Armstrong que foi despedido após rejeitar aderir ao “Doping Program.”

A confissão

Em Janeiro de 2013, Lance Armstrong decidiu confessar tudo numa entrevista dirigida por Oprah Winfrey no Discovery Channel.

Após a confissão de Lance Armstrong, David Walsh e Emma O’Reiley consideraram, no programa The Late Show da RTE (Ireland National Public Service Media) que faltou esclarecer muitos assuntos assim como os pedidos de desculpas tinham sido suficientes….

Ainda em 2012, a UCI (Union Cycliste Internationale) em consonância com a USADA, decidiu retirar todos os títulos a Lance Armstrong e bani-lo para sempre do ciclismo profissional. Lance Armstrong foi igualmente afastado da fundação que o próprio fundou.

Dois anos após a grande confissão no programa de Oprah Winfrey, Lance Armstrong concedeu uma entrevista à BBC na qual fez uma retrospetiva do seu passado e da sua vida após ter sido banido do ciclismo profissional. A entrevista foi dirigida por Dan Roan, editor de desporto na BBC.

O aparato mediático para lá do ciclismo

Também as relações amorosas de Lance davam que falar. Lance era conhecido por se relacionar quase sempre com celebridades.

Em 1997, um anos após de ser diagnosticado com cancro, Lance casa-se com Kristin Richard. Juntos tiveram 3 filhos e após seis anos de casamento Lance Armstrong divorcia-se, em 2003, e começa um novo relacionamento com a cantora Sherly Crow. Em  2005 anunciam o noivado.  Este casamento nunca aconteceu pois em 2006 separaram-se no momento que que tinha sido diagnosticado cancro da mama a Sherly Crow.

Ainda a separação dava que falar nos Tabloides americanos já Lance Armstrong tinha uma nova conquista, a atriz Kate Hudson. Ainda assim este relacionamento foi passageiro tal como os dois que se seguiram com a designer Tory Burch e atriz, 15 anos mais nova, Ashley Olsen.

O atual relacionamento, que começou em 2008, é com Anna Hassen, uma anónima que conheceu durante uma ação de solidariedade. Com ela teve mais dois filhos.

Atualmente, Lance Armstrong além de continuar a praticar desporto, encontra-se dedicado juntamente com alguns amigos a uma loja relacionada com bicicletas e acessórios do ciclismo. Paralelamente, mantem a sua participação em eventos e ações de apoio a doentes com cancro.

José Saramago

Apesar de nunca se ter considerado jornalista, Saramago passa por vários jornais. A estreia é na revista Seara Nova. Depois ingressa sucessivamente nas redações do Diário de Lisboa, dA Capital, doJornal do Fundão e do Diário de Notícias, onde chega à direção. Depois de deixar o Jornalismo, continua a colaborar com artigos e colunas de opinião​.

Filho e neto de camponeses, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, Ribatejo, a 16 de novembro de 1922, se bem que o registo oficial mencione como data de nascimento o dia 18. Veio viver para Lisboa ainda antes dos dois anos.

Ingressou nos estudos secundários que, por dificuldades económicas, não conseguiu prosseguir. O seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico, tendo exercido depois diversas profissões: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista.

Durante doze anos trabalhou numa editora, onde exerceu funções de direção literária e de produção. Casou com Ilda Reis em 1944, com quem teve uma filha, Violante dos Reis Saramago.  Publicou o seu primeiro livro, o romance Terra do Pecado, em 1947, tendo estado depois largos anos sem publicar (até 1966). Colaborou ainda com diversas publicações importantes do panorama mediático português. Teve a sua primeira experiência como crítico literário na revista Seara Nova, em 1968.

A entrada no Partido Comunista Português deu-se em 1969, a convite de Augusto Costa Dias, diretor da Portugália Editora.

Em 1972 e 1973, fez parte da redação do jornal Diário de Lisboa, onde foi comentador político, tendo também coordenado, durante cerca de um ano, o suplemento cultural daquele vespertino.

Da sua passagem pelo Diário de Lisboa ficou um conjunto precioso de editoriais magistralmente escritos e jornalisticamente rigorosos. Textos que estão publicados em livro sob o título As Opiniões que o DL Teve e que enobrecem o jornalismo português.

O seu percurso jornalístico pode ser dividido em duas fases, coincidindo com dois momentos históricos diferentes.

A primeira fase, n’A Capital e no Jornal do Fundão, ocorre durante o marcelismo. Aqui, e de 1968 a 1972, escreveu sobre as suas memórias, incluindo as viagens que fez, e sobre temas soltos. Também escreveu sobre política, o que chamou a atenção da censura. No seu livro Os Apontamentos, Saramago refere: «entre os artigos, alguns há que, redigidos na altura, apenas agora veem a luz do dia: facto não precisa de explicação».

A segunda fase, que coincide com a desagregação da ditadura e os momentos mais agitados da Revolução, é mais complexa. Saramago envereda abertamente por um jornalismo interventivo, político. A sua experiência no Diário de Notícias (entre abril e novembro de 1975) é marcada por um (ainda hoje) polémico episódio que culminou no despedimento de 24 jornalistas.

A entrada no Diário de Notícias dá-se em pleno «gonçalvismo», quando Vasco Gonçalves chefiava os primeiros Governos provisórios e mudou a administração do jornal, nomeando Luís de Barros diretor e José Saramago adjunto.

«No início, não mexeu muito na redação e havia até pessoas de direita que eram enviadas ao Parlamento para cobrir a Constituinte», lembra José David Lopes, ex-jornalista do DN.

Mas «o clima político começou a ficar muito extremado, a redação profundamente dividida e aí as coisas começaram a agudizar-se, com um maior intervencionismo da direção».

Como recorda o escritor e jornalista Mário Zambujal – então no DN – «a verdade é que apesar de ser o Luís de Barros o diretor, era o Saramago que mandava».

Durante o “Verão Quente” de 1975, o periódico era o diário com maior circulação nacional, com tiragens diárias superiores a 100 mil exemplares.

Saramago pretendia que o DN fosse «um instrumento nas mãos do povo português, para a construção do socialismo» e que quem não estivesse «empenhado neste projeto» seria melhor «abandonar o Diário de Notícias».

A nova direção prometia, num artigo publicado na primeira página logo a seguir à tomada de posse, «servir o Povo Português e a verdade, contra os inimigos do Povo Português e a mentira», recusando, por isso, subjugar-se a «interesses particulares».

Um grupo de jornalistas – metade da redação – entrega então à direção um abaixo-assinado em que exige uma mudança de ideologia editorial. Um dia depois, o abaixo-assinado aparece publicado no Expresso. É decidida a suspensão dos 24 jornalistas.

«O diário é do povo, não é de Moscovo!» ouviu-se, à porta do Diário de Notícias, em frequentes manifestações.

O escritor só voltaria ao DN 23 anos depois, já laureado, a convite do então administrador Luís Silva e do diretor Mário Bettencourt Resende. Colaborou ainda através do seu «Caderno de Saramago», coluna diária que assinou ao longo de 2009.

Apesar da vasta colaboração com jornais, José Saramago nunca se considerou um jornalista.

«(…) eu nunca fui jornalista, não fiz uma entrevista, não fiz uma reportagem, não descrevi um acidente de rua… não fiz rigorosamente nada daquilo que é, digamos assim, tarimba de jornalista. (…) Se para ser jornalista basta ter trabalhado num jornal, então, sim, fui jornalista, mas não é assim».

A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor. Casou com Pilar del Río em 1988 e, em fevereiro de 1993, decidiu repartir o seu tempo entre a sua residência habitual em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias (Espanha). Em 1998 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura.

Saramago teve um papel fundamental no efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.

O seu livro Ensaio sobre a Cegueira foi adaptado para o cinema, produzido no Japão, Brasil, Uruguai e Canadá, e lançado em 2008.

José Saramago morreu no dia 18 de junho de 2010, em Espanha. As cinzas do escritor estão depositadas perto da Fundação com o nome do escritor, na Casa dos Bicos, em Lisboa.

Churchill entre ruínas

A figura de Winston Churchill ergue-se perante uma Inglaterra em ruínas – literal e figurativamente. O líder britânico que ousa enfrentar os nazis é uma das grandes figuras da Segunda Guerra Mundial

Autor: Desconhecida
Nacionalidade: Desconhecida
Ano: 1941
Publicação: TIME & LIFE

 

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