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News Standard

Camarate

O desastre

«Francisco Sá Carneiro, Primeiro-Ministro de Portugal, faleceu há pouco mais de uma hora num desastre de aviação». São 21h29 do dia 4 de dezembro de 1980 e a RTP interrompe a emissão habitual para dar conta do desastre.

O bimotor Cessna C421 descola do Aeroporto Internacional de Lisboa com destino ao Porto. Menos de um minuto depois, despenha-se no Bairro das Fontainhas, em Camarate, mesmo junto ao aeroporto.

A bordo seguem o Primeiro-Ministro português, Francisco Sá Carneiro, a sua companheira, Snu Abecassis, Adelino Amaro da Costa, Ministro da Defesa, e a sua mulher, o chefe de gabinete do Primeiro-Ministro, António Patrício Gouveia, e os dois pilotos do aparelho. A confirmação das notícias não tarda.

«O Ministro da Administração Interna, Eurico de Melo, já confirmou à RTP e aos jornalistas presentes que efetivamente aquele era a avioneta onde seguia o Primeiro-Ministro», anuncia estação pública.

Também as rádios estão em cima do acontecimento, com emissões especiais dedicadas ao desastre e o envio de repórteres para o local. A notícia atravessa a fronteira e faz eco na rádio espanhola.

Em Camarate, os jornalistas pressionam a deputada Helena Roseta. «E agora, o que é que vai acontecer?» «Continuamos. Portugal continua».

O rescaldo do acidente

Diogo Freitas do Amaral, vice Primeiro-Ministro do Governo de Sá Carneiro, faz uma comunicação ao país. «Portugueses, num horrível acidente de aviação, morreu hoje, ao princípio da noite, o Primeiro-Ministro de Portugal, Dr. Francisco Sá Carneiro».

As palavras de homenagem chegam até pela voz dos opositores políticos. «Esta é uma hora de consternação e de luto para todos os portugueses e para todos os democratas».

O destaque mediático

​Nos dias e semanas que se seguem, a história faz capas.

«Há ocasiões em que as palavras parecem escassas para exprimirem o sentimento trágico que se apodera da comunidade nacional», lê-se no editorial do Diário de Notícias, liderado por Mário Mesquita, numa segunda edição do dia 5 de dezembro. A frase ilustra o sentimento de incredulidade e emoção que se alastrou pelo país.

Em campanha presidencial

Na fatídica noite, a avioneta segue para o Porto, onde Sá Carneiro deve participar num comício da campanha presidencial. Faltavam três dias para decisão final dos eleitores nas segundas eleições presidenciais da democracia. De um lado, o Presidente da República em mandato, o general Ramalho Eanes. Do outro, o general Soares Carneiro, apoiado pela Aliança Democrática.

No dia da sua morte, o Primeiro-Ministro dá uma última conferência de imprensa e grava a derradeira mensagem aos Portugueses.

Na data do sufrágio, 7 de dezembro, as presidenciais dividem capas com o funeral de Sá Carneiro, decorrido no dia anterior. O cortejo sai dos Jerónimos para o Cemitério do Alto de São João, um percurso que dura cinco horas é acompanhado por milhares de pessoas.

Apesar da comoção nacional, Ramalho Eanes é reeleito com 56,44 por cento dos votos, colocando um fim ao sonho de «uma maioria, um governo e um presidente» de Sá Carneiro. Os resultados surpreendem alguns comentadores políticos, que esperam que a reação emocional do país em relação à tragédia pudesse inverter a tendência de vitória de Ramalho Eanes.

As suspeitas

Ainda nesse mês, é levantada a teoria que a queda da aeronave podia não ter-se tratado de um acidente.

Em Janeiro seguinte, o Expresso avança informações sobre as autópsias e detalhes sobre a queda da aeronave.

A especulação nunca foi travada. Ao longo das décadas, sucessivas Comissões Parlamentares analisaram as circunstâncias da tragédia de Camarate.

1980

MORTE DE SÁ CARNEIRO

O ano ficou marcado por um acontecimento trágico ocorrido no último mês do ano. No dia 4 de dezembro, quando ia para o Porto apoiar o candidato do centro-direita à Presidência, general Soares Carneiro, o primeiro-ministro, Sá Carneiro, morria na queda da avioneta que tinha acaba de levantar voo do aeroporto de Lisboa. Morreram todos os ocupantes: o chefe do Governo, a sua companheira, Snu Abecasis, o seu ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, outros dois passageiros e os dois pilotos.

As circunstâncias do desastre iriam ser tema de debate durante muitos e longos anos, com investigações, comissões parlamentares de inquérito sucessivas, polémicas, acusações, revelações, falsas ou verdadeiras, etc. Tudo em torno de uma dúvida: acidente ou atentado?

Voltando ao início do ano, logo no dia de Ano Novo houve um terramoto nos Açores, o mais destrutivo dos 200 anos anteriores em Portugal, que fez 73 mortos e 30 mil desalojados.

E, pela primeira vez desde a sua criação, o Expresso abria o ano deixando de ter no cabeçalho o nome de Francisco Pinto Balsemão como diretor — acabara de ser nomeado ministro-adjunto do primeiro-ministro, explicava o próprio em nota ao cimo da primeira página.

A Aliança Democrática, coligação entre o PSD, o CDS e o pequeno Partido Popular Monárquico, venceria as eleições de outubro, glosadas na semana anterior no primeiro cartoon de António a ser publicado numa primeira página do Expresso, no qual mimetava o quadro “O grito”, de Edvard Munch, pondo um zé-povinho a gritar.

Lá fora nascia um novo país em África (adeus Rodésia, olá Zimbabué), era assassinado em Nova Iorque o ex-Beatle John Lennon e os Jogos Olímpicos causavam grande agitação internacional. Organizados em Moscovo, foram boicotados pelos Estados Unidos e seus aliados, em protesto pela invasão soviética do Afeganistão, no ano anterior.

1980 foi também o ano do “piratinha do ar”, o adolescente que desviou um avião da TAP para Madrid. O serviço militar deixou de ser obrigatório, o Governo abriu concurso para a autoestrada Lisboa-Estoril e a GNR foi desenterrar à serra de Sintra, depois de um telefonema anónimo, 15 metralhadoras G-3 bem acondicionadas e prontas a disparar.

Antes, uma delegação do Governo português tinha ido ao Iraque comprar petróleo e deixado “apalavrado” um fornecimento suplementar, a troco do fornecimento de urânio nacional.

Antes ainda, logo a 25 de janeiro, o Presidente Ramalho Eanes tinha festejado 45 anos e recebido da sua equipa de trabalho na presidência uma bicicleta de corrida — para dar umas “pedaladas” num ano que seria politicamente duro.

1980

1979

INVASÃO DO AFEGANISTÃO, REVOLUÇÃO NO IRÃO

1979 foi um ano charneira da geopolítica mundial, com duas mudanças violentas que alteraram o quadro político internacional, com consequências que ainda hoje perduram.

A primeira foi a revolução islâmica do Irão, que derrubou o regime do xá Reza Pahlavi, aliado dos Estados Unidos, e instalou no poder a teocracia islâmica do aiatola Ruhollah Khomeini. A segunda foi a invasão do Afeganistão pela então União Soviética, que aí colocou no poder um regime fantoche e onde se manteve dez anos, antes de se retirar sem ter conseguido acabar com a guerra civil.

Ainda no âmbito internacional, a conservadora Margaret Thatcher venceu as eleições na Grã-Bretanha e tornou-se a primeira mulher a chefiar um Governo na Europa. Outro grande acontecimento foi a visita histórica do Papa João Paulo II ao seu país natal, a Polónia, onde na altura ainda vigorava um regime comunista. No fim do ano, mais um grande acontecimento para os católicos: madre Teresa de Calcutá recebia o Prémio Nobel da Paz.

Em Portugal, mal o ano tinha começado e já surgiam os primeiros nomes para a corrida presidencial de 1980, enquanto uma nova central sindical, fundada dois meses antes, a União Geral dos Trabalhadores (UGT, afeta ao PS e ao PSD) dava os primeiros passos.

No ano em que os correios lançaram o código postal e em que os televisores passaram a ter telecomando houve também uma grande novidade na política nacional: pela primeira vez, uma mulher chefiava o Governo.

Com a queda do Governo de iniciativa presidencial de Mota Pinto, em agosto, o Presidente Eanes convidou a engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo a formar um governo provisório — que ficou conhecido como “governo dos cem dias” — encarregado de gerir os assuntos correntes até haver eleições antecipadas. Realizadas em dezembro, seriam ganhas pela Aliança Democrática, uma coligação entre o PSD, o CDS e o PPM — e Sá Carneiro convidado dois dias antes do fim do ano a formar governo.

Dois atentados a tiro marcaram 1979, um contra o embaixador de Israel, que saiu ileso, o outro contra o industrial nortenho Ferreira Torres, um dos nomes associados à rede bombista de extrema-direita, abatido ao volante do seu carro.

Na Madeira, o ano foi de tragédia, com as cheias e aluimentos provocados pelo mau tempo a fazerem 14 mortos.

Portugal estabeleceu relações diplomáticas com a China (os Estados Unidos também o fizeram no mesmo ano) e acabou o passaporte entre Portugal e Espanha.

No fim do ano era abolido o teto salarial e concluída no Ministério do Trabalho “a difícil e morosa negociação” do contrato coletivo para o sector da construção civil, com um aumento de 19,5% para os cerca de 300 mil trabalhadores do sector.

1979

1978

TRÊS GOVERNOS

1978 foi um ano de crises sucessivas de (des)governo: três até ao fim do ano. Começou com as negociações para a formação do II Governo Constitucional, o primeiro e único entre o Partido Socialista e o Centro Democrático e Social (CDS), que tomou posse no fim de janeiro e durou até agosto.

No verão, o CDS retirou a confiança no Executivo, chefiado por Mário Soares, e surgiu o primeiro “Governo de iniciativa presidencial”. Depois de semanas de intrincadas negociações, tomou posse o III Governo Constitucional, que o Presidente Eanes tinha incumbido Nobre da Costa de formar.

O novo Executivo não chegou aos três meses de vida. Em novembro, novo Governo (o IV Constitucional) “de iniciativa presidencial”, chefiado por Mota Pinto.

No meio das crises de governo, mais vindas e idas de responsáveis do FMI, para preparar o terceiro “pacote” de ajuda financeira, que se saldaria por aumentos de transportes, eletricidade, gás, água, correios e outros serviços e produtos.

Lá fora, duas mortes comoveram e impressionaram o mundo. Uma delas foi a do Papa João Paulo I, que dirigiu a Igreja Católica durante apenas 33 dias, depois de ter sucedido a Paulo VI, falecido em agosto. A outra foi a do ex-primeiro-ministro italiano e presidente do Partido Democrata-Cristão Aldo Moro, assassinado a tiro pelo grupo de extrema-esquerda Brigadas Vermelhas depois de ter sido mantido em cativeiro durante quase dois meses e de o Governo não ter cedido às suas exigências.

O rei Juan Carlos efetuou a primeira visita a Portugal de um chefe de Estado espanhol desde o estabelecimento da democracia nos dois países ibéricos, passou a ser proibido fumar em todas as repartições públicas e a escolaridade obrigatória passou de quatro para seis anos.

Nasceu o primeiro bebé fruto de fertilização artificial, Louise Brown, ao fim de 30 anos a Volkswagen deixou de fabricar o “carocha” e a escolaridade obrigatória passou de quatro para seis anos.

No Expresso, 1978 foi o ano em que, depois do êxito da secção ExpressoEmprego, foi criada a de Imobiliário.

O que nunca se concretizou foi o que o jornal publicara na primeira página de 4 de março. Sob uma foto da Praça de Espanha dizia-se que esse ponto nevrálgico de Lisboa podia mudar de face “muito em breve”. Um projeto de urbanização encomendado pela Câmara Municipal de Lisboa previa para o local as sedes do Banco de Portugal e do Metropolitano, a Ordem dos Engenheiros e o Museu de Arte Moderna.

1978

1977

COCA-COLA E “PACOTES” DO FMI

Ao longo de todo este ano, que começou com a Coca-Cola a ser finalmente autorizada por cá, houve dois grandes assuntos que foram recorrentes: a Lei de Bases da Reforma Agrária e as “missões” do Fundo Monetário Internacional.

Na verdade, não foi apenas a Lei de Bases da Reforma Agrária que andou em bolandas. Outras duas importantes leis “de regime” foram objeto de longas e complicadas negociações, a lei das indemnizações (de bens expropriados) e a que estabeleceu a delimitação entre os sectores público e privado.

Quanto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), começou as visitas na primavera. Depois de ter aprovado no início do ano um primeiro “pacote de ajuda financeira” a Portugal, foi efetuando novas “missões” ao longo do ano, aprovando novo “pacote” no outono.

Com maior ou menor rigor, a receita de ambos era a mesma: apertar o cinto, com aumentos de preços e serviços, desvalorização do escudo, subida das taxas de juro (que no crédito ao consumo chegaram a ser de 27%, etc.) “Das taxas de juro aos salários (passando por bacalhau e café) o FMI tudo quer ‘aconselhar’”, intitulava o Expresso em manchete na edição de 29 de outubro. E na edição seguinte, igualmente no cimo da primeira página, um cartoon de António mostrava o diretor do FMI da altura, Johannes Witteveen, com uma pequena cara de Mário Soares na outra gola do casaco a olhar para cima, sob o título “À espera do novo ‘assalto’ do FMI”.

No primeiro trimestre, Soares, chefe do Governo, já tinha calcorreado a Europa em busca de ajuda financeira. E, em março, tinha pedido formalmente a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia.

A nível internacional, um dos acontecimentos com mais impacto em Portugal foi aquilo que ficou conhecido como “o 27 de maio” em Angola. A pretexto de uma alegada tentativa de golpe de Estado liderada pelo ministro Nito Alves, o regime de Agostinho Neto prendeu, torturou e fuzilou sumariamente muitos milhares de angolanos.

Por cá, uma conferência da Organização das Nações Unidas realizada no Algarve alertava já nessa altura que a desertificação ameaçava vastas regiões portuguesas e a Revista do Expresso apresentava na primeira edição de junho “o automóvel do ano 2000: mais pequeno, mais leve, com radar e outras maravilhas eletrónicas”.

Depois, já quase no fim do ano, um abalo político e uma tragédia. Em Lisboa caía o I Governo Constitucional, chefiado por Mário Soares. Na Madeira registava-se a maior tragédia da aviação portuguesa, quando um Boeing 727-200 da TAP oriundo de Bruxelas que aterrou com mau tempo, não conseguiu parar até ao fim da pista do Funchal (que ainda não tinha sido ampliada) e caiu ao mar. Morreram 131 pessoas.

O ano terminou com o anúncio de que a CP ia lançar em janeiro dois novos “comboios-foguetes”, que permitiriam ir de Lisboa ao Porto em três horas e meia. E a maioridade passou dos 21 para os 18 anos.

1977

1976

A LEI FUNDAMENTAL

O grande acontecimento político do ano foi a aprovação da Constituição da III República Portuguesa, no início de abril.

Figura-mor do 25 de novembro do ano anterior, o general Ramalho Eanes foi eleito Presidente da República, num ano em que se assistiu a um surto bombista, sobretudo no norte do país, contra objetivos e personalidades da esquerda (como sedes do PCP), ações atribuídas ao grupo de extrema-direita MDLP. Um dos atentados mais mediáticos foi o que vitimou o padre Max, ligado ao partido de extrema-esquerda UDP, e a jovem que seguia com ele no carro.

Em Lisboa, a embaixada de Cuba foi destruída à bomba, causando a morte de dois diplomatas. Mais para o fim do ano, outro atentado, contra condutas da EPAL na Póvoa de Santa Iria, reduziu durante alguns dias o fornecimento de água a Lisboa.

A austeridade foi uma constante durante o ano, com a adoção de novos “pacotes” de restrições, desde o aumento de preços de produtos alimentares a limitações à circulação automóvel, passando pela redução do consumo de eletricidade (que chegou a estar cortada durante várias horas por dia, por regiões) e pela limitação das importações.

Em julho o Expresso anunciava em manchete que ia entrar em vigor o sistema alternado de circulação automóvel: entre as 15 horas de sábado e as 2 h de segunda-feira apenas poderiam circular veículos automóveis com matrículas pares ou ímpares.

Um dos grandes temas políticos em discussão foi o chamado “mapa da reforma agrária”, ou seja a delimitação das zonas do país — sobretudo do Tejo para baixo, até meio do Algarve — onde poderia haver expropriações de terras.

O conhecido apresentador Carlos Cruz demitiu-se de diretor de programas da RTP, cujo presidente anunciara durante uma viagem à Alemanha que a televisão a cores ia começar em Portugal no dia 1 de junho do ano seguinte.

Mesmo a fechar o ano, a extrema-direita fez nova “prova de vida”. Um Movimento Nacional Neonazi entregou no Expresso — acusado de ser um jornal “provocador” — um comunicado dizendo ir realizar o seu congresso em Cascais.

E, depois de muitos meses de detenção, os 23 militares portugueses que tinham sido presos pelos indonésios após a invasão de Timor regressaram a Portugal a tempo de passar o Natal com as famílias. Lá fora, tinha morrido Mao Tse Tung, fundador da República Popular da China.

1976

1975

O VERÃO MAIS QUENTE

1975 foi o ano de maior efervescência político-militar da nossa história democrática. Os dois pontos-chave do ano foram a 11 de março e a 25 de novembro. Na primeira data, movimentações políticas e militares da direita tentaram um golpe de Estado. Um dos implicados, o general Spínola, fugiu de helicóptero para Espanha, onde seria criado no outono um Exército de Libertação de Portugal, braço armado de um Movimento Democrático para a Libertação de Portugal.

Em resposta ao 11 de março, os militares davam uma forte guinada à esquerda do poder político, que detinham. Foi o tempo das nacionalizações e do “poder popular”, clima em que decorreram as primeiras eleições livres, a 25 de Abril, para a eleição da Assembleia Constituinte, com este pormenor: para evitar “manipulações” dos votos em branco, a Comissão Nacional de Eleições aceitava que quem o desejasse traçasse um risco sobre o boletim.

Durante o “verão quente”, ou PREC (Processo Revolucionário em Curso), como ficou conhecido o período revolucionário entre o 11 de março e o 25 de novembro, sucederam-se negociações e braços de ferro entre os partidos políticos e o Movimento das Forças Armadas, onde as três principais figuras, os esquerdistas Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho, tinham tomado “a direção da revolução”, como titulava o Expresso. Havia manifestações sob os mais variados pretextos, como o protesto contra a execução de cinco antifascistas espanhóis, que desembocaria no incêndio da embaixada e do consulado de Espanha. O próprio Parlamento acabaria cercado por operários da construção civil, que sequestraram os deputados durante muitas horas.

Antes, no verão, tinha surgido o famoso “Documento dos Nove”, no qual nove influentes militares participantes no 25 de Abril traçavam os princípios de uma recentragem.

A atualidade política era tão fértil e tão célere que o Expresso passou a ter a partir de 5 de novembro edições extra às quartas-feiras, que duraram até à primeira semana de janeiro seguinte.

O “verão quente” terminaria a 25 de novembro, com as operações militares chefiadas por um não muito conhecido coronel Ramalho Eanes. A maré esquerdista foi contida e começou a normalização política e institucional. Em Espanha começava também a normalização democrática, com a morte do ditador Francisco Franco e a proclamação de Juan Carlos como Rei.

O Governo ultimava entretanto um grande plano de austeridade, que previa, nomeadamente, limitações às vendas a prestações, num ano em que por exemplo o preço do açúcar já tinha aumentado praticamente para o dobro.

Quem quisesse entrar para a Universidade tinha de cumprir um ano de serviço cívico obrigatório, uma nova Concordata entre Portugal e a Santa Sé passou a aceitar o divórcio nos católicos e foi assinado o despacho para a construção de mais um “sublanço da autoestrada do Norte”, entre Vila Franca de Xira e o Carregado.

No meio do caos político, social e militar, Portugal acabava o ano tendo cumprido uma façanha: uma ponta aérea tinha trazido das ex-colónias, sobretudo de Angola, mais de 600 mil pessoas. Colónias que neste ano se tornaram países independentes, com exceção de Timor, invadido pela Indonésia.

1975

1974

LIBERDADE

Foi o ano em que chegou, de 24 para 25 de abril, a madrugada tão esperada por Sophia de Mello Breyner: “Esta é a madrugada que eu esperava/ o dia inicial inteiro e limpo/ onde emergimos da noite e do silêncio.”

Dois dias depois do 25 de Abril, saía a primeira edição do Expresso sem o espartilho da censura. Na primeira página contavam-se os bastidores da rendição de Marcello Caetano no quartel do Carmo e pormenores da detenção do Presidente da República, almirante Américo Tomás, “na sua residência”.

E era anunciada para o dia seguinte a chegada a Santa Apolónia de Mário Soares, oriundo de Paris, de comboio.

Mas o ano começara com uma notícia de uma saga que ainda por aí anda: a de que concorriam oito consórcios à “adjudicação da execução da primeira fase” do… novo aeroporto de Lisboa. Um tema que voltaria mais para o fim do ano.

“Portela ou Rio Frio: o futuro do aeroporto de Lisboa decide- se até 13 de novembro”, dizia o Expresso em manchete.

Ainda no início do ano, na primeira página aparecia uma foto sem sentido no canto inferior direito, a cabeça de uma mulher fotografada de costas. Sendo o Expresso “o jornal dos que sabem ler”, como se anunciava, os que “sabiam ler” sabiam o que isso significava: a foto preenchia o espaço de uma notícia que a censura não deixara publicar.

Apesar desse garrote editorial, até ao “dia inicial inteiro e limpo” o jornal não deixou de noticiar acontecimentos políticos relacionados com a oposição. O processo judicial contra 17 militantes do LUAR (entre os quais o líder, Hermínio da Palma Inácio), grupo clandestino que lutava contra o regime, seria aliás manchete no jornal. Nela informava-se também que dois estudantes de Direito tinham sido acusados pela polícia política de pertencer ao grupo de extrema-esquerda MRPP: José Luís Saldanha Sanches e aquela que seria anos depois sua mulher, uma tal Maria José Morgado, que mais tarde seria procuradora-geral-adjunta do Tribunal da Relação de Lisboa.

Depois do 25 de Abril foi a efervescência política que se sabe, que culminaria na famosa manifestação da “maioria silenciosa” prevista para 28 de setembro — um protesto de toda a direita com o qual os promotores queriam mudar o regime, mas que os serviços de informação e o Movimento das Forças Armadas fizeram gorar. O Partido Comunista Português tornara-se entretanto o primeiro partido legal, ao entregar as 5 mil assinaturas necessárias para a legalização.

Na primeira edição de outubro, surgia na primeira página do Expresso outro grande símbolo da mudança. Duas fotos no canto inferior esquerdo mostravam a substituição da placa da Ponte Salazar por Ponte 25 de Abril, com a letra zê do Salazar a cair, numa imagem do fotógrafo Miranda Castela que ficaria famosa.

A gasolina super tinha aumentado entretanto para o equivalente a 6,25 cêntimos o litro, o seguro automóvel passava a ser obrigatório e era lançado por cá o primeiro cartão de crédito. Olhando para a frente, era anunciado que o urânio iria substituir o petróleo em 1981 em Portugal, com a entrada em funcionamento do primeiro reator nuclear para a produção de eletricidade.

No estrangeiro, destaque para o caso Watergate – as escutas na sede do Partido Democrata norte-americano, que levaram à demissão do Presidente Richard Nixon – e para a “legalização política internacional” da Organização de Libertação da Palestina com a ida do seu líder, Yasser Arafat, às Nações Unidas para discursar.

1974

1973

PARA DEIXAR O PAÍS MELHOR

O primeiro número do Expresso seria logo uma pedrada no charco. Primeiro semanário português de informação política e generalista, inspirado nos conceituados semanários britânicos “The Sunday Times” e “The Observer”, dizia em manchete que 63% dos portugueses nunca tinham votado.

A percentagem era o resultado de um inquérito encomendado pelo jornal — e a sua publicação não foi coisa pouca, num tempo em que não havia liberdade política e de expressão e em que havia censura prévia à imprensa.

O modelo da primeira página do novo semanário estava definido: manchete forte, notícias exclusivas, do lado direito uma coluna com pequenas notícias de última hora, chamada “24 Horas”, ao fundo da página uma fotolegenda.

Na primeira edição, a fotografia estava relacionada com “dúvidas quanto à legalidade do imposto automóvel” (outro assunto que era delicado questionar) e uma das “24 Horas” era sobre um assunto que durante dias e dias causou grande sururu: um leão que teria fugido de um circo andaria à solta em Rio Maior. Contactada nessa madrugada pelo Expresso, a GNR dizia que não, não era “um facto provado”.

Nesse ano fundador, em que muitas notícias foram proibidas ou amputadas pela censura, o Expresso foi conseguindo noticiar os grandes acontecimentos nacionais e internacionais, desde atentados à bomba em unidades militares de Lisboa à chegada ao poder do general esquerdista Juan Perón na Argentina ou a chacina de Wiriyamu, a aldeia moçambicana erradicada do mapa pela tropa portuguesa.

Uma chacina que desencadeou protestos a nível internacional e foi uma sombra sobre a visita que o chefe do Governo, Marcello Caetano, fez a Londres em julho, rodeada de fortes medidas de segurança.

E tanto eram anunciadas notícias mais gerais, como a de que a pesquisa de petróleo em Portugal ia ter prioridade no Porto, Aveiro, Figueira, Leiria e Caldas, como outras mais “sensíveis” na mesma edição.

Uma reunião preparatória para um encontro político dos liberais ou a libertação pela polícia política de dois estudantes que tinham sido presos numa manifestação são apenas dois exemplos. Um dos estudantes era Saldanha Sanches, militante do grupo de extrema-esquerda MRPP e, mais tarde, fiscalista conceituado.

O caso então raro de uma mulher (americana, de 26 anos) que teve cinco gémeos e a notícia de que estavam bem encaminhadas as negociações para a produção e venda da Coca-Cola em Portugal são mais dois exemplos de notícias do Expresso de 1973. Um ano em que melhorias técnicas dos CTT passaram a permitir fazer 2700 chamadas telefónicas simultâneas entre Lisboa e Porto.

Massacre de Munique

A 5 de setembro de 1972, o mundo acordou com imagens aterrorizadoras do grupo terrorista palestiniano Setembro Negro, que tinha invadido as instalações dos atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique.

Em 1972, os Jogos Olímpicos são interrompidos pela primeira e única vez. Onze atletas israelitas são feitos reféns por um grupo palestiniano. “They’re free!”, anuncia a capa do The Sun de 6 de setembro.

Dois atletas israelitas haviam sido mortos, enquanto outros 9 estavam reféns.

Os raptores pediam a libertação de 234 prisioneiros políticos pelo governo de Israel.

Ainda no dia 5, Conrad Ahlers, porta-voz da República Federal da Alemanha, que estava para ser entrevistado no noticiário noturno, recebeu um telefonema do ministro das Relações Exteriores, que acabara de ser informado pela polícia que a operação de resgate se desenvolvera conforme o planeado. Ahlers anuncia, em plena televisão, que o resgate tinha sido realizado com sucesso.

Trinta minutos antes, a DPA, a agência noticiosa alemã, já tinha noticiado o sucesso da operação.

Na manhã de dia 6 de setembro, os jornais matutinos europeus lançavam manchetes com a notícia de que os reféns tinham sido libertados.

No entanto, a informação veio a revelar-se falsa.

Horas depois, notícias começaram a circular referindo que todos os reféns haviam sido mortos na operação de resgate, além de um polícia alemão e 5 terroristas.

A frase mais famosa a noticiar o sucedido foi proferida por Jim McKay, no canal norte-americano ABC.

“Foram-se todos.”

“Quando era miúdo, o meu pai costumava dizer, ‘As nossas grandes esperanças e os nossos piores medos são raramente realizados’. Os nossos piores medos foram realizados esta noite. Disseram-me agora que havia onze reféns; dois foram mortos nos seus quartos ontem de manhã, nove foram mortos no aeroporto esta noite. Foram-se todos”.​

O atentado do grupo Setembro Negro foi um dos primeiros ataques a contar com uma alta difusão mediática ao vivo, até porque centenas de jornalistas provenientes de todo o globo estavam no local a fazer a cobertura dos Jogos Olímpicos de 1972.

Estima-se que cerca de 900 milhões de pessoas, em mais de 100 países, assistiam ao desenrolar dos eventos, através da televisão.

O canal britânico BBC tinha montado a maior operação de cobertura mediática nos Jogos Olímpicos de Munique, e David Coleman acompanhou as negociações entre os terroristas e a polícia alemã durante toda a tarde.

“A masked figure of doom” (“uma figura mascarada da desgraça”) foi a legenda dada à imagem que ficou conhecida como a imagem do massacre, pela revista Life.

Após os despojos da 2.ª Guerra Mundial e as consequências do nazismo, a Alemanha procurava auferir uma boa imagem e reputação perante o mundo, e os Jogos Olímpicos de Munique eram o meio perfeito para alterar a imagem do país.

Anos antes, em 1936, os Jogos Olímpicos que tiveram lugar em Berlim tinham já sido palco da manifestação da propaganda nazi.

As Olimpíadas de 1972 prometiam ser a reviravolta para a Alemanha, numa demonstração de alegria, união e paz. Com o propósito de mostrar uma Alemanha mais amigável, a segurança foi deliberadamente reduzida.