O mundo mediático é um palco. E, nesse palco, coabitam os protagonistas e aqueles que os projetam. Há, no entanto, personalidades do sistema mediático que se tornam, elas próprias, “news”
Marcelo Rebelo de Sousa, Al Gore, Francisco Pinto Balsemão, François Truffaut, Daniel Proença de Carvalho, Ernest Hemingway. Comunicadores que se transformaram eles próprios em objeto de “news”
As tragédias que perduram nas nossas memórias
Em Bad News, os episódios que ninguém quer que aconteçam e que os jornalistas adoram noticiar. Do naufrágio do Titanic ao acidente ferroviário de Alcafache, passando pelo “Nine Eleven”, incêndio do Chiado, mortes de Kennedy e Sá Carneiro. Os bastidores da cobertura mediática destas tragédias. Curador: Pedro Pinto
Os episódios que ninguém quer que aconteçam e que os jornalistas adoram noticiar. Titanic, Chiado, JF Kennedy, Alcafache, 9 11, Camarate. Os pormenores das coberturas mediáticas das “Bad News”
Bad News
Assassinato de Martin Luther King
Em abril de 1968, Martin Luther King deslocou-se à cidade Memphis, no estado do Tennessee, para apoiar uma greve dos funcionários sanitários de raça negra, que recebiam um ordenado inferior aos funcionários de raça branca.
Uma das vozes mais expressivas dos Direitos Humanos cala-se a 4 de abril de 1968. Pastor evangélico, ativista social e Nobel da Paz, Martin Luther King Jr. é assassinado antes de ver cumprido o seu «sonho».
Na manhã do dia 4, James Earl Ray alvejou mortalmente Martin Luther King ao entrar noquarto de hotel onde este estava hospedado.
A única fotografia que capta o horror do momento da morte de Martin Luther King foi tirada por um jovem sul africano, Joseph Louw, que estava a fazer um documentário sobre Martin Luther King.
Louw tinha estado a jantar num restaurante de Memphis, pouco antes da tragédia, mas saiu mais cedo para ver as notícias da noite na NBC. Assim que chegou ao Lorraine Motel ouviu um tiro. Correu para o local e viu Luther King no chão. Apercebendo-se que nada podia fazer apressou-se a ir buscar a máquina fotográfica.
“It was just a matter of realizing the horror of the thing. Then I knew I must record it for the world to see”.
Apesar de não estarem presentes no local, as televisões rapidamente deram a notícia. Devido à hora (ao mesmo tempo que as notícias da noite), muitos pivôs receberam a informação em direto, o que originou algumas incorreções.
A programação habitual foi interrompida assim que se confirmou a morte de Martin Luther King. Apesar das cadeias de televisão terem jornalistas em Memphis, estes não se deslocaram ao local devido às imposições oficiais decretadas na cidade para prevenir violência.
A cobertura mediática da morte e dos motins que se seguiram prosseguiu por vários dias. A vida de Martin Luther King serviu de mote a programas matinais, programas da tarde e especiais de informação.
Cancelando uma viagem ao Havai, o presidente Lyndon Johnson dirigiu-se nessa mesma noite à nação para expressar o choque e tristeza pela morte de Martin Luther King. O discurso foi transmitido em direto pelas três televisões existentes.
“America is shocked and saddened by the brutal slaying tonight of Dr. Martin Luther King.
I ask every citizen to reject the blind violence that has struck Dr. King, who lived by nonviolence.
(…) I know that every American of good will joins me in mourning the death of this outstanding leader and in praying for peace and understanding throughout this land”.
Mas a morte de Luther King chocou e fragilizou uma nação ferida, dividida e abalada por motins e manifestações, conflitos sociais e uma guerra controversa.
Desencadeou protestos violentos, incendiou um país já em ebulição e originou uma caça ao homem que durou dois meses. Moldou uma geração.
Imortalizou o homem e fez nascer o símbolo dos direitos civis, da igualdade, paz e justiça para todos. Teria sido assim de outra forma?
Se a morte de Martin Luther King o eternizou aos 39 anos (numa altura em que registava até uma quebra de popularidade), a luta da sua vida levou a mudanças drásticas na cobertura dos media sobre os direitos dos negros e até sobre assuntos sociais.
O carisma e a singular capacidade oratória de Luther King faziam dele uma apetecível figura mediática, o que lhe permitiu conquistar espaço de antena e marcar a agenda.
Em agosto de 1963, Martin Luther King promovou a famosa Marcha em Washington. Um espetacular evento mediático, segundo Walter Cronkite, um dos mais populares pivôs da TV norte-Americana de sempre.
Transmitida em direto através da radio e das três televisões que existiam na altura tornou mainstream a luta pelos direitos civis, com uma marca e assinatura: “I have a dream”.
“Technology shapes the way a story is covered, the way it’s presented (…) Television during the 1960s presented narratives. It allowed people to be in front of the camera and allowed them to be seen and for their voices to literally be heard”, William Thomas, chairman of the Department of History at the University of Nebraska-Lincoln.
Mas o mais icónico discurso de King quase não aconteceu. King e os seus assessores trabalharam no texto durante uma semana e o reverendo continuou a refazer o discurso até ao último minuto, eliminando palavras e introduzindo novas frases. Na véspera do discurso, o rascunho não continha qualquer referência a um “sonho”. Martin Luther King procurava sempre um final perfeito para os seus discursos. Como sofria constantes ameaças à sua vida, insistia num tom profético quando estava a terminar um discurso, como se estivesse a dizer as suas últimas palavras.
Na véspera da Marcha em Washington, ponderou se deveria falar do “sonho” e se este seria um final emotivo para o seu discurso. Há meses que vinha falando do seu “sonho” em discursos por todo o país, defendendo a sua visão de uma coexistência racial harmoniosa. Pediu a opinião de dois dos seus assessores. Um deles, Wyatt Tee Walker, aconselhou-o a não mencionar a frase “I have a dream”.
Era demasiado cliché. King já a tinha usado demasiadas vezes, disse. O segundo assessor, Andrew Young, concordou. King não disse nada. Mas nessa noite alguém o ouviu repetir as mesmas palavras uma e outra vez no seu quarto de hotel, depois de toda a gente se deitar: “Eu tenho um sonho… Eu tenho um sonho… Eu tenho um sonho…”
O ritmo e musicalidade, a cadência e entoação do discurso remetem para o passado de Martin Luther King como pastor na igreja Baptista. Como a maior parte dos americanos que estavam a seguir a Marcha em Washington através da televisão, o Presidente John F. Kennedy ouviu um discurso integral de Martin Luther King pela primeira vez nesse dia. Terá comentado com um dos seus assistentes na Casa Branca que ele era “damn good”.
Para a perpetuação do mito contribuíram também as teorias da conspiração em torno da morte de Martin Luther King, envolvendo o governo e a CIA.
Narrativas que ainda hoje apaixonam os media e a opinião pública.
A eleição de Barack Obama avivou a memória de Martin Luther King e dos seus discursos. Apaixonantes. Mobilizadores. Fraturantes. Históricos. As comparações foram inevitáveis, como se o novo presidente dos EUA cumprisse finalmente o “sonho”.
Mais de 40 anos depois de “I have a dream”, um outro líder negro entoou e repetiu num mesmo discurso uma frase que também ganharia um lugar na história: “Yes we can”.
E se na década de 60 a televisão foi o medium que catapultou Luther King e lhe deu visibilidade – pelo papel preponderante que tinha como formador de opiniões -, em 2007 foram as redes sociais a desempenhar um papel fundamental na eleição de Barack Obama.
A partir do discurso proferido em New Hampshire, o cantor will.i.am juntou cerca de trinta atores e músicos num video de apoio (supostamente não oficial) divulgado no YouTube e que correu mundo.
Não surpreendeu, portanto, que na tomada de posse de Barack Obama os U2 tenham cantado em direto, com transmissão para todo o mundo, a partir de Washington, na mesma escadaria onde Martin Luther King proferiu o emblemático discurso, a canção que lhe é dedicada “Pride, in the name of love”.
A luta pelos direitos civis dos negros nos anos 60 e a vida de Martin Luther King tem servido de inspiração a canções, livros, documentários e filmes, até porque a questão do preconceito racial está longe de estar sanada nos EUA.
Em 2014 chegou às salas de cinema “Selma”, um filme que mostrava um lado mais humano do líder. Um herói com dúvidas e contradições, que somou pequenas vitórias mas também muitas derrotas. Imediatamente se relacionou o filme com protestos que tinham ocorrido em Ferguson dando a entender que, na verdade, o sonho não acabou.
Bad News
Assassinato de JKF
A 22 de novembro de 1963, John F. Kennedy é assassinado e a América fica órfã. A morte da estrela mediática que se tornara Presidente dá origem a uma emissão televisiva ininterrupta de 71 horas.
“In Dallas, Texas, three shots were fired at President Kennedy’s motorcade in downtown Dallas. The first reports say that President Kennedy has been seriously wounded by this shooting.” [Em Dallas, Texas, foram disparados três tiros sobre o cortejo do Presidente Kennedy. As primeiras informações dão conta que o Presidente Kennedy ficou gravemente ferido no tiroteio]
A notícia que não queria ser dada
Estamos a 22 de novembro de 1963, o relógio marca 12h40 e pela voz de Walter Cronkite (CBS) a América é informada do atentado a John F. Kennedy. A CBS antecipa-se à concorrente NBC por menos de um minuto.
Nessa sexta-feira, Walter Cronkite prepara mais uma emissão do seu noticiário da tarde enquanto a telenovela “As the World Turns” está no ar. A informação sobre o tiroteio apanha a equipa de surpresa. O primeiro anúncio é feito através da leitura de um boletim por cima de uma imagem fixa de um placard CBS News.
A emissão volta à programação normal. Mas a redação da CBS está ao rubro. As informações continuam a chegar e a telenovela é interrompida para mais boletins especiais que dão conta dos últimos desenvolvimentos.
Depois de múltiplos boletins, a notícia ganha imagem. Em vez de utilizar os estúdios habituais, que se assemelham a uma sala de estar, Cronkite conduz a emissão diretamente a partir da redação. Foi aí que informa os norte-americanos da morte do seu Presidente.
Uma hora depois do tiroteio, 68 por cento da população nacional já sabe da notícia. Duas horas depois, o valor ascende aos 92 por cento. Metade descobre através da TV ou da rádio. Apesar da tecnologia incipiente de 1963, os jornalistas intuem a necessidade de transmitir em direto do local. As emissoras enviam jornalistas para fazer a cobertura e deixam as imagens falar sempre que possível.
Um país em agitação
A cobertura mediática não se limitou ao local do crime. Em Washington, os repórteres aguardam a chegada do corpo de Kennedy e da comitiva presidencial. O Air Force One, que essa manhã transporta Kennedy para Dallas, traz agora outro Presidente de volta a Washington. Poucas horas depois da morte de Kennedy, a bordo do Air Force One, Lyndon B. Johnson é oficializado como o 36.º Presidente dos Estados Unidos da América. A seu lado, ainda com as roupas manchadas de sangue que usa no cortejo, a agora viúva Jacqueline Kennedy.
A rivalidade entre JFK e Lyndon B. Johnson
A relação entre os dois democratas nem sempre é pacífica. Ambos competem nas Primárias que definem o candidato presidencial para as eleições de 1960. Apesar da sua experiência, Johnson perde para JFK, que é o candidato nomeado pelo partido.
A possível tensão entre os políticos é ocultada pela aparente cordialidade, culminando com o convite a Johnson para a vice-presidência. Com a morte de Kennedy, Johnson assumiu a liderança do país.
À chegada a Washington, Lyndon B. Johnson faz as suas primeiras declarações na qualidade de novo Presidente dos Estados Unidos da América.
«Esta é uma data triste para todos. Sofremos uma perda que não pode ser colmatada. Para mim, é uma profunda tragédia pessoal»
Em Dallas, o crime já tem um rosto. Lee Harvey Oswald, de 24 anos, é detido pelo alegado assassinato de um polícia e descobrem-se provas que o ligavam aos disparos sobre Kennedy. Ao final da tarde, os telespetadores podem observar a marcha de Oswald, algemado, para a sede da polícia de Dallas. Ainda nessa noite, é formalmente acusado do assassinato do Presidente dos Estados Unidos.
O suspeito é exibido em permanência perante os jornalistas, que o questionavam diretamente. No entanto, o suspeito nega, em todos os momentos, ter disparado sobre Kennedy.
O círculo mediático é tão apertado que a televisão ganha contornos de sala de tribunal, com os seus culpados, vítimas e acusadores.
A manchete universal
No sábado, dia seguinte ao assassinato, a notícia torna-se global. Os jornais fazem capa com a morte do Presidente, os últimos desenvolvimentos da investigação e as reações de líderes e autoridades mundiais. Portugal não é exceção. A morte de Kennedy faz capas dos periódicos nacionais, depois da necessária aprovação da Censura.
Apesar de, em 1960, se estimar que 88 a 90% dos lares norte-americanos têm um aparelho de televisão, os jornais e a rádio continuam a ser a principal fonte de notícias. Isso está prestes a mudar. A televisão leva a tragédia às casas dos Americanos. Foi com o assassinato de Kennedy que os Estados Unidos se tornam verdadeiramente numa nação televisiva. Ao longo desse fim-de-semana de novembro, os olhos da nação estão colados ao aparelho, onde a cobertura se centrava nas cerimónias fúnebres.
O assassinato do alegado assassínio
No domingo, a NBC está prestes a concluir uma reportagem de dois minutos a partir do Massachusetts, terra natal de Kennedy, quando Tom Pettit, que cobre a esquadra de Dallas, grita «Coloquem-me no ar! Coloquem-me no ar!» As câmaras da NBC voam para Dallas, onde o alegado assassino Lee Oswald é escoltado para uma carrinha na garagem da sede da polícia. Do lado inferior direito da televisão, um homem precipita-se sobre Oswald. Ouve-se um tiro. Oswald cai. A voz de Tom Pettit sobrepõe-se ao caos.
O assassínio de Oswald é transmitido em direto para todo o país. A sua versão dos factos fica perdida para sempre. Jack Ruby é o homem misterioso que dispara sobre Oswald. Detido e acusado de homicídio, Ruby é condenado à pena capital, mas acaba por morrer de cancro enquanto aguarda novo julgamento. Não sem antes deixar a sua versão da história, numa entrevista feita pelo seu advogado e pelo seu irmão.
A cobertura mediática do funeral de JFK
Nos três dias que se seguem ao assassínio, as cerimónias fúnebres de JFK são alvo de intensa cobertura mediática. A América assiste incrédula aos últimos desenvolvimentos enquanto o mundo chorava a morte do Presidente.
Na segunda-feira, 25 de novembro, o funeral é acompanhado ao minuto e conquista uma das mais elevadas audiências jamais registadas nos Estados Unidos.
O rescaldo
Desde o momento do tiroteio até ao funeral em Washington, os principais canais norte-americanos suspendem a programação habitual, privilegiando a transmissão em direto. A CBS tem um total de 55 horas de emissão. A ABC chega às 60 horas. A NBC atinge as 71 horas.
Uma semana depois da morte de Kennedy, é instaurada a Warren Commission para investigar os acontecimentos. O relatório final é apresentado em setembro de 1964. Oswald é apontado como o culpado pela morte de Kennedy, considerando-se que tanto ele como Ruby agiram sozinhos.
Os resultados da investigação trouxeram o tema de volta para os meios de comunicação. Contudo, as conclusões têm sido questionadas ao longo dos anos.
Kennedy, um fenómeno mediático
A intensidade da cobertura mediática da morte de Kennedy não teve precedentes na História norte-americana. Afinal JFK era, ele próprio, um produto dos meios de comunicação.
Em 1960, o icónico debate que opõe o então senador Kennedy a Richard Nixon é o primeiro a ser transmitido na televisão. Nixon, a recuperar de uma recente hospitalização, apareceu no ecrã pálido e fragilizado. Kennedy, em contraste, parecia confiante e calmo.
Nesta fase da carreira política de Kennedy, a fronteira entre político e estrela televisiva esbate-se. Acompanhado pela esposa Jacqueline, JFK conquistou os votos da América ao conquistar os seus televisores. A criação de uma figura mítica, que não se apagou com a sua morte.
Uma semana depois do assassínio, o jornalista Theodore White recebe uma chamada de Jacqueline Kennedy. A antiga Primeira Dama escolhe White, vencedor de um prémio Pulitzer, para fazer chegar as suas palavras ao mundo. White liga aos editores a informar do exclusivo, mas a edição da Life estava prestes a fechar. Esperar pelo artigo ia custar 30 mil dólares por hora. A entrevista avança. O objetivo de Jacqueline Kennedy? «Que o Jack não seja esquecido pela História».
A fechar a entrevista, a antiga Primeira-dama alude à banda sonora do musical sobre Camelot, que costumava ouvir com JFK. «Não deixem que seja esquecido que houve, uma vez, um lugar, por um breve, brilhante momento, conhecido como Camelot», cita. «Haverão ótimos presidentes novamente, mas nunca haverá outro Camelot». As palavras fazem eco pelo país.
A Primeira-dama
Esta não é a primeira vez que Jacqueline Kennedy assume o protagonismo. A Primeira-dama conquista um papel de destaque na carreira política de JFK.
Ao longo da campanha para as presidenciais de 1960, Jacqueline Kennedy dá entrevistas, grava anúncios e contribui para fortalecer a imagem e reputação de JFK. Durante a gravidez, por conselho médico, deixa de acompanhar o marido nas viagens. Receando o efeito que a sua ausência pudesse ter na campanha, Jacqueline é aconselhada a escrever uma coluna diária que apelasse ao voto feminino. Assim surge “Campaign Wife”, publicada em jornais pelo país fora.
Bad News
Crise dos mísseis de Cuba
Outubro de 1962. Este episódio político-militar, entra para a história como um dos momentos de maior tensão a nível mundial. É o clímax da Guerra Fria.
Duas potências mundiais e Cuba, num dos episódios chave da Guerra Fria.
A crise dos Mísseis de Cuba tem início a 16 de outubro de 1962, quando um avião espião U-2 norte-americano descobre bases de mísseis soviéticos instaladas em Cuba. A localização assegura alcance suficiente para um ataque direto aos Estados Unidos da América, uma vez que a distância era apenas de 150 km. Dois dias depois, por ordem do presidente John Kennedy, têm início manobras militares perto de Porto Rico. Da Casa Branca não chega qualquer tipo de explicação oficial. Este momento de tensão mundial entra para História, como representação o clímax da Guerra Fria.
O Bloqueio
A 22 de outubro, o presidente John F. Kennedy dirige-se ao país e ao mundo, através da televisão e rádio, verbalizando a ameaça: «Essas bases não devem ter outro objetivo que o ataque nuclear contra o mundo ocidental». «Nem os Estados Unidos nem a comunidade internacional irão aceitar esta ameaça».
No mesmo discurso, Kennedy anuncia a sua decisão de bloquear os navios russos que fazem o transporte de armas para a ilha de Fidel Castro. Nikita Khrushchev responde que os seus navios prosseguem a marcha e o mundo fica em suspenso. O conflito nuclear parece iminente.
As notícias seguem-se com apreensão e receio nos dias subsequentes e faz-se fila para comprar o jornal.
Em Portugal, também é notícia
Os jornais portugueses também seguem o desenrolar dos acontecimentos.«A ameaça nuclear paira sobre o mundo» é a manchete doDiário de Notícias a 24 de outubro. O Diário de Lisboa também faz manchete «Os EUA decididos a cortar o caminho a um grupo de navios soviéticos que navegam no Atlântico com rumo a Cuba».
O Fim provisório
Oficialmente, a crise termina a 28 de outubro, quando Kennedy e Nikita Khrushchev chegam a acordo para retirar os mísseis de Itália e Turquia, por parte dos Estados Unidos, e os de Cuba, por parte da União Soviética. Mas o debate em torno dos contornos deste episódio está longe do fim.
O poder da televisão
A decisão de Kennedy em anunciar oficialmente o bloqueio através da televisão, a 10 de outubro de 1962, em vez dos canais diplomáticos tradicionais, é parte de um plano para dar ao ultimato a «máxima força», segundo o historiador dos media Erik Barnouw. Tal decisão é importante estrategicamente e politicamente depois do fiasco com a invasão da Baía dos Porcos que deixa o Presidente vulnerável.
«O compromisso assumido na televisão, retransmitido em todo o mundo através do satélite, criava uma situação que parecia tornar impossível qualquer retrocesso», escreve Barnouw.
Atualmente é consensual entre estudiosos e académicos que o discurso de Kennedy na televisão e rádio leva a uma mudança generalizada na atuação da cobertura mediática do acontecimento. Mesmo os jornais republicanos passam a reportar de forma mais favorável a política externa, ajudando a construir a sua reputação de líder forte sensível, em pleno controlo das situações.
E como as notícias são o «primeiro rascunho da história» (“first rough draft of history”), nas palavras de Phil Graham, nem sempre o que prevalece na memória é o retrato mais fiel do que verdadeiramente acontece, mas antes uma narrativa simplificada.
Se o «mito» do Presidente que salva o mundo da guerra nuclear prevalece inatacável durante décadas, bem como a versão simplificada dos acontecimentos, repetida e ensinada e com contornos de lenda, a cobertura de outros episódios de conflito internacional indiciam que pouco muda na forma como os media norte-americanos reportam a atuação da Casa Branca em matéria de política externa.
A interrogação dos media
«O poder da imprensa é levantar questões, fazer perguntas, estimular o debate e a discussão pública. O que não acontece em 1962», aponta James McCartney, antigo correspondente em Washington, num texto para a American Journalism Review, acrescentando que atualmente, e da leitura de vários documentos com as duas versões da história, se considera que a base instalada pelos soviéticos tem como propósito defender Cuba, o que altera de forma radical a narrativa conhecida.
E se esta é a versão ocidental da narrativa, no lado soviético, do outro lado da cortina de ferro, a imprensa é totalmente controlada pelo Estado, pelo que as notícias veiculadas não primam pela clareza e objetividade, apresentando várias omissões e deturpações. As primeiras notícias do bloqueio são dadas pelo Pravda, jornal oficial do regime, sem qualquer referência à existência de bases de mísseis em Cuba. A ameaça vinha dos Estados Unidos e o alvo era Cuba, que os soviéticos tinham de defender.
Duas potências mundiais, duas histórias diferentes
Duas potências em confronto, duas versões diferentes da mesma história. E a conclusão de que a cobertura mediática serve para veicular, sem questionar, as narrativas oficiais.
Num artigo longo e pormenorizado sobre a crise dos mísseis soviéticos em Cuba da revista Atlantic é dito que Kennedy é tão responsável como Nikita Khrutchev – aos mísseis americanos na Turquia apontados para Moscovo, os soviéticos respondem com mísseis apontados à América.
Mas a revista põe a balança a favor de Moscovo: os americanos retiram os mísseis da Turquia e prometem não derrubar Castro.
A verdade é que o tempo e a história corrompem a aura criada em torno de John F. Kennedy. Poem a nu a construção de perceções. Lapidam o mito tornando-o novamente num homem.
O artigo da revista Atlantic é perentório: o spin dos acontecimentos e a interpretação da Casa Branca dos eventos são perpassados por uma imprensa crédula e instrumentalizada, que ajuda na criação e projeção da liderança do presidente norte-americano, num um momento, aliás, de quebra de popularidade. Documentos oficiais revelam que a narrativa oficial norte-americana foi uma construção de quem esteve envolvido no processo. O ajuste na memória coletiva demorará certamente mais tempo.
Bad News
Naufrágio do Titanic
Em abril de 1912, o «maior e mais luxuoso navio do mundo» embate contra um icebergue e afunda-se provocando a morte a 1500 passageiros e tripulantes. No dia seguinte, a imprensa inglesa anuncia que não se tinham registado vítimas.
O embate
Às 23h40 do dia 14 de abril de 1912, algures no Oceano Atlântico, o RSM Titanic embate num icebergue e dá início à sua viagem final até águas profundas. Mais de 1500 passageiros são arrastados com o Titanic.
Desde aquela noite fatídica, a história do navio dos sonhos corre mundo e conquista o seu lugar no imaginário cultural.
Poucas horas após o acidente, a Associated Press emite um comunicado que dava conta do embate do RMS Titanic contra um iceberg e do pedido de ajuda imediata. A notícia rompe a tranquilidade de uma pacata noite de domingo nas redações norte-americanas. À falta de mais informações, os editores decidem abordar a notícia com cautela; afinal, o Titanic era o maior e mais moderno navio jamais construído. Ainda assim, o jornalista Carr Van Anda é a exceção.
A cobertura mediática
Carr Van Anda lidera a redação numa pesquisa frenética sobre o Titanic e prepara a capa que se viria a tornar icónica. O managing editor do New York Times percebe que o silêncio das comunicações do Titanic não augurava boas notícias para embarcação.
Do outro lado do Atlântico, houve quem optasse por publicar uma versão cautelosa. A International Mecantile Marine, responsável pela White Star Line, faz chegar às redações o seu parecer, descrevendo o navio como “impossível de afundar”. As declarações contribuem para aumentar a confusão e os relatos contraditórios.
A diferença horária beneficia os jornais norte-americanos, que têm mais tempo para reunir o maior número de factos possível e construir uma narrativa. Mas mesmo as versões mais moderadas deixam antever a verdadeira dimensão da tragédia.
Nos dias que se seguem ao naufrágio, a notícia corre mundo e chega a Portugal.
Nos vários periódicos, a cobertura pauta-se pela utilização de técnicas inovadoras a nível gráfico, que permitem ilustrar a dimensão da tragédia de forma mais compreensível para os leitores. Detalhes técnicos e geográficos do acidente ganham vida através de ilustrações e gráficos laboriosamente elaborados, fornecendo um ponto de referência visual.
Com a divulgação da lista completa dos passageiros, a tragédia ganha rostos. A elite da sociedade da época que viajava a bordo do navio é o principal alvo da cobertura mediática.
As estórias do naufrágio
A cobertura mediática do naufrágio é feita de pequenas estórias. Dos passageiros à tripulação, passando pelos construtores do navio, as páginas dos periódicos enchem-se de novos protagonistas.
Mas os protagonistas mais aguardados estão a bordo do Carpathia. O navio que resgatou os sobreviventes do Titanic não está autorizado a comunicar com a imprensa sobre os detalhes da tragédia. Aos jornalistas resta-lhes esperar.
A chegada do Carpathia a Nova Iorque estava prevista para quinta-feira, 18 de abril. A bordo vêm os sobreviventes, as únicas testemunhas dos horrores da fatídica madrugada. Aceder a um relato na primeira pessoa era o principal objetivo dos jornalistas apinhados no porto nova-iorquino.
Depois da cobertura inovadora do The New York Times,nas horas imediatamente a seguir ao naufrágio, Van Anda tem os olhos postos num objetivo – falar com Harold Bride, operador do telégrafo do Titanic. Se há alguém com conhecimento dos acontecimentos da madrugada de 15 de abril, é Bride e o The New York Times tinha de ouvir a sua história.
O Carpathia atraca às 21h30 e a edição fechava três horas depois. Van Anda não se deixa intimidar. O The New York Timesocupa um piso inteiro de um hotel perto das docas, que transforma no seu quartel-general, com telefones ligados à redação. Dezasseis jornalistas são destacados para tentarem recolher não só testemunhos dos sobreviventes, mas também as pequenas histórias que envolvem a chegada do Carpathia, a reação da multidão e as medidas policiais.
Num golpe de genialidade que se revela frutífero, Van Anda envia o jornalista Jim Speers para entrevistar Guglielmo Marconi, conhecido pelo seu trabalho de desenvolvimento do telégrafo sem fios. O repórter segue Marconi para o interior do Carpathia, restrito a jornalistas.
A aventura resulta numa entrevista que fica na História, e uma peça que coroa o trabalho do The New York Times, considerado pelos especialistas como a primeira verdadeira cobertura mediática de desastres.
Contudo, o The New York Times não é o único a desafiar o black out do Carpathia. Nessa distante noite de abril, o The Evening Worlddepara-se, inesperadamente, com um interlocutor precisamente no local mais desejado: a bordo do Carpathia.
Um jornalista do The St. Louis Post-Dispatch– publicação, tal como o The Evening World, detida pela família Pulitzer – encontra-se a bordo da embarcação em lazer, quando o navio se desvia da rota para prestar auxílio aos sobreviventes do Titanic. Da sua posição priveligiada, Carlos F. Hurd consegue relatos em primeira mão das vítimas da tragédia. Apesar disso, contornar a política de silêncio do navio para entregar o exclusivo ao jornal mostra-se, porém, uma tarefa mais desafiante.
Na impossibilidade de aceder ao navio, Charles E. Chapin, city editor do The Evening World, aluga um barco para se aproximar o mais possível do Carpathia. Inclinado sobre o corrimão, conta a lenda que o jornalista Carlos F. Hurd atira o manuscrito para os braços expetantes de Chapin, um conjunto de relatos que ajudou a reconstituir a noite trágica vivida no Atlântico.
Durante as décadas que se seguem, e até aos nossos dias, o Titanic e as vidas dos seus malogrados passageiros fascinam o mundo.
Um acontecimento intemporal
Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, o acidente ganha diversas plataformas de investigação e divulgação. Filmagens da época sobrevivem à passagem do tempo e contribuem para imortalizar a história do desastre.
Ao longo das décadas, a BBC reuniu relatos de sobreviventes, fragmentos de uma das maiores tragédias marítimas do século XX.
Na televisão, os documentários utilizam a mais recente tecnologia para explorar os mistérios do navio e descobrir as histórias que estão por contar.
Dos factos provados ao imaginário popular, a história do Titanic navega pelo mar da memória e é um dos acontecimentos mais mediáticos do século XX. Desde cedo que a tragédia inspira manifestações culturais dos mais variados géneros.
A mais famosa adaptação chega em 1997, pela mão de James Cameron. A longa-metragem protagonizada por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio é um êxito de bilheteira. Com 11 Óscares da Academia, é um dos filmes mais premiados da História da Sétima Arte.
A atenção mediática que gera torna o filme num verdadeiro clássico dos tempos modernos. Mais de cem anos depois, o naufrágio do Titanic continua a gerar narrativas e a conquistar interesse pelo mundo fora. Imortalizada na memória e na pop culture, a viagem inaugural do navio conquista lugar no imaginário de várias gerações.
Recuar no tempo e explorar a cobertura mediática da época é perceber de que forma a tragédia se torna pública, que informações são divulgadas e que informações se afundam com o navio naquela terrível noite de abril.
A atenção mediática dedicada ao Titanic é crucial para garantir que a história e as estórias do “navio dos sonhos” não tenham permanecido para sempre submersas nas profundezas do Atlântico.
Fátima
Entrevistas
A compreensão da mensagem de Fátima em entrevistas com João César das Neves, Joaquim Franco, Aura Miguel, Jorge Reis-Sá, Jorge Duarte, Leopoldina Simões, Pedro Valinho Gomes, Marco Daniel Duarte e o Reitor do Santuário Carlos Cabecinhas.
Capas 50 anos
2015
TERROR EM PARIS
Muito desgastado pelas medidas do programa de resgate da troika e por desentendimentos com o seu parceiro de coligação Paulo Portas, Passos Coelho, surpreendentemente, venceu as eleições legislativas de 2015 com 38,50% dos votos, o que não lhe garantia a maioria no Parlamento. Foi empossado um Governo de gestão que durou 27 dias, até que, numa inédita reviravolta, António Costa conseguiu um acordo com o Bloco de Esquerda (que tinha tido a maior votação da sua história) e com a CDU (contando com o apoio parlamentar do novo partido PAN — Pessoas-Animais-Natureza) e tomou posse como primeiro-ministro. Começavam os dias da ‘geringonça’.
Em abril, para que António Costa se preparasse para as legislativas, a Câmara Municipal de Lisboa ficou entregue a Fernando Medina. Miguel Albuquerque torna-se presidente do PSD Madeira, e Alberto João Jardim demite-se da presidência do Governo Regional. Estava a um mês de cumprir 37 anos no poder (já tinha batido o recorde de Salazar).
José Sócrates estava na prisão de Évora, e os portugueses passaram a ouvir falar diariamente da Operação Marquês.
Investigavam-se transferências superiores a 20 milhões de euros de Carlos Santos Silva, amigo de Sócrates, para este, que provinham de luvas pagas pelo Grupo Lena, pelo resort Vale do Lobo e pelo GES (Grupo Espírito Santo). Entre os arguidos estão o ex-ministro Armando Vara, o banqueiro Ricardo Salgado, Joaquim Barroca, administrador do Grupo Lena, Zeinal Bava, ex-presidente da Oi, Henrique Granadeiro, ex-presidente da Portugal Telecom, Rui Horta e Costa, ex- -administrador do Vale do Lobo Resort Turístico de Luxo, o empresário Hélder Bataglia, João Perna, motorista de José Sócrates, ou Sofia Fava, ex-mulher de Sócrates.
Em 2015, o Estado teve de acudir a mais um banco, desta vez o Banif. Uma notícia da TVI de que o banco iria ser alvo de uma intervenção pública levou a uma corrida aos depósitos e provocou mesmo um processo de resolução. Os ativos bons foram vendidos ao Banco Santander Totta.
Em Paris viveram-se em janeiro três dias de terror. Um ataque de membros do Estado Islâmico à redação do jornal satírico “Charlie Hebdo” matou 12 pessoas, incluindo os cartoonistas Cabu, Charb, Honoré, Tignous e Wolinski. Entretanto, um outro terrorista matou uma mulher polícia e tomou reféns num supermercado, matando mais 4 pessoas.
Mais mortíferos ainda seriam os ataques terroristas de 13 de novembro na capital francesa. Em retaliação pelo envolvimento da França na guerra da Síria, o Estado Islâmico levou a cabo sete ataques. Várias pessoas em restaurantes foram mortas a tiro e três suicidas com coletes de explosivos fizeram-se explodir junto ao Stade de France, onde decorria um jogo da seleção ao qual assistia o Presidente François Hollande.
O pior massacre ocorreu no teatro Bataclan, durante um concerto dos Eagles of Death Metal, com 87 vítimas. No total morreram 130 pessoas e 7 terroristas.
Nesse ano, a Europa estava a tentar lidar com uma das piores crises migratórias da sua história. Calcula-se que 1 milhão e 700 mil pessoas tenham pedido asilo, vindas da Síria, Afeganistão, Nigéria, Paquistão, Iraque, Eritreia e Balcãs.
Cinco países construíram cercas nas fronteiras: Bulgária (com a Turquia), Hungria (com a Sérvia e a Croácia), Áustria (com a Eslovénia), Macedónia do Norte (com a Grécia) e Letónia (com a Rússia). O Mediterrâneo era um cemitério para incontáveis embarcações sobrelotadas a tentarem chegar a sítios como a ilha de Lampedusa. Uma fotografia de uma criança de 2 anos, Alan Kurdi, que morreu afogada no Mediterrâneo, teve um grande impacto mundial. Em Calais, França, nasceu um acampamento improvisado onde chegaram a viver 10 mil pessoas que queriam entrar no Reino Unido pelo Eurotúnel.
Neste ano faleceram Herberto Helder, Manoel de Oliveira, José Mariano Gago, Günter Grass, B. B. King, Ornette Coleman, Maria Barroso, Ana Hatherly… O serviço de streaming Netflix chega a Portugal, e pela primeira vez um estrangeiro descendente dos judeus sefarditas expulsos em 1497 por D. Manuel I teve direito à nacionalidade portuguesa.
Capas 50 anos
2014
A QUEDA DE SÓCRATES E DE SALGADO
Em 2014, nenhum acontecimento nacional parecia poder competir com a queda do Banco Espírito Santo e de Ricardo Salgado, em virtude de uma “gestão ruinosa”. Em agosto, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, anunciou um resgate do BES no valor de €4900 milhões. Foi criado o Novo Banco, para onde foram transferidos os ativos não-tóxicos do BES. Era o início da queda do banqueiro também conhecido como o “dono disto tudo”. Fernando Ulrich dizia no Expresso: “Vai ser preciso reunir historiadores, economistas e psiquiatras para perceber o caso BES.”
O que poderia competir com isto? “Sócrates detido por suspeita de corrupção”, titulou o Expresso. “Ex-primeiro-ministro detido à chegada de Paris. Corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal na mira da PGR.”
Perante a queda de Salgado e Sócrates, pareceu um assunto menor a fotografia e o título de 3 de maio: “Quinta-feira, 19h: o Expresso esteve na última reunião da troikacom o Governo.” A troikaestava de saída, a vida continuava difícil (“Salário mínimo mais baixo do que em 1974”), e toda a gente aderiu à Fatura da Sorte, uma ideia do Governo de sortear automóveis pelos consumidores que pedissem fatura com número de contribuinte, para combater a fuga aos impostos.
Outra causa nacional foi evitar a tentativa de leilão na Christie’s de 85 obras de arte de Juan Miró que fizeram parte dos bens do Banco Português de Negócios (BPN) e que passaram para posse do Estado com a nacionalização.
Nas eleições europeias de 2014 venceu o PS com Francisco Assis a cabeça de lista. Mesmo com essa vitória, Seguro é contestado internamente. “Foi poucochinho”, disse António Costa, acelerando a sucessão. Seguro quis eleições primárias, que perdeu para o então presidente da Câmara de Lisboa.
Mudanças também à esquerda: João Semedo sai da liderança do Bloco de Esquerda (viria a falecer em 2018) mantendo- se sozinha no cargo Catarina Martins.
Durão Barroso terminou a sua presidência da Comissão Europeia dando lugar ao luxemburguês Jean-Claude Juncker.
Em 2014, o Expresso publicou várias reportagens sobre jovens portugueses que se converteram ao islamismo e foram combater para a Síria integrados no Estado Islâmico. “Portugueses na fação mais radical da jihad”, escrevemos. Mais terrível foi a manchete “Jihadistas portugueses envolvidos nos vídeos das decapitações”, referindo-se ao infame “Jihadi John” que surgiu em vários vídeos a decapitar prisioneiros, como o fotojornalista norte-americano James Foley.
Também tivemos enviados especiais à Ucrânia, onde aconteceu uma revolução que tirou do poder Viktor Yanukovych, que se refugiou na Rússia. Putin acabou por invadir a Crimeia e promoveu um referendo que resultou na secessão desta região e na sua transformação num protetorado russo. Durante este conflito, o voo Malaysia Airlines 17, que viajava de Amesterdão para Kuala Lumpur, foi derrubado por um míssil lançado do leste da Ucrânia por russos e separatistas, causando a morte de 298 pessoas.
Ano terrível para a Malaysia Airlines, pois também o voo MH 370, entre Kuala Lumpur e Pequim, desapareceu dos radares quando sobrevoava o Golfo da Tailândia. Nunca mais seria encontrado, tendo os 227 passageiros e 12 tripulantes sido dados como mortos. A operação de resgate foi a maior de sempre, mas o desaparecimento continua a ser um mistério.
Susto com o surto de ébola na África Ocidental, que levou à declaração internacional de emergência de saúde pública, e fez mais de 11 mil mortos.
Felipe VI foi proclamado rei de Espanha. O pai abdicou na sequência de várias polémicas como a participação numa caçada a elefantes no Botsuana e relações extraconjugais.
Em julho, numa cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a Guiné Equatorial foi aceite como membro de pleno direito.
No Brasil começava a Operação Lava Jato, que iria levar a detenções de políticos e empresários, entre os quais o ex-Presidente Lula da Silva, em 2018. O Brasil também acolheu o Mundial de Futebol, onde Portugal foi eliminado na fase de grupos. Paulo Bento aguentou-se pouco mais tempo como selecionador, dando lugar a Fernando Santos.
Morreram Gabriel García Márquez, Vasco Graça Moura, Richard Attenborough, Joe Cocker, Paco de Lucía, Mário Coluna, Eusébio (cujo corpo seria transladado para o Panteão Nacional)…
Capas 50 anos
2013
LEAKS E MAIS LEAKS
Em 2013 regressou ‘Grândola Vila Morena’. A imortal canção de Zeca Afonso foi cantada nas galerias da Assembleia da República em protesto contra as medidas de austeridade, interrompendo um discurso de Pedro Passos Coelho, e a partir daí passou a ser um canto obrigatório em todas as manifestações contra o Governo, não apenas nas de esquerda.
A carestia de vida estava tão presente que o Expresso chegou a escrever que “Crise leva presos a recusar liberdade”, dando o exemplo de Carlos Mata, que “assaltou um banco para ser condenado”. O crime aumentava e o furto de metais não-preciosos atingiu recordes históricos: “Há 35 roubos de cobre por dia”. A EDP era a empresa mais lesada pelo roubo de cobre, fenómeno que tinha começado por volta de 2010, causando cerca de €66 milhões de prejuízos.
Nas eleições autárquicas o PS passou a ter mais câmaras do que o PSD, que até perdeu o Porto para Rui Moreira.
José Sócrates regressou às notícias. Primeiro por passar a ser “presidente do Conselho Consultivo para a América Latina da Octapharma, multinacional farmacêutica suíça”; depois porque terminou o mestrado em julho e vai publicar a tese em livro, em Portugal. “O trabalho é sobre tortura, o tema da dissertação. O livro é apresentado por Lula e lançado sob a égide da Fundação Mário Soares.”
Miguel Relvas, ministro dos Assuntos Parlamentares, foi obrigado a demitir-se na sequência da sua polémica licenciatura pela Lusófona, que acabou por ser anulada anos mais tarde.
Passos Coelho teve várias dores de cabeça, desde a demissão do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, passando pela “irrevogável” demissão de Paulo Portas, que afinal revogou, até ao Tribunal Constitucional (TC). Obrigado a cortes de €1,3 mil milhões, o Governo tentou suspender o subsídio de férias dos trabalhadores do sector privado e dos reformados e cortar nas baixas e nos subsídios de desemprego, mas o TC declarou as medidas inconstitucionais.
Na praia do Meco morreram afogados seis estudantes da Universidade Lusófona e um outro salvou-se. Foi uma praxe académica que correu mal ou estavam apenas ali a conversar e foram levados por uma onda?
Entre as mortes, destaque para Nelson Mandela, Margaret Thatcher, Urbano Tavares Rodrigues, Nagisa Oshima, Hugo Chávez, Óscar Lopes, Georges Moustaki, Seamus Heaney, António Ramos Rosa, Patrice Chéreau, Lou Reed, Doris Lessing, Nadir Afonso…
Do Vaticano chega um gesto inédito, a renúncia do Papa Bento XVI por razões de saúde, e a eleição do Papa Francisco.
Em 2013 teve alta hospitalar Malala Yousafzai, então com 16 anos, uma menina paquistanesa atacada a tiro pelos talibãs, devido à sua defesa do direito das mulheres à educação. Salva pelos médicos, foi capa da “Time” e receberia no ano seguinte o Prémio Nobel da Paz. Entrevistada pelo Expresso, disse que “o medo é impossível de esquecer”.
O Expresso também se associou ao Offshore Leaks, a maior investigação de sempre sobre paraísos fiscais. “Já foram detetados 22 nomes e 12 offshores com ligações a Portugal.”
Foi também nesse ano que o mundo ficou a conhecer Edward Snowden, um analista e administrador de sistemas norte-americano que tinha trabalhado na CIA e na NSA (a agência nacional de segurança) e que revelou a existência de um sistema de vigilância global de comunicações e de tráfego de dados online. A capacidade de espionagem eletrónica dos Estados Unidos, não só sobre os seus cidadãos, mas sobre qualquer pessoa, atropelando direitos civis e democráticos básicos, revelou mais um lado negro das consequências dos ataques do 11 de Setembro.
Capas 50 anos
2012
DA RUA DO OURO AOS VISTOS GOLD
A investigação do Expresso que revelou uma teia de ligações entre os serviços secretos e o grupo empresarial Ongoing, descobriu ligações à maçonaria. “Silva Carvalho, que transitou para a Ongoing acompanhado de mais dois ex-agentes do SIED, foi, tal como o presidente desta, Nuno Vasconcellos, chefe da loja maçónica Mozart, a que também pertenceu o atual líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro.”
Outra grande investigação foi a operação Monte Branco. “Dezenas de clientes da rede de branqueamento de capitais, liderada pelo banqueiro Michel Canals, entravam pela porta do nº 135 da rua do Ouro, em Lisboa, com malas de viagem cheias de euros. Lá dentro, o dono, Francisco Canas (‘Zé das Medalhas’), arranjava forma de as enviar de avião para a Suíça, onde o dinheiro era transformado em dólares”, contava o Expresso. A rede foi descoberta durante a investigação ao BPN, cujo presidente, Oliveira Costa, usava os seus serviços. Duarte Lima, José Maria Ricciardi, presidente do BES Investimento, e Ricardo Salgado foram constituídos arguidos.
O BPN foi reprivatizado através da venda ao Banco BIC e o Expresso escreveu que os “500 maiores clientes do BPN deixaram de pagar dívidas”. Os incumprimentos ascendiam a €3 mil milhões.
Outra novidade desse ano foi a criação dos “vistos gold”. “Paulo Portas (ministro dos Negócios Estrangeiros) vai criar títulos de residência especiais para cidadãos estrangeiros que procedam à aquisição em Portugal de ativos imobiliários de valor superior a €750 mil ou a quem faça investimento com criação de pelo menos trinta postos de trabalho.”
Passou a existir o Testamento Vital, o documento onde o cidadão pode manifestar a sua vontade sobre os cuidados de saúde que deseja, ou não, receber quando estiver incapaz de expressar a sua decisão.
Falando em mortes, em 2012 perdemos Miguel Portas, Bernardo Sassetti, Gustav Leonhardt, Fernando Lanhas, Antoni Tàpies, Antonio Tabucchi, Millôr Fernandes, Fernando Lopes, Donna Summer, Dietrich Fischer-Dieskau, Ray Bradbury, Gore Vidal, Neil Armstrong, Emmanuel Nunes, Eric Hobsbawm, Manuel António Pina, Oscar Niemeyer, Ravi Shankar…
O Bloco de Esquerda mudou de liderança passando a ter como coordenadores nacionais João Semedo e Catarina Martins.
Guimarães foi Capital Europeia da Cultura.
O Europeu de Futebol disputou-se na Polónia e na Ucrânia, tendo Portugal perdido a meia-final com a Espanha. Nos Jogos Olímpicos de Londres tivemos uma única medalha, a prata de Fernando Pimenta e de Emanuel Silva em canoagem.
Mas o acontecimento que marcou o ano foram as manifestações nacionais de 15 de setembro, um levantamento popular contra a troika e as medidas de austeridade (como as alterações na Taxa Social Única). Ficou conhecido como o protesto “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!”
Capas 50 anos
2011
CHEGOU A TROIKA
Após o chumbo do PEC 4 foram convocadas eleições antecipadas, e o Governo de José Sócrates avançou com um pedido de resgate ao Fundo Monetário Internacional, União Europeia e Banco Central Europeu no valor de €78 mil milhões. O pedido foi também assinado pelo PSD e pelo CDS, que formariam nesse ano um Governo de coligação, liderado por Passos Coelho e Paulo Portas. Ao perder as eleições, Sócrates sai da liderança do PS, sendo substituído por António José Seguro.
O calendário também ditou eleições presidenciais, tendo Cavaco Silva sido reeleito para um segundo mandato.
Com a troika a entrar em Portugal, “José Sócrates vai viver para Paris e estudar Filosofia”. Mesmo assim não faltaram por cá assuntos para fazer manchete.
Duarte Lima, ex-líder parlamentar do PSD, é acusado pela justiça brasileira de ter assassinado naquele país Rosalina Ribeiro, secretária do falecido milionário Lúcio Tomé Feteira.
Jorge Silva Carvalho, ex-diretor das secretas, é apanhado a fornecer informação à Ongoing, para onde foi trabalhar como assessor. O Expresso noticia que enquanto trabalhava no SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa) Silva Carvalho mandou espiar um jornalista do “Público” para descobrir as suas fontes.
Lemos no Expresso: “Cabo Verde é o país lusófono mais democrático, tendo ultrapassado Portugal, segundo o Índice da Democracia 2011, do Economist Intelligence Unit.”
Internacionalmente, os efeitos do derrube do regime tunisino no fim de 2010 espalharam-se ao mundo árabe: Jordânia, Omã, Egito, Iémen, Jibuti, Somália, Sudão, Iraque, Barém, Líbia, Kuwait, Marrocos, Mauritânia, Líbano, Arábia Saudita ou Síria. Com maiores ou menores alterações políticas ou sociais e com extrema violência em muitos desses países, a “primavera árabe” teve como principais consequências a queda por duas vezes do Governo no Egito (Hosni Mubarak e Mohamed Morsi), outras tantas no Iémen, e guerras civis no Iraque, na Líbia (incluindo a morte de Muamar Kadhafi), e na Síria (a mais terrível de todas, que escalou para envolvimento internacional e que ainda dura, mantendo-se no poder o Presidente Bashar al-Assad).
Em 2011 também a Grécia viveu dias de revolta popular por causa das medidas de austeridade impostas pela União Europeia na sequência do plano de resgate em vigor. No âmbito da crise da dívida pública da zona euro, já tinham sido alvo de resgate a Grécia e a Irlanda, em 2010, seguindo-se Portugal em 2011, Espanha em 2012 e Chipre em 2013.
Dias de revolta popular não vinculada a partidos que se fizeram contagiar a Espanha, com o Movimiento 15-M e os Indignados, a Portugal, com a Geração à Rasca e o grande protesto de 12 de março (embalado pela canção dos Deolinda ‘Parva Que Sou’ sobre uma geração com estudos superiores, mas que só consegue empregos precários), e aos Estados Unidos com o Occupy Wall Street.
A oriente, a vaga de fundo era outra, trágica. Um terramoto de magnitude 9,1, seguido de um tsunami, arrasou a região de Tohoku, no Japão. Mais de 15 mil pessoas morreram, 4 mil estão desaparecidas e cerca de 130 mil edifícios colapsaram. O desastre provocou ainda um acidente nuclear na central de Fukushima, que obrigou à criação de uma zona de isolamento de 20 quilómetros e obrigando centenas de milhares de residentes a abandonarem as suas casas.
A Noruega também viveu um dos piores momentos da sua história quando Anders Breivik, um ativista da extrema-direita, matou 77 pessoas e feriu 51 em dois atentados (uma explosão em Oslo, e um massacre a tiro na ilha de Utoya).
Morreram Steve Jobs, Maria José Nogueira Pinto, Malangatana, Elizabeth Taylor, Osama bin Laden, Roland Petit, Lucian Freud, Amy Winehouse, Júlio Resende, Montserrat Figueras, Christopher Hitchens, Cesária Évora, Kim Jong-il, Václav Havel…
Dilma Rousseff foi eleita Presidente do Brasil; e a população da Terra chegou aos 7 mil milhões.