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News Standard

Crise dos mísseis de Cuba

Outubro de 1962. Este episódio político-militar, entra para a história como um dos momentos de maior tensão a nível mundial. É o clímax da Guerra Fria.

Duas potências mundiais e Cuba, num dos episódios chave da Guerra Fria.

A crise dos Mísseis de Cuba tem início a 16 de outubro de 1962, quando um avião espião U-2 norte-americano descobre bases de mísseis soviéticos instaladas em Cuba. A localização assegura alcance suficiente para um ataque direto aos Estados Unidos da América, uma vez que a distância era apenas de 150 km. Dois dias depois, por ordem do presidente John Kennedy, têm início manobras militares perto de Porto Rico. Da Casa Branca não chega qualquer tipo de explicação oficial. Este momento de tensão mundial entra para História, como representação o clímax da Guerra Fria.

O Bloqueio

A 22 de outubro, o presidente John F. Kennedy dirige-se ao país e ao mundo, através da televisão e rádio, verbalizando a ameaça: «Essas bases não devem ter outro objetivo que o ataque nuclear contra o mundo ocidental». «Nem os Estados Unidos nem a comunidade internacional irão aceitar esta ameaça».

No mesmo discurso, Kennedy anuncia a sua decisão de bloquear os navios russos que fazem o transporte de armas para a ilha de Fidel Castro. Nikita Khrushchev responde que os seus navios prosseguem a marcha e o mundo fica em suspenso. O conflito nuclear parece iminente.

As notícias seguem-se com apreensão e receio nos dias subsequentes e faz-se fila para comprar o jornal.

Em Portugal, também é notícia

Os jornais portugueses também seguem o desenrolar dos acontecimentos.«A ameaça nuclear paira sobre o mundo» é a manchete doDiário de Notícias a 24 de outubro. O Diário de Lisboa também faz manchete «Os EUA decididos a cortar o caminho a um grupo de navios soviéticos que navegam no Atlântico com rumo a Cuba».

O Fim provisório

Oficialmente, a crise termina a 28 de outubro, quando Kennedy e Nikita Khrushchev chegam a acordo para retirar os mísseis de Itália e Turquia, por parte dos Estados Unidos, e os de Cuba, por parte da União Soviética. Mas o debate em torno dos contornos deste episódio está longe do fim.

O poder da televisão

A decisão de Kennedy em anunciar oficialmente o bloqueio através da televisão, a 10 de outubro de 1962, em vez dos canais diplomáticos tradicionais, é parte de um plano para dar ao ultimato a «máxima força», segundo o historiador dos media Erik Barnouw. Tal decisão é importante estrategicamente e politicamente depois do fiasco com a invasão da Baía dos Porcos que deixa o Presidente vulnerável.

«O compromisso assumido na televisão, retransmitido em todo o mundo através do satélite, criava uma situação que parecia tornar impossível qualquer retrocesso», escreve Barnouw.

Atualmente é consensual entre estudiosos e académicos que o discurso de Kennedy na televisão e rádio leva a uma mudança generalizada na atuação da cobertura mediática do acontecimento. Mesmo os jornais republicanos passam a reportar de forma mais favorável a política externa, ajudando a construir a sua reputação de líder forte sensível, em pleno controlo das situações.

E como as notícias são o «primeiro rascunho da história» (“first rough draft of history”), nas palavras de Phil Graham, nem sempre o que prevalece na memória é o retrato mais fiel do que verdadeiramente acontece, mas antes uma narrativa simplificada.

Se o «mito» do Presidente que salva o mundo da guerra nuclear prevalece inatacável durante décadas, bem como a versão simplificada dos acontecimentos, repetida e ensinada e com contornos de lenda, a cobertura de outros episódios de conflito internacional indiciam que pouco muda na forma como os media norte-americanos reportam a atuação da Casa Branca em matéria de política externa.

A interrogação dos media

«O poder da imprensa é levantar questões, fazer perguntas, estimular o debate e a discussão pública. O que não acontece em 1962», aponta James McCartney, antigo correspondente em Washington, num texto para a American Journalism Review, acrescentando que atualmente, e da leitura de vários documentos com as duas versões da história, se considera que a base instalada pelos soviéticos tem como propósito defender Cuba, o que altera de forma radical a narrativa conhecida.

E se esta é a versão ocidental da narrativa, no lado soviético, do outro lado da cortina de ferro, a imprensa é totalmente controlada pelo Estado, pelo que as notícias veiculadas não primam pela clareza e objetividade, apresentando várias omissões e deturpações. As primeiras notícias do bloqueio são dadas pelo Pravda, jornal oficial do regime, sem qualquer referência à existência de bases de mísseis em Cuba. A ameaça vinha dos Estados Unidos e o alvo era Cuba, que os soviéticos tinham de defender.

Duas potências mundiais, duas histórias diferentes

Duas potências em confronto, duas versões diferentes da mesma história. E a conclusão de que a cobertura mediática serve para veicular, sem questionar, as narrativas oficiais.

Num artigo longo e pormenorizado sobre a crise dos mísseis soviéticos em Cuba da revista Atlantic é dito que Kennedy é tão responsável como Nikita Khrutchev – aos mísseis americanos na Turquia apontados para Moscovo, os soviéticos respondem com mísseis apontados à América.

Mas a revista põe a balança a favor de Moscovo: os americanos retiram os mísseis da Turquia e prometem não derrubar Castro.

A verdade é que o tempo e a história corrompem a aura criada em torno de John F. Kennedy. Poem a nu a construção de perceções. Lapidam o mito tornando-o novamente num homem.

O artigo da revista Atlantic é perentório: o spin dos acontecimentos e a interpretação da Casa Branca dos eventos são perpassados por uma imprensa crédula e instrumentalizada, que ajuda na criação e projeção da liderança do presidente norte-americano, num um momento, aliás, de quebra de popularidade. Documentos oficiais revelam que a narrativa oficial norte-americana foi uma construção de quem esteve envolvido no processo. O ajuste na memória coletiva demorará certamente mais tempo.

Naufrágio do Titanic

Em abril de 1912, o «maior e mais luxuoso navio do mundo» embate contra um icebergue e afunda-se provocando a morte a 1500 passageiros e tripulantes. No dia seguinte, a imprensa inglesa anuncia que não se tinham registado vítimas.

O embate

Às 23h40 do dia 14 de abril de 1912, algures no Oceano Atlântico, o RSM Titanic embate num icebergue e dá início à sua viagem final até águas profundas. Mais de 1500 passageiros são arrastados com o Titanic.

Desde aquela noite fatídica, a história do navio dos sonhos corre mundo e conquista o seu lugar no imaginário cultural.

Poucas horas após o acidente, a Associated Press emite um comunicado que dava conta do embate do RMS Titanic contra um iceberg e do pedido de ajuda imediata. A notícia rompe a tranquilidade de uma pacata noite de domingo nas redações norte-americanas. À falta de mais informações, os editores decidem abordar a notícia com cautela; afinal, o Titanic era o maior e mais moderno navio jamais construído. Ainda assim, o jornalista Carr Van Anda é a exceção.

A cobertura mediática

Carr Van Anda lidera a redação numa pesquisa frenética sobre o Titanic e prepara a capa que se viria a tornar icónica. O managing editor do New York Times percebe que o silêncio das comunicações do Titanic não augurava boas notícias para embarcação.

Do outro lado do Atlântico, houve quem optasse por publicar uma versão cautelosa. A International Mecantile Marine, responsável pela White Star Line, faz chegar às redações o seu parecer, descrevendo o navio como “impossível de afundar”. As declarações contribuem para aumentar a confusão e os relatos contraditórios.

A diferença horária beneficia os jornais norte-americanos, que têm mais tempo para reunir o maior número de factos possível e construir uma narrativa. Mas mesmo as versões mais moderadas deixam antever a verdadeira dimensão da tragédia.

   Nos dias que se seguem ao naufrágio, a notícia corre mundo e chega a Portugal.

Nos vários periódicos, a cobertura pauta-se pela utilização de técnicas inovadoras a nível gráfico, que permitem ilustrar a dimensão da tragédia de forma mais compreensível para os leitores. Detalhes técnicos e geográficos do acidente ganham vida através de ilustrações e gráficos laboriosamente elaborados, fornecendo um ponto de referência visual.

Com a divulgação da lista completa dos passageiros, a tragédia ganha rostos. A elite da sociedade da época que viajava a bordo do navio é o principal alvo da cobertura mediática.

As estórias do naufrágio

A cobertura mediática do naufrágio é feita de pequenas estórias. Dos passageiros à tripulação, passando pelos construtores do navio, as páginas dos periódicos enchem-se de novos protagonistas.

Mas os protagonistas mais aguardados estão a bordo do Carpathia. O navio que resgatou os sobreviventes do Titanic não está autorizado a comunicar com a imprensa sobre os detalhes da tragédia. Aos jornalistas resta-lhes esperar.

A chegada do Carpathia a Nova Iorque estava prevista para quinta-feira, 18 de abril. A bordo vêm os sobreviventes, as únicas testemunhas dos horrores da fatídica madrugada. Aceder a um relato na primeira pessoa era o principal objetivo dos jornalistas apinhados no porto nova-iorquino.

Depois da cobertura inovadora do The New York Times,nas horas imediatamente a seguir ao naufrágio, Van Anda tem os olhos postos num objetivo – falar com Harold Bride, operador do telégrafo do Titanic. Se há alguém com conhecimento dos acontecimentos da madrugada de 15 de abril, é Bride e o The New York Times tinha de ouvir a sua história.

O Carpathia atraca às 21h30 e a edição fechava três horas depois. Van Anda não se deixa intimidar. O The New York Timesocupa um piso inteiro de um hotel perto das docas, que transforma no seu quartel-general, com telefones ligados à redação. Dezasseis jornalistas são destacados para tentarem recolher não só testemunhos dos sobreviventes, mas também as pequenas histórias que envolvem a chegada do Carpathia, a reação da multidão e as medidas policiais.

Num golpe de genialidade que se revela frutífero, Van Anda envia o jornalista Jim Speers para entrevistar Guglielmo Marconi, conhecido pelo seu trabalho de desenvolvimento do telégrafo sem fios. O repórter segue Marconi para o interior do Carpathia, restrito a jornalistas.

A aventura resulta numa entrevista que fica na História, e uma peça que coroa o trabalho do The New York Times, considerado pelos especialistas como a primeira verdadeira cobertura mediática de desastres.

Contudo, o The New York Times não é o único a desafiar o black out do Carpathia. Nessa distante noite de abril, o The Evening Worlddepara-se, inesperadamente, com um interlocutor precisamente no local mais desejado: a bordo do Carpathia.

Um jornalista do The St. Louis Post-Dispatch– publicação, tal como o The Evening World, detida pela família Pulitzer – encontra-se a bordo da embarcação em lazer, quando o navio se desvia da rota para prestar auxílio aos sobreviventes do Titanic. Da sua posição priveligiada, Carlos F. Hurd consegue relatos em primeira mão das vítimas da tragédia. Apesar disso, contornar a política de silêncio do navio para entregar o exclusivo ao jornal mostra-se, porém, uma tarefa mais desafiante.

Na impossibilidade de aceder ao navio, Charles E. Chapin, city editor do The Evening World, aluga um barco para se aproximar o mais possível do Carpathia. Inclinado sobre o corrimão, conta a lenda que o jornalista Carlos F. Hurd atira o manuscrito para os braços expetantes de Chapin, um conjunto de relatos que ajudou a reconstituir a noite trágica vivida no Atlântico.

Durante as décadas que se seguem, e até aos nossos dias, o Titanic e as vidas dos seus malogrados passageiros fascinam o mundo.

Um acontecimento intemporal

Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, o acidente ganha diversas plataformas de investigação e divulgação. Filmagens da época sobrevivem à passagem do tempo e contribuem para imortalizar a história do desastre.

Ao longo das décadas, a BBC reuniu relatos de sobreviventes, fragmentos de uma das maiores tragédias marítimas do século XX.

Na televisão, os documentários utilizam a mais recente tecnologia para explorar os mistérios do navio e descobrir as histórias que estão por contar.

Dos factos provados ao imaginário popular, a história do Titanic navega pelo mar da memória e é um dos acontecimentos mais mediáticos do século XX. Desde cedo que a tragédia inspira manifestações culturais dos mais variados géneros.

A mais famosa adaptação chega em 1997, pela mão de James Cameron. A longa-metragem protagonizada por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio é um êxito de bilheteira. Com 11 Óscares da Academia, é um dos filmes mais premiados da História da Sétima Arte.

A atenção mediática que gera torna o filme num verdadeiro clássico dos tempos modernos. Mais de cem anos depois, o naufrágio do Titanic continua a gerar narrativas e a conquistar interesse pelo mundo fora. Imortalizada na memória e na pop culture, a viagem inaugural do navio conquista lugar no imaginário de várias gerações.

Recuar no tempo e explorar a cobertura mediática da época é perceber de que forma a tragédia se torna pública, que informações são divulgadas e que informações se afundam com o navio naquela terrível noite de abril.

A atenção mediática dedicada ao Titanic é crucial para garantir que a história e as estórias do “navio dos sonhos” não tenham permanecido para sempre submersas nas profundezas do Atlântico.

Entrevistas

A compreensão da mensagem de Fátima em entrevistas com João César das Neves, Joaquim Franco, Aura Miguel, Jorge Reis-Sá, Jorge Duarte, Leopoldina Simões, Pedro Valinho Gomes, Marco Daniel Duarte e o Reitor do Santuário Carlos Cabecinhas.

2015

TERROR EM PARIS

Muito desgastado pelas medidas do programa de resgate da troika e por desentendimentos com o seu parceiro de coligação Paulo Portas, Passos Coelho, surpreendentemente, venceu as eleições legislativas de 2015 com 38,50% dos votos, o que não lhe garantia a maioria no Parlamento. Foi empossado um Governo de gestão que durou 27 dias, até que, numa inédita reviravolta, António Costa conseguiu um acordo com o Bloco de Esquerda (que tinha tido a maior votação da sua história) e com a CDU (contando com o apoio parlamentar do novo partido PAN — Pessoas-Animais-Natureza) e tomou posse como primeiro-ministro. Começavam os dias da ‘geringonça’.

Em abril, para que António Costa se preparasse para as legislativas, a Câmara Municipal de Lisboa ficou entregue a Fernando Medina. Miguel Albuquerque torna-se presidente do PSD Madeira, e Alberto João Jardim demite-se da presidência do Governo Regional. Estava a um mês de cumprir 37 anos no poder (já tinha batido o recorde de Salazar).

José Sócrates estava na prisão de Évora, e os portugueses passaram a ouvir falar diariamente da Operação Marquês.

Investigavam-se transferências superiores a 20 milhões de euros de Carlos Santos Silva, amigo de Sócrates, para este, que provinham de luvas pagas pelo Grupo Lena, pelo resort Vale do Lobo e pelo GES (Grupo Espírito Santo). Entre os arguidos estão o ex-ministro Armando Vara, o banqueiro Ricardo Salgado, Joaquim Barroca, administrador do Grupo Lena, Zeinal Bava, ex-presidente da Oi, Henrique Granadeiro, ex-presidente da Portugal Telecom, Rui Horta e Costa, ex- -administrador do Vale do Lobo Resort Turístico de Luxo, o empresário Hélder Bataglia, João Perna, motorista de José Sócrates, ou Sofia Fava, ex-mulher de Sócrates.

Em 2015, o Estado teve de acudir a mais um banco, desta vez o Banif. Uma notícia da TVI de que o banco iria ser alvo de uma intervenção pública levou a uma corrida aos depósitos e provocou mesmo um processo de resolução. Os ativos bons foram vendidos ao Banco Santander Totta.

Em Paris viveram-se em janeiro três dias de terror. Um ataque de membros do Estado Islâmico à redação do jornal satírico “Charlie Hebdo” matou 12 pessoas, incluindo os cartoonistas Cabu, Charb, Honoré, Tignous e Wolinski. Entretanto, um outro terrorista matou uma mulher polícia e tomou reféns num supermercado, matando mais 4 pessoas.

Mais mortíferos ainda seriam os ataques terroristas de 13 de novembro na capital francesa. Em retaliação pelo envolvimento da França na guerra da Síria, o Estado Islâmico levou a cabo sete ataques. Várias pessoas em restaurantes foram mortas a tiro e três suicidas com coletes de explosivos fizeram-se explodir junto ao Stade de France, onde decorria um jogo da seleção ao qual assistia o Presidente François Hollande.

O pior massacre ocorreu no teatro Bataclan, durante um concerto dos Eagles of Death Metal, com 87 vítimas. No total morreram 130 pessoas e 7 terroristas.

Nesse ano, a Europa estava a tentar lidar com uma das piores crises migratórias da sua história. Calcula-se que 1 milhão e 700 mil pessoas tenham pedido asilo, vindas da Síria, Afeganistão, Nigéria, Paquistão, Iraque, Eritreia e Balcãs.

Cinco países construíram cercas nas fronteiras: Bulgária (com a Turquia), Hungria (com a Sérvia e a Croácia), Áustria (com a Eslovénia), Macedónia do Norte (com a Grécia) e Letónia (com a Rússia). O Mediterrâneo era um cemitério para incontáveis embarcações sobrelotadas a tentarem chegar a sítios como a ilha de Lampedusa. Uma fotografia de uma criança de 2 anos, Alan Kurdi, que morreu afogada no Mediterrâneo, teve um grande impacto mundial. Em Calais, França, nasceu um acampamento improvisado onde chegaram a viver 10 mil pessoas que queriam entrar no Reino Unido pelo Eurotúnel.

Neste ano faleceram Herberto Helder, Manoel de Oliveira, José Mariano Gago, Günter Grass, B. B. King, Ornette Coleman, Maria Barroso, Ana Hatherly… O serviço de streaming Netflix chega a Portugal, e pela primeira vez um estrangeiro descendente dos judeus sefarditas expulsos em 1497 por D. Manuel I teve direito à nacionalidade portuguesa.

2015

2014

A QUEDA DE SÓCRATES E DE SALGADO​

Em 2014, nenhum acontecimento nacional parecia poder competir com a queda do Banco Espírito Santo e de Ricardo Salgado, em virtude de uma “gestão ruinosa”. Em agosto, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, anunciou um resgate do BES no valor de €4900 milhões. Foi criado o Novo Banco, para onde foram transferidos os ativos não-tóxicos do BES. Era o início da queda do banqueiro também conhecido como o “dono disto tudo”. Fernando Ulrich dizia no Expresso: “Vai ser preciso reunir historiadores, economistas e psiquiatras para perceber o caso BES.”

O que poderia competir com isto? “Sócrates detido por suspeita de corrupção”, titulou o Expresso. “Ex-primeiro-ministro detido à chegada de Paris. Corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal na mira da PGR.”

Perante a queda de Salgado e Sócrates, pareceu um assunto menor a fotografia e o título de 3 de maio: “Quinta-feira, 19h: o Expresso esteve na última reunião da troikacom o Governo.” A troikaestava de saída, a vida continuava difícil (“Salário mínimo mais baixo do que em 1974”), e toda a gente aderiu à Fatura da Sorte, uma ideia do Governo de sortear automóveis pelos consumidores que pedissem fatura com número de contribuinte, para combater a fuga aos impostos.

Outra causa nacional foi evitar a tentativa de leilão na Christie’s de 85 obras de arte de Juan Miró que fizeram parte dos bens do Banco Português de Negócios (BPN) e que passaram para posse do Estado com a nacionalização.

Nas eleições europeias de 2014 venceu o PS com Francisco Assis a cabeça de lista. Mesmo com essa vitória, Seguro é contestado internamente. “Foi poucochinho”, disse António Costa, acelerando a sucessão. Seguro quis eleições primárias, que perdeu para o então presidente da Câmara de Lisboa.

Mudanças também à esquerda: João Semedo sai da liderança do Bloco de Esquerda (viria a falecer em 2018) mantendo- se sozinha no cargo Catarina Martins.

Durão Barroso terminou a sua presidência da Comissão Europeia dando lugar ao luxemburguês Jean-Claude Juncker.

Em 2014, o Expresso publicou várias reportagens sobre jovens portugueses que se converteram ao islamismo e foram combater para a Síria integrados no Estado Islâmico. “Portugueses na fação mais radical da jihad”, escrevemos. Mais terrível foi a manchete “Jihadistas portugueses envolvidos nos vídeos das decapitações”, referindo-se ao infame “Jihadi John” que surgiu em vários vídeos a decapitar prisioneiros, como o fotojornalista norte-americano James Foley.

Também tivemos enviados especiais à Ucrânia, onde aconteceu uma revolução que tirou do poder Viktor Yanukovych, que se refugiou na Rússia. Putin acabou por invadir a Crimeia e promoveu um referendo que resultou na secessão desta região e na sua transformação num protetorado russo. Durante este conflito, o voo Malaysia Airlines 17, que viajava de Amesterdão para Kuala Lumpur, foi derrubado por um míssil lançado do leste da Ucrânia por russos e separatistas, causando a morte de 298 pessoas.

Ano terrível para a Malaysia Airlines, pois também o voo MH 370, entre Kuala Lumpur e Pequim, desapareceu dos radares quando sobrevoava o Golfo da Tailândia. Nunca mais seria encontrado, tendo os 227 passageiros e 12 tripulantes sido dados como mortos. A operação de resgate foi a maior de sempre, mas o desaparecimento continua a ser um mistério.

Susto com o surto de ébola na África Ocidental, que levou à declaração internacional de emergência de saúde pública, e fez mais de 11 mil mortos.

Felipe VI foi proclamado rei de Espanha. O pai abdicou na sequência de várias polémicas como a participação numa caçada a elefantes no Botsuana e relações extraconjugais.

Em julho, numa cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a Guiné Equatorial foi aceite como membro de pleno direito.

No Brasil começava a Operação Lava Jato, que iria levar a detenções de políticos e empresários, entre os quais o ex-Presidente Lula da Silva, em 2018. O Brasil também acolheu o Mundial de Futebol, onde Portugal foi eliminado na fase de grupos. Paulo Bento aguentou-se pouco mais tempo como selecionador, dando lugar a Fernando Santos.

Morreram Gabriel García Márquez, Vasco Graça Moura, Richard Attenborough, Joe Cocker, Paco de Lucía, Mário Coluna, Eusébio (cujo corpo seria transladado para o Panteão Nacional)…

 

2014

 

2013

LEAKS E MAIS LEAKS

Em 2013 regressou ‘Grândola Vila Morena’. A imortal canção de Zeca Afonso foi cantada nas galerias da Assembleia da República em protesto contra as medidas de austeridade, interrompendo um discurso de Pedro Passos Coelho, e a partir daí passou a ser um canto obrigatório em todas as manifestações contra o Governo, não apenas nas de esquerda.

A carestia de vida estava tão presente que o Expresso chegou a escrever que “Crise leva presos a recusar liberdade”, dando o exemplo de Carlos Mata, que “assaltou um banco para ser condenado”. O crime aumentava e o furto de metais não-preciosos atingiu recordes históricos: “Há 35 roubos de cobre por dia”. A EDP era a empresa mais lesada pelo roubo de cobre, fenómeno que tinha começado por volta de 2010, causando cerca de €66 milhões de prejuízos.

Nas eleições autárquicas o PS passou a ter mais câmaras do que o PSD, que até perdeu o Porto para Rui Moreira.

José Sócrates regressou às notícias. Primeiro por passar a ser “presidente do Conselho Consultivo para a América Latina da Octapharma, multinacional farmacêutica suíça”; depois porque terminou o mestrado em julho e vai publicar a tese em livro, em Portugal. “O trabalho é sobre tortura, o tema da dissertação. O livro é apresentado por Lula e lançado sob a égide da Fundação Mário Soares.”

Miguel Relvas, ministro dos Assuntos Parlamentares, foi obrigado a demitir-se na sequência da sua polémica licenciatura pela Lusófona, que acabou por ser anulada anos mais tarde.

Passos Coelho teve várias dores de cabeça, desde a demissão do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, passando pela “irrevogável” demissão de Paulo Portas, que afinal revogou, até ao Tribunal Constitucional (TC). Obrigado a cortes de €1,3 mil milhões, o Governo tentou suspender o subsídio de férias dos trabalhadores do sector privado e dos reformados e cortar nas baixas e nos subsídios de desemprego, mas o TC declarou as medidas inconstitucionais.

Na praia do Meco morreram afogados seis estudantes da Universidade Lusófona e um outro salvou-se. Foi uma praxe académica que correu mal ou estavam apenas ali a conversar e foram levados por uma onda?

Entre as mortes, destaque para Nelson Mandela, Margaret Thatcher, Urbano Tavares Rodrigues, Nagisa Oshima, Hugo Chávez, Óscar Lopes, Georges Moustaki, Seamus Heaney, António Ramos Rosa, Patrice Chéreau, Lou Reed, Doris Lessing, Nadir Afonso…

Do Vaticano chega um gesto inédito, a renúncia do Papa Bento XVI por razões de saúde, e a eleição do Papa Francisco.

Em 2013 teve alta hospitalar Malala Yousafzai, então com 16 anos, uma menina paquistanesa atacada a tiro pelos talibãs, devido à sua defesa do direito das mulheres à educação. Salva pelos médicos, foi capa da “Time” e receberia no ano seguinte o Prémio Nobel da Paz. Entrevistada pelo Expresso, disse que “o medo é impossível de esquecer”.

O Expresso também se associou ao Offshore Leaks, a maior investigação de sempre sobre paraísos fiscais. “Já foram detetados 22 nomes e 12 offshores com ligações a Portugal.”

Foi também nesse ano que o mundo ficou a conhecer Edward Snowden, um analista e administrador de sistemas norte-americano que tinha trabalhado na CIA e na NSA (a agência nacional de segurança) e que revelou a existência de um sistema de vigilância global de comunicações e de tráfego de dados online. A capacidade de espionagem eletrónica dos Estados Unidos, não só sobre os seus cidadãos, mas sobre qualquer pessoa, atropelando direitos civis e democráticos básicos, revelou mais um lado negro das consequências dos ataques do 11 de Setembro.

2013

2012

DA RUA DO OURO AOS VISTOS GOLD

A investigação do Expresso que revelou uma teia de ligações entre os serviços secretos e o grupo empresarial Ongoing, descobriu ligações à maçonaria. “Silva Carvalho, que transitou para a Ongoing acompanhado de mais dois ex-agentes do SIED, foi, tal como o presidente desta, Nuno Vasconcellos, chefe da loja maçónica Mozart, a que também pertenceu o atual líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro.”

Outra grande investigação foi a operação Monte Branco. “Dezenas de clientes da rede de branqueamento de capitais, liderada pelo banqueiro Michel Canals, entravam pela porta do nº 135 da rua do Ouro, em Lisboa, com malas de viagem cheias de euros. Lá dentro, o dono, Francisco Canas (‘Zé das Medalhas’), arranjava forma de as enviar de avião para a Suíça, onde o dinheiro era transformado em dólares”, contava o Expresso. A rede foi descoberta durante a investigação ao BPN, cujo presidente, Oliveira Costa, usava os seus serviços. Duarte Lima, José Maria Ricciardi, presidente do BES Investimento, e Ricardo Salgado foram constituídos arguidos.

O BPN foi reprivatizado através da venda ao Banco BIC e o Expresso escreveu que os “500 maiores clientes do BPN deixaram de pagar dívidas”. Os incumprimentos ascendiam a €3 mil milhões.

Outra novidade desse ano foi a criação dos “vistos gold”. “Paulo Portas (ministro dos Negócios Estrangeiros) vai criar títulos de residência especiais para cidadãos estrangeiros que procedam à aquisição em Portugal de ativos imobiliários de valor superior a €750 mil ou a quem faça investimento com criação de pelo menos trinta postos de trabalho.”

Passou a existir o Testamento Vital, o documento onde o cidadão pode manifestar a sua vontade sobre os cuidados de saúde que deseja, ou não, receber quando estiver incapaz de expressar a sua decisão.

Falando em mortes, em 2012 perdemos Miguel Portas, Bernardo Sassetti, Gustav Leonhardt, Fernando Lanhas, Antoni Tàpies, Antonio Tabucchi, Millôr Fernandes, Fernando Lopes, Donna Summer, Dietrich Fischer-Dieskau, Ray Bradbury, Gore Vidal, Neil Armstrong, Emmanuel Nunes, Eric Hobsbawm, Manuel António Pina, Oscar Niemeyer, Ravi Shankar…

O Bloco de Esquerda mudou de liderança passando a ter como coordenadores nacionais João Semedo e Catarina Martins.

Guimarães foi Capital Europeia da Cultura.

O Europeu de Futebol disputou-se na Polónia e na Ucrânia, tendo Portugal perdido a meia-final com a Espanha. Nos Jogos Olímpicos de Londres tivemos uma única medalha, a prata de Fernando Pimenta e de Emanuel Silva em canoagem.

Mas o acontecimento que marcou o ano foram as manifestações nacionais de 15 de setembro, um levantamento popular contra a troika e as medidas de austeridade (como as alterações na Taxa Social Única). Ficou conhecido como o protesto “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!”

 

2012

2011

CHEGOU A TROIKA

Após o chumbo do PEC 4 foram convocadas eleições antecipadas, e o Governo de José Sócrates avançou com um pedido de resgate ao Fundo Monetário Internacional, União Europeia e Banco Central Europeu no valor de €78 mil milhões. O pedido foi também assinado pelo PSD e pelo CDS, que formariam nesse ano um Governo de coligação, liderado por Passos Coelho e Paulo Portas. Ao perder as eleições, Sócrates sai da liderança do PS, sendo substituído por António José Seguro.

O calendário também ditou eleições presidenciais, tendo Cavaco Silva sido reeleito para um segundo mandato.

Com a troika a entrar em Portugal, “José Sócrates vai viver para Paris e estudar Filosofia”. Mesmo assim não faltaram por cá assuntos para fazer manchete.

Duarte Lima, ex-líder parlamentar do PSD, é acusado pela justiça brasileira de ter assassinado naquele país Rosalina Ribeiro, secretária do falecido milionário Lúcio Tomé Feteira.

Jorge Silva Carvalho, ex-diretor das secretas, é apanhado a fornecer informação à Ongoing, para onde foi trabalhar como assessor. O Expresso noticia que enquanto trabalhava no SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa) Silva Carvalho mandou espiar um jornalista do “Público” para descobrir as suas fontes.

Lemos no Expresso: “Cabo Verde é o país lusófono mais democrático, tendo ultrapassado Portugal, segundo o Índice da Democracia 2011, do Economist Intelligence Unit.”

Internacionalmente, os efeitos do derrube do regime tunisino no fim de 2010 espalharam-se ao mundo árabe: Jordânia, Omã, Egito, Iémen, Jibuti, Somália, Sudão, Iraque, Barém, Líbia, Kuwait, Marrocos, Mauritânia, Líbano, Arábia Saudita ou Síria. Com maiores ou menores alterações políticas ou sociais e com extrema violência em muitos desses países, a “primavera árabe” teve como principais consequências a queda por duas vezes do Governo no Egito (Hosni Mubarak e Mohamed Morsi), outras tantas no Iémen, e guerras civis no Iraque, na Líbia (incluindo a morte de Muamar Kadhafi), e na Síria (a mais terrível de todas, que escalou para envolvimento internacional e que ainda dura, mantendo-se no poder o Presidente Bashar al-Assad).

Em 2011 também a Grécia viveu dias de revolta popular por causa das medidas de austeridade impostas pela União Europeia na sequência do plano de resgate em vigor. No âmbito da crise da dívida pública da zona euro, já tinham sido alvo de resgate a Grécia e a Irlanda, em 2010, seguindo-se Portugal em 2011, Espanha em 2012 e Chipre em 2013.

Dias de revolta popular não vinculada a partidos que se fizeram contagiar a Espanha, com o Movimiento 15-M e os Indignados, a Portugal, com a Geração à Rasca e o grande protesto de 12 de março (embalado pela canção dos Deolinda ‘Parva Que Sou’ sobre uma geração com estudos superiores, mas que só consegue empregos precários), e aos Estados Unidos com o Occupy Wall Street.

A oriente, a vaga de fundo era outra, trágica. Um terramoto de magnitude 9,1, seguido de um tsunami, arrasou a região de Tohoku, no Japão. Mais de 15 mil pessoas morreram, 4 mil estão desaparecidas e cerca de 130 mil edifícios colapsaram. O desastre provocou ainda um acidente nuclear na central de Fukushima, que obrigou à criação de uma zona de isolamento de 20 quilómetros e obrigando centenas de milhares de residentes a abandonarem as suas casas.

A Noruega também viveu um dos piores momentos da sua história quando Anders Breivik, um ativista da extrema-direita, matou 77 pessoas e feriu 51 em dois atentados (uma explosão em Oslo, e um massacre a tiro na ilha de Utoya).

Morreram Steve Jobs, Maria José Nogueira Pinto, Malangatana, Elizabeth Taylor, Osama bin Laden, Roland Petit, Lucian Freud, Amy Winehouse, Júlio Resende, Montserrat Figueras, Christopher Hitchens, Cesária Évora, Kim Jong-il, Václav Havel…

Dilma Rousseff foi eleita Presidente do Brasil; e a população da Terra chegou aos 7 mil milhões.

 

2011

 

2010

DIAS DE ESTABILIDADE E CRESCIMENTO

“As mentiras de Sócrates sobre a compra da TVI” foi uma das primeiras manchetes do ano. O Expresso escrevia que “Henrique Granadeiro, presidente da Portugal Telecom, informou Sócrates da intenção da PT de comprar a TVI antes de a sua empresa enviar um comunicado à CMVM. Escutas fortuitas obtidas no processo Face Oculta confirmavam as estratégias da PT e da Ongoing para a TVI”.

Com o primeiro-ministro eternamente envolvido em polémicas, uma das figuras nacionais do ano seria o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, por via do anúncio de quatro Programas de Estabilidade e Crescimento (PEC) para combater a crise. Apenas três desses conjuntos de medidas de austeridade foram aprovados em 2010. O quarto seria chumbado na AR no ano seguinte, levando à demissão do Governo.

As dificuldades sentidas pela população chegaram a um ponto tal que o Expresso escreveu que “escolas abrem ao fim de semana para matar a fome aos alunos”, e que o Banco Alimentar dá comida a 280 mil pessoas, tendo 5 mil famílias em espera. “O primeiro grande inquérito sobre pobreza em Portugal revela que mais de 50 mil menores dependem da caridade para comer. E o dado peca por defeito, diz o estudo da Universidade Católica. Entre os que pedem ajuda, 40% são novos pobres e 52% não conseguem que a comida chegue ao fim do mês.” Por todo o país abriam lojas de compra de ouro usado.

A 20 de fevereiro, um temporal provocou cheias e deslizamentos de terra na Madeira, matando 51 pessoas e causando 600 desalojados.

Pedro Passos Coelho tornou-se líder do PSD, substituindo Manuela Ferreira Leite. O Papa Bento XVI veio a Portugal, mas poucas imagens dele o Expresso encontrou nas lojas de Fátima. “Este Papa não vende”, garantiam os comerciantes. A Assembleia da República aprovou o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

No Mundial de Futebol da África do Sul, Portugal perdeu nos oitavos de final com a Espanha, que viria a ser campeã do mundo.

Falando em mundo, grande parte da população mundial ficou colada aos media a acompanhar a operação de salvamento de 33 trabalhadores soterrados a 688 metros de profundidade numa mina em San José, Chile.

Em dezembro começava na Tunísia uma revolta popular, a “revolução de jasmim”, que iria derrubar o Presidente Ben Ali (no poder desde 1987), alastrar-se-ia ainda nesse ano à Argélia, e no ano seguinte a outros países do Médio Oriente e do Norte de África, e ficaria conhecida como “primavera árabe”.

Em 2010 faleceram Éric Rohmer, J. D. Salinger, Dennis Hopper, Louise Bourgeois, João Aguiar, José Torres, Joan Sutherland, Mariana Rey Monteiro, José Saramago… O Expresso adotou o novo acordo ortográfico e a Apple lançou o iPad, dando início à popularização dos tablets.

Lisboa acolheu pela primeira vez uma cimeira da NATO, à qual compareceu Barack Obama. O Presidente norte-americano teve um ano de embaraços por conta do surgimento do WikiLeaks, liderado pelo australiano Julian Assange, e da enorme quantidade de documentação secreta do Governo dos EUA divulgada. “A primeira grande guerra da era da informação”, chamou-lhe o Expresso.

Foi pelo WikiLeaks que se soube que “o Governo português aceitou autorizar ‘caso a caso’ o uso da base das Lajes para o repatriamento de ‘combatentes inimigos’ da prisão de Guantánamo”, e que “houve transferências de 118 detidos. Desses, e até ao final da Administração Bush, 112 tiveram como destino países em que foram mantidos black sites, prisões controladas pela CIA”.

 

2010

2009

O PRIMO DA CHINA

Barack Obama foi eleito Presidente dos EUA, e o mundo parecia que ia ser um lugar melhor.

Apesar de remontar a 2005, foi em 2009 que o caso Freeport Alcochete tomou a comunicação social. José Sócrates era acusado de, enquanto ministro do Ambiente de Guterres, ter recebido luvas para fazer uma alteração da Zona de Proteção Especial do Tejo e assim permitir a construção do maior outlet da Europa. Um tio e uns primos de Sócrates também apareceram metidos na história, no papel de intermediários, e o Expresso descobriu um deles na China: “Usei o nome do meu primo, no Natal peço-lhe desculpa.”

Sócrates também se viu envolvido no Processo Face Oculta, uma rede de corrupção e tráfico de influências montada pelo empresário de sucata Manuel Godinho. Outros protagonistas foram o ex-ministro socialista Armando Vara (na altura vice-presidente do BCP), o presidente da REN – Redes Energéticas Nacionais, José Penedos, e o seu filho, Paulo Penedos.

Um inusitado momento político ocorreu na Assembleia da República quando o deputado comunista Bernardino Soares chamou “mentiroso” ao ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho, que lhe respondeu levando dois dedos à testa como que a fazer uns ‘corninhos’. Foi o fim dos seus dias no Governo.

Foi ano de muitas eleições. Nas europeias venceu o PSD, com Paulo Rangel a cabeça de lista. Nas legislativas ganhou o PS, mas perdendo a maioria absoluta (a derrota do PSD levaria à troca do seu presidente, saindo Manuela Ferreira Leite e entrando Pedro Passos Coelho). Nas autárquicas, o PS teve mais votos, mas o PSD conseguiu manter o maior número de Câmaras. Mesmo envolvidos em casos de justiça, Valentim Loureiro, em Gondomar, e Isaltino Morais, em Oeiras, foram reeleitos como independentes.

O Expresso levou o computador “Magalhães” duas vezes à primeira página, primeiro para denunciar que os seus jogos educativos estavam repletos de erros de português (“mais de 80 erros clamorosos de ortografia, gramática e sintaxe”) e depois para contar que o “Magalhães” se tinha tornado uma “estrela na Feira da Ladra”.

Em 2009, o mundo defrontou-se com uma pandemia de Gripe A, que vista hoje parece um ensaio para o que iria acontecer uma década depois. Lia-se na primeira página: “Associações patronais já mobilizaram gabinetes jurídicos para contestar pagamento de salários em casos de fecho para evitar contágios; responsáveis da Saúde aconselham aposta no teletrabalho; mais de 11 mil portugueses ligaram para a Saúde 24 com dúvidas.”

Nasceu a Fundação Francisco Manuel dos Santos, por iniciativa de Alexandre Soares dos Santos e sua família, tendo por missão “estudar, divulgar e debater a realidade portuguesa”.

Morrem Michael Jackson, Pina Bausch, John Updike, João Bénard da Costa, Merce Cunningham, Bobby Robson, Raul Solnado, Claude Lévi-Strauss… O Expresso escreve: “Um terço do património UNESCO em Portugal em risco de derrocada”; os restos mortais de Jorge de Sena, sepultado em Santa Bárbara, Califórnia, desde 1978, são trasladados para o cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Ai se ele soubesse que o trouxeram de volta para esta “terra de ninguém, ninguém, ninguém”.

 

2009

 

2008

QUANDO WALL STREET NOS CAIU EM CIMA

No dia 1 de janeiro entrou em vigor a Lei do Tabaco, que proibiu que se fumasse na maioria dos espaços públicos fechados, incluindo locais de trabalhos, cafés, restaurantes e discotecas. Foi o início de uma enorme revolução nos hábitos sociais.

O PSD passou a ser liderado por Manuela Ferreira Leite, mas ainda era a passagem dos elementos do CDS pelo Governo anterior que continuava a gerar manchetes: “Ministros do CDS deram jackpot ao Casino Lisboa”, escreveu o Expresso. “A atuação de Telmo Correia enquanto ministro do Turismo do Governo de Pedro Santana Lopes permitiu à Estoril-Sol conseguir ficar com a propriedade do edifício do novo casino de Lisboa, no Parque das Nações.” Escutas telefónicas ao antigo dirigente do CDS Abel Pinheiro no âmbito do processo Portucale também envolvem Paulo Portas e Luís Nobre Guedes.

Nos Jogos Olímpicos de verão, em Pequim, Michael Phelps vence oito medalhas de ouro e torna-se o maior campeão olímpico da era moderna. Nelson Évora deu a Portugal uma medalha de ouro no triplo salto. O Campeonato Europeu de Futebol realizou-se na Áustria e na Suíça. Portugal caiu nos quartos de final frente a Alemanha. Por causa disso, Luiz Felipe Scolari cedeu o seu lugar a Carlos Queiroz.

Em 2008 foi criado o computador portátil “Magalhães”, destinado a ser distribuído nas escolas a crianças entre os 6 e os 10 anos. O Presidente venezuelano Hugo Chávez adorou essa e outras ideias de Sócrates e visitou-nos três vezes nesse ano. Eram tempos de crise financeira internacional e o Expresso escrevia: “O que a Bolsa perdeu dava para dois aeroportos e dois TGV… e ainda sobrava” e “Os três maiores bancos nacionais, BCP, BES e BPI, valem metade do que valiam em janeiro”. Mas o pior estava para vir: a falência do banco de investimento Lehman Brothers causou um efeito dominó noutros bancos.

O Expresso faz o título: “Como Oliveira Costa levou o BPN à falência.” O Banco Português de Negócios, envolvido em crimes financeiros e sem liquidez, é nacionalizado (o Governo incorpora-o na Caixa Geral de Depósitos). Foi a primeira nacionalização desde o PREC.

Outro afetado foi o Banco Privado Português, de João Rendeiro, mas o Governo entregou o caso ao Banco de Portugal, que o tentou recapitalizar e recuperar.

Nesses dias de crise, a subida dos preços dos combustíveis levou a um protesto dos motoristas de pesados de mercadorias que parou o país (não havia abastecimentos nas bombas de combustível) e esvaziou as prateleiras dos supermercados.

Dias tristes com o falecimento de Maria Gabriela Llansol, Luiz Pacheco, Arthur C. Clarke, Yves Saint-Laurent, Paul Newman, Harold Pinter… E uma boa notícia chegou de Nova Iorque, quando o júri do concurso internacional Best of Newspaper Design distinguiu o Expresso, entre 373 concorrentes, com o prémio máximo: o jornal mais bem desenhado do mundo.

 

2008

 

Barroso entre a economia e o aquecimento global

Ao fim de três anos à frente da Comissão Europeia, que se assinalam no próximo dia 22, Durão barroso parece ter encontrado a velocidade de cruzeiro que o ajudará a chegar ao fim do mandato, desejavelmente, com alguns objectivos essenciais alcançados. O relançamento económico e a procura de soluções para garantir a segurança energética e combater as alterações climáticas encontram-se, certamente, no topo da lista de prioridades.

Diário de Notícias | 2007-11-05

Barroso entre a economia e o aquecimento global