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News Standard

Rina

Na Travessa dos Fiéis de Deus morou outrora o restaurante Rina. Para mais uma refeição ou conversa, os jornalistas das redações que circundam este espaço marcam aqui presença quase diária. Urbano Carrasco, Artur Agostinho e Fialho Gouveia são alguns dos habituais clientes deste local.

Adega Mesquita

Na rua Diário de Notícias, que marca a presença de um dos primeiros diários do Portugal industrializado, mora a Adega Mesquita – uma casa de fados com frequência habitual de jornalistas.

A Severa

A Severa inaugurada em 1955 e situada na rua das Gáveas recebe entre paredes e janelas individualidades do jornalismo do século XX.

O Faia

Restaurante O Faia foi fundado em 1947 e mantém-se até aos dias de hoje como um ícone da cidade de Lisboa. Redações, em grupo, parelha ou sozinhos dirigiam-se habitualmente para o número 57 da rua da Barroca.

Adega Machado

Um companheiro de Armando Machado, no alto da Torre Eiffel, desafia-o a abrir uma casa de fados em Lisboa. A proposta concretiza-se em 1937, na rua do Norte. De portas abertas desde então, muitos foram e são os jornalistas que por ali passam.

Café Luso

No número 10 da Travessa da Queimada situa-se, desde 1927, uma das mais antigas casas de fado onde se reuniram jornalistas em momentos maior ou menor descontração.

100 anos contados pelos Media

A nossa História dos séculos XXI e XX contados pelo olhar dos Media, numa experiência imersiva em 360º.

Vídeo Completo (12′)

Cândido de Oliveira

Jogador, treinador, jornalista, homem. O mestre do futebol português.

Fátima e o Comunismo: um bloco de betão

Um bloco de betão que pertenceu ao Muro de Berlim encontra-se hoje em destaque no vasto recinto do Santuário de Fátima: nenhum peregrino deixa de o ver

Um bloco de betão que pertenceu ao Muro de Berlim encontra-se hoje em destaque no vasto recinto do Santuário de Fátima: nenhum peregrino deixa de o ver.

Esta relíquia da Guerra Fria foi uma dádiva ao Santuário de um emigrante português residente na Alemanha. Encontra-se ali desde 13 de Agosto de 1994. Pesa 2600 quilos, tem 3,6 metros de altura e 1,20 de largura.

O Muro, que esteve erguido na capital alemã – então cidade dividida – entre 1961 e 1989 – funciona hoje, essencialmente, como um símbolo da derrocada do chamado «socialismo real» sempre combatido pela «mensagem de Fátima». Com uma notável coincidência: tanto as aparições na Cova da Iria como a implantação do primeiro regime comunista aconteceram em 1917. Com seis meses de diferença entre a visão inicial dos pastorinhos e a tomada do poder pelos sovietes liderados por Lenine na Rússia.

A consagração da Rússia

Segundo Lúcia, na aparição de 13 de julho desse ano Nossa Senhora terá transmitido as seguintes palavras aos videntes:

«Virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora dos primeiros sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz. Se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz».

Estas palavras só foram fixadas muito depois, num manuscrito escrito por Lúcia – única sobrevivente dos pastorinhos – em 31 de agosto de 1941, no convento de Tui (Galiza) onde se recolhera como religiosa. Surgem na chamada «terceira memória» da vidente, redigida a pedido do bispo de Leiria, D. José Correia da Silva.

O carácter político desta mensagem, embora não constituindo dogma de fé, viria a ser acolhido ao mais alto nível pelos representantes da Igreja Católica. Começando pelo Papa Pio XII, durante a II Guerra Mundial, quando dirigiu uma mensagem radiofónica no nosso idioma destinada aos portugueses.

Nessa mensagem de 31 de outubro de 1942, quando o «quarto ano de guerra» havia amanhecido «mais sombrio ainda», o representante máximo da Igreja consagrou o Mundo ao Imaculado Coração de Maria, fazendo uma referência velada à Rússia então submetida ao regime totalitário de Estaline, em súplica a Nossa Senhora: «Aos povos pelo erro ou pela discórdia separados, nomeadamente àqueles que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não ostentasse a vossa veneranda ícone (hoje talvez escondida e reservada para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor».

De Fátima ao Vaticano

Também por iniciativa de Pio XII, dez anos depois, os povos da Rússia foram consagrados ao Imaculado Coração de Maria. Satisfazendo assim o pedido da Senhora de Fátima reproduzido por Lúcia na sua missiva de 1941.

Desta forma, o Sumo Pontífice correspondia igualmente a uma sugestão que lhe fora dirigida pela própria vidente, em carta endereçada ao Vaticano com data de 2 de Dezembro de 1940: «Santo Padre, Nosso Senhor prometeu a nossa pátria uma protecção muito especial durante esta guerra, em consideração da consagração que os reverendos prelados portugueses fizeram da nação ao Coração Imaculado de Maria. Esta protecção será a prova das graças que Ele derramará sobre outras nações se, como Portugal, elas lhe foram consagradas».

A consagração foi efectuada numa carta apostólica do Papa, datada de 7 de julho de 1952, sob o título Sacro Vergente Anno.

«Tal como há alguns anos nós consagrámos todo o género humano ao Coração Imaculado de Maria, Mãe de Deus, hoje consagramos e confiamos todos os povos da Rússia a este Imaculado Coração».

Pio XII fazia questão em distinguir o «comunismo ateu», enquanto doutrina, daqueles que nele acreditavam e que a todo o momento poderiam reconsiderar. «Condenação do erro e caridade para quem erra», sublinhava o Papa nesta carta apostólica. «Por uma verdadeira paz, por uma fraterna concórdia e pela devida liberdade a todos [na Rússia] e em primeiro lugar à Igreja».

O Sumo Pontífice satisfazia assim o apelo que lhe fora transmitido por Lúcia. A mensagem de Fátima chegava definitivamente ao Vaticano.

Antecipando Gorbatchov

Os sucessores de Pio XII adoptaram uma linha muito semelhante.

Em 21 de novembro de 1964, no fim da terceira sessão do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI fez a consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria.

E a 25 de março de 1984 João Paulo – o Papa oriundo do Leste, que em 1964 fora sagrado arcebispo de Cracóvia na Polónia comunista – renovou esta consagração, perante 250 mil pessoas reunidas na Praça de São Pedro.

«De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações que desta entrega e desta consagração têm particularmente necessidade», especificou, em natural alusão às repúblicas anexadas por Estaline que viviam ainda na esfera soviética – começando pela Rússia.

Menos de um ano depois, a 11 de março de 1985, o reformador Mikhail Gorbatchov assumia o poder na URSS. E a partir de 1989 o comunismo entrava em derrocada em toda a Europa Central e de Leste.

As heresias do nosso tempo

À escala nacional, e ainda antes da divulgação da carta da Irmã Lúcia, já os bispos se mobilizavam contra o comunismo. A primeira posição clara nesta matéria ocorreu precisamente em Fátima, durante uma reunião do episcopado português em maio de 1936. Nessa altura, quando estava iminente o início da guerra civil em Espanha, os prelados prometeram encabeçar no dia 13 de maio de 1938 uma grande «peregrinação nacional» de graças à «santíssima Virgem Mãe de Deus» caso providenciasse «para Portugal a vitória sobre o comunismo ateu». A promessa foi cumprida, numa solene acção de graças, perante cerca de meio milhão de fiéis em Fátima.

O mais influente destes prelados era o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, amigo muito próximo de Oliveira Salazar desde o tempo em que ambos tinham sido estudantes universitários em Coimbra.

No seu livro Como se Levanta um Estado (editado originalmente em França, em 1937), o ditador português havia assumido, de forma clara, o seu visceral anticomunismo: «Somos, pois, contra todos os internacionalismos, contra o comunismo, contra o socialismo, contra o sindicalismo libertário, contra tudo o que diminui, divide, desagrega a família, contra a luta de classes, contra os sem-pátria e os sem-Deus, contra a escravatura do trabalho, contra a concepção puramente materialista da vida, contra a força como origem do direito. Somos contra todas as grandes heresias do nosso tempo».

Numa carta endereçada a Salazar, em 8 de maio de 1946, Cerejeira transmitiu-lhe estas palavras: «O milagre de Fátima está à vista. Tu estás ligado a ele: estavas no pensamento de Deus quando a Virgem Santíssima preparava a nossa salvação».

Palavras que ilustram bem a estreita relação entre a Igreja Católica e o Estado Novo. Já em outubro de 1940, ao receber as credenciais do embaixador Carneiro Pacheco como representante diplomático português na Santa Sé, Pio XII acentuara: «O Senhor [Deus] deu à nação portuguesa um chefe de governo que tem sabido conquistar não só o amor do seu povo mas também o respeito e estima do mundo».

A Imprensa Católica: velha tradição parada no tempo

Os meios católicos ou de orientação católica. Os canais de comunicação utilizados para difundir a fé e informar a comunidade.

Os meios católicos ou de orientação católica. Os canais de comunicação utilizados para difundir a fé e informar a comunidade

A imprensa da Igreja

A uma imprensa da Igreja eminentemente doutrinária (por vezes mesmo proselitista), junta-se outra, visando fins culturais, académicos, de investigação científica, etc. e outra ainda de divulgação de atividades religiosas. Algumas publicações são propriedade direta da Igreja, outras de organismos a ela ligados e outras ainda de católicos.

A Igreja é detentora da propriedade da Rádio Renascença, com várias estações, quase três dezenas de rádios locais, muitas delas membros da ARIC – Associação de Rádios de Inspiração Cristã. Ainda que algumas delas não sejam propriedade da Igreja propriamente dita, estão, no entanto, a ela intimamente ligadas. De referir igualmente a propriedade de mais de três dezenas e meia de livrarias, de dezena e meia de editoras e de idêntico número de tipografias.

A imprensa regional da Igreja, designadamente a semanal, assume uma importância vital no contexto da imprensa regional portuguesa. Apesar das diferenças, as publicações deste género possuem caraterísticas comuns e definidoras, como o facto de não terem como prioridade um objetivo financeiro, de serem maioritariamente dirigidas por padres e de parte significativa das suas redações ser constituídas por homens, muitos deles possuidores de curso superior; de serem quase integralmente vendidos por assinatura e de terem uma forte tendência para ignorarem o «marketing» e minimizarem o «design».

Fátima, Altar do Mundo

Sofia Loren e o seu marido, o produtor Carlo Ponti ou até Mel Gibson. Fátima e o seu altar no epicentro do culto religioso

A expressão «Altar do Mundo», relacionada com Fátima, foi-se generalizando através dos anos. Um documentário datado de 1956, realizado por Carlos Marques, já se intitulava Fátima, Altar do Mundo.

A 13 de maio de 1967, durante a primeira visita papal a Fátima, entre a impressionante multidão concentrada na Cova da Iria encontravam-se duas figuras célebres do cinema mundial: a actriz Sofia Loren e o seu marido, o produtor Carlo Ponti.

Duas pessoas entre centenas de milhares que não se limitaram a ver o Papa. Foram ali também para rezar. Sofia e Carlos fizeram um pedido especial à Virgem de Fátima: iam «em busca da graça de um filho», como relatou o Diário de Notícias.

Em janeiro de 2005, outra figura de primeiro plano da Sétima Arte, o actor e realizador Mel Gibson, deslocou-se de propósito ao Carmelo de Coimbra para entregar à Irmã Lúcia uma cópia em DVD do seu filme A Paixão de Cristo. Dois anos antes o cineasta australiano visitara a Cova da Iria, acompanhado pela esposa e pelo padre Luís Kondor, vice-postulador da Causa dos Videntes de Fátima, recolhendo-se ali em oração.

Em 2010, uma actriz e manequim espanhola nascida na Galiza, Olalla Oliveros, sentiu um apelo interior ao visitar Fátima que a fez mudar radicalmente de vida. Tinha 32 anos. Abandonou os estúdios televisivos e as passarelas da moda e tornou-se freira, professando na Ordem de São Miguel Arcanjo.

Corazón Aquino (1933-2009), que gozou de uma popularidade sem precedentes enquanto Presidente das Filipinas, era devota de Nossa Senhora de Fátima e costumava rezar o terço com um rosário que lhe foi oferecido pela Irmã Lúcia, com quem se avistou em 1992, durante uma peregrinação à Cova da Iria que a levou também ao Carmelo de Coimbra, onde dialogou com a vidente.

São exemplos – entre tantos outros que poderiam ser mencionados – da fama mundial de Fátima e da atmosfera de espiritualidade que ali se vive.

Uma fama que há muito ultrapassou as fronteiras portuguesas.

Símbolo da paz

A expressão «Altar do Mundo», relacionada com Fátima, foi-se generalizando através dos anos. Um documentário datado de 1956, realizado por Carlos Marques, já se intitulava Fátima, Altar do Mundo.

Marco fundamental na internacionalização de Fátima foi a mensagem do Papa Pio XII, em 31 de Outubro de 1942: falando em português aos microfones da Rádio Vaticano, o Sumo Pontífice consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria. Correspondendo assim a um pedido de Nossa Senhora feito na aparição de 13 de Julho de 1917, segundo relato da Irmã Lúcia.

A 8 de Dezembro de 1942 – no auge da II Guerra Mundial – Pio XII renovou aquela consagração. Na peregrinação de 13 de Maio de 1946, já terminado o conflito bélico, o Papa fez-se representar na Cova da Iria pelo cardeal carmelengo Benedetto Masella (1879-1970), que presidiu à cerimónia de coroação de Nossa Senhora de Fátima.

Já com essa coroa, que tinha sido oferecida à Virgem por um conjunto vasto de mulheres portuguesas em reconhecimento pelo facto de o nosso país ter sido poupado ao flagelo da guerra, a imagem de Nossa Senhora tomou a configuração que hoje todos lhe conhecemos. Mantendo-se desde então também como símbolo da paz.

Doze viagens

A escultura da Virgem Maria só 12 vezes abandonou Fátima desde que foi esculpida, em 1920. Andou em peregrinação pela Estremadura e Ribatejo em 1946. Depois, entre outubro de 1946 e janeiro de 1947, passou pelo Alentejo e pelo Algarve. Visitou Madrid, entre 22 de maio e 2 de junho de 1948, por ocasião do Congresso Mariano Diocesano ali reunido. De junho a agosto de 1951 percorreu todas as paróquias da Diocese de Leiria. E a 17 de maio de 1959 foi exibida em Lisboa e Almada, coincidindo com a inauguração do monumento a Cristo-Rei. Regressou ali meio século depois.

Foi levada duas vezes ao Vaticano. A primeira vez em março de 1984, a pedido do Papa João Paulo II, que ofereceu ao Santuário de Fátima a bala que quase o vitimou em 13 de Maio de 1981 e que passaria a figurar na coroa da imagem. A segunda vez em outubro de 2000, propositadamente para o Jubileu dos Bispos, ali reunido. Na ocasião, João Paulo II consagrou o novo milénio a Nossa Senhora.

Virgem Peregrina

Para a mundialização de Fátima muito contribuíram as peregrinações da Virgem Peregrina – réplicas da estátua original concebidas com a missão de propagar a imagem de Nossa Senhora através de oceanos e continentes.

Há hoje doze imagens que percorrem o mundo: já estiveram em contacto com milhões de fiéis em 64 países de todas as parcelas do globo – alguns dos quais visitados várias vezes.

A primeira imagem peregrina está entronizada desde 2003 na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, no Santuário de Fátima, e dali só sai em determinadas ocasiões, correspondendo a pedidos muito significativos. Entre Maio de 2014 e Fevereiro de 2015, percorreu os 35 mosteiros de clausura – femininos e masculinos – existentes em Portugal, já no âmbito do centenário das aparições, que ocorrerá em 2017, num total de 3582 quilómetros. Em Maio de 2015 iniciou outra peregrinação, desta vez pelo conjunto das dioceses portuguesas.

Na sua ausência, costuma figurar na basílica a imagem nº 10.

A imagem nº 12 encontra-se desde 2013 no Rio de Janeiro e ali permanecerá até 2017. A imagem nº 8 esteve alguns dias, em 2014, no Instituto Português de Oncologia. Outras andam em viagem contínua: após Portugal, Itália é o segundo país mais visitado pelas imagens peregrinas de Nossa Senhora de Fátima.

Os pedidos chegam de todo o mundo: católicos das mais diversas proveniências querem ver a imagem da Virgem, para o cumprimento de promessas ou orações marianas. Em locais tão diversos como o Líbano ou o México.

Só no ano passado, as imagens percorreram cerca de 85 mil quilómetros. O equivalente a mais de duas voltas ao globo terrestre.

 

Expressão do Céu

«Fátima é no mundo a melhor expressão do Céu»: uma síntese muito sugestiva feita por monsenhor Luciano Guerra, que foi reitor do Santuário de Fátima entre 1973 e 2008.

Em 2014, ali acorreram 3,209 milhões de peregrinos oficialmente registados pelo Santuário. Oriundos de 83 países. Além dos portugueses, destacam-se os visitantes provenientes de Espanha, Brasil, Itália, Polónia e Estados Unidos.

Nem os Papas, habituados a grandes multidões, deixaram de se impressionar com a atmosfera que encontraram na Cova da Iria.

Bento XVI chegou a confessar a D. António Marto, seu anfitrião como bispo de Leiria-Fátima na visita papal de 2010, que “não existe na Igreja celebração ou ambiente espiritual idêntico ao das multidões de Fátima”. A missa celebrada por Bento XVI foi ali acompanhada por cerca de meio milhão de peregrinos.

Com palavras diferentes, mas igualmente impressivas, já se havia pronunciado em 1985 António José Saraiva, um dos maiores pensadores portugueses do século XX: «Fátima é a última das grandes peregrinações da Cristandade ocidental, ainda bem viva».

Fátima e a Igreja: o povo andou sempre à frente

Fátima, fenómeno ímpar de religiosidade popular, impôs-se à Igreja – e não o contrário. A hierarquia católica reagiu com muita prudência aos ecos das primeiras aparições

Fátima, fenómeno ímpar de religiosidade popular, impôs-se à Igreja – e não o contrário.

Ao contrário do que muitos erradamente supõem, a hierarquia católica reagiu com muita prudência aos ecos das primeiras aparições ocorridas durante a Primavera e o Verão na Cova da Iria. Jornais ligados à Igreja (como A Época e A Ordem) e até membros da hierarquia eclesial pronunciaram-se com extrema cautela e por vezes até com manifestações de cepticismo perante o fenómeno das aparições. Estava sobretudo em causa uma precaução generalizada contra fenómenos de «crendice popular», como eram apelidados à época.

«Um ponto que há que destacar na reconstituição histórica diz respeito à prudência, às hesitações, ao carácter difícil e paulatino da resposta católica inicial a Fátima, que vai do silêncio à reserva, do apelo à prudência, à aceitação e defesa face aos ataques anticlericais, sempre em pano de fundo», sublinha o historiador Bruno Cardoso Reis na revista Análise Social (2001).

O povo à frente

Em Fátima foi sempre o povo que andou à frente do clero. Sem complexos.

Isto ficou bem evidente na edificação da Capelinha das Aparições, dois anos após o 13 de maio de 1917. Foi construída por vontade popular e nasceu às mãos de um humilde pedreiro da região chamado Joaquim Barbeiro: iniciou a tarefa a 28 de abril de 1919 e deu-a por concluída a 15 de junho desse ano.

A capelinha, segundo a tradição, ergue-se mesmo local onde se situava a pequena azinheira onde segundo os pastorinhos Nossa Senhora lhes terá aparecido inicialmente. Poucos meses depois, dessa árvore quase nada restava: os populares foram-se encarregando de retirar-lhe folhas e ramos, pedaço após pedaço, guardando-os como relíquias. E uns carbonários oriundos de Santarém cortaram o que restava do tronco na noite de 23 de outubro de 1917, passeando-o de seguida em «procissão» na capital do Ribatejo.

A primeira missa foi ali rezada, já com autorização episcopal, a 13 de outubro de 1921. Aos poucos, a Igreja reconhecia a dimensão espiritual de Fátima.

Movimentações anticlericais

As movimentações populares surgidas de forma espontânea em Fátima incomodavam o Governo republicano, fortemente anticlerical. A imprensa republicana de cariz mais ideológico, ligada à Maçonaria e à Carbonária, procurou mobilizar a opinião pública contra aquilo que denominava de «fenómenos de superstição». Destacaram-se, nesta campanha, o jornal O Mundo, órgão oficial do Partido Democrático, de Afonso Costa, e organizações como a Federação Portuguesa do Livre Pensamento.

Ainda em 1917 estes sectores chegam a organizar uma «peregrinação laica» a Ourém e Fátima, com vistosa escolta da Guarda Nacional Republicana, após o chamado «milagre do sol». Uma ocorrência esporádica que em nada travou as movimentações populares.

O ministro do Interior, António Maria da Silva, chegou a proibir manifestações de índole religiosa em Fátima. Isto levou a imprensa católica, já sem as reservas dos primeiros meses, a apelar abertamente à desobediência civil.

«Vamos lutar contra o Governo», chegará a escrever o jornal O Dia, de orientação católica. Nada de semelhante ocorria noutras zonas do País, nomeadamente nos santuários do Bom Jesus e do Sameiro em Braga, apesar da intolerância religiosa do Governo republicano.

Atentado contra a capelinha

O regime republicano tentou por todas as vias impedir as concentrações populares em Fátima, recorrendo sem cerimónias às forças da GNR para o efeito. Sempre em vão.

Perante a indiferença da polícia, ativistas maçónicos acercavam-se dos peregrinos, insultando-os e por vezes agredindo-os. Em nome do «livre pensamento», o que não deixa de ser irónico.

O ponto culminante desta campanha ocorreu a 6 de maio de 1922, quando a capelinha das aparições foi parcialmente destruída por uma bomba. Por autorização eclesial, já ali era celebrada missa desde 13 de outubro de 1921.

O atentado causou generalizada indignação: as bombas haviam sido colocadas nos quatro cantos da capela, com a intenção deliberada de reduzi-la a escombros. Mas nem todas eclodiram. E os bombistas alcançaram os efeitos opostos aos que pretendiam: a capela foi rapidamente reconstruída, sempre por exclusiva vontade da população devota, e cada vez mais peregrinos acorreram desde então a Fátima.

As multidões foram engrossando, sobretudo nas duas datas consideradas mais relevantes: 13 de maio e 13 de outubro. Na segunda metade da década de 20 já ali se juntavam todos os anos entre 100 mil e 200 mil peregrinos. A 13 de outubro de 1922 começa a publicar-se o jornal Voz de Fátima.

A imagem da Virgem

Para a devoção mariana em Fátima muito contribuiu a imagem da Virgem Maria, esculpida em Braga, em 1920, pelo escultor José Ferreira Thedim e benzida nesse mesmo ano, a 13 de Maio, na igreja paroquial de Fátima, dando entrada na capelinha das aparições um mês mais tarde.

A imagem de madeira, em cedro do Brasil, tem 1,10m de altura e serviu de modelo a milhares de outras que desde então foram esculpidas um pouco por todo o mundo.

As reportagens da imprensa católica – designadamente o jornal católico Novidades, lançado em dezembro de 1923 – permitem-nos hoje traçar inúmeras semelhanças entre as peregrinações desses anos pioneiros e as atuais.

Nessa época, tal como hoje, as celebrações de 13 de maio e 13 de outubro eram dominadas pela récita do terço, as peregrinações a pé em cumprimento de promessas, a procissão das velas (na noite anterior), missa, bênção dos doentes e o impressionante adeus à imagem de Nossa Senhora com largos milhares de lenços agitando-se no ar.

Faltava à época apenas a edificação da basílica, que começou a ser erigida em 1928, com a primeira pedra a ser benzida pelo arcebispo de Évora ainda antes do reconhecimento eclesial das aparições de Fátima. Seria solenemente inaugurada só em 1953.

A diocese restaurada

Peça fundamental, no processo de Fátima, foi a restauração da Diocese de Leiria pelo Papa Bento XV em 17 de janeiro de 1918. Tinha sido extinta em 1882.

Em 15 de maio de 1920, a diocese passa a ter bispo titular: D. José Alves Correia da Silva – que se manteria naquela função até à sua morte, em dezembro de 1957. Este prelado foi essencial no reconhecimento das aparições de Fátima, em que sempre acreditou.

D. José abriu o processo canónico destinado a validar as aparições em 3 de maio de 1922. A 24 de agosto de 1925 crismou Lúcia, única sobrevivente dos três pastorinhos. E a 26 de junho de 1927 presidiu pela primeira vez a uma cerimónia oficial na Cova da Iria, após a bênção das estações da Via Sacra desde o Reguengo do Fetal, situado a 11 quilómetros.

O prelado vai insistindo, sempre que pode, para que o processo de Fátima acelere. Argumenta que o povo católico já tinha “confirmado” a veracidade das aparições.

A Divina Providência

O longo processo de reconhecimento das aparições com o beneplácito eclesial viria a terminar só em 13 de outubro de 1930. Ocorreu com a aprovação da carta pastoral A Divina Providência, na qual o bispo de Leiria considera “dignas de crédito as visões das crianças da Cova da Iria” e autoriza oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima.

Nesse mesmo mês, o Papa Pio XI concede indulgências plenárias aos peregrinos. O reconhecimento oficial tinha demorado 13 anos. Muito mais do que a chancela eclesiástica às aparições de Lourdes, que ocorreram em 1858 e foram validadas logo em 1862.

A 13 de maio de 1932, os bispos portugueses reúnem-se pela primeira vez em Fátima participando numa peregrinação de carácter nacional à Cova da Iria, que segundos relatos da imprensa da época terá reunido cerca de 300 mil pessoas.

“Não foi a Igreja que impôs Fátima, mas foi Fátima que se impôs à Igreja”, reconheceria mais tarde D. Manuel Gonçalves Cerejeira, cardeal-patriarca de Lisboa. De facto, Fátima impusera-se definitivamente à Igreja. Como se impusera ao País, contra ventos e marés. Como viria a impor-se ao mundo.