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Entra » Bloco 3 – 5:27 ao 11:55 – O Museu

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III. O Museu e a Curadoria

(04:21) Narradora: Durante meses, estas salas foram tomando forma. À medida que o 25 de abril se aproximava, o edifício ganhava vida.

(04:37) Rodrigo Moita de Deus: Nós olhamos para o todo, mas o NewsMuseum é uma soma de detalhes… detalhes, mais detalhes e pormenores. Muitos pormenores, para parar, ver e ouvir. Todos os detalhes contam histórias… a soma dos detalhes conta a história. Como um carreiro para irmos seguindo. E nada, absolutamente nada, é por acaso. Tudo foi debatido, discutido, disputado e contestado. Da prancha de desenho das diferentes equipas, aos curadores e à direção. Contamos com as ideias e os contributos de dezenas de pessoas e de profissionais. Fomos sempre os nossos piores críticos, fomos sempre os nossos mais exigentes críticos. Todos foram somando, todos foram acrescentando, como esta Torre de Babel: 70 televisões do mundo inteiro a emitirem em simultâneo. Um reflexo da cacofonia dos media nestes tempos. Notícias diferentes, em diferentes países, em diferentes línguas, muitas vezes contando diferentes versões.

(05:36) Narradora: E quando finalmente chegou a meia-noite, as portas abriram-se. Não apenas para o público, mas para uma nova forma de contar a história dos media e da comunicação em Portugal…

(05:51) Narradora: Ao longo de 10 anos, estas portas têm estado abertas e cada sala guarda uma parte da história que viemos contar. Este não é apenas um museu sobre o passado. É um lugar onde passado e presente se cruzam, onde podemos perguntar: como chegamos até aqui? A voz tornou-se imagem, o papel deu lugar ao ecrã… e o tempo começou a acelerar… para onde vamos a seguir? Desde o início ficou claro que este não seria um museu de espólios. O NewsMuseum foi pensado como uma experiência viva, baseada em conteúdos multimédia e na participação ativa do visitante. Aqui, não se observa apenas a história dos media, interage-se com ela.

(06:32) Narradora: A nossa visita começa pelas guerras, um dos melhores lugares para perceber o papel do jornalismo.

(06:36) José Rodrigues dos Santos: A Guerra Civil de Espanha mostrou o poder da imprensa escrita. A Segunda Guerra Mundial fez da rádio um instrumento central. O Vietname mudou tudo com a imagem televisiva, e a guerra do Iraque inaugurou o tempo dos diretos permanentes. Aqui, o visitante percebe que o jornalismo não relata apenas a guerra, influencia-a e é influenciado por ela. A guerra é o primeiro teste ao jornalismo, porque é aqui que informar deixa de ser apenas relatar. Relatar é escolher, escolher é intervir. E na guerra, a informação nunca é inocente. Quando a informação entra em conflito, o espaço mediático transforma-se numa arena.

(07:16) Joaquim Letria: Durante séculos, os duelos fizeram-se à margem, a tiro ou à lâmina. Resolviam-se no segredo e com risco de vida. Hoje, os confrontos mudaram de palco. Acontecem em estúdio, à vista de todos. Já não fazem mortos nem feridos, mas deixam marcas na reputação e nas carreiras mediáticas… Quando o adversário de um duelo desaparece, surge o público que se precisa de convencer.

(07:41) Francisco Seixas da Costa: A propaganda não é um desvio da comunicação, é parte dela. Mudou de nome, mudou de forma, mas nunca de objetivo.

(07:53) Rodrigo Moita de Deus: Esta é uma das salas mais pequenas do NewsMuseum e talvez a mais exigente. O desafio era abordar um dos temas mais sensíveis do nosso tempo: a propaganda… Todas as palavras contavam, todas as palavras tinham peso. Aqui contamos a história da palavra propaganda, o seu significado ao longo dos tempos, mas também contamos a história dos grandes propagandistas. Do que fizeram e do que nos deixaram, com grande destaque para António Ferro… Encontramos o seu legado nas marchas populares, no folclore, nos castelos de Portugal ou nas pousadas. Propaganda que foi obra física e cultural e que ainda hoje marca quem somos como país e povo. E aqui mesmo, aqui mesmo, tínhamos um mural original do grande artista António Alves, o histórico muralista do MRPP. Um dos poucos locais do país onde um mural de extrema-esquerda era capaz de conviver com o trabalho de António Ferro. Regressemos a António Ferro, porque fizemos a sua biografia e, como habitual, enviamos o texto para revisão do nosso curador, o embaixador Seixas da Costa. A resposta veio por e-mail e era bastante direta: “…o texto não fazia justiça à obra de António Ferro.” Decidi tratar pessoalmente do assunto. Fiz um texto magnífico. Enviei depois o texto para ser lido pelo Luís Paixão Martins e não recebi feedback nenhum. Estranhei. Liguei depois para alguém da produção e perguntei se tudo tinha corrido bem, se o texto estava bem. Disseram-me que o Luís tinha feito umas pequenas alterações. “Alterações?” — perguntei eu — “no meu magnífico texto? Que alterações?” Onde se lia “Presidente do Concelho” passou-se a ler “Ditador Salazar”. Sim, aqui, nesta sala, todas as palavras contam.

(09:28) Narradora: A propaganda não desapareceu, mudou de palco. E o desporto tornou-se um dos grandes palcos mediáticos do nosso tempo.

(09:35) Manuel Queiroz: Comparar hoje Eusébio e Cristiano Ronaldo é comparar duas eras da comunicação. O jogo já não termina no relvado, continua na conferência de imprensa, na construção da imagem, no controlo da narrativa. No espetáculo desportivo, o jornalismo já não se limita a informar. Constrói ídolos e amplifica emoções.

(09:54) Narradora: Se este museu tem um coração, é aqui, no Lounge. Um ecrã gigante, interativo, vivo… como se todo o museu respirasse através dele. 100 anos em alguns minutos, a história contada por quem a noticiou.

(10:10) Rodrigo Moita de Deus: O carreiro traz-nos até aqui, a esta sala e ao gigantesco desafio de contar a história da idade dos media em Portugal. Do grande último evento mediático ao primeiro grande evento mediático, recriando os ambientes sonoros e visuais de cada uma das épocas. Houve que identificar cada um dos momentos que mais marcou o país. Encontrar o som, a imagem, a notícia que melhor se adequava: a emissão da RTP que anunciou a morte de Sá Carneiro, a emissão de rádio que anunciou o 25 de abril, a notícia do jornal que anunciou a morte do Rei Dom Carlos. Não quisemos fazer um simples vídeo em 360 graus. Quisemos fazer uma aula de história, multimédia… e recorrendo aos materiais originais. Um imenso desafio de pesquisa, de narrativa e de produção que divertiu muito toda a equipa envolvida e fascinou quem nos visitou.

(10:59) Narradora: Chegamos aos Imortais. Uma homenagem àqueles que têm definido a história do jornalismo português. Pioneiros, fundadores, repórteres, cronistas e comunicadores. Este é o lugar onde se guarda a memória do que foi e a promessa do que ainda pode ser. Esta sala nunca vai estar completa.

(11:17) Narradora: 25 de abril de 1974… A revolução não começou nas ruas, começou aqui: uma canção, uma senha, e Portugal acordou diferente. Naquela noite, a rádio esteve ao comando, não apenas a transmitir a história mas a fazê-la.

(11:27) Paula Cordeiro (Curadora): Naquela noite, a rádio esteve ao comando, não apenas a transmitir a história, mas a fazê-la.

(11:38) Luís Paixão Martins: Passavam poucos minutos da meia-noite do 25 de abril de 1974 quando a Rádio Renascença emitiu a senha para o levantamento do Movimento das Forças Armadas, confirmando um primeiro sinal difundido pelos Emissores Associados de Lisboa. Um par de horas depois, militares ocupavam o Rádio Clube Português e a rádio e a TV públicas, transformando aquela estação no registo mediático do posto de comando do movimento das forças armadas. Um civil, Joaquim Furtado, foi nessa madrugada a voz da revolução militar. Este nosso espaço, que reproduz uma cabine de emissão dos anos 70, é uma homenagem à jornada mais importante da história da rádio em Portugal, quando ela assume o maior protagonismo mediático à medida que a nossa democracia estava a dar os seus primeiros passos.