MEDIA AGE EXPERIENCE
"INESPERADO, INTELIGENTE E DIVERTIDO"

The Vietnam War, uma viagem ao Jornalismo à prova de bala

Tenho para mim que a cobertura da Guerra do Vietname constituiu o momento alto dos anos de ouro do Jornalismo moderno.

Tenho para mim que a cobertura da Guerra do Vietname constituiu o momento alto dos anos de ouro do Jornalismo moderno. 

Até então, os Media – primeiro os jornais, como na Guerra Civil de Espanha, depois a rádio como na II Guerra Mundial – limitavam-se a ser instrumentos de propaganda de uma das partes do conflito. Mais recentemente, como na Guerra do Golfo, os militares pactuaram com os jornalistas as vitais credenciais de acesso por forma a que estes passassem a integrar “embeded” os exércitos invasores.

Por isso, não há nenhuma outra guerra tão bem documentada como a do Vietname quer através de crónicas independentes e fundamentadas na observação direta dos repórteres destacados para os palcos das operações, quer através de peças, algumas icónicas, do fotojornalismo e de várias das primeiras grandes reportagens de TV.

Havendo todo este manancial disponível tinha uma enorme expectativa face a The Vietnam War, o documentário de quase 18 horas que Ken Burns e Lynn Novick produziram e realizaram, ao longo de uma dezena de anos, para a TV pública dos Estados Unidos.

O resultado é extraordinário.

Tal deve-se em parte à qualidade das cerca de 80 testemunhas chamadas a depôr sobre os acontecimentos relatados – aliás, tenho gosto em sublinhá-lo, a maioria sendo pessoas que, de uma ou de outra maneira, estão ou estiveram ligados à produção de conteúdos, como jornalistas, escritores, etc.

Mas o que faz mesmo a diferença é o acervo reproduzido: os autores poderam escolher entre 24 mil fotografias e 1500 horas de vídeo que cobriam, designadamente, cenas de 25 batalhas.

Não sou um particular apreciador do género “guerras” na cinematografia de ficção e, sendo assim, a minha recomendação para The Vietnam War centra-se essencialmente na qualidade do Jornalismo exibido, como se se tratasse de uma visita dramática e empolgante à realidade dos Media na segunda metade do século passado.

Consequentemente, não estamos perante uma daquelas séries que gostamos de ver de um fôlego, episódio atrás de episódio, ao longo de um par de maratonas. Pelo contrário, aqueles que, como eu, são observadores militantes do Jornalismo, devem percorrer este documentário demorada e pausadamente como se estivessem a escavar qualquer achado arqueológico de primeira grandeza.

No NewsMuseum, sem o brilho (e o orçamento de Burns e Novick), temos uma sala dedicada ao Jornalismo de Guerras, incluindo a Guerra do Vietname, sendo curador José Rodrigues dos Santos, o jornalista e escritor que é agora mais conhecido como “pivot” do Telejornal da RTP do que pelo seu passado honroso de repórter em cenários de conflitos armados. Noutro andar, na exposição dedicada ao Fotojornalismo, o antigo foto-repórter e jornalista Manuel Falcão apresenta-nos, entre outras, exatamente as fotos sobre a Guerra do Vietname que são destacadas no documentário.

Pelo menos na escolha das fotos acertámos.