Manuela Azevedo
A primeira jornalista a obter a carteira profissional em Portugal.
Manuela de Azevedo (1911-2017) foi uma figura central na história do jornalismo português, celebrizando-se como a primeira mulher a receber a carteira profissional de jornalista em Portugal.
Nascida a 31 de agosto de 1911, herdou a paixão pela escrita do seu pai, que foi diretor do Diário da Beira Alta e correspondente de O Século. Para perseguir o seu sonho, Manuela abandonou o ensino em Viseu e regressou a Lisboa, estreando-se no jornal República em 1934.
A sua trajetória foi marcada por uma postura audaz e de constante oposição ao regime de Salazar e à censura. Nos anos 30, afirmou o seu lugar numa profissão dominada por homens, rejeitando terminantemente a criação de uma secção feminina — a «Tribuna de Mulher» — no jornal República, defendendo que na redação havia apenas jornalistas, independentemente do género.
Ao longo da sua carreira, passou por diversos órgãos de comunicação.
Vida Mundial Ilustrada, onde foi chefe de redação durante quatro anos, a partir de 1941. Diário de Lisboa (DL), ingressou em 1945, sob a direção de Joaquim Manso, cujo lema de “liberdade máxima e responsabilidade máxima” guiou o seu trabalho. Diário Ilustrado, deu continuidade à sua carreira onze anos após as suas reportagens mais emblemáticas no DL. Diário de Notícias (DN), entrou em 1958 e lá permaneceu até à reforma, com um breve interregno após a Revolução de Abril de 1974. O Dia, Jornal fundado por ela e outros dissidentes do DN em 1975, após incompatibilidades com a direção da época, composta por Luís de Barros e José Saramago.
Devido às suas convicções políticas e participação em manifestos republicanos, Manuela Azevedo foi vigiada pela PIDE desde 1945 e teve inúmeros artigos censurados, incluindo investigações polémicas sobre a Eutanásia e a Sociedade das Nações.
Manuela de Azevedo ficou conhecida pela sua irreverência e capacidade de conseguir o impossível. Entre os seus feitos mais notáveis destacam-se:
Humberto II de Itália: em 1946, disfarçou-se de criada para conseguir entrevistar o rei exilado em Sintra, uma proeza que teve eco internacional através da Reuters.
Ernest Hemingway: Conseguiu travar a partida de um navio transatlântico durante uma hora para entrevistar o escritor.
Evita Perón: Durante a visita da líder argentina a Portugal, assumiu as rédeas da conversa, sendo elogiada pelo escritor Ferreira de Castro pela sua malícia e perspicácia como entrevistadora.
Caça à Baleia: Passou 13 horas no mar na Madeira a acompanhar a caça à baleia, mesmo sem saber nadar, resultando numa série de reportagens para o DN.
Para além do jornalismo, dedicou-se à literatura, publicando poesia, contos, romances e crónicas, como as obras Claridade, Filhos do Diabo e Guerra Junqueiro: a obra e o homem.
Fora das redações, dedicou mais de 40 anos à fundação e presidência da Associação para a Reconstrução e Instalação da Casa-Memória de Camões, em Constância.
Reformou-se do jornalismo em 1996, aos 85 anos. O seu percurso foi reconhecido com diversas condecorações, incluindo a Ordem da Liberdade (2015), a Medalha de Mérito Cultural da Câmara de Lisboa (2016) e a Ordem da Instrução Pública, entregue por Marcelo Rebelo de Sousa no seu 105.º aniversário.
Faleceu em 2017, deixando como último livro publicado O pão que o Diabo Amassou.